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Primeiras Rebeliões no Brasil Republicano
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Rebeliões
“primitivas”: No final do século XIX e início do
atual, a expansão do capitalismo provocou importantes transformações em todo o
mundo. No Brasil, esse fenômeno foi responsável pela abolição da escravatura e
pela proclamação da República, acompanhadas por um processo de crescente
modernização da economia. Por toda parte ocorreram reajustes sociais que
forçaram a adaptação, transformando as antigas formas de convívio social. Nesse contexto, em várias regiões do mundo eclodiram movimentos de resistência às mudanças, por parte de sociedades nas quais o sistema de dominação não tinha assumido ainda um caráter claramente capitalista. Eram sociedades rústicas em que as relações sociais continuavam dependendo dos laços de fidelidade pessoal. No Brasil, essas rebeliões foram representadas, principalmente, pela Guerra de Canudos e pelo Contestado.
Essas rebeliões primitivas surgiram em virtude das alterações
provocadas pelo capitalismo, que desestabilizou as antigas formas de organização
e dominação sociais. O capitalismo fez cair o véu que ocultava a opressão e a
miséria dessas sociedades rurais arcaicas. As rebeliões foram, então, um
protesto trágico contra a opressão e a miséria, mas um protesto sem projetos
claros e definidos. Quase sempre, as aspirações dos rebeldes primitivos se
mesclavam à profunda religiosidade, sem orientação política consciente. Daí a
razão do seu isolamento e, conseqüentemente, do seu fracasso ante as forças
repressivas dos poderes constituídos. Guerra de
Canudos
A maior expressão dos movimentos rústicos no Brasil
está ligada ao nome de Antônio Vicente Mendes Maciel - o célebre Antônio
Conselheiro. De origem humilde, apareceu no sertão nordestino como beato, por
volta de 1870.
A figura do beato era comum no sertão nordestino. Sua origem
se relaciona com as atividades do padre José Maria Ibiapina, que, seguindo a
orientação do catolicismo de seu tempo, procurou melhor comunicação entre o
clero e os fiéis.Ao padre Ibiapina deveu-se a criação de inúmeras casas de
caridade - mistura de orfanato e escola -, que se multiplicaram a partir da
segunda metade do século XIX.
Essas casas de caridade eram administradas por ordens leigas,
não reconhecidas pela Igreja, mas toleradas por ela. E foi por causa dessas
casas que se multiplicaram as ordens de beatos, expressão concreta da
intensificação da religiosidade no sertão nordestino.
Nesse quadro, o prestígio de Antônio Conselheiro começou a
aumentar, e por isso ele passou a ser perseguido sistematicamente pela Igreja.
Já com inúmeros seguidores, logo após a proclamação da República, Antônio
Conselheiro se estabeleceu no sertão baiano, na localidade denominada Arraial de
Canudos, às margens do rio Vaza-Barris.
Formaram ali uma comunidade de beatos que, em virtude das
crescentes pressões religiosas e civis, decidiu romper com o mundo circundante,
organizando-se como uma comunidade consciente de suas particularidades. Essa
população humilde que se concentrava em Canudos esperava construir uma cidade
santa, a que chamariam Belo Monte.
A comunidade de Canudos tornou-se um núcleo relativamente
próspero, dedicando-se até ao comércio com as cidades vizinhas. Os grandes
proprietários rurais inquietaram-se com o crescimento de Canudos, iniciando
articulações para a sua dispersão, com o apoio da Igreja. Contra Canudos as
denúncias oficiais se multiplicaram, acusando o Conselheiro de conspirar contra
a República em virtude de sua posição monarquista - argumento, aliás, amplamente
utilizado como pretexto às repressões que então foram desencadeadas. Tudo isso
para encobrir os verdadeiros motivos: impedir os pobres de viver com autonomia,
pois os grandes proprietários necessitavam de mão-de-obra abundante e barata,
enquanto a Igreja pretendia manter sob seu controle o rebanho cristão.
