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Recordações do
Escrivão Isaías Caminha
Lima Barreto
I
A tristeza, a
compreensão e a desigualdade de nível mental do meu meio familiar,
agiram sobre mim de modo curioso: deram-me anseios de inteligência.
Meu pai, que era fortemente inteligente e ilustrado, em começo, na
minha primeira infância, estimulou-me pela obscuridade de suas
exortações. Eu não tinha ainda entrado para o colégio, quando uma
vez me disse: Você sabe que nasceu quando Napoleão ganhou a batalha
de Marengo? Arregalei os olhos e perguntei: quem era Napoleão? Um
grande homem, um grande general... E não disse mais nada.
Encostou-se à cadeira e continuou a ler o livro. Afastei-me sem
entrar na significação de suas palavras; contudo, a entonação de
voz, o gesto e o olhar ficaram-me eternamente. Um grande homem!...
O espetáculo do
saber de meu pai, realçado pela ignorância de minha mãe e de outros
parentes dela, surgiu aos meus olhos de criança, como um
deslumbramento.
Pareceu-me então
que aquela sua faculdade de explicar tudo, aquele seu desembaraço de
linguagem, a sua capacidade de ler línguas diversas e compreendê-las
constituíam, não só uma razão de ser de felicidade, de abundância e
riqueza, mas também um titulo para o superior respeito dos homens e
para a superior consideração de toda a gente.
Sabendo,
ficávamos de alguma maneira sagrados, deificados... Se minha mãe me
parecia triste e humilde — pensava eu naquele tempo — era porque não
sabia, como meu pai, dizer os nomes das estrelas do céu e explicar a
natureza da chuva...
Foi com estes
sentimentos que entrei para o curso primário. Dediquei-me
açodadamente ao estudo. Brilhei, e com o tempo foram-se desdobrando
as minhas primitivas noções sobre o saber.
Acentuaram-se-me
tendências; pus-me a colimar glórias extraordinárias, sem lhes
avaliar ao certo a significação e a utilidade. Houve na minha alma
um tumultuar de desejos, de aspirações indefinidas. Para mim era
como se o mundo me estivesse esperando para continuar a evoluir...
Ouvia uma
tentadora sibila falar-me, a toda a hora e a todo o instante, na
minha glória futura. Agia desordenadamente e sentia a incoerência
dos meus atos, mas esperava que o preenchimento final do meu destino
me explicasse cabalmente. Veio-me a pose, a necessidade de ser
diferente. Relaxei-me no vestuário e era preciso que minha mãe me
repreendesse para que eu fosse mais zeloso. Fugia aos brinquedos,
evitava os grandes grupos, punha-me só com um ou dois, à parte, no
recreio do colégio; lá vinha um dia, porém, que brincava doidamente,
apaixonadamente. Causava com isso espanto aos camaradas: Oh! O
Isaías brincando! Vai chover...
A minha energia
no estudo não diminuiu com os anos, como era de esperar; cresceu
sempre progressivamente. A professora admirou-me e começou a
simpatizar comigo. De si para si (suspeito eu hoje), ela imaginou
que lhe passava pelas mãos um gênio. Correspondi-lhe à afeição com
tanta força d'alma, que tive ciúmes dela, dos seus olhos azuis e dos
seus cabelos castanhos, quando se casou. Tinha eu então dois anos de
escola e doze de idade. Daí a um ano, sai do colégio, dando-me ela,
como recordação, um exemplar do Poder da Vontade, luxuosamente
encadernado, com uma dedicatória afetuosa e lisonjeira. Foi o meu
livro de cabeceira. Li-o sempre com mão diurna e noturna, durante o
meu curso secundário, de cujos professores, poucas recordações
importantes conservo hoje. Eram banais! Nenhum deles tinha os olhos
azuis de Dona Ester, tão meigos e transcendentes que pareciam ler o
meu destino, beijando as páginas em que estava escrito!...
Quando acabei o
curso do liceu, tinha uma boa reputação de estudante, quatro
aprovações plenas, uma distinção e muitas sabatinas ótimas.
Demorei-me na minha cidade natal ainda dois anos, dois anos que
passei fora de mim, excitado pelas notas ótimas e pelos prognósticos
da minha professora, a quem sempre visitava e ouvia. Todas as
manhãs, ao acordar-me, ainda com o espírito acariciado pelos
nevoentos sonhos de bom agouro, a sibila me dizia ao ouvido: Vai,
Isaías! vai!... Isto aqui não te basta... Vai para o Rio!
Então, durante
horas, através das minhas ocupações quotidianas, punha-me a medir as
dificuldades, a considerar que o Rio era uma cidade grande, cheia de
riqueza, abarrotada de egoísmo, onde eu não tinha conhecimentos,
relações, protetores que me pudessem valer...
Que faria lá,
só, a contar com as minhas próprias forças? Nada... Havia de ser
como uma palha no rodamoinho da vida — levado daqui, tocado para
ali, afinal engolido no sorvedouro... ladrão... bêbado... tísico e
quem sabe mais? Hesitava. De manhã, a minha resolução era quase
inabalável, mas, já à tarde, eu me acobardava diante dos perigos que
antevia.
Um dia, porém,
li no Diário de *** que o Felício, meu antigo condiscípulo, se
formara em Farmácia, tendo recebido por isso uma estrondosa, dizia o
Diário, manifestação dos seus colegas.
Ora o Felício!
pensei de mim para mim. O Felício! Tão burro! Tinha vitórias no Rio!
Por que não as havia eu de ter também — eu que lhe ensinara, na aula
de português, de uma vez para sempre, diferença entre o adjunto
atributivo e o adverbial? Por quê!?
Li essa notícia
na sexta-feira. Durante o sábado tudo enfileirei no meu espírito, as
vantagens e as desvantagens de uma partida. Hoje, já não me recordo
bem das fases dessa batalha; porém uma circunstância me ocorre das
que me demoveram a partir. Na tarde de sábado, sai pela estrada
fora. Fazia mau tempo. Uma chuva intermitente caia desde dois dias.
Sai sem destino,
a esmo, melancolicamente aproveitando a estiada.
Passava por um
largo descampado e olhei o céu. Pardas nuvens cinzentas galopavam,
e, ao longe, uma pequena mancha mais escura parecia correr engastada
nelas. A mancha aproximava-se e, pouco a pouco, via-a subdividir-se,
multiplicar-se; por fim, um bando de patos negros passou por sobre a
minha cabeça, bifurcado em dois ramos, divergentes de um pato que
voava na frente, a formar um V. Era a inicial de “Vai”. Tomei isso
como sinal animador, como bom augúrio do meu propósito audacioso. No
domingo, de manhã, disse de um só jato à minha mãe:
— Amanhã, mamãe,
vou para o Rio.
Minha mãe nada
respondeu, limitou-se a olhar-me enigmaticamente, sem aprovação nem
reprovação; mas minha tia, que costurava em uma ponta da mesa,
ergueu um tanto a cabeça, descansou a costura no colo e falou
persuasiva:
— Veja lá o que
vai fazer, rapaz! Acho que você deve aconselhar-se com o Valentim!
— Ora qual! fiz
eu com enfado. Para que Valentim? Não sou eu rapaz ilustrado? Não
tenho todo o curso de preparatórios? Para que conselhos?
— Mas olhe
Isaías! você é muito criança... Não tem prática... O Valentim
conhece mais a vida do que você. Tanto mais que já esteve no Rio...
Minha tia, irmã
mais velha de minha mãe, não tinha acabado de dizer a última
palavra, quando o Valentim entrou envolvido num comprido capote de
baeta.
Descansou alguns
pacotes de jornais manchados de selos e carimbos; tirou o boné com o
emblema do Correio e pediu café.
— Você veio a
propósito, Valentim. Isaías quer ir para o Rio e eu acabo de
recomendar que se aconselhasse com você.
— Quando você
pretende ir, Isaías? indagou meu tio, sem surpresa e imediatamente:
— Amanhã, disse
eu cheio de resolução
Ele nada mais
disse. Calamo-nos e minha tia saiu da sala, levando o capote
molhado, e logo depois voltou, trazendo o café.
— Quer parati,
Valentim?
— Quero.
Revolvendo
lentamente o açúcar no fundo da xícara, meu tio continuou ainda
calado por muito tempo. Tomou um gole de café, depois um outro de
aguardente, esteve com o cálice suspenso alguns instantes,
descansou-o na mesa automaticamente e, aos poucos, a sua fisionomia
de largos traços de ousadia foi revelando um grande trabalho de
concentração interior. Minha mãe nada dissera até ai.
Num dado
momento, pretextando qualquer coisa, levantou-se e foi aos fundos da
casa. Ao sair fez a minha tia uma insignificante pergunta sobre o
arranjo doméstico, sem aludir à minha resolução e sem despertar meu
tio da cisma profunda em que se engolfara.
Ansioso,
deixei-me a ficar à espera de uma resposta dele, notando-lhe as
menores contrações do rosto e decifrando os mais tênues lampejos de
seu olhar. Houve um segundo que ele me pareceu ter suspendido todo o
movimento exterior de sua pessoa. A respiração como que parara,
tinha o cenho carregado, as rugas da testa larga e quadrada fixadas,
como se tivessem sido vazadas em bronze, e os olhos imóveis,
orientados para uma fresta da mesa, brilhantes, extraordinariamente
brilhantes e salientes, como que a saltar das órbitas, para farejar
o rasto provável da minha vida na intrincada floresta dos
acontecimentos. Gostava dele. Era um homem leal, valoroso, de pouca
instrução, mas de coração aberto e generoso. Contavam-lhe façanhas,
bravatas portentosas, levadas ao cabo, pelos tempos em que fora, nas
eleições, esteio do partido liberal. Pelas portas das vendas, quando
passava, cavalgando o seu simpático cavalo magro, com um saco de
cartas à garupa, murmuravam: “Que songamonga! Já liquidou dois...”
Eu sabia do
caso, estava mesmo convencido de sua exatidão; entretanto, apesar
das minhas idiotas exigências de moral inflexível, não me
envergonhava de estimá-lo, amava-o até, sem mescla de terror, já
pela decisão do seu caráter, já pelo apoio certo que nos dera, a mim
e a minha mãe, quando veio a morrer meu pai, vigário da freguesia de
***. Animara a continuar os meus estudos, fizera sacrifícios para me
dar vestuário e livros, desenvolvendo assim uma atividade acima dos
meus recursos e forças.
Durante os dois
anos que passei, depois de ter concluído humanidades, o seu caráter
atrevido conseguia de quando em quando arranjar-me um ou outro
trabalho. Desse modo, eu ia vivendo uma doce e medíocre vida
roceira, sempre perturbada, porém, pelo estonteante propósito de me
largar para o Rio. Vai Isaías! Vai!
Meu tio ergueu a
cabeça, passou o olhar demoradamente sobre mim e disse:
—Fazes bem!
Acabou de tomar
o café, pediu o capote e convidou-me:
— Vem comigo.
Vamos ao coronel... Quero pedir-lhe que te recomende ao doutor
Castro, deputado.
Minha tia trouxe
o capote, e quando íamos saindo apareceu também minha mãe,
recomendando:
— Agasalhe-te
bem, Isaías! Levas o chapéu-de-chuva?
— Sim senhora,
respondi.
Durante quarenta
minutos, patinhamos na lama do caminho, até à casa do Coronel
Belmiro. Mal tínhamos empurrado a porteira que dava para a estrada,
o vulto grande do fazendeiro assomou no portal da casa, redondo, num
longo capote e coberto de um largo chapéu de feltro preto.
Aproximamo-nos.
— Oh! Valentim!
fez preguiçosamente o coronel. Você traz cartas? Devem ser do
Trajano, conhece? Sócio do Martins, da Rua dos Pescadores...
— Não senhor,
interrompeu meu tio.
— Ah! É seu
sobrinho... Nem o conheci... Como vai, menino? Não esperou a minha
resposta; continuou logo em seguida:
— Então, quando
vai para o Rio? Não fique aqui... Vá... olhe o senhor conhece o
Azevedo?
— E disso mesmo
que vínhamos tratar. Isaías quer ir para o Rio e eu vinha pedir a
Vossa Senhoria...
— O quê?
interrompeu assustado o coronel.
— Eu queria que
Vossa Senhoria, senhor coronel, gaguejou o tio Valentim,
recomendasse o rapaz ao doutor Castro.
O coronel esteve
a pensar. Mirou-me de alto a baixo, finalmente falou:
— Você tem
direito, Seu Valentim... É... Você trabalhou pelo Castro... Aqui
para nós: se ele está eleito, deve-o a mim e aos defuntos, e a você
que desenterrou alguns.
Riu-se muito,
cheio de satisfação por ter repetido tão velha pilhéria e perguntou
amavelmente em seguida:
— O que é que
você quer que lhe peça?
— Vossa Senhoria
podia dizer na carta que o Isaías ia ao Rio estudar, tendo já todos
os preparatórios, e precisava, por ser pobre, que o doutor lhe
arranjasse um emprego.
O coronel não se
deteve, fez-nos sentar, mandou vir café e foi a um compartimento
junto escrever a missiva.
Não se demorou
muito; as suas noções gramaticais não eram suficientemente fortes
para retardar a redação de uma carta. Demoramo-nos ainda um pouco, e
quando nos despedíamos, o coronel abraçou-me dizendo:
— Faz bem,
menino. Vá, trabalhe, estude, que isto aqui é uma terra à-toa com
licença da palavra, de m... O Castro deve fazer alguma coisa por
você. Ele foi assim também... O pai, você o conheceu, Seu Valentim?
— Sim, coronel,
disse meu tio.
— ...era muito
pobre, muito mesmo... O Hermenegildo, o Castro, quis estudar. Nós...
nós não, eu, principalmente, que era presidente, arranjei-lhe uma
subvenção da Câmara... E foi assim. Hoje, acrescentou o coronel
imediatamente, não é preciso, o Rio é muito grande, há muitos
recursos... Vá menino!
Não chovia mais.
As nuvens tinham corrido de um lado do horizonte, deixando ver uma
nesga de céu azul.
Um pouco de sol
banhava aquelas colinas tristes e fatigadas, por entre as quais
caminhávamos.
As cigarras
puseram-se a estridular e vim vindo de cabeça baixa, sem apreensões,
cheio de esperanças, exuberante de alegrias.
A minha situação
no Rio estava garantida. Obteria um emprego. Um dia pelos outros
iria às aulas, e todo o fim de ano, durante seis, faria os exames,
ao fim dos quais seria doutor!
Ah! Seria
doutor! Resgataria o pecado original do meu nascimento humilde,
amaciaria o suplício premente, cruciante e onímodo de minha cor...
Nas dobras do pergaminho da carta, traria presa a consideração de
toda a gente. Seguro do respeito à minha majestade de homem, andaria
com ela mais firme pela vida em fora. Não titubearia, não hesitaria,
livremente poderia falar, dizer bem alto os pensamentos que se
estorciam no meu cérebro.
O flanco, que a
minha pessoa. na batalha da vida, oferecia logo aos ataques dos bons
e dos maus, ficaria mascarado, disfarçado...
Ah! Doutor!
Doutor!... Era mágico o título, tinha poderes e alcances múltiplos,
vários, polifórmicos... Era um pallium, era alguma coisa como
clâmide sagrada, tecida com um fio tênue e quase imponderável, mas a
cujo encontro os elementos, os maus olhares, os exorcismos se
quebravam. De posse dela, as gotas da chuva afastar-se-iam transidas
do meu corpo, não se animariam a tocar-me nas roupas, no calçado
sequer. O invisível distribuidor dos raios solares escolheria os
mais meigos para me aquecer, e gastaria os fortes, os inexoráveis,
com o comum dos homens que não é doutor. Oh! Ser formado, de anel no
dedo, sobrecasaca e cartola, inflado e grosso, como um sapo-intanha
antes de ferir a martelada à beira do brejo; andar assim pelas ruas,
pelas praças, pelas estradas, pelas salas, recebendo cumprimentos:
Doutor, como passou? Como está, doutor? Era sobre-humano!...
Estávamos quase
a chegar...
Pelo caminho,
viemos, os dois, calados. Eu todo entregue às minhas reflexões, que
meu tio, uma vez ou outra, vinha perturbar com uma pergunta
qualquer. Era sem vontade de continuar a conversa que eu respondia;
depois da terceira tentativa para entabulá-la. não insistiu mais. O
sol fugia aos poucos, as cigarras deixaram de cantar e quando
chegamos a casa, a chuva caiu novamente.
Almocei, sai até
à cidade próxima para fazer as minhas despedidas, jantei e, sempre,
aquela visão doutoral que me não deixava. Uma face dela me aparecia,
depois outra mais brilhante; esta provocava uma consideração, aquela
mais uma propriedade da carta onipotente. De noite, no teto da minha
sala baixa, pelos portais, pelas paredes, eu via escrito pela luz do
lampião de petróleo — Doutor! Doutor!
Quantas
prerrogativas, quantos direitos especiais, quantos privilégios, esse
título dava! Podia ter dois e mais empregos apesar da Constituição;
teria direito à prisão especial e não precisava saber nada. Bastava
o diploma. Pus-me a considerar que isso devia ser antigo... Newton,
César, Platão e Miguel Ângelo deviam ter sido doutores!
Foram os
primeiros legisladores que deram à carta esse prestigio
extraterrestre... Naturalmente, teriam escrito nos seus códigos:
tudo o que há no mundo é propriedade do doutor, e se de alguma coisa
outros homens gozam, devem-no à generosidade do doutor. Era uma
outra casta, para a qual eu entraria, e desde que penetrasse nela,
seria de osso, sangue e carne diferente dos outros — tudo isso de
uma qualidade transcendente, fora das leis gerais do Universo e
acima das fatalidades da vida comum.
— Levas toda a
roupa, Isaías? veio interromper minha mãe.
Eu estava
deitado num velho sofá amplo. Lá fora, a chuva caia com redobrado
rigor e ventava fortemente. A nossa casa frágil parecia que, de um
momento para outro, ia ser arrastada. Minha mãe ia e vinha de um
quarto próximo; removia baús, arcas; cosia, futicava. Eu devaneava e
ia-lhe vendo o perfil esquálido, o corpo magro, premido de
trabalhos, as faces cavadas com os malares salientes, tendo pela
pele parda manchas escuras, como se fossem de fumaça entranhada. De
quando em quando, ela lançava-me os seus olhos aveludados, redondos,
passivamente bons, onde havia raias de temor ao encarar-me. Supus
que adivinhava os perigos que eu tinha de passar; sofrimentos e
dores que a educação e inteligência, qualidades a mais na minha
frágil consistência social, haviam de trair fatalmente. Não sei que
de raro, excepcional e delicado, e ao mesmo tempo perigoso, ela via
em mim, para me deitar aqueles olhares de amor e espanto, de piedade
e orgulho. Aos seus olhos—muitas vezes se me veio a afigurar —eu era
como uma rapariga, do meu nascimento e condição, extraordinariamente
bonita, vivaz e perturbadora... Seria demais tudo isso; cercá-la-ia
logo o ambiente de sedução e corrupção, e havia de acabar por ai,
por essas ruas...
Por vezes,
também acreditei que ela nada quisesse exprimir com eles; que tinha
por mim a indiferença da máquina pelo seu produto. Que importa aos
teares de Valenciennes o destino de suas rendas?!
Eu a cria,
então, resignada a ficar ali, nas proximidades de uma cidade de
terceira ordem, tendo, de onde em onde, noticias minhas naquela
grande cidade que a sua imaginação a custo havia de representar. E
quem sabe se as noticias seriam de ordem a provocar-lhe dúvidas
sobre a sua maternidade?! Coitada! Pobre de minha mãe!
— Olhe, mamãe,
disse eu, logo que me arrume mando-a buscar. A senhora está ouvindo?
— Sim, respondeu
ela com fingida indiferença.
— Alugaremos uma
casa. Todos os dias, quando eu for trabalhar, tomarei a sua bênção;
quando tiver de estudar até alta noite, a senhora há de dar-me café,
para espantar o sono... Sim, mamãe?
E me pus a
abraçá-la efusivamente.
— É bom! Estuda,
Isaías, fez ela, desvencilhando-se de mim brandamente. Não te
importes comigo... Estuda, meu filho! Eu já estou velha, demais...
— Mamãe, não
acredita em mim.
— Acredito, meu
filho; mas... mas não quero sair daqui.
No dia seguinte,
quando me despedi, ela deu-me um forte abraço, afastou-se um pouco e
olhou-me longamente, com aquele olhar que me lançava sempre, fosse
em que circunstância fosse, onde havia mesclados, terror, pena,
admiração e amor.
— Vai, meu
filho, disse-me ela afinal. Adeus!... E não te mostres muito, porque
nós...'
