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Muito espetáculo, pouca realidade. Vergonha nacional

 

Fico imaginando para a maioria das pessoas a dificuldade em compreender a realidade. Já não me espanta mais a sua falta de interesse... Guy Debord, em seu clássico A Sociedade do Espetáculo – de 1967 – abre o livro com uma epígrafe em que cita A Essência do Cristianismo, de Ludwig Feuerbach, escrito mais de 100 anos antes com críticas ferozes à Igreja em seu tempo que, mais tarde, seu discípulo Karl Marx informava ser “o ópio do povo”. Eram outros tempos...

A epígrafe pinçada por Debord reza:

“E sem dúvida o nosso tempo prefere a imagem à coisa, a cópia ao original, a representação à realidade, a aparência ao ser... Ele considera que a ilusão é sagrada e a verdade é profana. E mais: a seus olhos o sagrado aumenta à medida que a verdade decresce e ilusão cresce, a tal ponto que, para ele, o cúmulo da ilusão fica sendo o cúmulo do sagrado.” – Prefácio à Segunda Edição Alemã de A Essência do Cristianismo.

Ao tempo de Feuerbach, a grande alimentadora da sacralidade das ilusões e da conformidade com uma vida desgraçada de tributos diversos a nobres (talha, corvéia, banalidades, em alguns lugares mesmo o “direito de pernada” ou “prima nocte”, quando o pároco, após celebrar o matrimônio camponês, conduzia a noiva à alcova do Senhor Feudal), seguros que estavam de, cumprindo as fantasias elaboradas pela Igreja, a obediência cega a seus desmandos e desatinos, conquistaria “o reino do céu”, seja lá o que isso significasse para a mente medieval.

De mais a mais, a Igreja sempre interferiu na política. A eleição do Sr. Karol Wojtila (polonês) para a chefia do Estado do Vaticano no quadro de conservadorismo e combate às liberdades e conquistas do socialismo capitaneadas pelo deficiente mental Ronald Reagan (sem exagero algum, o cidadão era um artista que lia bem e se apresentava bem em público, mas não tinha a mais pálida noção do que estava falando; talvez por isso ninguém mais tenha sequer pensado em entrevistá-lo quando deixou a presidência do Império Ianque) e Margareth Thatcher (esta um tanto menos desprezível tinha a aparência de acreditar na liberdade para o capital como sinônimo de liberdade para o se humano e se julgava mesmo uma “cruzada” contra as liberdades efetivas do socialismo). A Igreja pouco mais fez do que reforçar o quadro de conservadorismo e combate – através da teologia – ao socialismo no Leste Europeu, a começar pela Polônia de Wojtila, e à Teologia da Libertação, que grassava na América Latina.

Com a morte tardia, muito tardia, de Karol Wojtila, assumiu a chefia de Estado do Vaticano o Sr. Joseph Ratzinger em cuja biografia está seu aprisionamento pelas tropas aliadas ainda envergando seu uniforme nazista e, a seguir, já na Igreja, encontrando seu caminho na Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé – nome atual da “Santa” Inquisição – demonstrando claramente seu autoritarismo e uma tendência feroz a dar combate a qualquer eivor de liberdade (ele usa a palavra “salvação” nesta acepção) exceto quando dentro da Igreja.

Numa demonstração sensacional do Espetáculo de afastamento da realidade, o Santo Inquisidor foi transformado numa figura popular aplaudidíssima no Pacaembu quando discursava contra o sexo antes do matrimônio e pregando, debaixo de aplausos mais calorosos que muitos cantores de festivais de Rock recebem por aqui “castidade dentro do matrimônio”. Foi efusivamente aplaudido por jovens que traziam preservativos no bolso portando faixas e cartazes (evitados pela imprensa) que diziam “eu uso camisinha” e coisas assim. Tanto para a Igreja do passado remoto, que o Sr. Ratzinger busca ressuscitar, quanto para os meios de comunicação para a massa, a fantasia do espetáculo tem mais "realismo" e impressiona muito mais do que os fatos concretos por trás da propaganda e do discurso.

