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Quem são “eles”?

 

            Dentro da camisa-de-força imposta pelo neoliberalismo e sua filha dileta, a globalização de cima para baixo ditada pelo Império do Norte, a prioridade de todos os governos colocados na posição de satélites do grande Império do Norte tem sido a de manter elevadas reservas para garantir a remuneração do capital bancário e especulativo. Além disso, devem estes satélites garantir a sobrevivência do sistema político centralizador concedendo esmolas variáveis a algumas pessoas através do assistencialismo e que o governo pretensamente soberano faça o que bem entender com o que sobrar. É assim no Peru, Chile, México, Brasil, Paraguai... Há décadas os EUA dão o tom da política para toda a América Latina: houve o populismo/nacionalismo das décadas de 30, 40 e 50 do século passado, as ditaduras militares dos anos 60 e 70, a “abertura democrática” em todo o subcontinente entre os anos 80 e o final do século passado... O início do século XXI vê a implantação da política econômica dos bancos a todo o subcontinente.

            Há mais do que intelectuais venais produzindo obras corroboradoras ou homologadoras da hegemonia capitalista. Quem subvenciona a Cultura? Não é casual a marca de bancos a subsidiar programas “culturais” na grande mídia, hoje inclusive na Internet. Não é crível que um banco qualquer venha a remotamente cogitar de subvencionar a cultura contrária aos interesses de suas empresas, seja através dos governos que comandam, seja em seus investimentos diretos. A seriedade da pesquisa científica dentro das ciências humanas nos dias que correm é inversamente proporcional ao sucesso que se alcança no mundo capitalista.

 

Identificando o inimigo de classe

 

            Em política sempre se faz menção a uma terceira pessoa do plural, abstrata, que é o ponto geométrico no qual se concentra toda a animosidade pública. Há algum tempo – nem tanto assim... – até o PT estava conosco à esquerda bradando “contra o FMI” e tudo o que ele representava para o imaginário popular. No poder, o PT mudou e mente com os outros afirmando haver “quitado a dívida brasileira com o FMI”. A parcela paga, régia sim, o foi com recursos auferidos a juros mais altos que os do FMI junto a uma outra entidade abstrata, ainda sem nome e difusa, composta por banqueiros e especuladores internacionais. Estes, que comandam a economia de todos os países capitalistas e seus satélites, como o Brasil, estão representados nos Bancos Centrais dos países pobres (outra cópia estadunidense macaqueada em todo o nosso hemisfério, não por acaso...). De onde vem o gângster internacional – hoje ministro-presidente do Banco Central, Henrique Meirelles? Da ciranda especulativa internacional. Freqüentador de todas as bolsas de aposta e jogatina internacional, a exemplo de Armínio Fraga, seu antecessor no cargo, este gângster se destaca por haver se inserido de maneira brutalmente canhestra na política partidária brasileira: usou o PSDB como legenda de aluguel (até aí nada de mais, como diz Lula da Silva, “isso sempre se fez no Brasil”), injetou tal quantidade de recursos em sua campanha eleitoral de 2002 que se elegeu como o deputado federal mais votado da história do Brasil. Não por ser adrede conhecido sequer em Goiás, Estado por que se lançou, ao contrário! Totalmente desconhecido do eleitorado, veio para a farra eleitoral como um gambá ao galinheiro.

            Eleito, Lula precisava se decidir se mantinha o que prometeu aos banqueiros (manter seus lucros elevados intocados, não admitir qualquer auditoria em torno da dívida externa brasileira e seguir jugulando o povo para pagar tudo, seja diretamente ao FMI, seja através de empréstimos mais onerosos simplesmente para remover a grife antipática) ou se cumpriria o que prometeu aos trabalhadores durante 20 anos de sua vida (promover uma auditoria da dívida externa e valorizar mais o trabalho que a especulação no Brasil). Sinalizando favoravelmente aos banqueiros e ao capital internacional em detrimento do povo trabalhador deste país, sua decisão conduziu o único criminoso internacional que aceitou seu convite para presidir o Banco Central do Brasil, deixando todos os especuladores do mundo tranqüilos e os trabalhadores conscientes se sentindo traídos. É tão tênue a linha em que se equilibra entre a legalidade e a ilegalidade que temos, desde 2004, o único presidente de Banco Central processado no Supremo Tribunal Federal por desvio de recursos e fraude eleitoral. Numa decisão que marcaria o início de sua opção preferencial pelos corruptos, Lula o promoveu a ministro para que ele possa gozar de foro privilegiado e assim conte com o cordato STF ao contrário dos juízes de primeira instância, mais próximos do povo trabalhador. No poder, Lula protege corruptos e ladrões blindando-os contra a aplicação da justiça. Não é à toa que a violência aumentou tanto na era Lula: quando um exemplo desses vem de cima, a situação se torna cataclísmica mesmo... A oposição de direita (representada por PSDB, PFL e outros menores) apressou-se em proteger os ganhos do capital e dos bancos, recusando-se a iniciar um processo de impeachment contra Lula e contra Meirelles quando era oportuno. Porque não era oportuno para os lucros do capital, que sempre estiveram elevados. Não é coincidência que a economia esteja tão estável mesmo diante de tantas mazelas que sofremos ao longo destes dolorosíssimos 4 anos...