E não acabou. O
choro a tomou convulsa e eu me afastei chorando.
II
A viagem de trem
correu enfadonha. Não sei se devido a falta de comodidade do banco,
não sei se às grandes emoções por que passara, o certo é que me
invadiu durante toda ela um letargo, um torpor que me chumbou o
corpo e me tornou a inteligência de difícil penetração. Encostado ao
espaldar do banco, viajava meio acordado, meio dormindo; de quando
em quando, um solavanco do carro abria-me violentamente os olhos e
obrigava-me a considerar mais detidamente a paisagem que fugia pela
portinhola do vagão.
Eram as mesmas
charnecas úmidas ao sopé de morros de porte médio, revestidos de um
mato ralo, anêmico, verde-escuro, onde, por vezes, uma árvore de
mais vulto se erguia soberbamente como se o conseguisse pelo esforço
de uma vontade própria.
O sol coava-se
com dificuldade por entre grossos novelos de nuvens erradias,
distribuindo sobre as coisas que eu ia vendo, uma luz amarelada e
desigual.
Pelo declive
suave de uma encosta, o tapete escuro do mato aparecia mosqueado,
com manchas arredondadas, claras e escuras, salpicadas com relativa
regularidade. Por aqui, por ali, trechos foscos e baços contrastavam
com tufos vivos, profusamente iluminados—rebentos de vida numa pele
doente...
O trem parara e
eu abstinha-me de saltar. Uma vez, porém, o fiz; não sei mesmo em
que estação. Tive fome e dirigi-me ao pequeno balcão onde havia café
e bolos. Encontravam-se lá muitos passageiros. Servi-me e dei uma
pequena nota a pagar. Como se demorassem em trazer-me o troco
reclamei: "Oh! fez o caixeiro indignado e em tom desabrido. Que
pressa tem você?! Aqui não se rouba, fique sabendo!" Ao mesmo tempo,
a meu lado, um rapazola alourado reclamava o dele, que lhe foi
prazenteiramente entregue. O contraste feriu-me, e com os olhares
que os presentes me lançaram, mais cresceu a minha indignação.
Curti, durante segundos, uma raiva muda, e por pouco ela não
rebentou em pranto. Trôpego e tonto, embarquei e tentei decifrar a
razão da diferença dos dois tratamentos. Não atinei; em vão passei
em revista a minha roupa e a minha pessoa. Os meus dezenove anos
eram sadios e poupados, e o meu corpo regularmente talhado. Tinha os
ombros largos e os membros ágeis e elásticos. As minhas mãos
fidalgas, com dedos afilados e esguios, eram herança de minha mãe,
que as tinha tão valentemente bonitas que se mantiveram assim,
apesar do trabalho manual a que a sua condição, a obrigava. Mesmo de
rosto, se bem que os meus traços não fossem extraordinariamente
regulares, eu não era hediondo nem repugnante. Tinha-o perfeitamente
oval, e a tez de cor pronunciadamente azeitonada.
Além de tudo, eu
sentia que a minha fisionomia era animada pelos meus olhos
castanhos, que brilhavam doces e ternos nas arcadas superciliares
profundas, traço de sagacidade que herdei de meu pai. Demais, a
emanação da minha pessoa. os desprendimentos da minha alma, deviam
ser de mansuetude, de timidez e bondade... Por que seria então, meu
Deus?
Os esforços que
fiz, mais espesso tornaram o capacete plúmbeo que me oprimia o
cérebro. O torpor tomou-me mais fortemente e por fim dormi, dormi
não sei quantas horas, não sei quantos minutos, pois que, ao
despertar, era boca da noite, e o crepúsculo cobria as coisas com
uma capa de melancolia por assim dizer tangível. Afagava, roçava
pelas minhas faces, tocava-me nas mãos de leve como uma pelúcia...
Por entre laranjais dourados de pomos maduros, a locomotiva corria
célere... Chegamos à estação terminal, mas não acabou ai a viagem.
Passamo-nos para uma barca que atravessou vagarosamente por entre
ilhotas até alcançar o largo da baia.
O espetáculo
chocou-me. Repentinamente senti-me outro. Os meus sentidos
aguçaram-se; a minha inteligência, entorpecida durante a viagem,
despertou com força, alegre e cantante... Eu via nitidamente as
coisas e elas penetraram em mim até ao âmago. Convergi todo o meu
aparelho de exame para o espetáculo que me surpreendia. Estive por
instantes espasmodicamente arrebatado, para um outro mundo,
adivinhado além das coisas sensíveis e materiais. Voluptuosamente,
cerrei os olhos; depois, aos poucos, descerrei as pálpebras para
olhar embaixo o mar espelhento e misterioso. A barca vogava, as
águas negras abriam—fingindo resistência, calculando a recusa.
O casario
defronte — o da orla da praia, envolvido já nas brumas da noite, e o
do alto, queimando-se na púrpura do poente — surgia revolto aos meus
olhos, bizarramente disposto sem uma ordem geometricamente definida,
mas guardando com as montanhas que espreitavam a cidade, com as
inflexões caprichosas das colinas e o meandro dos vales, um acordo
oculto, sutilmente lógico.
Evolava-se do
ambiente um perfume, uma poesia, alguma coisa de unificador, a
abraçar o mar, as casas, montanhas e o céu; pareciam erguidos por um
só pensamento, afastados e aproximados por uma inteligência
coordenadora que calculasse a divisão dos planos, abrisse vales,
recortasse curvas, a fim de agitar viva e harmoniosamente aquele
amontoado de coisas diferentes... O aconchego, a tepidez da hora, a
solenidade do lugar, o crenulado das montanhas engastadas no céu
côncavo, deram-me impressões varias, fantásticas, discordantes e
fugidias...
Havia um brando
ar de sonho, e eu fiquei todo penetrado dele. Andamos. Agora, a
barca movia-se ao longo de uma comprida ilha pejada de edifícios.
Mais perto, mais longe, pequenas lanchas corriam, erguendo para a
pureza do céu irreverentes penachos de fumo; na linha do horizonte,
havia uma terra baixa, ao fundo, onde dolentemente agitado pela
viração, um esguio coqueiro, firme e orgulhoso, crescia solitário;
grandes cascos escuros de saveiros e galeras ruminavam placidamente;
e botes velozes, cruzando as respectivas derrotas, brincavam sobre
as ondas como crianças travessas...
Um escaler
aproximou-se da barca, bem perto; a tripulação rubicunda entoava uma
canção, um hino. O escaler afastou-se logo, desdenhoso e superior.
Antes de
atracar, a noite caiu de todo.
Na cidade longos
riscos de fogo brilharam, juntos e espaçados, retos e curvos,
paralelos e emaranhados... Chegamos.
Quando saltei e
me pus em plena cidade, na praça para onde dava a estação, tive uma
decepção. Aquela praça inesperadamente feia, fechada em frente por
um edifício sem gosto, ofendeu-me como se levasse uma bofetada.
Enganaram-me os que me representavam a cidade bela e majestosa. Nas
ruas, havia muito pouca gente e do bonde em que as ia atravessando,
pareciam-me feias, estreitas, lamacentas, marginadas de casas sujas
e sem beleza alguma.
A Rua do
Ouvidor, que vi de longe, iluminada e transitada, em pouco diminuiu
a má impressão que me fez a cidade. Pouco antes de partir, havia-me
informado dos hotéis e, por essa ocasião, recomendaram-me o Hotel
Jenikalé, na Praça da República, de módica diária, para onde me
dirigi no propósito de me demorar os poucos dias exigidos para obter
a colocação que me daria o Deputado Castro. Fui jantar e sentei-me à
mesa redonda, onde havia já muita gente a falar de tudo e de todas
as coisas. Evitei travar conversa com qualquer dos circunstantes.
Jantei calado, de olhos desconfiados, baixos, erguendo-os de quando
em quando do prato para as gravuras que guarneciam a sala, sem me
animar a pousá-los na fisionomia de qualquer dos comensais. Não
obstante isso, alguém, pelo fim do jantar, venceu a minha
obstinação:
— Creio que
viemos juntos...
— Não me
recorda, fiz eu polidamente.
— Perfeitamente.
O senhor dormia quando embarquei.
— Pode ser...
Viajei quase sempre assim... Alonguei a resposta muito a custo e a
medo; mas, arrependido comecei a pesá-la bem e vi que por ela o meu
interlocutor não me poderia roubar o fraco pecúlio.
— Vim a
negócios... O senhor sabe, continuou o desconhecido; o senhor sabe;
quem quer vai, quem não quer manda... Se me limito a encomendar a
farinha — é uma desgraça! Chega azeda e de péssima qualidade — então
é um inferno! Os fregueses reclamam; a pretexto disso, não pagam.
Para evitar essas e outras, venho de dois em dois meses comprá-la,
eu mesmo... Veja o senhor, só é uma despesa, mas que se há de
fazer?! ...
— O senhor está
estabelecido?
— Em Itaporanga,
sim senhor; tenho uma padaria, pequena sim, mas rende. O senhor
sabe: o pobre não passa sem pão.
Aproveitei um
instante em que se virara para o vizinho, para analisar o padeiro de
Itaporanga.
Era um homem
baixo, de membros fortes, que respirava com força e
desembaraçadamente. Falando, torcia com a mão áspera, de antigo
trabalhador, o bigode farto. Descobria-se que na sua mocidade se
entregara a trabalhos grosseiros, mas que, de uns tempos a esta
parte, gozava de uma vida mais fácil e leve. O seu olhar, inquieto e
fugidio, mas vivo, quando se fixava, era de velhaco mercadejante,
bem com o código e as leis.
— O senhor veio
a passeio? perguntou-me.
— Não senhor,
disse-lhe de pronto. Vim estudar.
— Estudar!
— De que se
admira?
— De nada.
Em seguida,
abrindo o rosto queimado e ameigando a voz, em que havia
longinquamente o sotaque português, disse:
— Venha comigo,
doutor; vamos dar uma volta.
Não tive tempo
de opor uma resposta. O padeiro voltou-se para os fundos da sala e
gritou ao caixeiro:
— José!
Charutos...
Aquele homem ia
pondo em mim uma singular inquietação. A sua admiração tão explosiva
ao meu projeto de estudo, as suas maneiras ambíguas e ao mesmo tempo
desembaraçadas, o seu olhar cauteloso, prescrutador e sagaz, junto
ao seu ar bonacheirão e simplório, provocavam-me desencontrados
sentimentos de confiança e desconfiança. Havia nele tanta coisa
oposta à profissão que dizia ter que me pus a desconfiar — quem
sabe! Entretanto, a sua afabilidade, as suas mãos grossas...
— Ó José! Os
charutos? fez impaciente o negociante.
O caixeiro veio
capengando sobre umas amplas botinas, e estendeu-nos uma caixa cheia
de charutos claros, pimpantes, cujo aroma recendia e tentava a
fumá-los.
— Sirva-se,
doutor! São magníficos! O Machado recebe-os diretamente.
E com um franzir
de sobrolhos, deu-me a entender a origem semicriminosa dos charutos.
Picou a ponta com os dentes, e não sem uma certa elegância, chegou o
fósforo aceso ao seu e depois de esperar que eu também acendesse,
falou-me:
— O doutor
conhece o Rio?
— Não, fiz eu
prazenteiramente, pois que o tratamento me agradava. Era a primeira
vez que o recebia; lisonjeava-me naturalmente.
— Venha então
comigo. Não saio nunca, mas posso acompanhá-lo na primeira visita.
Podemos ir ao teatro, são oito e meia. Em dois minutos chego ali à
Confeitaria da Estrada, e antes das nove estamos no Recreio...
— Mas, meu caro
senhor...
— Laje da Silva,
um seu criado.
— Mas, meu caro
Senhor Laje da Silva, continuei, estou cansado. Seria melhor...
— Oh! o senhor!
Um menino! Deixe-se disso... Vamos, doutor.
O doutor era
mágico. Acedi e o Senhor Laje da Silva, negociante com padaria em
Itaporanga, muito orgulhosamente estendeu a perna esquerda, e dos
profundos refolhos da algibeira da calça respectiva tirou um maço
enorme de notas, escolheu uma e pagou os charutos que fumávamos.
III
“Os antigos
bebiam pérolas dissolvidas em vinagre. Não eram lá de gosto muito
fino e a extravagância nada significava. Eu bebo a verde esmeralda
sadia, emblema da mater Natureza, num copo de Xerez. Em vez
da pérola mórbida, doença de um marisco, no acre vinagre, bebo o
verde dos prados, a magnífica coma das palmeiras, o perfume das
flores, tudo que o verde lembra da grande mãe augusta!”
Lembrei-me no
dia seguinte dessa frase que o Raul Gusmão, um jovem jornalista, da
amizade do Laje da Silva, pronunciou solenemente devagar no botequim
do teatro, enquanto nos servíamos de bebidas. Disse-a com a sua voz
fanhosa, sem acento de sexo e emitida com grande esforço. Falar era
para a sua natureza obra difícil. Toda a sua pessoa. se movia, se
esforçava extraordinariamente; todos os seus músculos entravam em
ação; toda a energia da sua vida se aplicava em articular os sons e
sempre, quando falava, era como se falasse pela primeira vez, como
indivíduo e como espécie. Essa sua voz de parto difícil, esse
espumar de sons ou gritos de um antropóide que há pouco tivesse
adquirido a palavra articulada, deu-me não sei que mal-estar, que
não mais falei até à sua despedida. Tive medo de que me fosse
preciso empregar o mesmo esforço, que a minha palavra custasse
também aquela grande dor já olvidada e vencida pela nossa espécie; e
fiquei a ouvi-lo respeitosamente, tanto mais que nos tratou, a mim e
ao padeiro, com tal desdém, com tal superioridade que fiquei
entibiado, esmagado, diante do retrato, que dele fiz intimamente, de
um grande literato, universal e aclamado, espécie de Balzac ou
Dickens, apesar dos seus guinchos de Pithecanthropus.
Falava e não nos
olhava quase; errava os olhos—os olhos pequeninos dentro de umas
órbitas quase circulares a lembrar vagamente uma raça qualquer de
suíno—errava os olhos, dizia, pelo pátio do teatro, e quando nos
fixava trazia uma expressão de escárnio que ele mantinha com um
razoável dispêndio de energia muscular. Veio ter a nossa mesa por
instâncias do Laje da Silva. Ia passando um pouco afastado, quando o
meu companheiro lhe correu ao encontro e com os maiores rogos, o
trouxe para a mesa. Apresentou-nos e perguntou depois:
—Que toma,
doutor?
—Nada.
—Oh! Alguma
coisa... Um licor... Um conhaque?
—Vinho. Venha lá
um vinho! Hoje não há mais vinhos... O senhor, acrescentou,
voltando-se para mim com o seu ar fingidamente insolente; o senhor
porventura dá-me noticias dos vinhos de Esmirna e de Quios?
Desviou o rosto
sem esperar a resposta, tirou uma preguiçosa fumaça do charuto e
pôs-se a olhar pausadamente o teatro, alçando a vista às vezes até à
varanda; e, por fim, cheio de insolência e com aquela voz de parto
difícil, chamou o caixeiro e encomendou meio cálice de peppermint
e uma dose de Xerez. Simulando não perceber o nosso espanto, fez
algumas considerações sobre os vinhos antigos, confrontando-os com
os modernos, no sabor, na cor e no preparo, com um exato
conhecimento de ambos. Vieram-lhe as garrafas e o jornalista,
pegando na colherzinha com dois dedos e estendendo os outros de sua
mão polpuda, abacial, como ma qualificou mais tarde, misturou
ritualmente o verde peppermint no Xerez e foi por ai que disse: “Os
antigos”...
Diante dele, dos
seus gestos, das suas palavras, a impressão das mulheres, da
agitação do teatro, apagou-se-me completamente. Ele resumiu-me o
teatro, e fiquei com este encontro tão indelevelmente gravado que
ainda agora, ao traçar estas linhas, estou a vê-lo erguer-se da
cadeira com visível esforço, ficar um instante parado junto a nós,
com o alentado corpanzil encostado à bengala vergada, dizer cheio de
profundo aborrecimento — como isto é feio! — para então se afastar
por fim, vagarosamente...
Mal saiu, pedi
pormenorizadas informações ao Laje da Silva. Nos confins da minha
aldeia natal, eu não podia adivinhar que o Rio contivesse exemplar
tão curioso do gênero humano, uma desencontrada mistura de porco e
de símio adiantado, ainda por cima jornalista ou coisa que o valha,
exuberante de gestos inéditos e frases imprevistas. Laje da Silva,
porém, só sabia que ele tinha a Aurora à sua disposição, jornal
muito lido e antigo, respeitado e que, no tempo do Império, derrubou
mais de um ministério. Escrevia nos jornais; era o bastante. E essa
sua admiração, se era de fato esse o sentimento do padeiro, pelos
homens dos jornais, levava-o a respeitá-los a todos desde o mais
graduado, o redator-chefe, o polemista de talento, até ao repórter
de polícia, ao modesto revisor e ao caixeiro de balcão. Todos para
ele eram sagrados, seres superiores ou necessários aos seus
negócios, pois viviam naquela oficina de ciclopes onde se forjavam
os temerosos raios capazes de ferir deuses e mortais, e os escudos
capazes também de proteger as traficâncias dos mortais e dos deuses.
Laje não lhe conhecia as obras, nem mesmo os artigos e ficou
satisfeito que um outro conhecido seu viesse sentar-se sem cerimônia
alguma à nossa mesa, obrigando-me a não lhe fazer mais perguntas
sobre o Pithecanthropus literato. Era o Oliveira — não me conhece? O
Oliveira, do O Globo!... tão conhecido!... Oh!
O padeiro
ofereceu-lhe alguma coisa e perguntou amavelmente o que havia de
novo.
— Uma inundação
no Norte.
— No forte São
Joaquim, no Purus.
— Perdão! fiz eu
muito colegialmente. O forte São Joaquim não fica no Purus...
O Oliveira
olhou-me com alguma raiva e eu tive que comprimir a alegria colegial
do quinau. Mas a sua raiva foi breve; o repórter Oliveira procurou
uma saída conveniente para a sua ignorância numa critica larga e
patriótica:
— Esta nossa
geografia anda tão baralhada... O Governo não cuida nessas coisas. É
só política e “comidelas”... Tudo come... Uma vergonha! Do que o
pais precisa não cuidam... O senhor com certeza não conhece o rio
das Capivaras?
— Não, senhor,
fiz satisfeito por mostrar a meu turno a minha ignorância.
— Pois é um rio
importante e nenhuma geografia dá! Eu o conheço porque nasci perto,
senão... Nós não temos governo...
De manhã, pus-me
a recapitular todos esses episódios; e sobre todos pairava a figura
inflada, mescla de suíno e de símio, do célebre jornalista Raul
Gusmão. O próprio Oliveira, tão parvo e tão besta. tinha alguma
coisa dele, do seu fingimento de superioridade, dos seus gestos
fabricados, da sua procura de frases de efeito, de seu galope para o
espanto e para a surpresa. Era já o genial, com quem viria travar
conhecimento mais tarde, que me assombrava com o seu maquinismo de
pose e me colhia nos alçapões de apanhar os simples. E senti também
que o espantoso Gusmão e o bobo Oliveira me tinham desviado da
observação meticulosa a que vinha submetendo o padeiro de
Itaporanga. Achava extraordinário que um varejista de um vilarejo
longínquo cultivasse e mantivesse amizades tão fora do seu circulo;
não se explicava bem aquele seu norteio para os jornalistas, a
especial admiração com que os cercava, o carinho com que tratava
todos.
No teatro e na
rua, cumprimentou mais de uma dezena deles e apontou-me, sem lhes
falar, uma dúzia de outros. É de tal jornal diário, dizia; é de tal
semanário; “faz guerra, faz marinha”... Conhecia
minuciosamente toda a vida jornalística. Informava-me sobre os nomes
dos redatores, dos proprietários, dos colaboradores; sabia a tiragem
de cada um dos grandes jornais, como a de cada semanário de
caricaturas... Havia nisso uma mania pueril ou o que era? Não se
manifestava homem de leituras, político ou dado às letras; não lhe
senti a mais elementar preocupação intelectual; todo ele me pareceu
convergindo para os negócios, para as coisas de dinheiro,
especulações... Por isso, a sua jovialidade e sociabilidade não
impediram que, aqui e ali, repontassem em mim alguns propósitos
sobre a sua honestidade.
Houve um fato
que tornou um pouco mais consistentes as fluídicas suspeitas que
alimentava.
Acabando de
cear, ao pagar a conta, o padeiro examinou com o cuidado especial de
entendido o papel, a estampa e a numeração das notas do troco.