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O problema hoje é outro...

 

            Este era um problemão da Idade Média, mas dificilmente o tempo volta, como os cães voltam ao próprio vômito: o domínio absoluto de uma Igreja impositora da ordem e defensora – com atualmente – dos poderosos.

            Os avanços da ciência que explicam definitivamente uma série de coisas contestadas pela Igreja, como o fato de que a Terra gira ao redor do Sol, o que provocou a excomunhão de Galileu Galilei que, felizmente, no ano 2000 (“Ano do Jubileu”) foi perdoado. Finalmente, no ano 2000 a Igreja reconhece implicitamente que a Terra é redonda e gira ao redor do Sol!

            As pestes e doenças combatidas na Idade Média com novenas e tiros de canhão na direção da Lua Nova, recebem tratamento novo, descobriu-se a existência de vírus e bactérias, inventou-se a vacina e toda uma plêiade de fármacos que aliviam incrivelmente ou mesmo curam!

            A fé balança...

            Contudo, o avanço tecnológico – que Guy Debord aponta com brilhantismo e de maneira aforismática em seu livro – faz crescerem as formas de controle social através dos meios de comunicação para a massa. Em suma, o papel alienador que era prerrogativa da Igreja é transferido aos meios de comunicação – rádios, jornais e TV’s – que marcam a sacralidade da ilusão e da mentira e reforçam a profanação que é a realidade e a verdade.

 

Que tal uns exemplos?

 

            Durante o Jornal Nacional, da Rede Globo de Telealienação, são inseridas várias propagandas – caríssimas mas pagas com o imposto extorquido de nós – dos órgãos ligados ao governo Lula da Silva na forma de “séries especiais”, como “um Brasil que deu certo” ou “a poderosa atuação do Banco Central em defesa da moeda brasileira”, ou ainda do IBAMA em defesa da natureza. Sempre “temperado” com elogios rasgados ao analfabeto, corrupto e incompetente que ocupa atualmente o Palácio do Planalto – consta que haverá um “plebiscito” regado a muita grana de propaganda e o apoio da chamada “oposição” para que “o povo” decida se deseja dar um 3º mandato a Lula da Silva, mas esse é outro tema a que volto oportunamente.

            Ninguém disfarça a alegria de todos com a propaganda pró-governo das grandes redes de TV aberta (e ainda vem por aí a TV do governo!): petistas se exasperam quando, seja por descuido, seja por excesso de provas e convencimento, a Globo ou a Record explicam mais um caso de roubo ou corrupção do governo – verdade que, após a assunção ao cargo de chefe da Polícia Federal do Sr. Tarso Genro, estes casos se tornaram menos numerosos. Há quem diga que o Brasil está melhorando. Há quem diga que o Sr. Tarso Genro vem chefiando a Polícia Federal com mão de ferro e impondo punições severíssimas a quem encontre vestígios de crimes praticados no cotidiano pelo governo Lula da Silva e sua farândola – fico com a segunda explicação.

            O Partido (dito) dos Trabalhadores, pagas as propagandas caríssimas a favor do governo e veiculadas dentro do noticiário para dar mais credibilidade, vocifera contra “a mídia conservadora e de direita”. A Globo se alegra pois assim seu rabo preso com o Lula da Silva permanece invisível e o PT se orgulha pois seu discurso, neste caso, segue inalterado - embora em notória e notável contradição com sua prática, completamente sintonizada com o direitismo do mercado de capitais.. Maquiavelicamente bem pensado!