            É compreensível que os bancos continuem defendendo o roubo aos cofres públicos e a superexploração dos trabalhadores brasileiros através do governo Lula, dizendo na propaganda o contrário do que fazem na prática. Compreensível também que o lumpemproletariado se deixe levar por quem lhes garante um pouco de comida e nenhuma dignidade: não estão preocupados com isso. Difícil mesmo é compreender como trabalhadores honrados defendem estes amigos do alheio e se exercitam tanto tentando acompanhar e macaquear as “justificativas” do governo que, frequentemente lhes deixam falando sozinhos. Incrível que Lula siga tão popular jogando ao mar todos os que lhe são próximos e até mesmo o seu partido político.

            Precisamos de um nome suficientemente claro, sucinto e direto para todo este grupo que conglomera interesses contrários ao do bem-estar da maioria, colocados nos bancos e especuladores em geral. São poucas pessoas ao redor do mundo, concentradas nos grandes centros capitalistas, muito bem articuladas entre si e contra a maioria. O patamar da luta de classes mudou radicalmente e a identificação do inimigo de classe ainda não está clara à grande massa dos trabalhadores. A palavra “banqueiros” é oportuna para identificar estes inimigos, mas ainda exclui um número massa de jogadores, aqueles que fazem fortunas da noite para o dia especulando com o fruto do trabalho alheio. As regras do jogo capitalista internacional lhes são tão amplamente favoráveis quanto nocivas à grande maioria dos seres humanos do planeta Terra. São estes poucos que detém os recursos e, com eles, controlam os governos, os grandes meios de comunicação e mesmo as Universidades que se encarregam de manter a plebe cada vez mais ignara e iludida de que “as chances são iguais para todos” ou que “a teoria é uma coisa e a prática é outra”. A tarefa dos trabalhadores no século XXI é muito mais árdua e complexa do que o era nos séculos precedentes, mas não é por isso que devemos esmorecer.

 

Da metodologia

 

            Como esboço acima, há de fato certa tendência, nos meios acadêmicos, a usar os espaços nobres das universidades para, justificando a exploração do trabalho, desinformar na direção de “separar a teoria da prática” em ciências humanas. Graças a Deus, esta imbecilidade chega muito devagar à medicina, por exemplo. Se médicos pesquisadores chegarem a se afastar tanto do objeto de sua pesquisa quanto os cientistas sociais o são chegaremos a uma total incapacidade de curar qualquer enfermidade.

            O cientista na área de humanas vive uma situação de identificação com o objeto de pesquisa – o ser humano vivo. Afastar-se dele, ao contrário de “trazer maior objetividade” traz somente desumanidade, consequentemente ausência de objetividade. Buscar separar “o lugar da teoria” do “lugar da prática” em ciências sociais em geral, políticas em particular, é demonstrar claramente que se está a favor do que está posto, contra os seres humanos. Quem sente o desconforto do que está posto deve colocá-lo com clareza e sem receios da comunidade acadêmica, pois ela se encontra afastada da realidade dos seres humanos há décadas.

 

 

** Enquanto digito, ouço ao noticiário. Lula acaba de declarar à TV Globo, que “não abre mão de governar este país até 31 de dezembro”. Infelizmente, ele abriu mão de governar o Brasil quando entregou às raposas e gambás de Meirelles a condução do Banco Central do Brasil e, a exemplo de FHC, conformou-se em governar com as sobras da ciranda financeira, com um agravante: concentrou mesmo estas sobras em desvios e suborno ao Congresso Nacional.

 

Lázaro Curvêlo Chaves – 18/08/2006 

Passando a Palavra

 

Frequentemente lemos algo que gostaríamos de ter escrito. Isto me aconteceu ao ler este de Ferreira Gullar na Folha on Line na madrugada desta sexta-feira, 18 de agosto. Passo aqui a palavra, então.