Notando que eu reparava com insistência para o seu exame pericial,
com a mais tranqüila das vozes e cheio de uma linda ingenuidade,
pediu-me:
— Faça o favor,
doutor: veja-me de que estampa é esta... Não posso ler direito...
E passava-me a
cédula velha, mas ainda em bom estado, em que li: estampa 9.a
— perfeitamente legível.
— Obrigado. É
preciso muito cuidado, meu caro doutor. A Casa da Moeda tem muitas
filiais por aí...
Com o seu gesto
habitual, estendeu a perna, arrumou as notas no maço e guardou-o no
fundo da algibeira.
Daí em diante,
não sei se com justeza, mas certamente com muita segurança intima,
tive por afetadas a sua simplicidade e bonomia, e julguei que
escondiam algo de grave que se desenrolava na sua vida e ainda não
tivera termo.
Pelo almoço, a
uma pergunta minha, o copeiro avisou-me que o padeiro tinha ido aos
subúrbios e não voltaria senão à tarde. Almocei vagarosamente e
tranqüilo. O dia estava fresco e azul. Pela janela avistava os
grandes relvados do jardim, muito verdes e macios, de uma maciez de
tapete e de um verde que afagava o olhar. Soavam onze horas quando
sai do hotel e vim vindo a pé até às ruas centrais da cidade. Era
cedo; não fui logo à Câmara. Fiquei vagueando pelas ruas à espera da
hora conveniente. Cansado de andar pelo centro, aventurei-me tomar
um daqueles bondes pequenos; chegando ao termo, bebi um refresco num
botequim sórdido das proximidades e tomei outro bonde que, me
informaram, levava à Câmara,. Não reparei que a meu lado se sentara
um homem acobreado, de cabelo liso mas de barba rala e crespa, ar
decidido e tórax forte; mas notara que, bancos adiante, um senhor de
cartola, fraque e calças brancas, tomara lugar à direita de uma
senhora, jovem ainda, cuja passagem pagara, sem que com ela trocasse
sequer um olhar. Observei-os intrigado; em meio da viagem o vizinho
segredou-me:
— Está vendo que
pouca-vergonha!? Um senador bolinar!
Não entendi.
Bolinar... Senador... O que era? O homem, entretanto, insistiu:
— Todo o dia é
aquilo... Uma vergonha! Se fosse outro, mas um senador!
Por esse tempo,
o par saltou, isto é, o senhor pouco antes, com o veículo em
movimento, e a senhora saltou adiante; e ambos, ao jeito de
desconhecidos, tomaram uma rua transversal. O meu vizinho não fez
mais nenhuma observação, não me deixando, porém, de olhar durante a
viagem toda e quando saltei, mal tinha pisado o passeio, cortou-me
os passos interpelando-me:
— Olhe, menino,
deixe-se disso, senão...
— Mas, o quê?
— Então não
sabe? Ora, não se faça de besta, continuou, atirando o chapéu para o
alto da cabeça.
— Mas...
— É isto que lhe
digo; não se meta na vida de “Seu” Carvalho... É um graúdo, pode ter
lá “seus arranjos” e não tem que dar satisfação a ninguém — fique
sabendo!
— Eu!
— Sim, você.
Olhou-me durante
instantes cheio de desafio e perguntou-me com redobrado atrevimento.
— Você não e
repórter do O Azeite, um jornaleco que anda por ai?
Soube muito
depois que O Azeite era um pequeno semanário em que se denunciavam
os namoros e também, com grosseiros circunlóquios, os escândalos
familiares e os adultérios da cidade.
A polícia sempre
perseguia tais publicações; mas, mudando de título e talvez de
proprietários, de quando em quando, ressurgiam com nomes mais ou
menos sugestivos e imorais.
Houve um que se
tornou célebre e durou bastante tempo: O Carbonário. Desapareceu e,
daí em diante, os que vieram à publicidade não se demoraram na
venda.
Não conhecia
essa espécie de imprensa, e só mais tarde vim a saber que “azeite”,
na gíria carioca, é namoro. Inocente em tudo, respondi com toda a
candura:
— Eu, não
senhor.
E com a
humildade que ditava a minha segurança, expliquei ao notável “Chico
Nove-Dedos” que havia chegado do interior, que não conhecia o
Senador Carvalho, que nada sabia dos “seus arranjos”, e que ia
entregar uma carta (mostrei-lha) a um deputado na Câmara, etc., etc.
O capanga
acreditou, desculpou-se, disse-me o nome e ofereceu-me a casa.
Dirigi-me para a Câmara. A minha simplicidade tinha julgado fácil
falar a um deputado na Câmara. Era proibido; só se trouxesse
ingresso; contudo, o porteiro disse-me que era melhor procurar o
doutor Castro na sua residência, que me ensinou; e eu fui assistir à
sessão para encher o tempo e para travar conhecimento com o
misterioso trabalho de fazer leis para um pais. De fato, subi
pensando no ofício de legislar que ia ver exercer pela primeira vez,
em plena Câmara dos Senhores Deputados — augustos e digníssimos
representantes da Nação Brasileira. Não foi sem espanto que descobri
em mim um grande respeito por esse alto e venerável oficio.
Lembrei-me daqueles velhos legisladores da lenda e da história: os
Manus, os Licurgos, os Moisés, os Sólons, os Numas — esses nomes
todos que os povos agradecidos pela fecundidade e pela sabedoria de
suas leis reverenciaram por dilatados anos, ergueram-nos à altura de
deuses, consagraram-lhes templos magníficos.
Embora não tendo
mais a velha crença, de que eles fossem inspirados pelos deuses, o
meu respeito baseava-se em motivos mais modernos, concordes com o
feitio de pensar do nosso tempo. Imaginava-os com uma tresdobrada
forças de sentidos e inteligência, podendo prever, adivinhar,
sentindo antes de expressos os desejos, as necessidades de cada um
dos milhões de entes que sofriam e viviam, que pensavam e amavam
pela vasta extensão da pátria. Foi com grande surpresa que não senti
naquele doutor Castro, quando certa vez estive junto dele, nada que
denunciasse tão poderosas faculdades. Vi-o durante uma hora olhar
tudo sem interesse e só houve um movimento vivo e próprio, profundo
e diferencial, na sua pessoa. quando passou por perto uma fornida
rapariga de grandes ancas, ofuscante de sensualidade. Nada nele
manifestava que tivesse um forte poder de pensar e uma grande força
de imaginar, capazes de analisar as condições de vida de gentes que
viviam sob céus tão diferentes e de resumir depois o que era preciso
para sua felicidade e para o seu bem-estar em leis bastante gerais,
para satisfazer a um tempo ao jagunço e ao seringueiro, ao camarada
e ao vaqueano, ao elegante da Rua do Ouvidor e ao semibugre dos
confins do Mato Grosso. Onde estava nele o poder de observação e a
simpatia necessária para entrar no mistério daquelas rudes almas que
o cercavam e o elegiam? Nada transpirava na sua preguiçosa e baça
personalidade.
Entrando na
Câmara, verifiquei que a grandiosa representação que eu fazia do
legislador, não se me tinha diminuído com o exame da opaca figura do
doutor Castro. Era uma exceção, mas certamente os outros deviam ser
quase semideuses, mais que homens, pois eu queria-os com força e com
faculdades capazes de atender e de pesar tão vários fatos, tão
desencontradas considerações, tantas e tão sutis condições da
existência de cada e da de todos. Para tirar regras seguras para a
vida total desse entrechoque de paixões, de desejos, de idéias e de
vontades, o legislador tinha que ter a ciência da terra e a
claridade do céu e sentir bem nítido o alvo incerto para que
marchamos, na bruma do futuro fugidio. Quanta penetração! quanto
amor! que estudo e saber não lhe eram exigidos! Era preciso tudo,
tudo! A Quiromancia e a Matemática, a Grafologia e a Química, a
Teologia e a Física, a Alquimia!... Era preciso saber tudo e sentir
tudo! Era na verdade um vasto e alevantado oficio!
Pensando, subia
a escada da Câmara dos Deputados da República dos Estados Unidos do
Brasil. Ao transpor a porta que dava para a galeria, vieram-me
recordações dos grandes nomes que aquela instituição vira. Primeiro,
as grandes figuras dos Andradas, orgulhosos e soberbos, no meio
daquela agitação dos nossos primeiros anos de vida política. Foi uma
rápida evocação: os dados históricos faltavam-me e os da tradição
nenhuns eram; e eu, no momento, só relembrei a calma figura do
patriarca que os retratos dos compêndios nos dão, e a eloqüência
tumultuária de Antônio Carlos a que freqüentemente se alude.
Com mais
insistência, em seguida as conversas caseiras fizeram-me ver ali
vultos mais próximos dos meus dias. Deles, me falava meu pai, em
raros dias, quando deixava a reserva eclesiástica e narrava
paternalmente à minha infância curiosa, cenas e fatos da vida
política do Império. Foi com palavras suas que me recordei de
Cotegipe, ágil e destro de espírito; do impetuoso Silveira Martins,
cheio de vigor, mas difuso na aplicação de sua força; de José
Bonifácio, o moço com a sua solenidade grandiosa e os seus amplos
períodos de grande estilo; mas, sobretudo, do que mais me recordei
naquele instante, foi da graça, da elegância, da sutileza e da
medida, desse aticismo que me pintaram em Francisco Otaviano de
Almeida Rosa...
Sentei-me no
último degrau de uma arquibancada grosseira, junto à balaustrada,
tendo embaixo o vazio de sala das sessões. Faziam a chamada. Ouvi
repetir uma chusma de nomes anódinos e obscuros. Eu tinha na cabeça
uma numerosidade de nomes de reis assírios, de faraós, de filósofos
gregos, de generais romanos, de romancistas franceses, de poetas
nacionais, de navegadores portugueses; entretanto, dos legisladores
da Pátria só um tinha na memória: era o do doutor Castro, quase meu
vizinho!
Feita a chamada,
as bancadas começaram a povoar-se. Junto ao presidente — a seu lado,
nas costas, junto aos secretários — foi-se fazendo uma aglomeração
imprevista. No espaço desguarnecido entre a mesa do presidente e a
primeira das bancadas, havia o transito de rua freqüentada; numa
porta ao fundo, um ajuntamento de guichet de teatro em
enchente.
Um grande
deputado de óculos e barba quadrada tonitroou: “Peço a palavra para
uma explicação pessoal”. O presidente voltou-se para um ajudante em
pé, atrás e à direita, ouviu-o e, depois de tê-lo ouvido, retrucou:
“Tem a palavra o Senhor Carlos Barromeu”. Com certeza, pensei, esse
homem foi ofendido e vai defender-se. “Senhor Presidente” começou,
“há uma patologia social como há uma individual”.
Em resumo: o seu
discurso afirmava que o chefe de policia de Santa Catarina era um
homem honesto e o jornalista que o insultara, um verme asqueroso e
um réptil nojento.
O deputado
sentou-se; a desordem aumentou. Encostado à primeira bancada, um
rapaz lia um folheto, ao longo da mesa presidencial, na frente,
atrás, dos lados, havia um vaivém continuado. Num momento dado, por
entre aquela mó de gente, surgiu toda de branco a híbrida figura de
Raul Gusmão, com a sua fisionomia de porco Yorkshire e o seu corpo
alentado de elefante indiano, tendo sempre nos lábios aquele sorriso
afetado, um horroroso ríctus, decerto o jeito de sorrir do
Pithecanthropus erectus.
Um tímpano soou
forte e rouco; fez-se um pouco de silêncio. O presidente disse
algumas palavras, das quais as últimas davam a palavra ao Deputado
Jerônimo Fagot. O miúdo deputado subiu à tribuna, limpou o suor,
arrumou os livros ao lado e preparou-se para falar. Fez-se silêncio,
depois de uma infernal contradança no recinto. Fagot começou: “É
sabido que a moeda boa expele a má. Desde 1842, pela Lei n°. 1.425
de 30 de setembro, desse ano, que o meio circulante nacional”...
Durante cinco
minutos, a Câmara ouviu-o atenciosamente; dentro em breve, porém, o
zunzum recomeçou. Não havia o ruído do começo, mas a desatenção era
geral. Para a mesa da presidência enxameava uma multidão; o
presidente já não era o mesmo; era um moço louro e magro.
Parecia que as
palavras de Fagot lhe morriam nos lábios: movia a boca e gesticulava
como um doido furioso. Os colegas desapegados da sua eloqüência
dividiam-se em grupos. À esquerda, lá ao longe, quase na minha
frente, alguns viam cartões-postais; um outro, sob os meus pés,
isolado, no burburinho, escrevia febrilmente, erguendo, de quando em
quando, a caneta para pensar; uma roda de três, à esquerda e ao
fundo, conversava sorrindo; ao fundo, ainda, mas um pouco à direita,
um deputado gordo, com o calor que com o correr do dia se fizera
forte, esquecido no sono, por detrás de um par de óculos azuis,
roncava perceptivelmente. Fagot falou cerca de meia hora; e, quando
deixou a tribuna, o presidente já era um terceiro deputado, um velho
com pince-nez de aros de ouro.
Preparei-me para
sair e, quando voltava as costas para o recinto, vi encostado a uma
janela no andar do recinto a figura espertalhona do Senhor Laje da
Silva. Saímos eu e um outro popular, a quem perguntei: Que faz essa
gente, hoje, aqui? Que fazem, respondeu-me, sei lá... Isto é,
explicou-me logo, o que fazem sempre: leis. Estávamos na rua. O dia
que amanhecera lindo, e relativamente fresco, esquentara e o calor
por aquela hora era forte como se estivéssemos em pleno verão.
Atravessei o
Largo do Paço. A fachada do velho Convento do Carmo apresentava uma
grande calma; os anos já lhe tinham dado a suficiente resignação
para suportar o sol terrível dos trópicos; o cavalo da estátua,
porém, parecia ter um movimento de impaciência para lhe fugir aos
ardores implacáveis.
O ar fizera-se
rarefeito e percebia-se a poeira que flutuava na sua massa. As
montanhas de Niterói recortavam-se nitidamente sobre o céu azul e
fino, que começava a ser manchado, lá no fundo da baia, por cima do
casario da Alfândega e do Mercado, por grandes pastas de nuvens
brancas. Ainda pouco familiarizado com o transito pesado da rua,
atravessei a Rua Direita cheio de susto, cercando-me de mil
cautelas, olhando para aqui e para ali, admirado que aquela porção
de gente trabalhasse sob sol tão ardente, sem examinar que valor
tinham as suas Câmaras e o seu Governo. E a facilidade com que os
aceitava, pareceu-me sentimento mais profundo, mais espontâneo, mais
natural que a minha ponta de crítica que já começava a duvidar
deles. Aventurei-me pela Rua do Ouvidor já preso a outros
pensamentos. Agora, tinha rápidas recordações de minha casa. Por
momentos, em face daquelas damas a arrastar toilettes de
baile pela poeira da rua, lembrei-me dos tristes vestidos de minha
mãe, da sua cassa eterna, da sua chita e do seu morim... Mas não
pude continuar por ai. Do interior de um café, o Laje chamou-me. Não
estava só; acompanhava-o o doutor Ivã Gregoróvitch Rostóloff,
jornalista brasileiro a quem fui apresentado.
— Do Jornal do
Brasil? perguntei.
—Não, senhor.
Trabalhei no O Combate, de Belém, na Gazeta de Leopoldina; no
Deutsches Tageblatt, de Blumenau; no Al-Barid, de São Paulo e aqui,
no Rio, no Harum Al-Raxid, órgão da colônia síria. Pretendo, porém,
acrescentou, entrar em breve para O Globo, onde vou fazer o artigo
de fundo e tratarei da política interna.
— Escreve em
muitas línguas?!
— Em dez.
— É
extraordinário, fiz eu, não podendo conter a minha parva admiração.
— Tive sempre
muito jeito... Logo, em menino, pelas primeiras lições de francês,
comecei a escrever... Depois, houve sempre em mim um desejo de ver
povos, de andar à aventura... Logo que sai da universidade, parti
para a Índia. Queria servir a um rajá, mas não há mais rajás. Fui à
China, ver se entrava como instrutor do exército do vice-rei de
Cantão. Não consegui. Parti para o Japão, onde fui chefe de uma
fábrica de pólvora... Tenho viajado muito...
— Você já esteve
em Paris, Gregoróvitch? indagou o padeiro.
— Ora! fez o
jornalista. Quem já não esteve lá! Estive na Índia, em Calcutá, onde
trabalhei ao lado do grande Rai Kisto—conhece doutor?
— Não.
— Quem? indagou
o Laje.
— Rai Kisto Das
Pal Beader, um grande jornalista hindu... Admira-me que o doutor não
o conheça; na Europa já se fala nele. O Professor Bouglé, de
Toulouse, cita o seu nome em uma das suas últimas obras...
— É vivo?
indaguei.
— Não. Morreu há
alguns anos.
O caixeiro veio
servir-nos café e o jornalista depois de sorver um trago,
perguntou-me:
— Já está
formado?
— Vou
matricular-me ainda, respondi sob o olhar de censura do Laje da
Silva.
— Direito?
— Medicina...
— Não é mau...
Toda a carreira serve, mas...
— O doutor é
formado em Direito? indaguei por minha vez
— Não. Formei-me
em Línguas Orientais e Exegese Bíblica, na Universidade de Sófia,
tendo começado o curso no Cairo.
Disfarcei a
vontade que me deu de rir, ouvindo tão extravagante titulo escolar.
Havia alguma coisa de opereta, mas o homem era tão simpático, tinha
sido tão amável e parecia tão ilustrado que me esforcei por sujeitar
o meu ímpeto de rir, soltando uma frase à-toa:
— Na Europa o
homem de estudo tem campo, sabe onde deve chegar; aqui...
— Qual, doutor!
Não há como a sua terra! A questão é pendurar, quando se entra, a
sobrecasaca de cavalheiro no Pão de Açúcar; e no mais — tudo vai às
mil maravilhas!
O padeiro ficou
atônito com a cínica franqueza do julgamento do jornalista. Teve um
assomo de virtude e objetou pudicamente:
— Nem tanto,
doutor! Nem tanto! olhe que ainda há homens honestos nesta terra e
em altas posições — o que é mais raro!
O doutor
Gregoróvitch dardejou-lhe um breve olhar sarcástico e expelindo uma
longa fumaça cheia de dúvida e de troça, disse devagar:
— Pode ser,
Laje! Quem sabe?
Só, subindo a
rua movimentada, pus-me a interrogar-me sobre o tal Gregoróvitch. De
que nacionalidade era? Que espécie de moralidade seria a sua? Com
aquele título burlesco de doutor em Línguas Orientais e Exegese
Bíblica, quem poderia ser ao certo? Um bandido? Um aventureiro
simplesmente? Ou um homem honesto, de sensibilidade pronta a
fatigar-se logo com o espetáculo diário e que por isso corria o
mundo? Quem seria? E jornalista! Jornalista em dez línguas
desencontradas! Mas era simpático o diabo, de fisionomia
inteligente...
Subi a rua.
Evitando os grupos parados no centro e nas calçadas, eu ia
caminhando como quem navegava entre escolhos, recolhendo frases
soltas, ditos, pilhérias e grossos palavrões também. Cruzava com
mulheres bonitas e feias, grandes e pequenas, de plumas e laçarotes,
farfalhantes de sedas; eram como grandes e pequenas embarcações
movidas por um vento brando que lhes enfunasse igualmente o velame.
Se uma roçava por mim, eu ficava entontecido, agradavelmente
entontecido dentro da atmosfera de perfumes que exalava. Era um gozo
olhá-las, a elas e à rua com sombra protetora, marginada de altas
vitrinas atapetadas de jóias e de tecidos macios.
Parava diante de
uma e de outra, fascinado por aquelas coisas frágeis e caras. As
botinas, os chapéus petulantes, o linho das roupas brancas, as
gravatas ligeiras, pareciam dizer-me: Veste-me, ó idiota! nós somos
a civilização, a honestidade, a consideração, a beleza e o saber.
Sem nós não há nada disso; nós somos, além de tudo, a majestade e o
domínio!
O ruído de uma
fanfarra militar, enchendo a rua, veio agitar a multidão que
passava. As janelas povoaram-se e os grupos arrimaram-se às paredes
e às portas das lojas. São os fuzileiros, disse alguém que ouvi. O
batalhão começou a passar: na frente os pequenos garotos; depois a
música estrugindo a todo o pulmão um dobrado canalha. Logo em
seguida o comandante, mal disfarçando o azedume que lhe causava
aquela inocente exibição militar. Veio por fim o batalhão. Os
oficiais muito cheios de si, arrogantes, apurando a sua elegância
militar; e as praças bambas, moles e trôpegas arrastando o passo sem
amor, sem convicção, indiferentemente, passivamente, tendo as
carabinas mortíferas com as baionetas caladas, sobre os ombros, como
um instrumento de castigo. Os oficiais pareceram-me de um pais e as
praças de outro. Era como se fosse um batalhão de sipaios ou de
atiradores senegaleses.
