“No Brasil há pessoas de todas as cores:
branca, amarela, negra... Quantas raças existem aqui? Você acertou se disse UMA,
a Raça Humana!” Zezé Motta em propaganda de Organização Não Governamental em
defesa da igualdade entre os povos e culturas
No reino animal – de que pouco nos distanciamos – o que define
“espécie animal” é a interfecundidade e a capacidade de gerar descendência
fértil. Assim, se um casal de aves ou de mamíferos gera filhotes férteis,
trata-se da mesma espécie animal, ou seja, da mesma raça.
Raças diferentes
podem, em alguns casos, gerar descendência, mas esta não será fértil. Vejamos o
caso do Pintagol, resultado do cruzamento de um pintassilgo com um canário
belga. O pintagol é incapaz de gerar descendência. O mesmo com relação à mula. O
cruzamento de um cavalo com uma jumenta resulta num animal mais forte e
resistente que seus genitores, a mula, que é estéril! Os exemplos poderiam
multiplicar-se.
A espécie ou raça
humana tem como características principais o cérebro mais desenvolvido, a
capacidade de simbolizar e de comunicar-se através da fala. As diferenças
exteriores, aparentes, segundo estudos antropológicos exaustivos, não
caracterizam “raças” distintas como a sociologia considerava até o início do
século XX. Após o Imperialismo, o Neocolonialismo e, particularmente, o Nazismo,
percebemos o equívoco grosseiro daquelas primeiras tentativas de apreender o
humano em sua diversidade.
Fazendo um paralelo
com nossos irmãos mais jovens, do chamado reino animal, percebemos que se um
cidadão de origem japonesa contrai núpcias com uma africana, como nos mostram os
contatos culturais disto resultantes, o casal gera descendência plenamente
fértil. Trata-se, portanto, da mesma espécie, da mesma raça, a raça humana. O
mesmo se um europeu caucasiano contrai matrimônio com uma nativa da América
(“índia”): gerará descendência fértil! Esquimós, caucasianos, japoneses, tikuna,
yanomami, zulus, sudaneses, bantos, papuas, chineses, etc, etc, etc ficam melhor
caracterizados, do ponto de vista humano, como “culturalmente diferenciados”. A
capacidade física e intelectual de toda a espécie humana é precisamente a mesma.
Os diferentes resultados são conseqüência da formação cultural e social dos
diferentes povos do mundo.
Na sociologia e na
antropologia contemporâneas não há mais espaço para considerar, entre seres
humanos, uma “raça superior” ou outra “inferior”, como o faziam os nazistas em
relação aos judeus ou mesmo os caucasianos em relação aos nativos da África ou
da América. As diferenças são miseravelmente aparentes: cor de pele devido à
maior incidência de raios solares em certos pontos do planeta fazer com que a
seleção natural beneficiasse os melhor adaptados, aqueles que têm uma quantidade
maior de melanina na pele; aqueles que vivem em regiões com maior incidência de
tempestades e ventos fortes viram os melhor adaptados, com olhos mais fortes e
resistentes, tivessem melhor sucesso em sua adaptação e assim por diante – a
força física e a capacidade intelectual é rigorosamente a mesma em toda a
espécie humana.
Etnocentrismo
A definição clássica de etnocentrismo é
considerar a própria
cultura ou civilização como superior ou, no limite, a única válida.
Assim vimos o massacre dos índios americanos, a escravização dos negros, o
neocolonialismo e mesmo as guerras deste século contra os muçulmanos do
Afeganistão e do Iraque.
Como vimos, não se
pode mais falar em “raças” quando nos referimos à espécie humana. Deve-se
preferir o termo “cultura”, sendo “etnia” um termo técnico a ser usado com muito
cuidado. Já ouvi erros grosseiros de expressão, como “etnia negra” ou “etnia
japonesa”, uma forma mal disfarçada de racismo...
Alguns dados
históricos
No Sudão, há mais de três mil anos, havia uma enorme
instituição de ensino de elevada excelência e para a qual afluíam egípcios,
caldeus, assírios, babilônios... Tudo se perdeu e foi destruído com a sucessão
de massacres etnocêntricos ao continente africano meramente porque a
superioridade bélica da civilização européia era superior à sudanesa, que tinha
meramente a primazia intelectual.