A primeira campanha contra Canudos deuse em 1896, no governo
de Prudente de Morais. Contudo, a resistência de Canudos foi notável, obrigando
as forças da ordem a multiplicar os esforços para combatê-la. Devido às
seguidas derrotas que as forças oficiais sofreram, a Guerra de Canudos começou a
ocupar as páginas dos noticiários, tornando-a nacionalmente conhecida. No ano de
1897, em abril, finalmente se organizou a quarta expedição, sob o comando do
general Artur de Andrada Guimarães, formada por 8 mil soldados equipados com as
mais modernas armas do tempo. Canudos resistiu até 5 de outubro desse ano,
quando foi arrasado e seus habitantes dizimados pelas tropas. Leia uma breve Biobibliografia de Euclides da Cunha. Clique aqui. Conheça mais sobre a História da Guerra de Canudos. Clique aqui. Baixe para o seu computador, instale e leia a Revista Pictura e saiba tudo sobre a vida e obra de Euclides da Cunha em São José do Rio Pardo. Baixe a revista e instale a partir deste link. Naturalmente, na página da Casa de Cultura Euclides da Cunha há também muita informação sobre esta temática. Clique aqui. Leia ainda "Os Sertões", Síntese da Obra, feita por Rodolpho Del Guerra. Clique aqui. Leia "Os Sertões", obra Completa de Euclides da Cunha. Clique aqui.
De Euclides da Cunha, leia ainda
Contestado – A Guerra do Contestado ocorreu já no
século XX, entre 1912 e 1916, na região do Contestado, que recebeu esse nome por
ter se tornado alvo de disputa entre Santa Catarina e Paraná.
Desde o momento de seu povoamento, no século XVIII, o
Contestado era uma região violenta. Em primeiro lugar, devido à luta contra os
índios; posteriormente, por causa das lutas entre famílias pela disputa de
terras. Além disso, o Contestado foi afetado pela Guerra dos Farrapos e pela
Revolução Federalista de 1893.
No final do século XIX, celebrizou-se o monge João Maria, que
depois de sua morte tornou-se figura lendária entre os sertanejos.
Por volta de 1912, ocupou o seu lugar José Maria, que se
dizia seu irmão. Rapidamente passou a liderar um grupo de fiéis que se reunia
num bairro rural do município de Curitibanos, em Santa Catarina. Porém, sob
pressão do prefeito da cidade, os fiéis foram obrigados a se transferir para a
região do município de Palmas, onde ocorreram as disputas entre catarinenses e
paranaenses. Novamente os fiéis foram dispersos pelas autoridades e, dessa vez,
José Maria foi morto.
A lenda de seu próximo retorno, entretanto, propagou-se
rapidamente. A força dessa crença acentuou-se com as visões de uma menina, em
Taquaruçu, em que José Maria teria ordenado a reunificação dos fiéis. Os crentes
começaram então a chegar a Taquaruçu, mas a pronta ação das forças repressivas
arrasou novamente o ajuntamento. Os sobreviventes reuniram-se em Santa Maria,
onde organizaram uma cidade santa que resistiu valentemente às investidas do
Exército. O grande número de soldados e armas utilizados pelas forças
repressivas determinou, enfim, a derrota dos crentes, em 1916. Cangaço
Banditismo social – Ao lado de Canudos e do
Contestado, outro fenômeno característico da época foi o banditismo social. Em
sua forma característica, ele surgiu no nordeste brasileiro e ficou conhecido
como cangaço. Suas primeiras manifestações ocorreram por volta de 1870 e
perduraram até 1940.
O banditismo social não foi um fenômeno exclusivamente
brasileiro. Ele apareceu em muitas regiões do mundo que tinham características
semelhantes às do nordeste brasileiro, como na Sicília (Itália), Ucrânia e na
América espanhola. Em grande parte, o banditismo social foi, como Canudos e o
Contestado, uma reação do tradicionalismo rural ao avanço do capitalismo.
O bandido social diferia do bandido comum por sua origem. Em
geral, tornava-se um "fora-da-lei" como resposta às injustiças e perseguições
que sofria. Por isso, era objeto de admiração pela comunidade, que, não raro,
engrandecia seus feitos de coragem e valentia. Apesar disso, diferentemente do
revolucionário, o bandido social não era necessariamente contra os dominantes,
nem era portador de projetos de transformação social. O seu prestígio vinha do
fato de apresentar-se como porta-voz da resistência de um mundo em dissolução. Origem do
cangaço – Desde o século XVIII, com o deslocamento
do centro dinâmico da economia para o sul do Brasil, as desigualdades sociais do
nordeste se agravaram. Entretanto, no sertão, onde predominava a pecuária,
consolidou-se uma forma peculiar de relação entre os grandes proprietários e
seus vaqueiros. Entre eles, estabeleceram-se laços de compadrio (tornavam-se
compadres), cuja base era a relação de fidelidade do vaqueiro ao fazendeiro, com
este dando proteção em troca da disponibilidade daquele em defender, de armas na
mão, os interesses do seu patrão.