Era talvez a
primeira vez que eu via a forças armada do meu pais. Dela, só tinha
até então vagas noticias. Uma, quando encontrei, num portal de uma
venda, semi-embriagado, vestido escandalosamente de uma maneira
hibridamente civil e militar, um velho soldado; a outra, quando vi a
viúva do General Bernardes receber na Coletoria um conto e tanto de
pensões a vários títulos, que lhe deixara o marido, um plácido
general que envelhecera em várias comissões pacificas e bem
retribuídas...
O batalhão
passou de todo; e até a própria bandeira que passara, me deixou
perfeitamente indiferente...
IV
Se os senhores
algum dia quiserem encontrar um representante da grande nação
brasileira, não o procurem nunca na sua residência. Seja a que hora
for, de manhã, ao amanhecer mesmo, à hora do jantar, quando quiserem
enfim, se o procurarem, o criado há de dizer-lhes secamente: Não
está. Falo-lhes de experiência própria, porque, durante as inúmeras
vezes, a toda a hora do dia, em que fui ao Hotel Términus procurar o
Deputado Castro, apalpando a carta do coronel, tive o desprazer de
ouvir estas duas palavras do porteiro indiferente. Nas últimas
vezes, antes mesmo de acabar a pergunta, já o homenzinho respondia
invariavelmente da mesma desesperada forma negativa.
É bem fácil de
imaginar com que sorte de cogitações eu ia passando esses dias. O
meu dinheiro dentro em breve, pago o hotel, ficaria reduzido a
alguns mil-réis insignificantes. Não conhecia ninguém, não tinha a
mínima relação que me pudesse socorrer, dar-me qualquer coisa, casa
ao menos, até que me arranjasse. Saíra de meus penates, cheio de
entusiasmo, certo de que aquela carta, mal fosse apresentada, me
daria uma situação qualquer. Era essa a minha convicção, dos meus e
do próprio coronel. Tinha-se lá, por aquelas alturas, em grande
conta a força do doutor Castro nas decisões dos governantes e a
influência do velho fazendeiro sobre o animo do deputado.
Não era ele o
seu grande eleitor? Não era ele o seu banqueiro para os efeitos
eleitorais? E nós, lá na roça, tínhamos quase a convicção de que o
verdadeiro deputado era o coronel e o doutor Castro um simples
preposto seu. As minhas idas e vindas ao hotel repetiam-se e não o
encontrava. Vinham-me então os terrores sombrios da falta de
dinheiro, da falta absoluta. Voltava para o hotel taciturno,
preocupado, cortado de angústias. Sentia-me só, só naquele grande e
imenso formigueiro humano, só, sem parentes, sem amigos, sem
conhecidos que uma desgraça pudesse fazer amigos. Os meus únicos
amigos eram aquelas notas sujas encardidas; eram elas o meu único
apoio; eram elas que me evitavam as humilhações, os sofrimentos, os
insultos de toda a sorte; e quando eu trocava uma delas, quando as
dava ao condutor do bonde, ao homem do café, era como se perdesse um
amigo, era como se me separasse de uma pessoa bem amada... Eu nunca
compreendi tanto a avareza como naqueles dias que dei alma ao
dinheiro, e o senti tão forte para os elementos da nossa felicidade
externa ou interna...
A minha
ignorância de viver e falta de experiência quase deixavam
transparecer a natureza das minhas preocupações. O gerente do hotel
pareceu-me que as farejava. De quando em quando, procurava na
conversação amedrontar-me com o seu poderio, proveniente de
estreitas relações que mantinha com as autoridades. Assim entendi
ser o sentido das anedotas que contava. Uma vez — narrou ele —
depois de uma longa hospedagem, um hóspede quisera furtar-se ao
pagamento. Não tivera dúvidas, fora ao delegado auxiliar, um seu
amigo, o doutor Felício, contara-lhe o caso e o homem teve que
pagar, se quis tirar as malas. Com ele, era assim; não dormia. Nada
de justiça, de pretorias... Qual! Com a polícia a coisa vai mais
depressa, a questão é ter amigos bons e ele tinha-os excelentes; e,
em seguida, interrogando-me diretamente: O senhor não viu, ontem,
aquele homem gordo que jantou na cabeceira? É o escrivão da “X”. Os
escrivães, fique o senhor sabendo, é que são as verdadeiras
autoridades. Os delegados não fazem senão o que eles querem; tecem
os pauzinhos e... E o italiano rematou com um olhar canalha aquela
sua informação sobre a onipotência dos escrivães.
Foram de imensa
angústia esses meus primeiros dias no Rio de Janeiro. Eu era como
uma árvore cuja raiz não encontra mais terra em que se apóie e donde
tire vida; era como um molusco que perdeu a concha protetora e que
se vê a toda a hora esmagado pela menor pressão.
Oprimido com sua
antevisão de misérias a passar, de humilhações a tragar, o meu
espírito deformava tudo o que via. Os menores fatos que lhe caíam ao
alcance, eram aumentados de um lado, diminuídos de outro; fazia-se
outra coisa muito diversa para minha sensibilidade enfermiça, que a
imaginação guiava para sentir todos os terrores e ameaças. Perdia a
realidade da vista e vivia subdelirante num mundo de coisas
grotescas, absurdas e não existentes. Punha-me a apelar para o
Acaso, como se tivesse predileções. Esperava encontrar fortunas
perdidas, imaginava impossíveis combinações de acontecimentos que me
favorecessem e cheguei mesmo, por instantes, a supor que atos de
generosidade de minha parte bem podiam trazer-me o favor de gênios
benfazejos. Pelo correr do dia, depois do almoço, quando me vinha o
pensamento da minha situação, entrava no jardim, dia alto e morno.
Aqui e ali, gozando o viço educado do parque, encontrava fisionomias
fatigadas, tristes, tendo estampada na comissura dos lábios sem
forças a irreparável derrota na vida. Ao sol do meio-dia, dormitavam
pelos bancos, sob a sombra de árvores vigorosas. Sentava-me por
minha vez, sonhava alguns minutos, em seguida catava com o olhar o
chão, esquadrinhava-o bem. Era então com o coração palpitante que me
abaixava junto à relva para levantar do chão uma velha caixa de
fósforos, lavada e desbotada pelas chuvas, já sem rótulo, humilde
objeto que tenazmente resistira às vassouradas e às intempéries para
atrair o meu olhar maravilhoso. Como se fosse um furto, um crime,
apanhava-a a medo e, depois de inspecionar com cuidado os arredores,
abria-a com respeito, comovido, trêmulo, esperando — oh! meu Deus! —
que dentro dela houvesse uma nota de quinhentos mil-réis.
Oh! quantas
vezes não apelei para o Acaso, para o Milagre! Quantas! Os deuses
vinham-me ao pensamento com o seu indispensável cortejo de fadas e
de anjos... Uma noite, andando eu deambulando por umas ruas desertas
do interior da cidade, fui dar não sei a que praça, em que havia ao
fundo uma grande casa; ia distraído, completamente entregue às
minhas preocupações, cabisbaixo, quando alguém me tomou os passos e
me falou com uma voz de apiedar. Era uma mulher andrajosa; parei e
ouvi-a. Balbuciante, contou-me misérias, a fome dos filhos,
moléstias, por fim, não pôde mais falar — prorrompeu em choro...
Evoquei logo aquelas histórias de fadas e gnomos, aquelas histórias
morais em que os gênios misteriosos vêm pela terra em disfarce, para
experimentar os corações dos mortais e eu... e eu dei uma nota de
esmola, uma nota graúda que me sangrou fortemente a algibeira
linfática. Mesmo depois que sai daquela praça erma, e que de mim se
foi a comoção da surpresa, eu esperei a recompensa, a recompensa dos
céus para aquele meu ato generoso. Alternativamente apelava para o
Mistério e para as potências terrestres. Aferrara-me a duas amarras,
uma no Mistério e outra nas coisas do mundo. Todo o dia ia ao hotel,
cheio de alacridade, figurando comigo mesmo ao encontro com o
deputado, imaginava-lhe a bondade do acolhimento, a piedade e a
simpatia pelo meu estado e pelos meus desejos. Imaginava-me daí a
dias empregado, num lugar modesto, de renda certa, dentro de um mês
indo à faculdade, as atribuições do trote, os apertos do exame, os
anos seguindo-se, as notas, os lentes, a tese, a formatura...
Ia assim
risonho, cheio de mim, contente de viver, chegava ao hotel; falava
ao porteiro e voltava amargurado sobre os meus passos felizes. De
tarde, repetia a visita, e mais uma vez voltava desalentado, para
ficar na janela do hotel, desanimado, oprimido de saudades do
sossego, da quietude, da segurança do meu lar originário. Era quando
me encontrava com os outros hóspedes. Laje da Silva andava sempre
fora, mas os outros lá estavam depois do jantar. Ao pôr-me à janela,
lá vinha o velho Coronel Figueira, um fazendeiro, sem bigode e barba
cerrada, à antiga portuguesa, cheio de mansidão na voz e orgulho no
tratar.
— Está vendo a
tarde, hein menino?
— Estou.
— Como isto está
mudado! Conheci isto quando ainda era um brejo, um depósito de
cisco... Havia barrancos, covas, capinzais... As lavadeiras faziam
disto coradouro... Acolá (apontou) estava o teatro, o Provisório...
Oh! o Provisório... Eu me lembro que... (eu era muito rapaz,
muito...) vim com meu pai assistir à “Sonâmbula”... Nunca vi uma
sala tão bonita... A Stoltz cantava... Nunca ouviu falar nela?
— Não senhor! E
perguntei logo: O senhor é do Rio?
— Não, mas vinha
quase sempre aqui. Meu pai tinha fazenda na Raiz da Serra. Hoje,
aquilo não vale nada, mas no tempo dele a estrada a não tinha matado
e era lugar rico... Conheço muito o Rio... Quando fui para o Sul em
65, passei por aqui... O Imperador veio ver o desfilar do
batalhão... Eu ia triste, pensava em morrer... Não morri, voltei,
estou aqui... Está tudo mudado: Abolição, República... Como isso
mudou! Então de uns tempos para cá, parece que essa gente está
doida; botam abaixo, derrubam casas, levantam outras, tapam umas
ruas, abrem outras... Estão doidos!!!
— Há quanto
tempo não vem ao Rio, coronel?
— Desde 1882.
Semivazios, os
bondes passavam ao chouto das bestas. Pelas calçadas, um vaivém de
gente animava a praça. À direita, a grande e acaçapada fachada do
quartel-general começava a recolher-se na sombra Mulheres
maltrapilhas, aos grupos, negras, mulatas, brancas, bamboleando as
ancas, eram seguidas por soldados gingando. As calças pareciam mais
vermelhas e as mulheres mais sujas. Um coche de enterro arrancava
respeitosamente os chapéus aos transeuntes; um caminhão, pejado de
fardos, por instantes interceptava a marcha dos bondes, ao
desviar-se de uma andorinha que vomitava móveis, mal suspensos por
cordas à sua traseira... passava tudo isto sob os meus olhos tristes
e desalentados.
O coronel
tinha-se ido; e eu deixava-me a ver e a meditar na solução do meu
problema de vida. O meu olhar ia de baixo para o alto, onde flocos
de nuvens alvadias, esgarçadas, flutuavam e se tingiam de ouro, de
púrpura, de laranja, em rápidas mutações de teatro. Vinha a noite
aos poucos e eu continuava a pensar, acariciando cismas, excitando
recordações, rememorando a minha infância, as fisionomias que ela
viu e os fatos que presenciou. Meu pai, o seu corpo anguloso, seco,
a sua dor contida que se escapava no seu olhar e na sua fisionomia
transtornada. Via-o às tardes, nos dias de bom humor, mudá-la de
chofre, fazer-se risonho, vir para mim, sentar-se à mesa, e, à luz
do lampião de querosene, explicar-me pitorescamente as lições do dia
seguinte. Ou então, da cadeira de balanço, contar-me as maravilhosas
coisas do movimento da terra, dos antípodas, da gravitação
universal, e, enleado à minha pergunta se Deus podia parar a terra,
responder com hesitação — Pode, sim.
Às oito horas,
depois dessas efusões, dessas raras manifestações da sua
paternidade, minha mãe punha, na mesa da sala de jantar, o chá que
ele tomava em geral sozinho no quarto.
— Pode tirar o
chá, “seu” padre?
— Pode, minha
filha.
Era assim que se
falavam. Encontrei sempre esse tratamento distante entre eles.
Pareceu-me que o seu encontro fora rápido, o bastante para me dar
nascimento. Uma crise violenta do sexo fizera esquecer os votos do
seu sacerdócio, vencera a sua vontade, mas, passada ela, viera, com
o arrependimento da quebra do seu voto, a dor inqualificável de não
poder confessar a sua paternidade.
Ele amou-me
sempre, talvez me quisesse mais por causa das condições que
envolviam o meu nascimento. Em público, olhava-me de soslaio, media
as carícias, esforçava-se por fazê-las banais; em casa, porém,
quando não havia testemunhas, beijava-me e afagava-me com
transporte. Ele temia o murmúrio, temia dar-lhe força com atos ou
palavras públicas; entretanto toda a redondeza quase seria capaz de
atestar em papel selado a minha filiação...
Vinha o chá, nós
ficávamos a tomá-lo e ao menor ruído minha mãe vinha do interior da
casa para saber se meu pai queria alguma coisa. Acabado o chá, eu
ainda ouvia “história” da tia Benedita, uma preta velha, antiga
escrava do meu reverendo pai. Eram cândidas histórias da Europa,
coisas delicadas de paixões de príncipes e pastoras formosas que a
sua imaginação selvagem transformava ou enxertava com combates de
gênios maus, com malefícios de feiticeiras, toda uma ronda de forças
poderosas e inimigas da vida feliz dos homens. Tal fora a minha
infância, que, nas dobras da saudade, aquela tarde carregada de
cogitações vitais à minha vida, me vinha trazendo à memória com uma
nitidez assombrosa. Cansado de olhar a rua e de pensar, desci ao
pavimento térreo, à sala de jantar onde o Coronel Figueira e o
Senhor Laje da Silva conversavam. Mal entrara, prazenteiramente,
este exclamou: — Oh doutor!
Era assim sempre
que ele falava ao encontrar-me. Tinha sempre atenções, pequenas
delicadezas; tratava-me como se eu fosse um “doutor” de fato, com
influência, inquirindo sobre os meus amigos e as minhas relações. Se
me encontrava na rua, obsequiava-me o talento de que ele não tinha a
mínima noticia. Quase sempre pela conversa, indagava das minhas
amizades, das minhas relações; se eu era colega de F., se me dava
com beltrano, se estudava isto ou aquilo. Eu respondia-lhe
simplesmente, ingenuamente que não, que não conhecia ninguém a não
ser o doutor Castro, o deputado. Ele não deixava transpirar nada,
nem uma contração, nem uma ruga que fizesse descobrir como recebia
essas minhas respostas; mas também em coisa alguma modificava o
tratamento; continuava a ser o mesmo, o mesmo Laje da Silva,
mesuroso, afável, informado e loquaz a seu jeito. Não sei o que
esperava de mim, o certo é que, durante os meus primeiros dias no
Rio, recebi dele as mais respeitosas homenagens, as maiores
considerações. Embora ensoberbecesse a minha vaidade de colegial,
continuava a sentir no padeiro muito de desonesto, de falcatrueiro,
para me ligar inteiramente a ele. Evitava-o, fugia-lhe, mas não
tinha coragem para lhe dar a entender francamente que não lhe queria
amizade. Aceitava-lhe as homenagens, os refrescos, conversava, mas
sempre com um pequeno medo de que ele me metesse nalguma embrulhada
com a polícia.
Foi com grande
surpresa que o avistei: supunha-o fora e não pude reprimir o espanto
que isso me causara. Ele não se alterou; respondeu-me cheio de
bonacheirice:
— É verdade,
doutor... sim, não há nada que fazer... tudo por aí está
explorado... Uma miséria! Já se colocou?
A pergunta
desagradava-me e ele fazia-ma sempre. Ensaiei diversas respostas e
por fim respondi-lhe capciosamente:
— Ainda não; mas
dentro em breve, creio...
O Coronel
Figueira, que falava quando entrei, desejoso de continuar a palestra
interrompida, logo que percebeu acabados os cumprimentos, dirigiu-se
a mim de supetão:
— Doutor, pode
haver ladroeira na loteria?
Pensei um
instante, mas sem encontrar base para uma resposta segura, respondi
dubitativamente:
— Pode ser.
E logo o velho
coronel, com a sua voz nasal e cheia, em que havia no momento uma
grande satisfação:
— Eu não
dizia?... É, sim... Como não pode?
— Mas por quê,
coronel?
Então
explicou-me que discutia isso com Laje e como ele me soubesse um
rapaz preparado, apelara para mim.
— Mas como pode
haver ladroeira... É impossível... As rodas são examinadas,
suspensas do solo... Se houvesse qualquer fio, dava-se logo com ele
— não acha?
— Mas então,
“seu” Laje, como explica que o “gato” possa ficar “preso” três
meses?
— E a sorte,
objetou Laje.
— Qual sorte,
fez o coronel furioso. É bandalheira; é eletricidade ... Ninguém me
tira disso. Olhe: há vinte dias sigo a “borboleta”... Dava sempre,
agora não dá mais... Vejo os jornais, a Joaninha, a Chapinha, compro
o Palpite, a Mascote, a Ronda — todos dão a “borboleta”. Jogo...
“borboleta” não dá. Faça o favor, doutor, veja aqui o Jornal do
Brasil.
Desdobrou com
cuidado a folha popular e apresentou-me o lugar em posição
conveniente. Eu não cogitava que aquele assunto pudesse apaixonar
tão intensamente o velho coronel que me parecia ser um homem rico;
mesmo não entendia daquilo, mas embora admirado e fora da matéria,
prestei-me graciosamente:
— Procure, disse
ele, à esquerda o número 154... Viu?
— Sim senhor.
— Junte o
“peru”... Não é “peru” que está pintado?
— É... Mas como?
— Junte o
“peru”.
— Como?
— Ora, some o
“peru”, grupo 20.
— Ahn! 174.
— Inverta.
— 471.
— Qual! nada!
714, borboleta — não é? E sem esperar a resposta continuou: Está aí,
o Jornal dá, a Gazeta dá também e o bicho não sai há vinte dias... O
doutor não joga?
— Não senhor.
— Por quê?
— Não gosto;
depois, é proibido.
— Proibido! A
polícia! exclamou Laje.
— Não é isso,
fiz eu vexado daquela minha confissão. Temo perder dinheiro.
— Ah, bom! Diga
isso! Pela polícia, não; ela vive com os bicheiros... não serve pra
nada, fique certo.
— Eu pensava
que...
— Qual! Para o
que foi feita não serve. Serve para perseguir, executar vinganças,
como eu já fui...
— O senhor!
dissemos os dois a um só tempo.
— Exato! eu!
exclamou um tanto exaltado.
— Como!
— Ora, como?!
Uma cilada... Vinha no trem, e, num dado lugar, um sujeito sentou-se
a meu lado e pôs o seu chapéu-de-sol junto à janela. Eu viajava
desse lado. Saltou e levou o meu, deixando o dele. Quando chegamos,
entrou pelo trem um magote de policiais, prenderam-me, revistaram-me
e foram dar com o tal chapéu cheio de notas falsas de cem mil-réis.
— Foi preso?
— Preso, só? Fui
esbordoado, metido numa enxovia, gastei dinheiro... O diabo! E sabe
por que tudo isso?
— Não.
— Porque eu
apoiava a oposição lá no meu município... É isto a polícia, no
Brasil... Eu posso falar: sou brasileiro... A polícia no Brasil só
serve para exercer vinganças, e mais nada.
—Por que não
processou as autoridades, “seu” Laje? perguntei.
— Qual, menino!
você é muito ingênuo. Crê na justiça, ora!
O Coronel
Figueira continuou as suas queixas contra as loterias e eu
aproveitei uma calma na conversa para me retirar. Conforme o meu
hábito roceiro, dormia cedo. Dirigi-me logo para o quarto. A minha
situação obcecava-me. Se não arranjasse o emprego, que faria?