            A cada dia o Instituto Brasileiro de Maquiagem das Estatísticas (IBGE) ou a Fundação Getúlio Vargas – que se transformou num berço de economistas conservadores e pró-mercado (não o mercado de trocas, naturalmente, mas o “mercado de capitais”, que hoje comanda a economia e a opinião do mundo – quem discorda, não recebe sequer convite a falar a respeito). Estas e outras instituições, completamente inidôneas e falseadoras da realidade, apregoam a todo o momento e com vasta repercussão nos órgãos encarregados da comunicação para a massa, coisas como “o crescimento da economia”, “o aumento no número de empregos”, “o aumento da renda das famílias brasileiras”, “a redução das taxas de inflação”, “os preços menores nos supermercados” e outros pseudo-alegatos sem o menor contato com a realidade.

            Naturalmente, é mais gostoso ouvir falar de um país que “está dando certo”, mesmo que somente na propaganda do que na realidade... Disso já o sabiam Feuerbach e Debord há muito tempo!

            Isso explica os motivos de minha desistência de puxar conversa quando ocorre de eu ter um dinheirinho (cada vez mais raro a quem está reduzido à economia informal) e ir ao comércio. Lembro-me, há coisa de 2 meses de cometer a extravagância de comprar um biscoitinho um tantinho mais sofisticado. Vinha numa embalagem bastante chamativa, com 24 biscoitos embalados em pequenos outros pacotes com 4 em cada um. Hoje, uma embalagem similar, traz 18 biscoitos do mesmo tipo, embalados em pacotinhos contendo 3 em cada um e custa um pouco mais caro. Há 4, 5 meses se comprava feijão a preços bem camaradas. Hoje estão custando o triplo: o estímulo ao plantio de soja e o desvio da produção de alimentos para vegetais que geram o chamado biocombustível, aplaudidíssimo por Washington, nos obriga a importar coisas como feijão e trigo da Argentina – cheguei mesmo a mandar um e-mail à Casa Rosada aplaudindo sua decisão de se manter no caminho da produção de alimentos e ousei recomendar que mantivessem os pastos amplos pois, com o desmantelamento dos nossos para plantar mamona, soja e outros produtos, dentro em breve estaremos importando carne deles. Já sei que não adianta enviar mensagens ao governo brasileiro suplicando que privilegie a produção de alimentos, que não maltrate o povo tanto assim. Fazem ouvidos moucos, aumentam a produção de mamona e vão levar águas do rio São Francisco para outros pontos do Nordeste (o resultado disso só se verá daqui a uma década ou mais, quando os mandatários – se assim o povo brasileiro o decidir – serão outros e jogarão a culpa da deterioração do maior rio inteiramente brasileiro na “herança maldita” do governo passado...)

            Não posso dizer que estejam certos! Mas compreendo. Quem quer ouvir a voz da Razão ou da realidade quando a propaganda e as ilusões são tão mais interessantes e trazem mesmo mais votos?

 

A maioria

 

            Deixei de acreditar na Democracia Representativa de tipo burguês que temos por aqui. A maioria – maldita maioria! – delira com os tiranos desde Pilatos a Lula da Silva, passando por Hitler e Stalin. A maioria manda soltar Barrabás e crucificar Jesus. A maioria está vivendo hoje muito pior do que há 40 ou 50 anos mas acredita que está tão melhor (tem até as “provas” do IBGE e da FGV a reforçar esta fé) que já não duvido – depois da absolvição dos quadrilheiros, reeleição dos criminosos que desviaram dinheiro público e recondução do chefe da quadrilha dos 40 à Presidência da República ficou claro, cristalino: o povo brasileiro não quer saber de realidade e quem ousa falar em realidade, contra as mentiras escandalosas da propaganda, fica como eu, sem emprego e recendo recadinhos ofensivos dos petistas hidrófobos da nova geração. Em 1992 o PT expulsou a Convergência Socialista (hoje PSTU) por ser um grupo mais coerente do que a cúpula gostaria, o que dificultava a eleição do Partido. Ainda ficaram pessoas honradas no PT, que foram também expulsas pelo crime de manter a coerência, em 2003. O partido inflou-se de gente venal ocupando altos cargos com salários fabulosos – de acordo com o programa “desemprego zero para a companheirada”, um dos poucos que foi levado a cabo embora dele não se fizesse propaganda. Estes neo-petistas, amantes do Capital Especulativo, “pragmáticos”, incapazes de uma ação contra a política econômica que transforma os grandes especuladores (banqueiros e jogadores da bolsa de valores, entre outros) no maior poder econômico do país embora, de acordo com seus patrões, siga discursando contra eles, como qualquer pelegada. O poder que despeja dinheiro nas campanhas eleitorais daqueles que legislarão a seu favor.