Os conflitos eram constantes, devido à imprecisão dos limites
geográficos entre as fazendas e às rivalidades políticas, transformadas em
verdadeiras guerras entre poderosas famílias. Cada uma destas fazia-se cercar de
jagunços (capangas do senhor) e de cabras (trabalhadores que ajudavam na
defesa), formando verdadeiros exércitos particulares.
Nos últimos anos do Império, depois da grande seca de
1877-1879, com o agravamento da miséria e da violência, começaram a surgir os
primeiros bandos armados independentes do controle dos grandes fazendeiros. Essa
é a origem do cangaço. Por essa época ficaram famosos os bandos de Inocêncio
Vermelho e de João Calangro. Lampião,
o rei do cangaço – Contudo, somente na República o
cangaço ganhou a forma conhecida, com Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião,
que aterrorizou o nordeste de 1920 a 1938. Havia uma razão para esse fato. Com a
proclamação da República em 1889, implantase no Brasil o regime federalista,
que concedeu uma ampla autonomia às províncias, fortalecendo as oligarquias
regionais. O poder dessas oligarquias regionais de coronéis se fortaleceu ainda
mais com a política dos governadores iniciada por Campos Sales (1899-1902). O
poder de cada coronel era medido pelo número de aliados que tinha e pelo tamanho
de seu exército particular de jagunços.
Esse fenômeno era comum a todo o Brasil, mas nos estados mais
pobres, como Ceará, Paraíba e Rio Grande do Norte, os coronéis não eram
suficientemente ricos e poderosos para impedir a formação de bandos armados
independentes. Foi nesse ambiente que nasceu e prosperou o bando de Lampião, por
volta de 1920, coincidindo o seu surgimento com a crise da República Velha.
Depois da morte de Lampião, em 1938, nenhum outro bando veio ocupar o seu lugar.
Com o fim da República Velha em 1930, encerrava-se também a era do cangaço. História do Cangaço MARIA ISAURA PEREIRA DE QUEIROZ A Revolta da
Vacina (1904) Rodrigues
Alves e o seu programa de governo – Em 15 de
novembro de 1902, assumia a presidência da República Rodrigues Alves. Em São
Paulo, antes de embarcar no trem que o levaria ao Rio de Janeiro, o novo
presidente disse a um amigo: "O meu programa de governo vai ser muito simples.
Vou limitar-me quase exclusivamente a duas coisas: o saneamento e o melhoramento
do porto do Rio de Janeiro”. E foi o que fez.
Desde meados do século XIX, as precárias condições de higiene
da cidade do Rio haviam disseminado doenças terríveis como a cólera, a varíola,
a peste e a febre amarela. O rápido crescimento populacional, do fim do século
passado para o nosso, só veio agravar a situação.
A cidade do Rio de Janeiro tinha, em 1890, cerca de 500 mil
habitantes. Apenas trinta anos depois, a sua população havia saltado para 1 157
873 habitantes. Para abrigai toda essa gente, os casarões do centro foram sendo
divididos internamente em pequenos cômodos e alugados. Assim, o centro da cidade
foi tomado por uma multidão de pessoas e com ela vieram os problemas de
alcoolismo, criminalidade e mendicância.
Outro problema estava no porto, muito importante, mas
antiquado. A pouca profundidade perto do cais impedia o atracamento de navios de
grande porte, dificultando as operações de carga e descarga. Por outro lado, a
estreiteza das ruas e o pouco espaço para o armazenamento das mercadorias também
contribuíam para a morosidade dos serviços.
Para cumprir o seu programa de governo, Rodrigues Alves
escolheu dois auxiliares: o engenheiro Francisco Pereira Passos, indicado para a
prefeitura do Distrito Federal, e o médico Osvaldo Cruz para o saneamento. Ambos
pediram e receberam carta branca do presidente. A
reurbanização e o saneamento – O programa traçado
por Rodrigues Alves tinha em mira, não tanto o bem-estar do povo, mas a
transformação da cidade do Rio numa espécie de cartão-postal do país. E, de
fato, devido às epidemias, os navios estrangeiros mantinham-se distantes temendo
o contágio. E isso era prejudicial à política governamental de estímulo à
imigração e à entrada de capitais estrangeiros.