Vinha-me sempre essa pergunta, depois afigurava-se-me impossível a
sua condicional. não era a carta de pessoa influente? Por que não
havia de obter o emprego? Se até então eu não lograra falar ao
deputado, a culpa era minha: não lhe indagara os costumes; não sabia
ao certo a que horas se recolhia ou saia. Devia tê-lo feito com
cuidado e não limitar-me a ir lá todos os dias, às mesmas horas,
como estava fazendo há tantos dias. E logo concluí: amanhã, ao
acordar me, posto-me à porta do hotel; ficarei lá o dia inteiro até
vê-lo sair ou entrar, e então, cheio de decisão, abordá-lo-ei como o
meu estado exige. Fiquei admirado de que um alvitre tão simples só
me tivesse lembrado tantos dias depois. Deitado, tive uma imensa
alegria, de quem acaba de descobrir a solução de um problema, que
preocupa a atenção de quatro gerações de sábios. Dormi satisfeito,
de um sono profundo e sem sonhos. Pela manhã, prescindi o café e
pus-me a caminho.
O Hotel Términus
estava ainda fechado. Esperei junto a um café aberto. Dai a
instantes, aproximou-se da porta a carrocinha que vai ao mercado. Da
boléia, saltou um rapazinho vivaz, simpático e ligeiro. Trocou umas
palavras com o cocheiro e veio em direção ao café. Tomei-lhe os
passos e perguntei pelo doutor Castro.
— O deputado?
— Sim! O
deputado...
— Mora, não há
dúvidas; mas quase nunca dorme no hotel. Lá é sua residência
oficial; mas de fato onde ele mora, é na Rua dos Irmãos Araújos, 27,
Vila Isabel.
— Ué! Por quê?
— O senhor é do
Rio? fez, sem responder-me diretamente, o criado.
— Não.
— Está se vendo,
senão não se admirava. O senhor sabe: esses homens têm seus arranjos
e não querem que ninguém saiba. É por isso. Agora, não vá dizer que
eu... Veja lá!
Eu não conhecia
bem os bairros da cidade. Não lhes sabia a importância, o valor, nem
as suas vias de comunicações com o centro, donde não me tinha
afastado até ali, senão para fazer um passeio de pragmática a
Botafogo, de que não gostei. Tive que indagar o caminho e o bonde,
depois então corri ao ponto respectivo Viajei cheio de ansiedade,
com o sangue a correr aceleradamente pelas artérias, repetindo
mentalmente o nome da rua e o número da casa do doutor Castro. Houve
uma vez que me saltaram pela boca fora, com grande espanto do meu
vizinho da esquerda. As ruas estavam animadas, havia um grande
trânsito de veículos, criadas com cestos, quitandeiros, vendedores
de peixe. Aqui e ali, com os cestos arriados, à porta de uma ou
outra casa, discutiam a venda das suas mercadorias com as donas das
casas ainda quase em traje de dormir. Pelas esquinas, as vendas
estavam cheias. O condutor ensinou-me a rua e eu segui a pé na
direção indicada. Não seriam ainda nove horas quando bati no número
vinte e sete, uma casa apalacetada, afastada da rua, no centro do
terreno, entrada do lado e varanda, jardim na frente e bojudas
compoteiras no telhado. A casa erguia se do solo sobre um porão de
boa altura, com mezaninos gradeados e as janelas, de sacadas a olhar
para os pequenos canteiros do jardim, a essa hora povoados de flores
que desabrochavam, murchas por aquela manhã quente.
Bati. Quem é —
perguntou uma senhora do alto da escada, à soleira da porta de
entrada. Que podia responder?! Quem era eu? Sei lá... Dizer o meu
nome?... Como responder?... Afinal, disse bem idiotamente: Sou eu.
Suba, respondeu-me ela. Entrei e subi. Que deseja? Era uma rapariga
moça, entre vinte e cinco ou trinta anos, de grandes quadris e seios
altos; vinha envolta num roupão rosado e tinha o cabelo, curto e
pouco abundante, desnastrado por sobre uma toalha alvadia. Toda ela
deu-me uma impressão de veludo, de pelúcia, de coxim macio e
acariciante. Logo que me aproximei, de novo, me perguntou
languidamente, deixando ver os dentes imaculados: — Que deseja?
Expliquei-lhe rapidamente que vinha do distrito do deputado e lhe
queria falar. Fez-me entrar na sala, descansou o jornal que até
então conservara na mão esquerda, e explicou-me com bondade:
— O doutor ainda
não se levantou; mas não tarda... Esteve trabalhando até tarde... O
senhor sabe: são pareceres sobre pareceres... Há de esperá-lo um
pouco, sim?
—Pois não, minha
senhora.
Não disse a
resposta com naturalidade, esforcei-me por fazê-la polida e amável,
e saiu-me por isso completamente desajeitada. Sempre fui assim
diante das senhoras, qualquer que seja a sua condição; desde que as
veja num ambiente de sala, são todas para mim marquesas e grandes
damas. E um sentimento perfeitamente imbecil, de que até hoje não me
pude libertar. Certa ocasião mesmo fui por isso de um ridículo sem
nome. Gregoróvitch ceava comigo num restaurante da moda. Era da
meia-noite para uma hora; a sala estava cheia de raparigas de vida
airada. Tendo esbarrado a minha cadeira na de uma delas, pedi com
grande humildade cortesã: — Desculpe-me Vossa Excelência. A mulher,
uma grande espanhola cheia de rugas e pó-de-arroz, olhou-me cheia de
raiva e desandou-me uma descompostura julgando que eu a troçava.
Gregoróvitch, porém, interveio e deu-lhe explicações cabais na sua
língua de origem. Ela riu-se muito, contou à companheira e em breve
a sala toda me olhava, com uma risota nos lábios.
Diante daquela
mulher, na casa particular do deputado, cuja situação nela era fácil
de descobrir, eu fiquei nessa atitude de menino tímido que me
invade, sempre que estou em presença de mulheres, numa sala
qualquer. Não lhe falei; não pude provocar a palestra; ela
fatigou-se de olhar, levantou-se desculpando-se: — “O senhor há de
me desculpar... Tenho que fazer, vou até lá dentro e o doutor não há
de tardar”.
Ainda hoje,
depois de tantos anos de desgostos dessa relação continua pela minha
luta intima, precocemente velho pelo entrechoque de forças da minha
imaginação desencontrada, desproporcionada e monstruosa, lembro-me —
com que saudade! com que frenesi! — do inebriamento que essa mulher
deu aos meus sentidos, com o seu perfume violentamente sexual, acre
e estonteante, espécie de requeime das especiarias das Índias...
Ergueu-se e foi lentamente pelo corredor em fora; e eu segui com o
olhar a sua nuca tentadora com tonalidade de bronze novo.
Eu conhecia a
legitima esposa do Castro. Que diferença! Era quase uma velha
encarquilhada, cheia de pelancas e fatuidade...
Quando perdi de
vista a moça pus-me a reparar na sala, com umas oleogravuras
sentimentais e uns bibelots de pacotilha. Demorei me assim
uma meia hora; por fim, o homem veio. Entreguei-lhe a carta. Leu a
num instante, tendo na testa uma ruga de aborrecimento; depois
perguntou me:
— É o senhor?
— Sim senhor.
— Você (mudou
logo de tratamento) sabe perfeitamente como as coisas vão: o pais
está em crise, em apuros financeiros, estão extinguindo repartições,
cortando despesas; é difícil arranjar qualquer coisa; entretanto...
— Mas doutor eu
não queria grande coisa... Cem mil-réis por mês me bastava... Todos
por ai arranjam e eu...
— Sim... Sim...
Mas têm grandes recomendações, poderosos padrinhos — eu, o que
valho? nada! Ainda agora o Ministro do Interior não nomeou o meu
candidato para juiz do júri...
— Se Vossa
Excelência quisesse...
— Você por que
não faz concurso?
— Não posso, não
os há anunciados e eu preciso qualquer coisa já...
E assim fomos
conversando: ele falsamente paternal e eu, a medida que o diálogo se
prolongava, caloroso e eloqüente. Houve ocasião em que ele exprobrou
essa nossa mania de empregos e doutorado, citando os ingleses e os
americanos. — Todo o mundo quer ser doutor... Corei indignado e
respondi com alguma lógica, que me era impossível romper com ela; se
os fortes e aparentados, os relacionados para a formatura apelavam,
como havia eu, mesquinho, semi-aceito, de fazer exceção?
Recomendou-me que o procurasse no escritório, que havia de ver...
Se bem que me
tivesse acolhido com polidez, senti que o coronel nada decidia no
animo do deputado. Julguei que mais do que pela carta o seu
acolhimento fora ditado por uma frouxidão de caráter, por certa
preguiça de vontade e desejo de mentir a si mesmo. A sua fisionomia
empastada, o seu olhar morto e a sua economia de movimentos deram-me
essa impressão. Demais aquela ruga na testa quando deu comigo...
No bonde,
comprei um jornal. O veículo ia se enchendo: meninas da Escola
Normal, cheias de livros, de lápis e réguas; funcionários de roupas
surradas; pequenos militares com uniformes desbotados...
Conversavam;
discutiam os casos políticos e os de polícia, enquanto eu lia. Num
dado momento, na segunda página, dei com esta noticia: “Parte hoje
para São Paulo, onde vai estudar a cultura do café, o doutor H. de
Castro Pedreira, deputado federal. Sua Excelência demorar-se-á...”
Patife! Patife!
A minha indignação veio encontrar os palestradores no máximo de
entusiasmo. O meu ódio, brotando naquele meio de satisfação, ganhou
mais força. Num relâmpago, passaram-me pelos olhos todas as misérias
que me esperavam, a minha irremediável derrota, a minha queda aos
poucos — até onde? até onde? E ficava assombrado que aquela gente
não notasse o meu desespero, não sentisse a minha angústia...
Imbecis! pensei eu. Idiotas que vão pela vida sem examinar, vivendo
quase por obrigação, acorrentados às suas misérias como galerianos à
calceta! Gente miserável que dá sanção aos deputados, que os
respeita e prestigia! Por que não lhes examinam as ações, o que
fazem e para que servem? Se o fizessem... Ah! se o fizessem! Que
surpresa! Riem-se, enquanto do suor, da resignação de vocês, das
privações de todos tiram ócios de nababo e uma vida de sultão...
Veio-me um assomo de ódio, de raiva má, assassina e destruidora; um
baixo desejo de matar, de matar muita gente, para ter assim o
critério da minha existência de fato. Depois dessa violenta sensação
na minha natureza, invadiu-me uma grande covardia e um pavor sem
nome: fiquei amedrontado em face das cordas, das roldanas, dos
contrapesos da sociedade; senti-os por toda a parte, graduando os
meus atos, anulando os meus esforços; senti-os insuperáveis e
destinados a esmagar-me, reduzir-me ao mínimo, a achatar-me
completamente... Continuei a leitura. As letras dançavam sob meus
olhos, a compreensão faltava-me... Saltara dos meus desejos heróicos
para imaginar expedientes com que me saísse da miséria em
perspectiva. Aceitaria qualquer coisa, qualquer emprego...
Recordei-me das minhas leituras, daquele Poder da Vontade, das suas
biografias heróicas: Palissy, Watt, Franklin... Sorri satisfeito,
orgulhoso; havia de fazer como eles. De novo, voltei à leitura do
jornal. Ao fim de uma coluna, lá estava um nome conhecido. Senhor
Manuel Laje da Silva, capitalista e industrial... Que acontecera?
Recebera a bênção papal até à décima quinta geração. A noticia vinha
cheia de gabos à sua atividade e à sua honestidade...
Um sujeito
entrou no bonde, deu-me um grande safanão, atirando-me o jornal ao
colo, e não se desculpou. Esse incidente fez-me voltar de novo aos
meus pensamentos amargos, ao ódio já sopitado, ao sentimento de
opressão da sociedade inteira... Até hoje não me esqueci desse
episódio insignificante que veio reacender na minha alma o desejo
feroz de reivindicação. Senti-me humilhado, esmagado, enfraquecido
por uma vida de estudo, servir de joguete, de irrisão a esses
poderosos todos por ai. Hoje que sou um tanto letrado sei que
Stendhal dissera que são esses momentos que fazem os Robespierres. O
nome não me veio à memória, mas foi isso que eu desejei chegar ser
um dia.
Escrevendo estas
linhas, com que saudades me não recordo desse heróico anseio dos
meus dezoito anos esmagados e pisados! Hoje... É noite.
Descanso a pena.
No interior da casa, minha mulher acalenta meu filho único. A sua
cantiga chega-me aos ouvidos cheia de um grande acento de
resignação. Levanto-me, vou à varanda. A lua, no crescente, banha-me
com meiguice, a mim e a minha humilde casa roceira. Por momentos
deixo-me ficar sem pensamentos, envolto na fria luz da lua, e
embalado pela ingênua cantilena de minha mulher. Correm alguns
instantes; ela cessa de cantar e o brilho do luar é empanado por uma
nuvem passageira. Volto às minhas reminiscências: vejo o bonde, a
gente que o enchia, os sofrimentos que me agitavam, a rua
transitada...
Os meus desejos
de vingança fazem-me agora sorrir e não sei por que, do fundo da
minha memória, com essas recordações todas, chega-me também a imagem
de uma pesada carroça, com um grande lajedo suspenso por fortes
correntes de ferro, vagarosamente arrastada sobre o calçamento de
granito, por uma junta de bois enormes, que o carreteiro fazia andar
com gritos e ferroadas desapiedadas...
V
— A sua
intimação era para as onze horas.
— Não me foi
possível vir a essa hora. Só a recebi às duas... Estive fora...
— Entretanto,
segundo disseram no hotel, o senhor costuma almoçar lá, e sai pouco
antes das onze, não é?
— É verdade;
mas, excepcionalmente, hoje, sai muito cedo, almocei com um amigo
e...
— Bem. Sente-se
e espere o delegado...
Falava a
verdade. Era de fato meu hábito sair do hotel pouco antes das onze,
para ir rondar as proximidades da Câmara. Nesse dia, porém, aquela
súbita inspiração de ir procurar de madrugada o deputado, tinha-me
feito quebrar o hábito. Acresce que, ao voltar, vim a encontrar o
doutor Gregoróvitch. Estivemos instantes conversando e ele
convidou-me para almoçar. Não era a primeira vez que o fazia; o meu
orgulho obrigava-me sempre a recusar. Dessa feita acedi. Estava
deprimido, desalentado; a minha vontade era frouxa; os meus
sentimentos tinham-se enfraquecido durante aquela longa viagem de
bonde a pensar na vida, a curtir ódios, a arquitetar vinganças e a
farejar a miséria próxima. Fui desejoso de encontrar uma afeição,
uma simpatia, naquele estrangeiro, um aventureiro, um ente cujos
precedentes não conhecia, cuja lhaneza de trato, comunicabilidade
especial e generosidade, porém, me atraiam e solicitavam fortemente.
Foi almoço de camaradas, rico de confidências, trocamos idéias,
contou-me um pouco de sua vida e eu contei-lhe a minha. Era da
Romênia. Seu pai era um emigrado russo; sua mãe, grega. Estudara no
Cairo e acabara o seu curso em Sófia, correra a Europa, a Ásia e
América. Tinha cinqüenta anos e sentia-se absolutamente sem pátria,
livre de todas as tiranias morais e psicológicas que essa noção
contém em si. Era capaz de aprender todas as línguas, escrevê-las,
em três ou quatro meses. Em cada país demorava-se pouco, cinco ou
seis anos; procurava os jornais, defendia esta ou aquela questão,
ganhava dinheiro e vivia. Contava-me isso bebendo e à proporção que
bebia vinhos franceses os seus olhos de conta e azuis com reflexos
metálicos ficavam mais brilhantes e mais penetrantes. Falou-me em
poetas, em filósofos; traçou, a grandes golpes, o destino da
humanidade, provocou-me grandes e consoladoras visões patrióticas, e
só vim a deixá-lo saudoso pelas duas horas, quando me dirigi ao
hotel. Ali recebi a intimação do delegado e corri à delegacia
obedientemente, depois desse delicioso almoço que quase me fez
esquecer os dolorosos momentos da manhã.
Troquei as
necessárias explicações com o inspetor de dia. O seu autoritarismo
não me amedrontou. A sua pessoa era sem força, combalida,
desanimada, muito pálido, com lindos cabelos negros e uma miséria
física de penalizar. Transpirava desgosto, resignação e um pouco de
bondade no seu olhar semi-aberto e nos seus lábios frouxos.
Obedecendo à sua
ordem, sentei-me entre outras pessoas de cujas fisionomias não fiz
grande reparo. Pus-me a olhar pela janela aberta uma nesga do céu.
As nuvens pardacentas que, pelo caminho, eu vira subirem por detrás
da cortina de montanhas, só deixavam agora ver, do céu, um rasgão
irregular.
Até então, eu
não sabia ao certo o que viera fazer àquela delegacia. O copeiro,
que me transmitira a ordem da autoridade, falou-me por alto num
roubo que houvera no hotel pela noite última. Ao Coronel Figueira,
furtaram cerca de seis contos em dinheiro, afora objetos de valor.
— Que vou fazer
lá? indaguei do copeiro.
— Depor,
naturalmente.
Sentado na
estação policial é que me lembrei que ele sublinhara a resposta com
um piscar de olhos cheio de canalhice... Seria possível? Qual! Eu
era estudante, rapaz premiado... Qual! Nem por sombras!...
A delegacia
continuava silenciosa e as pessoas sentadas pelas cadeiras não
ousavam entreolhar-se. Não havia duas horas que eu, no restaurant,
me pusera a imaginar grandes coisas. Gregoróvitch incitara-me a
trabalhar pela grandeza do Brasil; fez-me notar que era preciso
difundir na consciência coletiva um ideal de força, de vigor, de
violência mesmo, destinado a corrigir a doçura nativa de todos nós.
Pela primeira vez de lábios humanos, ouvi dizer mal da piedade e da
caridade: sentimentos anti-sociais, enfraquecedores dos indivíduos e
das nações... Virtudes dos fracos e dos cobardes, resumia ele.
Houve um grande
estupor em mim; eu tinha do meu natural um grande respeito por essas
virtudes e a minha educação isolada, comprida, órfã de afetos, só
fizera estimular e aumentar esse meu respeito. Não sei como a
conversa foi variar para a beleza. Ele riu se da nossa opinião
habitual dela, da insignificância do critério dos nossos literatos.
Gente, disse-me ele, que vive perturbada, desejosa de realizar
ideais de povos mortos, ideais que já se esgotaram; prisioneira da
arqueologia, e muito certa de que a verdade está aí, como se
houvesse uma beleza absoluta, existindo fora de nós e independente
de nós. Por aí ele fez uma formidável charge aos nossos
intelectuais. Eu sinto não poder reproduzi-la aqui. Estávamos em
meio do almoço e o vinho dava asas às suas palavras e tornara mais
lúcido o meu espírito. Referindo-se ao Laje, chamou-o de águia,
homem de presa, super-homem e por mais que eu quisesse tirar
informações sobre o padeiro, ele se limitou sempre a ditos sibilinos
que mais me aumentaram as velhas suspeitas.
O meu
conhecimento com o doutor Ivã, se bem que recente, vinha sendo
mantido e fortalecido com freqüentes encontros na Rua do Ouvidor. O
meu provincianismo e acanhamento davam-se perfeitamente no tumulto
que a anima. Nela, eu combinava as minhas necessidades de
sociabilidade com o meu temperamento delicado e desconfiado, ao qual
uma sociabilidade mais perfeita expunha a ofensas e a indelicadezas
dolorosas. Depois, olhava, olhava a fartar: homens, moços e velhos,
mulheres, senhoras. Quando acontecia encontrar o jornalista
internacional, trocávamos cumprimentos com os chapéus, polidamente,
atenciosamente. O gênio comunicativo do russo e o hábito de viajante
de adquirir rapidamente relações e camaradas, foram vencendo aos
poucos a minha reserva e a desconfiança. Convite como este, já me
fora feito várias vezes e eu sempre recusara com delicadeza e
dignidade. Entretanto no hotel, logo ao sentar-me, tive ímpetos de
confessar os meus desgostos ao jornalista; o meu orgulho irracional
fez-me calar...
Por esse tempo,
passos fortes na escada vieram perturbar os meus pensamentos. Todos
nos viramos para a porta de entrada. Pela sala adentro entrou aquele
senhor de cartola e calças brancas que me disseram senador, num
bonde de Barcas. Tirou a cartola com repugnância, enquanto o
inspetor levantava-se respeitosamente.
— Vossa
Excelência?!
— Boa tarde,
Barros não está?
— Não, senhor.
Saiu e só voltará para a audiência das seis horas.
— Que diabo! fez
aborrecido o senador.
— Se Vossa
Excelência quer alguma coisa urgente, pode procurá-lo agora no
Pascoal... Ele me disse que ia para lá...