 

O Poder, a Realidade e o que fazer a respeito

 

            O desemprego (real, verdadeiro, não o da propaganda do IBGE ou da FGV) está acima dos 30% da mão de obra capacitada para a atividade produtiva em outubro de 2007; os preços estão subindo a olhos vistos a quem quer que faça compras; nossa economia já está sendo ultrapassada pela do Haiti e só há termos de comparação com as mais pobres nações africanas (este é o dogma do mercado da especulação: se a economia crescer, os salários poderiam vir a aumentar e trazer uma complicação a mais no cálculo de seus lucros fabulosos, portanto, o crescimento deve ser evitado na prática e sempre propagado e elogiado na propaganda); os aposentados são extorquidos pelos bancos através de empréstimos com desconto direto na folha de pagamento – é um pavor receber telefonema de uma dessas empresas extorsoras a dizer das facilidades de se conseguir uma quantia grande para uso imediato e a tortura de um salário ainda menor por até 3 anos! Como, se o salário de hoje mal dá para sobreviver? Mas a propaganda – e o tal do telemarketing – é tão poderosa que muitos caem nessa esparrela, invenção de Lula da Silva que era uma proibição peremptória, taxativa, quando o país ainda não era governado pelos bancos.

            O que se pode fazer num quadro assim? Sobreviver, quando possível; escrever e falar sobre a incômoda realidade, por mais que ela agrida a propaganda onipresente; tentar – pelo menos tentar – ensinar para as novas gerações que honradez, honestidade, coerência, seriedade, trabalho honesto são valores importantes para a formação de uma Nação decente, apesar de todo o péssimo exemplo que vem, por assim dizer, “de cima”; conversar com nossos Amigos na Polícia Federal e torcer para que mais delegados honestos (que os há, e são maioria!) desobedeçam as ordens de seu Führer e efetivamente voltem a combater o crime organizado pelo governo; conversar com nossos amigos jornalistas e cinegrafistas para que não sejam venais e busquem, após os momentos em que os monstros sorridentes se sentam em suas cadeiras elegantes o que está sendo dito; torcer para que a contradição evidente entre a realidade – cada dia mais cruel, por um lado – e a propaganda se resolva mesmo na mente dos brasileiros que trabalham de sol a sol para o bem de seus feitores, com pouquíssimo tempo para a reflexão crítica.

            Sobretudo, votar nulo! Fosse esse um país sério como as democracias mais consolidadas e antigas do mundo e o voto seria facultativo. Aqui, se deixamos de cumprir com nosso “direito-dever cívico” perdemos tanto que somos obrigados a nos despencar de casa no dia das eleições para digitar algo como “00” e “comprovar”. Não que a tal “votação eletrônica” seja confiável. Se o fosse as democracias mais ricas, antigas e consolidadas do planeta também a usariam. O fato de se revelar o resultado praticamente antes do final da votação já aponta na direção de um problema. Mas meu protesto fica registrado!

            Fundamentalmente: lutar, com todas as armas intelectuais de que dispomos, contra a dominação absolutista do mercado de capitais que nos empobrece e impede o país de crescer ou melhorar a vida de nossos compatriotas.

 

Lázaro Curvêlo Chaves – 28/10/2007

 

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