Em 1906, no fim do seu mandato, Rodrigues Alves entregou aos
cariocas uma nova cidade. As epidemias haviam sido controladas, e uma moderna
avenida - a avenida Central - de dois quilômetros, com trinta e três metros de
largura, deu à cidade um toque de modernidade. O comércio sofisticado
transferiu-se para o lugar, atraindo agora consumidores de alto poder
aquisitivo. A
segregação social – Rodrigues Alves era paulista,
como os dois presidentes civis - Prudente de Morais e Campos Sales - que o
antecederam. Ele disputou e venceu as eleições contra Quintino Bocaiúva, muito
querido no Rio. Na verdade, um clima de hostilidade rondava o Catete (palácio
presidencial), nutrido por um sentimento antipaulista.
Enfrentando uma forte oposição no Rio, entrava nos cálculos
do governo federal a possibilidade de manipulação, pela oposição, da massa
insatisfeita que dominava o centro da cidade e contra a qual uma ação repressiva
seria certamente dificultada pelas ruelas e becos por onde se espalhavam
pequenos cômodos de aluguel. A reurbanização do centro, cortado por largas
avenidas, era também uma medida preventiva contra distúrbios populares.
A execução do programa de Rodrigues Alves atingia, portanto,
vários objetivos ao mesmo tempo, mas nenhum deles ocupava-se com o bem-estar da
massa popular. Ao contrário, concebida a partir de uma visão elitista e
autoritária, a reurbanização significou, na realidade, o desalojamento das
camadas populares do centro e a sua expulsão para a periferia.
O programa foi executado segundo aquela visão, com métodos
afinados com ela. Em nome da "regeneração", como se dizia, centenas de
habitações coletivas foram demolidas, desabrigando milhares de pessoas que não
tinham para onde ir. A obra foi concluída com a entrega do centro elegante à
burguesia e o deslocamento dos pobres para a periferia. A divisão da sociedade
tornava-se também muito clara em termos espaciais, consumando a segregação
social. A revolta
popular – O saneamento foi conduzido pelo mesmo
espírito autoritário.
Na primeira etapa, em que se lutava contra a peste bubônica,
o combate concentrou-se na eliminação dos ratos, os transmissores. Os lugares
mais notórios, como becos, hospedarias e armazéns foram visitados pelos agentes
da saúde encarregados de remover entulhos e espalhar raticidas. Um método
curioso foi também posto em prática para eliminar os ratos: funcionários
percorriam a cidade para "comprar" os ratos apanhados pela população. A febre
amarela, cujo transmissor havia sido identificado por um médico cubano, foi
combatida por uma campanha de "mata-mosquitos" com a eliminação dos focos e com
a desinfecção das casas.
Osvaldo Cruz agia exclusivamente com base na autoridade de
seus conhecimentos médicos, sem a preocupação de esclarecer a opinião pública.
Tanto assim que não eram poucos os que duvidavam ser o mosquito o transmissor da
febre amarela. Não importava, o Dr. Osvaldo Cruz foi em frente.
Mas esbarrou em forte resistência no combate à varíola. A
população estava cética em relação à sua eficácia. Além disso, tinha sérias
dúvidas sobre seus efeitos reais. A maioria acreditava que a vacina era um meio
de contrair a doença. Mas Osvaldo Cruz não hesitou: colocou os vacinadores nas
ruas, apoiados por policiais que entravam nas casas e vacinavam à força.
Contudo, para atingir resultados definitivos era necessária a vacinação em
massa, num processo rápido.
No interesse do governo, foi apresentado por um senador um
projeto de lei que tornava a vacina obrigatória. Depois de quatro meses de
resistência, a lei, cuja regulamentação foi elaborada pelo próprio Osvaldo Cruz,
foi finalmente aprovada e publicada no dia 9 de novembro de 1904. A resistência
Ia havia ganhado a rua: no dia 5 de novembro fora criada a Liga Contra a Vacina
Obrigatória. Seu líder e fundador, o senador Lauro Sodré, pretendia, ao que
parece, transformar a liga num instrumento de ambições políticas próprias e de
seus aliados. Com essa expectativa, colocou a organização na liderança de um
movimento insurrecional que, entretanto, escapou completamente ao seu controle.
Num comício contra a vacina, convocado pela liga para o dia
11 de novembro, no qual os próprios líderes da convocação não compareceram,
representantes populares assumiram espontaneamente a direção do evento com
discursos explosivos. A intervenção da polícia deu origem ao confronto que fez
espalhar o motim por toda a cidade. Durante quase uma semana agitações de rua
tomaram conta da cidade, agravadas pela participação da própria Escola Militar
da Praia Vermelha, com o apoio de altos oficiais. Com depredação de bondes,
estabelecimentos comerciais e órgãos públicos, a cidade do Rio foi devastada.