O alto
dignitário da nação fez menção de retirar-se e o inspetor já se
tinha sentado, quando subitamente o senador se voltou dizendo:
— Era coisa
urgente... você bem me podia informar se...
Olhou ao redor
cautelosamente e depois continuou a falar naturalmente:
— Você bem me
podia dizer se o “Nove-Dedos” está preso aqui?
— Aqui, não,
senhor senador. Até agora, só temos no xadrez um ébrio...
— Mas...
disseram me que tinha feito um roubo... Esse rapaz é um doido!
— Onde foi,
Excelência?
— No largo de
São Francisco.
— Ahn! Não é
aqui conosco; é com a nona.
— Obrigado.
Apertou a mão do
rapaz cheio de agradecimento e saiu murmurando de modo que fosse
ouvido por todos nós: Aquele doido só me leva a incomodar!
A sala da
delegacia voltou novamente ao seu silêncio primitivo. Um soldado
veio apresentar-se, trocando rápidas palavras com o inspetor. Um
relógio próximo bateu quatro horas. Dos compartimentos do fundo,
chegou um personagem ventrudo, meão de altura, de pernas curtas,
furta-cor, tendo atravessado no peito um grilhão de ouro, donde
pendia uma imensa medalha cravejada de brilhantes. Dirigiu-se ao
inspetor:
— Raposo, vou
sair: há alguma coisa?
— Nada, Capitão
Viveiros.
— E o caso do
Jenikalé? Já apareceu o tal “mulatinho”?
Não tenho pejo
em confessar hoje que quando me ouvi tratado assim, as lágrimas me
vieram aos olhos. Eu saíra do colégio, vivera sempre num ambiente
artificial de consideração, de respeito, de atenções comigo; a minha
sensibilidade, portanto, estava cultivada e tinha uma delicadeza
extrema que se ajuntava ao meu orgulho de inteligente e estudioso,
para me dar não sei que exaltada representação de mm mesmo, espécie
de homem diferente do que era na realidade, ente superior e digno a
quem um epíteto daqueles feria como uma bofetada. Hoje, agora,
depois não sei de quantos pontapés destes e outros mais brutais, sou
outro, insensível e cínico, mais forte talvez; aos meus olhos,
porém, muito diminuído de mim próprio, do meu primitivo ideal, caído
dos meus sonhos, sujo, imperfeito, deformado, mutilado e lodoso. Não
sei a que me compare, não sei mesmo se poderia ter sido inteiriço
até ao fim da vida; mas choro agora, choro hoje quando me lembro que
uma palavra desprezível dessas não me torna a fazer chorar.
Entretanto, isso tudo é uma questão de semântica: amanhã, dentro de
um século, não terá mais significação injuriosa. Essa reflexão,
porém, não me confortava naquele tempo, porque sentia na baixeza do
tratamento todo o desconhecimento das minhas qualidades, o
julgamento anterior da minha personalidade que não queriam ouvir,
sentir e examinar. O que mais me feriu, foi que ele partisse de um
funcionário, de um representante do governo, da administração que
devia ter tão perfeitamente, como eu, a consciência jurídica dos
meus direitos ao Brasil e como tal merecia dele um tratamento
respeitoso.
As lágrimas
secaram-se-me nos olhos, antes que o inspetor me apresentasse ao
Escrivão Viveiros. Olhou-me com olhar de entendido. Creio que
sondava as minhas algibeiras detidamente, antes de me fazer esta
pergunta:
— O senhor é o
moço do Hotel Jenikalé?
— Sou um deles.
— Qual é a sua
profissão?
— Estudante.
Houve algum
espanto na sua fisionomia deslavada. Conteve-se e continuou-me a
perguntar:
— Tem
documentos?
— Alguns.
— Ah! Pode-se
justificar perfeitamente.
— Como?
— Com
testemunhas e documentos.
— Se não conheço
ninguém aqui no Rio...
— Eu lhe
arranjo.
— Aceito e
obrigado.
— Mas custa-lhe
trinta mil-réis.
— Não posso
pagar, capitão. Não tenho dinheiro.
— E o seu
correspondente?
— Não tenho.
— Então meu
caro...
Encolheu os
ombros, afastou-se cheio de indiferença, sem olhar qualquer dos
circunstantes. O inspetor continuou a escrever o seu interminável
livro. De onde em onde. muito policialmente passeava o olhar
dissimuladamente sobre cada um de nós. Nuvens plúmbeas já de todo
tinham coberto a nesga do céu vista pela janela. Havia como que
fuligem na atmosfera e a luz do sol tornara-se de um amarelo
pardacento e fúnebre. A temperatura continuava elevada e o ar
abafado da sala incomodava-me. A ressonância especial das ruas subia
até nós cada vez mais nitidamente. O bimbalho da campainha era mais
agudo, o rolar dos veículos mais redondo e mais dissonante o ranger
das ferragens dos bondes, os estalos dos chicotes e os apitos
caprichados dos cocheiros. Da delegacia, por entre essa bulha,
percebemos que um vozerio se aproximava. O inspetor levantou a pena
e esperou. Um grande magote de povo invadia a sala. Os soldados
correram e contiveram a multidão. Na frente, vinham duas mulheres do
povo, desgrenhadas, rotas, que dois soldados, com esforço, mantinham
separadas. Um deles, sem largar a mulher, explicou ao inspetor.
— Estavam
brigando e pelo caminho ainda se atracaram; nós...
E logo ambas as
duas se quiseram justificar, falando ao mesmo tempo. O inspetor
repreendeu-as severamente. O soldado expôs. Moravam em uma estalagem
próxima, eram lavadeiras, uma era casada e outra tinha “seu homem”.
— Por que foi? —
perguntou o policial.
De novo quiseram
narrar ao mesmo tempo o motivo de tão apaixonado pugilato.
— Assim não pode
ser, fez o inspetor. Ou uma ou outra... Vá, fale a senhora, acabou
designando uma delas.
— Vossa Senhoria
sabe: sou pobre... Tenho uma galinha. Mais de uma; mas foi a pedrês.
E não é de hoje, há muito tempo, sim senhor. A gente não pode, é
verdade; mas que se há de fazer? Um bichinho é sempre bom, “seu”
inspetor: dá alegria e ajuda a gente... É por isso que a comadre...
— Diga a senhora
afinal por que foi... Vá! intimou o inspetor.
— Eu já digo,
sim senhor. Há muito tempo que a minha galinha punha e eu nada de
ver os ovos. Procurava daqui, procurava dali, nada de achar... Hoje
eu tinha sadio para levar o jantar do Manduca e quando voltei vi que
a galinha vinha saindo da casa dessa mulher com a cara de quem já
pôs... Ah! “seu” inspetor! deu-me uma gana, uma coisa que eu mesma
não sei... Xinguei, fez ela por fim; e foi por isso...
Acabou a
narração humilde com uma modulação de choro na voz.
— E a senhora
que diz a isso? perguntou a autoridade à outra.
— Não foi assim,
não senhor... Essa mulher sempre embicava comigo... Não sei por que,
sempre andava com rezinga... Um dia era isso, outro dia era
aquilo... Se o vento punha a sua roupa no chão, era eu; se...
— Mas afinal a
galinha saiu ou não de sua casa?
— Saiu, sim
senhor; mas foi por acaso...
— Por acaso, o
quê! sua ladra, sua p...
— Que é isso!
exclamou severamente o inspetor. Isto aqui é estalagem? Meto-a no
xadrez! Está ouvindo?
A mulher descaiu
logo a cabeça, que tinha erguido de um só movimento cheio de
arrogância e com voz entrecortada pelo choro, desculpou-se:
— Me perdoe,
“seu” inspetor! A gente é pobre... Foi a patroa que me deu o
“bichinho”... A gente pensa: vamos ter uma gemada, uma fritada, um
doce, uma coisa ou outra... Compra-se milho e se espera... e se
espera... No fim a gente vem a saber que os outros é que comem os
ovos... Ah! Meu Deus!... É duro! É duro! É sina da gente...
A rapariga
falava desigualmente: ora alongava as silabas, ora fazia desaparecer
outras; mas sempre possuída das palavras, com um forte aceno de
paixão, superposto ao choro. As palavras saíam-lhe animadas, cheias
de uma grande dor, bem distante da pueril querela que as provocara.
Vinham das profundezas do seu ser, das longínquas partes que guardam
uma inconsciente memória do passado, para manifestarem o desespero
daquela vida, os sofrimentos milenares que a natureza lhe fazia
sofrer e os homens conseguiram aumentar. Senti-me comunicado de sua
imensa emoção; ela penetrava-me tão fundo que despertava nas minhas
células já esquecidas a memória enfraquecida desses sofrimentos
contínuos que me pareciam eternos; e achando-os por debaixo das
noções livrescas, por debaixo da palavra articulada, no fundo da
minha organização, espantei-me, aterrei me, tive desesperos e
cristalizei uma angústia que me andava esparsa.
O inspetor
procurou acalmá-la; a outra, muito popularmente, pôs-se a chorar
explicando que não furtara os ovos, que não os comera, mas que
guardara unicamente o primeiro, temendo que fosse “mandinga”,
“coisa-feita”, e que, depois, com a continuação, não os restituíra
com vergonha, mas que o faria logo que chegasse a casa. Acalmadas e
repreendidas, foram-se e a delegacia em breve regressou à sua
atmosfera enervante. A ela e ao meu abalo moral, juntavam-se a
tonalidade amareleça da tarde e o ambiente de forja para me dar um
mal-estar nunca sentido. Esperava o delegado, procurando devanear,
sonhar, analisar-me, mas era em vão: a inteligência não me obedecia.
Havia em mim um grande vazio mental, e a imagem que me vinha aos
olhos era a da pobre mulher a imprecar, sem nenhuma grandeza, contra
o destino implacável, dentro daquela feia e triste sala. De repente
a treva fez-se mais espessa. Na sala da delegacia acenderam as
luzes, ao tempo que um relâmpago veio iluminá-la instantaneamente.
Ouviu-se um estalido agudo, um ronco de trovão e, estremecendo,
sentimos nós todos que um raio caíra nas proximidades. A chuva
começou a cair fracamente, sem a violência que o rigor do céu
ameaçava, quando a poderosa autoridade entrou. Passava das seis
horas; a opressão da atmosfera diminuíra muito e o calor abrandara
razoavelmente.
Chegou e eu
esperei ainda. Afinal, fui levado à sua presença. Ao lado, em uma
mesa mais baixa, lá estava o Capitão Viveiros, o tal escrivão, muito
solene, com a pena atrás da orelha, o seu olhar cúpido e a sua
papada farta. O delegado pareceu-me um medíocre bacharel, uma
vulgaridade com desejos de chegar a altas posições; no entanto,
havia na sua fisionomia uma assustadora irradiação de poder e de
força. Talvez se sentisse tão ungido da graça especial de mandar,
que na rua, ao ver tanta gente mover-se livremente, havia de
considerar que o fazia porque ele deixava. Interrogou-me de mau
humor, impaciente, distraído, às sacudidelas. Repisava uma mesma
pergunta; repetia as minhas respostas. A sua impaciência levava-o a
perder tempo. Não dava grande atenção ao interrogatório; olhava com
insistência a rua, os bondes que passavam com cortinas arriadas. Num
dado momento, como querendo levar a coisa ao cabo, perguntou pela
terceira vez:
— Qual é a sua
profissão?
— Estudante.
— Estudante?!
— Sim, senhor,
estudante, repeti com firmeza.
— Qual
estudante, qual nada!
A sua surpresa
deixara-me atônito. Que havia nisso de extraordinário, de
impossível? Se havia tanta gente besta e bronca que o era, por que
não o podia ser eu? Donde lhe vinha a admiração duvidosa? Quis-lhe
dar uma resposta mas as interrogações a mim mesmo me enleavam. Ele
por sua vez, tomou o meu embaraço como prova de que mentia.
Com ar
escarninho perguntou:
— Então você é
estudante?
Dessa vez
tinha-o compreendido, cheio de ódio, cheio de um santo ódio que
nunca mais vi chegar em mim. Era mais uma variante daquelas tolas
humilhações que eu já sofrera; era o sentimento geral da minha
inferioridade, decretada a priori, que eu adivinhei na sua
pergunta. E afirmei então com a voz transtornada.
— Sou, sim,
senhor!
— Pois então
diga-me de quem é este verso: — “estava mudo e só na rocha de
granito”?
— Não sei, não
senhor; não leio versos habitualmente...
— Mas um
estudante sempre os conhece, fez ele com falsa bonomia. É de admirar
que o senhor não conheça... Sabe de quem é este outro: — “é o
triunfo imortal da carne e da beleza”?
— Não sei
absolutamente, e é inútil perguntar-mo, pois nunca li poetas.
— Mas o senhor,
um estudante, não saber de quem são estes versos! Admira!
— Que tem uma
coisa com outra, “seu” doutor? fiz eu sem poder reprimir um sorriso.
— Está rindo se,
“seu” malcriado! fez ele mudando repentinamente de tom. Muita coisa!
É que você não é estudante nem nada; não passa de um “malandro”
muito grande!
— Perdão! O
senhor não me pode insultar...
— Qual o quê!
continuou o delegado no auge da cólera. Não há patife, tratante,
malandro por aí, que não se diga estudante...
Eu começava a
exaltar-me também, a sentir-me ofendido injustamente, agredido sem
causa e sem motivo; contive-me, no entanto.
— Mas eu sou,
asseguro-lhe...
— Qual o quê!
Pensa que me embrulha... você o que é, é um gatuno, sabe?
Por aí, houve em
mim o que um autor russo chamou a convulsão da personalidade. Todo
eu me agitei, todo eu me indignei. Senti num segundo todas as
injustiças que vinha sofrendo; revoltei-me contra todos os
sofrimentos que vinha suportando. Injustiças, sofrimentos,
humilhações, misérias, juntaram-se dentro de mim, subiram à tona da
minha consciência, passaram pelos meus olhos e então expectorei as
sílabas:
— Imbecil!
— Que diz!
perguntou ele com autoridade.
— Que você é um
imbecil, ouviu?
Não me disse
mais nada; não se lembrou mesmo de determinar que o escrivão
lavrasse auto de flagrante. Ergueu-se cheio de fúria, esperei-o
pronto para jogar os sopapos; mas o terrível delegado ia unicamente
à porta para ordenar que me metessem no xadrez.
Fui para o
xadrez convenientemente escoltado. Pelo caminho, tudo aquilo me
pareceu um pesadelo. Custava-me a crer que, no intervalo de horas,
eu pudesse ter os entusiasmos patrióticos do almoço e fosse detido
como um reles vagabundo num xadrez degradante. Entrei aos empurrões;
desnecessários aliás, porque não opus a menor resistência. As
lágrimas correram-me e eu pensei comigo: A pátria!
VI
Despertei hoje
cheio de um mal-estar que não sei donde me veio. Nada ocorreu que o
determinasse. Ontem, vivi um dia igual a todos. Não tive nem mesmo
uma questão com o coletor. Por que não estou satisfeito? Não sei. E
quem o poderá saber! Há em nós tanta coisa misteriosa, tantos
sentimentos cujas origens nos escapam, que me esforço em vão por
explicar este meu atual estado d'alma. De uns tempos a esta parte,
acontece-me isso amiudadas vezes. Tudo vai correndo normalmente; os
dias com o mesmo enfado de sempre, e as noites serenas e plácidas;
entretanto, esta ou aquela manhã, ergo-me e olho pela janela aberta,
o rio que desliza lá embaixo, ensombrado de melancolia, cheio de
lassidão, com maus desejos passando-me pela cabeça. Penso — não sei
por quê — que é este meu livro que me está fazendo mal... E quem
sabe se excitar recordações de sofrimentos, avivar as imagens de que
nasceram não é fazer com que, obscura e confusamente, me venham as
sensações dolorosas já semimortas? Talvez mesmo seja angústia de
escritor, porque vivo cheio de dúvidas, e hesito de dia para dia em
continuar a escrevê-lo. Não é o seu valor literário que me preocupa;
é a sua utilidade para o fim que almejo.
Quem sabe se ele
me não vai saindo um puro falatório?! Eu não sou literato, detesto
com toda a paixão essa espécie de animal. O que observei neles, no
tempo em que estive na redação do O Globo, foi o bastante para não
os amar, os imitar. São em geral de uma lastimável limitação de
idéias, cheios de fórmulas, de receitas, só capazes de colher fatos
detalhados e impotentes para generalizar, curvados aos fortes e às
idéias vencedoras, e antigas, adstritos a um infantil fetichismo do
estilo e guiados por conceitos obsoletos e um pueril e errôneo
critério de beleza. Se me esforço por fazê-lo literário é para que
ele possa ser lido, pois quero falar das minhas dores e dos meus
sofrimentos ao espirito geral e no seu interesse, com a linguagem
acessível a ele. É este o meu propósito, o meu único propósito. Não
nego que para isso tenha procurado modelos e normas. Procurei-os,
confesso; e, agora mesmo, ao alcance das mãos, tenho os autores que
mais amo. Estão ali O Crime e o Castigo de Dostoiévski, um volume
dos contos de Voltaire, A Guerra e a Paz de Tólstoi, o Rouge et Noir
de Stendhal, a Cousine Bette de Balzac, a Education Sentimentale de
Flaubert, o Antéchrist de Renan, o Eça; na estante, sob as minhas
vistas, tenho o Taine, o Bouglé, o Ribot e outros autores de
literatura propriamente, ou não. Confesso que os leio, que os
estudo, que procuro descobrir nos grandes romancistas o segredo de
fazer. Mas, não é a ambição literária que me move o procurar esse
dom misterioso para animar e fazer viver estas pálidas Recordações.
Com elas, queria modificar a opinião dos meus concidadãos,
obrigá-los a pensar de outro modo; a não se encherem de hostilidade
e má vontade quando encontrarem na vida um rapaz como eu e com os
desejos que tinha há dez anos passados. Tento mostrar que são
legítimos e, se não merecedores de apoio, pelo menos dignos de
indiferença.
Entretanto,
quantas dores, quantas angústias! Vivo aqui só, isto é, sem relações
intelectuais de qualquer ordem. Cercam-me dois ou três bacharéis
idiotas e um médico mezinheiro, repletos de orgulho de suas cartas
que sabe Deus como tiraram. Claudicam na ortografia, e um mesmo, o
juiz municipal, acaba de publicar um artigo no Diário de Caxambi
sobre a “Sociedade atual em face da Ciência”, onde fala em raios
hertzianos. Entretanto, se eu amanhã lhes fosse falar neste livro —
que espanto! que sarcasmo! que crítica desanimadora não fariam.
Depois que se foi o doutor Graciliano, excepcionalmente simples e
esquecido de sua carta apergaminhada, nada digo das minhas leituras,
não falo das minhas lucubrações intelectuais a ninguém, e minha
mulher, quando me demoro escrevendo pela noite fora, grita-me do
quarto:
— Vem dormir,
Isaías! Deixa esse relatório pra amanhã!
De forma que não
tenho por onde aferir se as minhas Recordações preenchem o fim a que
as destino; se a minha inabilidade literária está prejudicando
completamente o seu pensamento. Que tortura! E não é só isso:
envergonho-me por esta ou aquela passagem em que me acho, em que me
dispo em frente de desconhecidos, como uma mulher pública... Sofro
assim de tantos modos, por causa desta obra, que julgo que esse
mal-estar, com que às vezes acordo, vem dela, unicamente dela. Quero
abandoná-la; mas não posso absolutamente. De manhã, ao almoço, na
coletoria, na botica, jantando, banhando-me, só penso nela. À noite,
quando todos em casa se vão recolhendo, insensivelmente aproximo-me
da mesa e escrevo furiosamente. Estou no sexto capítulo e ainda não
me preocupei em fazê-la pública, anunciar e arranjar um bom
recebimento dos detentores da opinião nacional. Que ela tenha a
sorte que merecer, mas que possa também, amanhã ou daqui a séculos,
despertar um escritor mais hábil que a refaça e que diga o que não
pude nem soube dizer.
E esta passagem
do xadrez que me faz vir estes pensamentos amargos. Imagino como um
escritor hábil não saberia dizer o que eu senti lá dentro. Eu que
sofri e pensei não o sei narrar. Já por duas vezes, tentei escrever;
mas relendo a página, achei-a incolor, comum; e, sobretudo, pouco
expressiva do que eu de fato tinha sentido. Estive no xadrez mais de
três horas, depois fui de novo à presença do delegado. Encontrei-o
outro homem, mais brando e disposto à simpatia, tratando-me por
“menino” e “meu filho”.
— Você, menino,
precisa deixar esse gênio. Olhe que a vida não se leva assim... Você
sabe o que eu lhe podia fazer? Lavrar um processo por desrespeito à
autoridade... Não faça nunca mais isso, meu filho; hoje foi comigo,
que enfim... mas amanhã — quem sabe?
