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Neutralidade ou profissionalismo?

 

“A ciência e a técnica se transformaram em uma ideologia, a ideologia tecnocrática, segundo a qual questões políticas não podem mais ser resolvidas politicamente, à base de negociações e lutas, e sim, tecnicamente, de acordo com o princípio instrumental de meios ajustados a fins. Apesar de se pretenderem neutras, a ciência e a tecnologia, seguindo a boa tradição weberiana, se transformam, elas próprias, em dominação econômica e política. Saber, poder e economia constituem uma única força cuja filosofia é a acumulação e cuja prática é a repressão de tudo que se oponha a ela. Por isso mesmo Marcuse diz que “o próprio conceito de ciência e tecnologia é ideologia”.

Bárbara Freitag, A Teoria Crítica Ontem e Hoje, Ed. Brasiliense

 

            Discussão consideravelmente antiga, já ultrapassada ao humanismo socialista, assim como ao humanismo cristão, sabemos que não se pode ser neutro em ciências humanas. A “neutralidade”, neste campo, somente serve à manutenção do status quo e, se este não satisfaz, há que se posicionar a respeito.

         Isto me veio à mente em função de uma pergunta singela que fiz a um colega numa situação descontraída: “qual é mesmo a sua religião?” Rosnou em resposta algo como “esta questão é pessoal, considero-a uma invasão de privacidade!” Se eu não o conhecesse de outras oportunidades similares, ele é sempre assim mesmo, “cordial”, e pararia por aí. Senti que deveria aprofundar a questão, fazê-lo refletir, quem sabe fazer mais um esforço para trazê-lo para o lado das fileiras dos que lutam pelo Bem neste mundo... “E quando seus alunos perguntam, pois eles sempre perguntam, como é que você responde?”.

         Tornou-se um tiquinho mais cordato e informou, ainda entredentes, que “em nome do profissionalismo jamais declina ou deixa transparecer suas crenças para não influenciar seu aluno”.

“Bem” – argumentei – “não damos aulas para crianças, os nossos já têm discernimento e sabem perfeitamente diferenciar um discurso político governista de um oposicionista, um discurso religioso tendente ao cristão de outro tendente ao oriental e assim por diante... De que adianta fingir que oculto minha crença, minha fé, se eu sei que o jovem decodifica rapidamente? Não é mais simples declinar claramente – e eu o faço, com toda a seriedade do mundo, há mais de 25 (vinte e cinco) anos – “Sou católico, sou humanista e acredito no futuro socialista da humanidade. Ao ouvir-me, você escutará o factual e será convidado a posicionar-se a respeito do ponto de vista opiniático. Em ciências humanas, como história, sociologia, filosofia ou psicologia, não se trata apenas de “compreender” o que está sendo exposto, mas de se posicionar diante do enorme leque de variedades de pensamentos válidos e conflitantes no meio. Se em história ou sociologia, hoje, no mínimo você terá de se posicionar a favor ou contra o marxismo e, portanto, a favor ou contra o “weberianismo”. Se em psicologia ou filosofia, além desta questão, há ainda a decidir se você prefere o encaminhamento freudiano, psicanalítico, ou o encaminhamento positivista, comportamentalista, behaviorista.”

         Ouviu com visível má vontade a minha argumentação, como se eu fosse um dinossauro formado em universidade e tradição socialista e humanista em tempos pré-tucanos, em período anterior ao Brasil pós-globalizado, que o formou “pós-modernamente” em universidade e tradição weberiana, tecnicista, anti-humanista (o que, de certo modo, é fato...) e trombeteou: “se eu fizesse assim seria um mal profissional. O profissional não pode tomar partido, não pode declinar sua opinião, deve apenas ater-se aos fatos. Que o educando decida se deve opinar ou não.” A questão que deixei no ar, sobre “como pode o jovem opinar se você apresenta a sua verdade como neutra, portanto inquestionável e definitiva? Com quem o jovem aprenderá a opinar se o pretenso profissional “ensina” sub-repticiamente que opinar é um erro?”

         Esta ficou sem resposta. O curto tempo destes curtíssimos e raríssimos momentos informais chegou ao final e partiu-se para a mofa, a chacota direta, pura e simples, piadas esdrúxulas a esmo, para matar o tempo, coisa boa para matar a vida claro, que tempo é vida...

         Vai-se o colega (já notou como as novelas televisivas ensinam as pessoas a dizer algumas “verdades” e “saem de cena” espetacularmente? Pois é...). Fico a refletir: qual será a religião do colega? Algo tão escandaloso que precisa ocultar tão ferozmente que põe em jogo uma amizade para não ter de pronunciar-se a respeito? Seria partidário do Bin Laden? Verdade que jamais ouvi de seus lábios palavras como “Deus”, “Alá”, “fé”, “cristão”, “oração” ou “prece” que talvez utilize em momentos “profissionais” de aula para falar das crenças dos outros (que isso é curricular!). Suponho que seja ateu. Pessoalmente considero muito arrogante negar a existência de Deus, mas hoje em dia, qual o problema? Fernandenrique é ateu e chegou até a presidência da república! É o pior presidente que este país já teve, mas ele “chegou lá”!

         Politicamente é weberiano, social-democrata, destes que apóiam acriticamente o liberalismo e a globalização. Não o declarou explicitamente mas, sempre que o assunto gira nesta direção toma o partido da “ordem”, contra a crítica. Sempre em nome da “neutralidade” e do “profissionalismo”...

         Vamos deixar clara uma coisa? Ser “neutro” em ciências humanas é um direito soberano conquistado pelos weberianos e hoje hegemônico. Mas pelo menos em atividades pedagógicas, ser neutro é uma coisa e ser bom profissional é coisa totalmente diferente. Tenho dito!

 

Lázaro Curvêlo Chaves - 24 de março de 2002

 

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