Finalmente o governo recuou e revogou no dia 16 de novembro a
obrigatoriedade da vacina, fazendo refluir o movimento. No seu rastro, a revolta
deixou centenas de mortos e feridos. A brutalidade da ação policial sobre as
camadas populares, que foram as principais vítimas, continuou mesmo depois de
terminada a revolta. Identificando como suspeita qualquer pessoa pelo simples
fato de pertencer aos extratos populares, o sentido da repressão tornou-se
claro: tratava-se de afastar o pobre da cidade, "limpá-la" e entregá-la como
espaço higienizador para uso burguês. A Revolta da Vacina: Mente Insanas em Corpos Rebelde - - NICOLAU SEVCENKO A Revolta da
Chibata (1910) O
recrutamento militar – Desde o período colonial, o
recrutamento de soldados e marinheiros era feito de maneira particularmente
violenta. Para começar, o recrutamento era forçado, arbitrário e recaía sobre
pessoas de origem humilde, que não tinham como se defender. Os que dispunham de
alguma fortuna compravam sua isenção do serviço militar. Além disso, os homens
recrutados eram submetidos a constantes violências, que incluíam desde uma
péssima alimentação até castigos corporais. A
rebelião – A Revolta da Chibata ocorreu na
Marinha. Em comparação com o Exército, a Marinha era tradicionalmente elitizada,
e a distância entre oficiais e marinheiros era muito maior do que a existente
entre postos análogos no Exército. Desde meados do século XIX, o tratamento
humilhante e violento na Marinha vinha sendo questionado sem nenhum resultado
concreto. Com o advento da República, cuja história iniciou-se um ano após a
abolição, aquela forma de tratamento que vinha do Império era insustentável.
Contudo, foi necessária uma rebelião ameaçadora dos marinheiros para que a
Marinha adotasse medidas disciplinares menos brutais.
A rebelião ocorreu em 1910. Nesse ano, o marinheiro Marcelino
Rodrigues Meneses, que servia na belonave Minas Gerais, fora condenado a 250
chibatadas. Seus companheiros - obrigados, como de costume, a assistir ao
castiga - não se contiveram e, na noite de 22 de novembro, se rebelaram. Os
outros três navios (São Paulo, Bahia e Deodoro) estacionados na Guanabara
aderiram. O líder da revolta foi o marinheiro João Cândido.
Embora tenha sido precipitada pelo castigo de Meneses, a
revolta já vinha sendo preparada havia muito tempo. Assim, os rebeldes estavam
razoavelmente organizados, o que lhes permitiu dominar com rapidez os quatro
navios. O comandante do Minas Gerais, Batista Neves, foi morto, juntamente com
outros oficiais. Também houve mortes do lado dos marinheiros. A
repressão – O objetivo da revolta era simples,
conforme declarou o cabo Gregório do Nascimento, que assumiu o comando do navio
São Paulo: conseguir o fim do castigo corporal e melhorar a alimentação.
João Cândido enviou pelo rádio uma mensagem ao Catete,
ameaçando bombardear a cidade e os navios que não haviam aderido à revolta, caso
suas reivindicações não fossem imediatamente atendidas. O presidente era Hermes
da Fonseca, recém-empossado.
O governo estava sem alternativas, pois os canhões estavam
apontados para a cidade. Assim, por iniciativa de Rui Barbosa, na época
senador, foi proposto e aprovado um projeto que atendia aos marinheiros e lhes
concedia anistia. Com isso, os revoltosos depuseram as armas e se submeteram às
autoridades.
Porém as concessões do governo ficaram no papel. Os novos
comandantes nomeados para os navios revoltados ordenaram a prisão de João
Cândido e seus companheiros, muitos dos quais morreram numa masmorra na ilha das
Cobras. Desse modo, os oficiais e o governo se vingaram dos marinheiros que
ousaram revoltar-se. João Cândido, no entanto, conseguiu sobreviver a todas as
atrocidades, sendo enfim absolvido em julgamento realizado em 1912. Conhecido
como Almirante Negro, João Cândido faleceu em 1969. A Revolta da Chibata (Rio de Janeiro, 1910) - - MARIA INES ROLAND
Acompanhe a Letra:
Bibliografia: História do Brasil - Luiz Koshiba - Editora Atual História do Brasil - Bóris Fausto - EDUSP
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