Em começo
mantive o mesmo humor agressivo, respondendo-lhe secamente às
perguntas que fazia sobre os meus precedentes; por fim, rendendo-me
à sua brandura, desculpei-me, satisfazendo-as com respeito,
acatando-as com toda a doçura de que é capaz o meu natural, doce e
sensível ao bom tratamento.
Há muita bondade
no nosso caráter, mas também muita arrogância, muito exagero no
mandar e um doentio impudor no desobedecer. Esses arrependimentos,
essas voltas atrás são freqüentes e fatais no modo de agir das
nossas autoridades. Eu não sei até que ponto me excedi, até onde fui
inconveniente; não tendo ainda observado essa face do caráter
nacional, espantei-me com a delicadeza com que me tratou a
autoridade, pela segunda vez em que fui à sua presença. Julgava-a
transformada pela intervenção de algum protetor desconhecido, mas
fiquei certo de que não era esse o motivo, pois me perguntou logo:
— Você não tem
relações aqui, no Rio, menino?
— Nenhuma.
Admirou-se
muito, extraordinariamente, a ponto de repetir de outro modo a
pergunta:
— Mas ninguém?
Ninguém?
— O meu
conhecimento mais intimo é o do doutor Ivã Gregoróvitch
Rostóloff—conhece?
—Oh! como não?
Um jornalista, do O Globo, não é?
— Esse mesmo.
— Por que não me
disse logo? Quando se está em presença da polícia, a nossa obrigação
é dizer toda a nossa vida, procurar atestados de nossa conduta,
dizer os amigos, a profissão, o que se faz, o que se não faz...
— Não sabia que
era um homem importante, por isso...
— Pois não! Um
jornalista é sempre um homem importante, respeitado, e nós, da
polícia, temo-lo sempre em grande conta... Vá-se embora, disse-me
ele por fim, e procure mudar-se daquele hotel quanto antes... Aquilo
é muito conhecido... Os furtos se repetem e os ladrões nunca
aparecem... Mude-se quanto antes, é o meu conselho. Vá!
Eu ia saindo e,
antes de transpor a porta, o delegado veio ao meu encontro e
recomendou em voz baixa:
— Não diga nada
ao doutor Rostóloff — sabe? Ele pode publicar e ambos nós temos que
perder...
Dirigi-me ao
hotel indiferente à chuva que continuava a cair. Ia profundamente
vexado e firmemente decidido a abandoná-lo quanto antes.
Pressentindo que o hoteleiro tinha insinuado ao delegado que eu bem
podia ser o autor do furto, refletia sobre uma decisão a tomar. O
meu primeiro pensamento foi insultá-lo, dar-lhe pancada; mas seria
recomeçar as humilhações da delegacia... Andando, cheguei ao Campo
de Sant'Ana. Aí já tinha deliberado. Entraria naturalmente e nada
diria a respeito, esperaria que ele falasse. Entrei; estavam todos
na sala de jantar, dei-lhes boas-noites e troquei com os
circunstantes algumas explicações sobre o fato. Nenhum deles se
animou à mais leve insinuação e subi ao meu quarto aparentando a
maior calma. Não conciliei logo o sono. Encarei a eventualidade de
voltar para minha casa familiar. O caminho na vida parecia-me
fechado completamente, por mãos mais fortes que as dos homens. Não
eram eles que não me queriam deixar passar, era o meu sangue
covarde, era a minha doçura, eram os defeitos de meu caráter que não
sabiam abrir um. Eu mesmo amontoava obstáculos à minha carreira; não
eram eles... Não seria tolice, pusilanimidade escondida fazer
repousar a minha felicidade na presteza com que um qualquer deputado
atendesse um pedido de emprego? Era possível tê-los sempre à mão
para os dar ao primeiro que aparecesse? As condições de minha
felicidade não deviam repousar senão em mim mesmo — conclui... Mas
não era só isso que eu via. O que me fazia combalido, o que me
desanimava eram as malhas de desdém, de escárnio, de condenação em
que me sentia preso.
Na viagem
vira-as manifestar-se; no Laje da Silva, na delegacia, na atitude do
delegado, numa frase meio dita, num olhar, eu sentia que a gente que
me cercava me tinha numa conta inferior. Como que percebia que
estava proibido de viver e fosse qual fosse o fim da minha vida os
esforços haviam de ser titânicos. Foi talvez esse adjetivo que me
fez deliberar de outro modo. Passou-me pela memória a anedota
mitológica que ele evoca. Representou-se-me a luta daqueles heróis
com os deuses, a sua teimosia em escalar o céu, a energia que
puseram em tão insensata empresa... Vi o quadro com todas as cores e
com todas as figuras. Abalei-me de emoção; achei nessa atitude uma
estranha grandeza, não sei que fulgurante beleza que me tornou logo
interiormente alegre — tanto é verdade dizer-se que a beleza é uma
promessa de felicidade! Abandonei a volta covarde para a casa
materna e decidi-me a lutar, a bater-me para chegar — aonde? — não
sabia bem; para chegar fosse como fosse. Trabalharia — em quê? em
tudo. E, enquanto considerava a delicadeza das minhas mãos e a
fragilidade dos meus músculos, adormeci placidamente, satisfeito
comigo e com a minha coragem e firme na resolução de procurar no dia
seguinte qualquer ocupação, por mais humilde que ela fosse. A noite
passou depressa e quando desci à rua, ainda brilhava em frente à
Prefeitura um combustor de gás. O ambiente não era de luz nem de
treva — era uma penumbra algodoada e nevoenta com que começam certas
manhãs no Rio de Janeiro. Os raros transeuntes moviam-se esbatidos
naquela ambiência indecisa. Andei. Ao chegar à Rua do Ouvidor, a rua
dos lentos passeios elegantes, havia uma agitação de mercado. Cestos
de verduras, de peixes, de carnes, passavam à cabeça de mulheres e
homens; os quitandeiros ambulantes corriam por ela acima; pequenas
carroças de hotéis caros davam-se ao luxo de atravessá-la em toda a
extensão; e pelas soleiras das portas imensas moles de jornais
diários eram subdivididos pelos vendedores de todos os pontos da
cidade. As polêmicas malcriadas de uns contra os outros
sobrepunham-se, abraçavam-se fraternalmente ao impulso do italiano
indiferente: Gazeta! País! Jornal do Comércio!
Os cafés já
estavam abertos e ainda iluminados. Comprei um jornal e entrei num
deles. Por essa hora, têm uma freguesia apressada e especial.
Noctívagos, vagabundos, operários, jogadores, empregados em jornais
— gente um tanto heterogênea que lá vai e se serve rapidamente.
É raro uma
mulher; nesse dia, por acaso, havia duas moças, acompanhadas de uma
senhora e um rapaz. Tomavam chocolate e vinham naturalmente de um
baile.
A velha
cochilava e as duas moças, tinham os olhos pisados, e o rosto
macerado pela longa e fatigante vigília.
Saturadas de
notas musicais, uma delas ainda balançava a cabeça como se estivesse
ouvindo um dolente compasso de valsa. Estavam desbotadas, com os
olhos encovados, e pelo rosto, neste ou naquele ponto, uma parte de
pintura resistira e ficara. Viam-se os ossos da face e os rostos
estavam escaveirados. O rapaz, entretanto, continuava a conversa
ternamente embevecido... Observei-as muito tempo ainda, considerando
como era difícil àqueles dois entes achar o fim natural de sua
vida... Quantos tropeços as praxes punham! A quanto trabalho eram
obrigadas!
Dançar-se noites
e noites!... Levado por tais considerações ia esquecendo os meus
próprios interesses. Pus-me a ler o jornal, os anúncios de
"precisa-se". Dentre eles, um pareceu-me aceitável. Tratava-se de um
rapaz, de conduta afiançada para acompanhar um cesto de pão. Era nas
Laranjeiras. Estava resolvido a aceitar; trabalharia um ano ou mais;
guardaria dinheiro suficiente que me desse tempo para pleitear mais
tarde um lugar melhor. Não havia nada que me impedisse: eu era
desconhecido, sem família, sem origens... Que mal havia? Mais tarde,
se chegasse a alguma coisa, não me envergonharia, por certo?! Fui,
contente até. Falei ao gordo proprietário do estabelecimento. Não me
recordo mais das suas feições, mas tenho na memória as suas grandes
mãos com um enorme "solitário" e o seu alentado corpo de arrobas.
— Foi o senhor
que anunciou um rapaz para...
— Foi; é o
senhor? respondeu-me logo sem me dar tempo de acabar.
— Sou, pois não.
O gordo
proprietário esteve um instante a considerar, agitou os pequenos
olhos perdidos no grande rosto, examinou-me convenientemente e disse
por fim, voltando-me as costas com mau humor:
— Não me serve.
— Por quê?
atrevi-me eu.
— Porque não me
serve.
E veio
vagarosamente até uma das portas da rua, enquanto eu saia
literalmente esmagado. Naquela recusa do padeiro em me admitir, eu
descobria uma espécie de sítio posto à minha vida. Sendo obrigado a
trabalhar, o trabalho era-me recusado em nome de sentimentos
injustificáveis. Facilmente generalizei e convenci-me de que esse
seria o proceder geral. Imaginei as longas marchas que teria que
fazer para arranjar qualquer coisa com que viver; as humilhações que
teria que tragar; e, de novo, me veio aquele ódio do bonde, quando
de volta da casa do Deputado Castro. Revoltava-me que me obrigassem
a despender tanta força de vontade, tanta energia com coisas em que
os outros pouco gastavam. Era uma desigualdade absurda, estúpida,
contra a qual se iam quebrar o meu pensamento angustiado e os meus
sentimentos liberais que não podiam acusar particularmente o
padeiro. Que diabo! eu oferecia-me, ele não queria! que havia nisso
demais?
Era uma simples
manifestação de um sentimento geral e era contra esse sentimento,
aos poucos descoberto por mim, que eu me revoltava. Vim descendo a
rua, e perdendo-me aos poucos no meu próprio raciocínio.
Preliminarmente descobria-lhe absurdos, voltava ao interior,
misturava os dois, embrulhava-me. No largo do Machado, contemplei
durante momentos aquela igreja de frontão grego e colunas dóricas e
tive a sensação de estar em pais estrangeiro.
O álcool não
entrava nos meus hábitos. Em minha casa, raramente o bebia. Naquela
ocasião, porém, deu-me uma vontade de beber, de me embriagar, estava
cansado de sentir, queria um narcótico que fizesse descansar os
nervos tendidos pelos constantes abalos daqueles últimos dias.
Entrei no café,
mas tive nojo. Limitei-me a beber uma xícara de café e caminhei
tristemente em direção ao mar, olhando com inveja um carregador que
bebia um grande cálice de parati. Eu tinha uma imensa lassidão e uma
grande fraqueza de energia mental. Quis descansar, debrucei-me na
muralha do cais e olhei o mar. Estava calmo; a limpidez do céu e a
luz macia da manhã faziam-no aveludado. Os últimos sinais da
tempestade da véspera tinham desaparecido.
Havia satisfação
e felicidade no ar, uma grande meiguice, em tudo respirava; e isso
pareceu-me hostil. Continuei a olhar o mar fixamente de costas para
os bondes que passavam. Aos poucos ele hipnotizou-me, atraiu-me,
parecia que me convidava a ir viver nele, a dissolver-me nas suas
águas infinitas, sem vontade nem pensamentos; a ir nas suas ondas
experimentar todos os climas da terra, a gozar todas as paisagens,
fora do domínio dos homens, completamente livre, completamente a
coberto de suas regras e dos seus caprichos... Tive ímpetos de
descer a escada, de entrar corajosamente pelas águas adentro, seguro
de que ia passar a uma outra vida melhor, afagado e beijado
constantemente por aquele monstro que era triste como eu. Os
elétricos subiam vazios e desciam cheios. Ingleses de chapéu de
palha cintados de fitas multicores, com pretensões à originalidade,
enchiam-nos. Fumavam com desdém e iam convencidos na sua ignorância
assombrosa que a língua incompreensível escondia de nós, que davam
espetáculo a essa gente mais ou menos negra, de uma energia
sobre-humana e de uma inteligência sem medida. Os bondes continuavam
a passar muito cheios, tilintando e dançando sobre os trilhos. Se
acaso um dos viajantes dava comigo, afastava logo o olhar com
desgosto. Eu não tinha nem a simpatia com que se olham as árvores; o
meu sofrimento e as minhas dores não encontravam o menor eco fora de
mim. As plumas dos chapéus das senhoras e as bengalas dos homens
pareceram-me ser enfeites e armas de selvagens, a cuja terra eu
tivesse sido atirado por um naufrágio. Nós não nos entendíamos; as
suas alegrias não eram as minhas; as minhas dores não eram sequer
percebidas... Por força pensei, devia haver gente boa aí... Talvez
tivesse sido destronada, presa e perseguida; mas devia haver...
Naquela que eu via ali, observei tanta repulsa nos seus olhos, tanta
paixão baixa, tanta ferocidade que eu me cri entre yahoos e
tive ímpetos de fugir antes de ser devorado... Só o mar me
contemplava com piedade, sugestionando-me e prometendo-me grandes
satisfações no meio de sua imensa massa líquida...
— Vem, dizia-me
ele, vem comigo e, no meu seio, viverás esquecido, livre e
independente... Aqui, eu te abrirei perspectivas infinitas à tua
vida limitada e os conceitos, as noções e as idéias nada valerão.
Zombarás deles, não os sentirás, não terás consciência, nem
pensamento, nem vontade...
Deviam ser oito
horas e eu vim descendo a pé pela borda do cais. Pensava num alvitre
a tomar. Precisava sair do hotel. Estava sem dinheiro; depois de
paga a pensão, restar-me-iam uns seis mil e tanto. Tinha que o
deixar em breve, fosse como fosse. Aquela sociedade com pessoas que
me tinham suspeitado ladrão, pesava-me, abatia-me. A esperança num
emprego humilde esvaíra-se. A recusa sistemática do padeiro
fizera-me supor que era assim em todas as profissões. Assim seriam
os hoteleiros, os donos de cafés, de confeitarias, de cocheiras...
Não sabia por onde sair; era de um verdadeiro sitio à minha vida que
eu tinha sensação. Durante o dia inteiro não me deixaram esses
pensamentos. Almocei no hotel, silenciosamente, sentindo a irritante
observação do copeiro. Sai logo demandando a cidade. Tinha entrado
na Rua do Rosário, quando alguém me bateu no ombro:
— O senhor não é
Isaías Caminha?
— Sou.
— Não se lembra
de mim? Eu sou o Agostinho. O Agostinho Marques... Não se lembra?
— Recordo-me
sim. Você se sentava junto ao Felício da Costa, não era?
— É verdade.
Chegou há muito tempo, Isaías?
— Há um mês, e
você o que está fazendo?
— Sou empregado
no escritório do doutor Leitão Fróis — e você?
— Eu!... Procuro
a vida...
O meu antigo
colega não se demorou muito, tinha pressa e eu prometi-lhe que o
procuraria para conversar, tanto mais que ele tinha serviço a
dar-me. Passei o resto do dia vagueando. Veio a tarde, uma tarde
doce e azul, e eu não tive força para me apresentar no hotel. Fui ao
Passeio Público. Entrei e sentei-me num banco afastado, fora do
caminho habitual dos visitantes Estive instantes pensando a olhar o
regato na minha frente e as árvores que me cercavam. Os patos e os
gansos nadavam satisfeitos e as garças pensativas perfiladas nas
margens espiavam assombradas vendo tanta alegria. A tarde punha um
brilho particular nas coisas, de doçura e satisfação. Aquele
descanso no jardim fez-me lembrar não sei que passagem do meu livro
de cabeceira, desse perverso livro de que eu quis fazer bússola para
minha vida. Abri-o e, desejoso por encontrar a passagem, não reparei
que uma pessoa viera sentar-se no mesmo banco que eu. Num dado
momento, virei-me e dei com uma rapariga de cor, de olhos tristes e
feições agradáveis. Tinha uma bolsinha na mão, um chapéu-de-sol de
alpaca e o vestuário era pobre. Considerei-a um instante e continuei
a ler o livro, cheio de uma natural indiferença pela vizinha. A
rapariga começou a murmurar, perguntou-me qualquer coisa que
respondi sem me voltar. Subitamente, depois de fazer estalar um
desprezível muxoxo, disse-me ela à queima-roupa:
— Que tipo!
Pensa mesmo que é doutor...
Fechei o livro,
levantei-me e, já afastado, ainda ouvi dela alguns desaforos.
Cheguei ao portão. Os bondes passavam, havia um grande movimento de
carros e pedestres. Considerei a rua, as casas, as fisionomias dos
transeuntes. Olhei uma, duas, mil vezes, os pobres e os ricos. Eu
estava só.
VII
Havia dias que
notava com surpresa a indiferença que tinha então pelos meus
destinos. Aquele meu fervor primeiro tinha sido substituído por uma
apatia superior a mim. Tudo me parecia acima de minhas forças, tudo
me parecia impossível; e que não era eu propriamente que não podia
fazer isso ou aquilo, mas eram todos os outros que não queriam,
contra a vontade dos quais a minha era insuficiente e débil. A minha
individualidade não reagia; portava-se em presença do querer dos
outros como um corpo neutro; adormecera, encolhera-se timidamente
acobardada.
Houve duas ou
três crises de vontade que me obrigaram a procurar emprego. Nas duas
primeiras, recuei passado o primeiro ímpeto; na terceira, fi-lo de
tal modo, tão transtornado, tão lamuriento e frouxo que fui
malsucedido. Vendi os meus livros para apurar algum dinheiro. Pago o
hotel, fiquei reduzido à última extremidade, com um curto prazo para
dele retirar a minha insignificante bagagem. Esperava resposta de
uma carta em que pedira algum dinheiro a minha mãe. Não se demorou
em responder, mandando-me cinqüenta mil-réis. Aluguei um quarto e os
primeiros dias que nele passei foram do mais absoluto enfado.
Saía, mas
evitava a Rua do Ouvidor e o Laje da Silva, que passara a tratar-me
de outro modo. Dei em passear de bonde, saltando de um para outro,
aventurando-me por travessas afastadas, para buscar o veiculo em
outros bairros. Da Tijuca ia ao Andaraí e dai à Vila Isabel; e
assim, passando de um bairro para outro, procurando travessas
despovoadas e sem calçamento, conheci a cidade — tal qual os bondes
a fizeram alternativamente povoada e despovoada, com grandes hiatos
entre ruas de população condensada, e toda ela, agitada, dividida,
convulsionada pelas colinas e contrafortes da montanha em cujas
vertentes crescera. Jantava, uns dias; em outros, almoçava
unicamente; e houve muitos que nem uma coisa ou outra fiz. Descobri
a Biblioteca Nacional, para onde muitas vezes fui, cheio de fome,
ler Maupassant e Daudet. Estava na casa de cômodos havia perto de
quinze dias. Uma noite, acabara de chegar e despia-me, quando me
bateram à porta. Abri: “Boa noite, falou-me um rapaz do lado de
fora. O senhor podia permitir que eu acendesse a minha vela na sua?
Cheguei sem fósforos e vendo que no seu quarto havia luz, vinha-lhe
pedir esse favor”. Ficamo-nos conhecendo, aos poucos nos aproximamos
e entabulamos relações mais estreitas. Abelardo Leiva, o meu recente
conhecimento, era poeta e revolucionário. Como poeta tinha a mais
sincera admiração pela beleza das meninas e senhoras de Botafogo.
Não faltava às regatas, às quermesses, às tômbolas, a todos os
lugares em que elas apareciam em massa; e a sua musa — uma pálida
musa, decentemente abotoada no Castilho e penteada diante dos
espelhos de B. Lopes e Macedo Papança — quase diariamente lhe
cantava a beleza “olímpica e cirial”. Como revolucionário, dizia-se
socialista adiantado, apoiando-se nas prédicas e brochuras do Senhor
Teixeira Mendes, lendo também formidáveis folhetos de capa vermelha,
e era secretário do Centro de Resistência dos Varredores de Rua.
Vivia pobremente, curtindo misérias e lendo, entre duas refeições
afastadas, as suas obras prediletas e enchendo a cidade com os
longos passos de homem de grandes pernas.