 

 

Saia justa – Ferreira Gullar – Folha on line – 18 de agosto de 2006

 

 

A Campanha eleitoral está nas ruas e isso pode fazer diferença para Lula que, durante três anos e meio, esteve sozinho no palanque, a elogiar-se a si mesmo e seu governo que, na sua modesta avaliação, é o melhor do mundo.

Antes, ele se preocupava apenas em afirmar que era melhor que o do Fernando Henrique, mas logo se deu conta de isso era pouco, uma vez que ele, Lula, em menos de quatro anos, fez mais pelo Brasil do que todos os governantes dos 500 anos anteriores. Pouco se lhe dá se isso provoca risos e o torna, no cenário político nacional e internacional, um personagem anedótico, desde que o povão dos grotões acredite na bazófia e vote nele.

A falta de escrúpulos sempre foi uma característica do PT e de Lula, que, ao longo dos anos, acusaram Deus e o mundo, não importando se as acusações tinham ou não fundamento. Só que o faziam no papel de defensores dos interesses públicos e atribuindo a si mesmos o título de detentores exclusivos da ética na política.

Foi essa falta de escrúpulos que levou Leonel Brizola a apelidar Lula de "sapo barbudo" que, para atingir seus objetivos, "era capaz de pisar no pescoço da própria mãe". Naquela época, muita gente achou que essa afirmação era exagerada, mas o tempo mostrou que o líder pedetista tinha razão, já que o desempenho de Lula na Presidência da República só veio reforçar aquele diagnóstico; diria mesmo que o superou.

O PT, ao surgir, contava entre seus quadros com personalidades de alto nível, tanto ético quanto intelectual, cidadãos dispostos a construir um partido capaz de mudar radicalmente a sociedade brasileira. Esse ideal foi esmaecendo na medida mesmo em que a prática política impôs suas regras e alguns dos principais dirigentes petistas a elas se submeteram, recorrendo com surpreendente rapidez ao achaque e ao suborno, de que é exemplo o seqüestro e a execução do prefeito Celso Daniel, de Santo André.

Mas nada se igualaria ao grau de corrupção que se verificou durante o governo Lula, com o valerioduto e o mensalão, envolvendo alguns dos mais importantes membros do partido e do governo. O escândalo foi de tal ordem que muitos deputados petistas se desfizeram em lágrimas no plenário da Câmara Federal ao ouvir as denúncias que degradavam seu partido. Em face disso, Lula, que tudo sabia, tratou de afastar os culpados tanto da direção do partido quanto do governo, após declarar que de nada sabia. Ninguém acreditou, já que Lula sempre mandou e desmandou no PT, tendo colocado em postos-chaves pessoas de sua estrita confiança.

Basta o testemunho de César Benjamim, ex-dirigente e fundador do PT, para eliminar qualquer dúvida. Ao perceber os primeiros sinais de corrupção e levá-los ao conhecimento de Lula, ouviu dele esta advertência: "Não se meta nisso". Só quando Roberto Jefferson comunicou-lhe, no Palácio, que também sabia de tudo, Lula deu ordem a Dirceu para suspender o mensalão.

E teria sido o mensalão, por acaso, iniciativa de algum dirigente equivocado? Claro que não: foi parte do plano de aparelhamento da máquina do Estado para garantir a permanência do PT no governo por 20 anos, no mínimo. Um plano dessa envergadura não poderia ser posto em prática sem o consentimento do principal líder do partido e chefe do governo.

Era de se ver o olhar de Lula quando o escândalo estourou, olhar de pânico. Mas logo seu ministro da Justiça encontrou a desculpa, ainda que esfarrapada, para o mensalão: era verba de campanha eleitoral não contabilizada. E Lula passou a repeti-la, alegando ser essa uma prática comum a todos os partidos, com o que admitia ser o PT um partido como muitos outros, corrupto como muitos outros. Que fazer? Foram-se os anéis, ficaram os dedos. Mas ficaram sujos, obrigando-o a tentar limpá-los com todo tipo de sabão possível, especialmente agora, com as eleições. Lula está numa saia justa: precisa do PT para se reeleger, mas isso o identifica com corrupção; precisa do PT para responder às críticas dos adversários, mas o PT, culpado, se cala. Como não foi possível refundá-lo, decidiram repintá-lo, mudar-lhe a cor de vermelho para azul.

Tentando tapar o sol com a peneira, Lula afirmou que a culpa do mensalão não cabe nem aos mensaleiros nem ao PT, mas ao sistema político. E no auge da desfaçatez declara: "Vamos ter ousadia para defender a ética neste país". É muita ousadia mesmo!

 

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