Nos Andes e na
Meso-América encontraram-se civilizações (Inca e Azteca) com um nível de cultura
em muito acima do europeu. O maior problema dos chamados “índios” era o de
humanizar a natureza (“sou filho da Terra”, “o Sol é meu pai”, “animais e
plantas são meus irmãos e irmãs”, etc.) e ter um sofisticadíssimo sistema de
convívio social humano. O europeu do renascimento, por outro lado – são exemplos
Maquiavel, César Bórgia, o papa guerreiro Leão III entre outros – esmeraram-se
em desenvolver máquinas de destruição de seres humanos, praticavam a simulação
(fingir ser algo que não se é), a dissimulação (ocultar o que se é), mentiam –
um dos maiores problemas para os nativos da América foi que quando o invasor se
fazia entender através de intérpretes, “viemos em paz em nome dos monarcas
europeus”, os nativos acreditavam neles. O episódio clássico de Hernán Cortez
fazer um longo discurso a favor da paz (com a tradução da Malinche, ex-concubina
do próprio Montezuma), os aztecas relaxarem e Cortez, após incinerar os navios
para que ninguém tentasse voltar para a Europa ordenou o genocídio daquele povo.
A cidade de Tenochtitlán, capital da Confederação Azteca, era três vezes maior e
mais bem cuidada que Madri. Hoje é a Cidade do México.
Entre os Incas
havia arquitetos, matemáticos, astrônomos e todos foram tratados como escória,
obrigados a trabalhar nas minas de prata de seus domínios. Este o sentido que
Renato Russo deu à canção “Índios” no trecho em que diz que “se usava como pano
de chão o linho nobre e a pura seda”. Hoje, a tecnologia da construção
esmeradíssima das pirâmides do Império Inca são uma completa incógnita que seus
intelectuais foram massacrados...
Cesare Lombroso, o Nazismo e o
Sionismo
Dentre os intelectuais que se debruçaram sobre a questão –
evidente! – das diferenças entre os seres humanos, particularmente de culturas
diferentes, destaca-se Lombroso. Criador de uma “ciência”, hoje em completo e
absoluto descrédito, chamada fisiognomonia,
informava ser possível discorrer sobre o caráter e a índole dos seres humanos a
partir de seu aspecto físico!
Ainda na virada do
século XIX para o XX a sociologia, então tateando no escuro, considerava a
existência de “raças” diferentes entre seres humanos e informava que “a
degeneração está na mistura, na mestiçagem”. “Toda a raça pura pode ser forte,
somente a mestiçagem causa o enfraquecimento da espécie”, era o cerne de suas
argumentações. Quem pensasse diferente desapareceria do cenário acadêmico e
ponto final.
Os nazistas levaram
esta loucura a tal ponto que criaram uma hierarquia entre os seres humanos. O
“ariano” seria o caucasiano “puro” – como se existisse tal coisa... – e portanto
destinado a ser o senhor do mundo. Os latinos (italianos, espanhóis, portugueses
e latino-americanos) seriam no máximo bons trabalhadores braçais. Os judeus
seriam “uma praga que infesta a humanidade”. Somente o seu extermínio poderia
levar a um aprimoramento da espécie humana. Quando pensamos nos judeus mais
ilustres do mundo, como Einstein, Freud, Marx, Marcuse, Horkheimer, etc ficamos
estarrecidos diante de assertivas tão disparatadas.
Os sionistas também
se consideram o único “povo escolhido por Deus” e sua marca é a circuncisão.
Nunca ouvi falar em “conversão” ao judaísmo. A pessoa tem de ser descendente de
judeus para poder converter-se àquela religião – confesso que eu mesmo, aos 13
anos, estudando em colégio judeu, tentei converter-me, uma vez que sou
circuncidado, “fazer o Bar Mitzva” que todos os meus colegas estavam fazendo e
conseguir uma namorada, que as moças judias não admitem a aproximação de quem
não seja judeu... Não pude converter-me pois não consegui provar ser de
ascendência judaica. E olha que tentei!
Intolerâncias de
todas as partes. Até quando o mundo viverá nesta situação assim vexatória?
Avançou-se,
avançou-se muito, mas ainda há resquícios de intolerâncias as mais diversas a
que, neste 13 de Maio, convido a refletir.