Depois de nossas
relações, era freqüente passearmos juntos. Saiamos às dez horas,
tomávamos café e andávamos até às três ou quatro da tarde. A essa
hora separávamo-nos em obediência a uma convenção tácita. Tratava-se
de jantar e cada um de nós ia arranjar-se. À tarde, encontrávamo-nos
e íamos conversar a um café com alguns outros amigos dele, na mor
parte desprovidos de dinheiro, com magros e humildes empregos,
pretendendo virar a face do mundo para ter almoço e jantar
diariamente. Leiva era o chefe, era a inteligência do grupo, pois,
além de poeta, tinha todos os preparatórios para o curso de
dentista. Eu gostava de notar a adoração pela violência que as suas
almas pacificas tinham, e a facilidade com que explicavam tudo e
apresentavam remédios. Embora mais moço que eles, várias vezes
cheguei a sorrir aos seus entusiasmos. Creio que lhes não faltava
inteligência, sinceridade também; o que não encontravam era uma soma
de necessidades a que viessem responder e sobre as quais apoiassem
as suas furiosas declamações. Insurgiam-se contra o seu estado
particular, oriundo talvez mais de suas qualidades de caráter do que
de falhas de temperamento. Eram todos honestos, orgulhosos,
independentes e isso não leva ninguém à riqueza e à abastança. Leiva
era quem mais exagerava nos traços do caráter comum e se encarregava
de pintar os sofrimentos da massa humana. Era um grupo de
protestantes, detestando a política, dando-se ares de trabalhar para
obra maior, a quem as periódicas “revoluções” não serviam. Um ou
outro acontecimento vinha-lhes dar a ilusão de que eram guias da
opinião. Leiva gabava-se de ter feito duas greves e de ter
modificado as opiniões do operariado do Bangu com as suas
conferências aplaudidas. Os outros, sem a sua enfibratura, os seus
rompantes de atrevimento e a sua ambição oculta, mais sinceros
talvez por isso, limitavam-se a falar e a manifestar as suas
terríveis opiniões em publicações pouco lidas.
No entanto,
Leiva parecia-me mais sincero na sua poesia palaciana e de modista
do que nas idéias revolucionárias. Não o julgava perfeitamente
hipócrita; era a sua situação que lhe determinava aquelas opiniões;
o seu fundo era cético e amoroso das comodidades que a riqueza dá.
Cessassem as suas dificuldades, elas desapareceriam e surgiria então
o verdadeiro Leiva, indiferente aos destinos da turba, dando uma
esmola em dia de mau humor e preocupado com uma ruga no fraque novo
que viera do alfaiate.
No café, em
certos momentos, quase sem transição, ele passava das objurgatórias
mais terríveis a recitar versos, cheios de detalhes de modas e
ardendo de admiração pelas coisas de luxo. Havia nisso muito da sua
forte mocidade para que eu me lembrasse de Georges Ohnet. Bem
parecido, de rosto bem-feito e um nariz clássico e uns bigodes e uns
cabelos pretos, tratados com especial carinho de manhã e à tarde,
ele tinha a insignificante boniteza dos homens, tanto do agrado das
nossas mulheres. Era um namorador temível. No seu quarto, além da
mesa e alguns volumes com que preparava as arengas revolucionárias,
tinha uma cama de vento, nua e órfã de lençóis e travesseiros com
fronhas, uma grande mala cheia de camisas, colarinhos, punhos,
gravatas e perfumes. Ganhava noventa mil-réis no Centro dos
Varredores, gastava vinte e cinco no quarto e o que sobrava era mais
para as coisas de toillette do que para a sua alimentação.
Freqüentava os lugares elegantes, ou tidos como tal, e uma noite
levou-me ao Parque Fluminense, onde encontrei o Agostinho Marques, o
elegante Agostinho, cheio de anéis e alfinetes, que eu não quis
reconhecer. Desde que nos demos a conhecer, isso havia perto de um
mês, nunca mais o tinha visto; ele, porém, chamou-me amigavelmente.
Era o solicitador do doutor Leitão Fróis, ganhava um conto e tanto
por mês e pretendia formar-se em Direito precisando de mim, para lhe
explicar uns preparatórios. Disse-me isso no momento em que Leiva se
deixara absorver por uma dama elegante da nossa vizinhança.
Estávamos sentados a uma mesa do botequim, e servíamo-nos de
cerveja, a convite de Marques. Quando Leiva se voltou de sua
preocupação extra-revolucionária, Agostinho queixou-se dos calos:
— Não há
sapateiro que preste no Rio de Janeiro... Mandei fazer essas botinas
no Martinelli, dei quarenta e cinco mil-réis e é esta desgraça!
Apertam-me como diabo...
O Abelardo tinha
opinião um pouco diferente sobre os sapateiros da cidade.
Antigamente, mandava fazer as botinas de encomenda;
ultimamente, porém, comprava-as feitas. Eram estrangeiras e
melhores...
— Mas o
Martinelli, “Seu” Abelardo! objetou semi-indignado o solicitador. O
cabedal, os aviamentos, tudo vem da Europa; só são cortadas e
montadas aqui...
— Ora,
continuava Leiva, eu já tive botinas dele e sei tudo isso; mas não
vale a pena, é um engano... Olhe, o senhor dá trinta e cinco
mil-réis por uma Walk-Over ou Clark e fica mais bem servido do que
com ele. E são bonitas... Veja!
Mostrou o pé e
durante minutos os dois estiveram a debater-se, procurando toda
sorte de argumentos para defenderem as suas firmes opiniões sobre a
distinção, a comodidade do calçado comprado feito e mandado fazer de
encomenda.
Agostinho
Marques, “solicitador nos auditórios desta Capital”, chegou a
empregar argumentos de natureza jurídica; Abelardo Leiva, apóstolo
do socialismo revolucionário, inimigo da execrável burguesia,
procurou justificativa nos elegantes do mundo chic
parisiense. A minha reserva só os fazia prolongar a discussão;
estavam diante de um juiz, a quem expunham as suas razões com
delicadeza e urbanidade.
— Lá vai o Raul
Gusmão, exclamou Marques.
Voltei-me um
pouco. Era de fato ele de braço com o Oliveira. Vestia um grande
fraque de xadrez; tinha botinas de verniz com os canos de pano e
marchava conversando com o companheiro, apertando os olhos e
procurando os mais surpreendentes gestos que lhe viessem aumentar a
reputação jornalística.
— E um rapaz de
talento, disse Marques.
O carrossel moía
uma música banal, preguiçosa e irritante. Leiva esteve pensando um
instante e disse:
— É, e parece
que faz prosperar o seu talento com práticas suspeitas.
— É verdade o
que se diz por aí dele? indagou a meia voz o solicitador.
— Não sei, nunca
vi, mas, no domingo, nós... — não foi Caminha?
Fiz um sinal
afirmativo e o meu amigo continuou:
— ... no domingo
vimo-lo entrar numa hospedaria da Rua da Alfândega com um fuzileiro
naval.
— Qual, disse
Leiva, não creio. Ele faz constar isso e faz suspeitar, para se ter
em melhor conta o seu talento. O público quer que todo talento
artístico tenha um pouco de vicio; aos seus olhos, isso o aumenta
extraordinariamente, dá-lhe mais valor e faz com que o escritor
ganhe mais dinheiro.
— Como é então
que entrou na hospedaria? indagou Marques.
— Tinha-nos
visto e, mediante uma gorjeta, obrigou o soldado a prestar-se ao
papel... Aquilo é o gênio do réclame.
Em torno de nós,
sob a chuva miúda do vapor condensado do motor de iluminação, grupos
de passeantes moviam-se de um lado para outro, isocronamente,
lentamente, tristemente, como se obedecessem a uma lei inflexível a
cujo império não se pudessem furtar. Só o carnaval tira essa triste
gravidade aos nossos passeios. Os rapazes excedem-se, saem fora da
bitola, e as moças, e as senhoras abandonam-se aos impulsos do
temperamento. Lembro-me que em um dos últimos carnavais a que
assisti, às oito e meia da noite, vi duas moças afastarem-se um
pouco para o interior do escritório da Gazeta de Notícias, donde
assistiam à passagem de cordões, e lá dentro requebrarem
lascivamente com as exigências que um “maxixe” tocado por uma banda
de música a passar pedia. Fora do carnaval sempre senti essa mesma
tristeza nos nossos passeios públicos, tendo presente sempre a
tirania doméstica e a preocupação do dia seguinte.
Os dois
continuavam a conversar, quando voltei a ouvi-los. Tinham passado
imprevistamente para a reforma social que Leiva anunciava.
Agostinho, que se sentia chegar a homem rico e considerado, fazia
imensos esforços para contestar as doutrinas subversivas de Leiva:
— Mas o senhor o
que quer é desordem, é anarquia, é extinção da ordem social...
E Leiva sorria
um instante, satisfeito que ele viesse ao encontro da sua resposta
querida.
— Mas é isso
mesmo, não quero outra coisa! Pois o senhor acha justo que esses
senhores gordos, que andam por aí, gastem numa hora com as mulheres,
com as filhas e com as amantes, o que bastava para fazer viver
famílias inteiras? O senhor não vê que a pátria não é mais do que a
exploração de uma minoria, ligada entre si, estreitamente ligada, em
virtude dessa mesma exploração, e que domina fazendo crer à massa
que trabalha para a felicidade dela? O público ainda não entrou nos
mistérios da religião da Pátria... Ah! quando ele entrar!
Levado pelo
calor da frase Leiva continuou a falar cheio de forças, entusiasmo:
— Não há na natureza nada que se pareça com a nossa sociedade
governada pelo Estado... Observe o senhor que todas as sociedades
animais se governam por leis para as quais elas não colaboraram, são
como preexistentes a elas, independentes de sua vontade; e só nós
inventamos esse absurdo de fazer leis para nós mesmos — leis que, em
última análise, não são mais que a expressão da vontade, dos
caprichos, dos interesses de uma minoria insignificante... No nosso
corpo há uma multidão de organismos, todos eles interdependem, mas
vivem autonomamente sem serem propriamente governados por nenhum, e
o equilíbrio se faz por isso mesmo. O sistema solar... Na natureza,
todo o equilíbrio se obtém pela ação livre de cada uma das forças
particulares...
Agostinho
precisava arranjar uma objeção, mas o conhecimento das noções que
Leiva punha em jogo estava completamente fora da sua atividade
mental. O apóstolo-poeta, sentindo a fraqueza do adversário,
exultou, e, deitando um olhar em torno, exclamou vitoriosamente:
—Eu quero a
confusão geral, para que a ordem natural surja triunfante e
vitoriosa!
Deitou um longo
e terno olhar para a linda burguesa da vizinhança e bebeu
voluptuosamente um grande gole de cerveja. Eu creio que se a nova
era dependesse do seu braço, ele não deitaria a bomba para não
assustar as meninas bonitas e delicadas.
Foi Leiva o meu
iniciador no Rio de Janeiro. Deu-me relações, ensinou-me as
maneiras, o calão da boêmia, levou-me aos lugares curiosos e
consagrados. Com ele fui ao Apostolado Positivista ouvir o Senhor
Teixeira Mendes. Um grande matemático, disse-me; a primeira cabeça
do Brasil, uma inteligência enciclopédica, uma erudição segura, e,
sobretudo, um caráter e um coração!
Um domingo, em
que havíamos saído do Apostolado, vínhamos descendo pachorrentamente
o cais da Glória, a conversar.
Leiva viera pela
Rua Benjamin Constant abaixo gabando a eloqüência do venerável
Senhor Mendes, a sua virtude, a sua sobriedade e contara-me por alto
a surra que ele dera no Bertrand, da Academia Francesa, em assunto
de Matemática. Eu ouvi-o sem coragem de contestar, embora não
compartilhasse as suas crenças. Não era a primeira vez que ia ao
Apostolado, mas quando via o vice-diretor sair rapidamente por
detrás de um retábulo, na abside da capela, ao som de um tímpano
rouco, arrepanhando a batina, com aquele laço verde no braço,
dava-me vontade de rir às gargalhadas. Demais, ficava assombrado com
a firmeza com que ele anunciava a felicidade contida no Positivismo
e a simplicidade dos meios necessários para a sua vitória: bastava
tal medida, bastava essa outra — e todo aquele rígido sistema de
regras, abrangendo todas as manifestações da vida coletiva e
individual, passaria a governar, a modificar costumes, hábitos e
tradições. Explicava o catecismo. Abria o livro, lia um trecho e
procurava o caminho para alusões a questões atuais, repetindo
fórmulas para se obter um bom governo que tendesse a preparar a era
normal — o advento final da Religião da Humanidade. E eu achava toda
aquela dissertação tão intelectual, tão balda de comunicação, tão
incapaz de erguer dentro de mim o devotamento, o altruísmo, “o
esforço sobre mim mesmo em favor dos outros”, como dizia o apóstolo,
que me quedava a indagar até que ponto o auditório respeitoso estava
convencido e ate que ponto fingia convicção.
Havia trechos em
que ele insistia com particular agrado. Via-se que neles repousava a
conversão dos espíritos. Não me esqueci que ele amava repetir que a
Física, a Química, a Biologia, a Sociologia, todas as ciências e
todo o esforço humano de qualquer ordem tinham preparado lentamente
e tendiam para a religião da humanidade; era ela como a coroação, a
cúpula do edifício do pensamento e dos sentimentos da humanidade.
Citava trechos de grandes poetas nesse sentido, e procurava dados
históricos. Quando se oferecia ocasião, esboçava a ordem futura,
cotejando-a com a presente. O médico, o professor e o sacerdote
estariam juntos em um mesmo homem, cujos serviços seriam gratuitos;
todos exerceriam um ofício manual e os capitais acumulados em poucas
mãos seriam empregados em beneficio social. A quantas necessidades
presentes daquele auditório não iria dar remédio a promessa daquela
sociedade a vir?! Os homens têm amor à utopia quando condensada em
fórmulas de felicidade; e aqueles militares, funcionários,
estudantes, encontravam naquelas afirmações, repetidas com tanta
segurança e cuja verdade não procuravam examinar, um alimento para a
fome de felicidade da espécie e um consolo para os seus maus dias
presentes.
Pelo caminho,
ouvi repetirem as palavras do Mestre e apoiarem-se nelas para
criticar atos do Governo, projetos da Câmara — esse viveiro de
bacharéis ignorantes que não sabem Matemática.
Observei que o
meu próprio amigo Leiva partia também dessa crença pitagórica das
virtudes da Matemática para condenar e criticar o governo e os
governantes; entretanto, além daquelas explicações filosóficas do
Senhor Teixeira Mendes, ele sabia pouco mais do que as quatro
operações na ciência divina.
— Vê tu,
dizia-me ele, quem no Brasil tem conhecimentos mais seguros que o T.
Mendes? E acrescentava logo: como se pode acreditar que, na nossa
época científico-industrial, um homem que não conhece como se
fabricam os encanamentos d'água, as propriedades do ferro e o seu
tratamento industrial, as teorias hidráulicas, poderá aquilatar e
dirigir os serviços de uma cidade moderna, cuja primeira necessidade
é um seguro e farto abastecimento d'água?
Leiva gostava de
falar; e, quando a matéria lhe agradava, o cansaço dificilmente
vinha. Eu amava ouvi-lo, pois tinha uma bela voz, acariciante e de
agradável timbre, e que vibrava musicalmente ao chegar-lhe a paixão.
Continuou:
— Antigamente,
todos os governantes tinham, ou antes, estavam ao par do saber de
seu tempo, e só com a necessidade do estabelecimento de novas
ciências—o que fez a especialização dos conhecimentos — deixaram tão
salutar regra. Hoje porém, graças ao sobre-humano cérebro de Comte —
o maior talvez depois de Aristóteles — o saber voltou à unidade útil
e moral dos outros tempos. A síntese foi feita e os estadistas
verdadeiramente dignos, servidores práticos da Humanidade, poderão
encontrar nela um seguro farol para guiá-los.
Não me animei a
perguntar-lhe se a síntese de que falava continha também a questão
do abastecimento d'água. Senti a sinceridade momentânea de suas
palavras, ditas até com certo entusiasmo; e quando alguém me fala
desse modo, encho-me de respeito e de amizade. Vínhamos descendo a
rua e assim continuamos um instante calados. Houve uma ocasião, em
que, quase sem refletir, perguntei ao Leiva:
— Como você é ao
mesmo tempo anarquista e positivista — uma doutrina de ordem, de
submissão, que espera a vitória pelo resultado fatal das leis
sociológicas?
— Ora você! Eu
quero uma confusão geral, um abalo completo desta ordem iníqua, para
então... O Mendes é simples, e bom, pensa que isso vai como ele
quer: mas é preciso... Olhe, o Cristianismo...
Olhei um
instante a seda azul do mar levemente enrugada e sorvi um pouco da
viração que soprava da barra; depois perdemo-la de vista e a viração
deixou de açoitar-nos com força e fomos descendo a Rua da Lapa,
transitada, ladeada de sobrados, donde pendiam mulheres públicas em
peignoir, como descoradas orquídeas de milionário europeu,
cujo brilho natural o ambiente de estufa lhes tirou ou não soube
dar. Nós olhamo-las com um pouco da nossa mocidade e com um pouco
das preocupações que trazíamos; e caminhamos para o Passeio Público,
onde íamos esquecer que não jantávamos, olhando a turba resignada
que aproveitava o domingo.
Uma banda de
música enchia o jardim com os seus estridentes compassos. Nas
proximidades do coreto, Leiva encontrara um conhecido com quem
ficara a conversar. Eu não me detive; avancei vagarosamente para o
terraço que deita para o mar. O meu companheiro veio ter comigo meia
hora depois e vinha acompanhado de um outro rapaz. Apresentou-nos.
Um instante, contemplei a angustiada cabeça do desconhecido, o seu
ar orgulhoso e todo ele esguio e alto, ligeiramente curvado como um
teimoso caniço que não se pôde erguer completamente depois das
muitas tempestades que suportou.
— O Plínio,
Caminha, disse Leiva, vinha-me contando o seguinte: há dias, o
Florêncio — conheces? Fiz sinal que não e ele insistiu: o Florêncio
que redige a seção do Jornal do Rio — conheces, não é? Pois bem; o
Florêncio entrou na Portier e pôs-se a ler um livro. De quando em
quando mudava de lugar, aproximando-se da porta. Assim leva hora e
tanto. Ele, porém, não tinha reparado que os empregados vigiavam-no.
Num dado momento, meteu a brochura debaixo do paletó e encaminhou-se
para a porta. Os caixeiros cortaram-lhe os passos, intimando-o a
entregar a obra. Florêncio ataranta-se, prontifica-se a pagar, o
dinheiro cai e...
— Pagou?
perguntei.
— Pagou sim,
apressou-se em responder Plínio de Andrade; mas um dos empregados da
livraria disse-lhe insolentemente: Você paga este sobre a Grécia,
que queria levar agora e também o romance francês que levou
anteontem... A Imprensa! Que quadrilha! Fiquem vocês sabendo que, se
o Barba-Roxa ressuscitasse, agora com os nossos velozes cruzadores e
formidáveis couraçados, só poderia dar plena expansão à sua
atividade se se fizesse jornalista. Nada há tão parecido como o
pirata antigo e o jornalista moderno: a mesma fraqueza de meios,
servida por uma coragem de salteador; conhecimentos elementares do
instrumento de que lançam mão e um olhar seguro, uma adivinhação, um
faro para achar a presa e uma insensibilidade, uma ausência de senso
moral a toda a prova... E assim dominam tudo, aterram, fazem que
todas as manifestações de nossa vida coletiva dependam do
assentimento e da sua aprovação... Todos nós temos que nos submeter
a eles, adulá-los, chamá-los gênios, embora intimamente os sintamos
ignorantes, parvos, imorais e bestas... Só se é geômetra com o seu
placet, só se é calista com a sua confirmação e se o sol
nasce é porque eles afirmam tal coisa... E como eles aproveitam esse
poder que lhes dá a fatal estupidez das multidões! Fazem de imbecis
gênios, de gênios imbecis; trabalham para a seleção das
mediocridades, de modo que...
— Você exagera,
objetou Leiva. O jornal já prestou serviços.
— Decerto... não
nego... mas quando era manifestação individual, quando não era coisa
que desse lucro; hoje, é a mais tirânica manifestação do capitalismo
e a mais terrível também... É um poder vago, sutil, impessoal, que
só poucas inteligências podem colher-lhe a força e a essencial
ausência da mais elementar moralidade, dos mais rudimentares
sentimentos de justiça e honestidade! São grandes empresas,
propriedade de venturosos donos, destinadas a lhes dar o domínio
sobre as massas, em cuja linguagem falam, e a cuja inferioridade
mental vão ao encontro, conduzindo os governos, os caracteres para
os seus desejos inferiores, para os seus atrozes lucros burgueses...
Não é fácil a um indivíduo qualquer, pobre, cheio de grandes idéias,
fundar um que os combata... Há necessidade de dinheiro; são
precisos, portanto, capitalistas que determinem e imponham o que se
deve fazer num jornal... Vocês vejam: antigamente, entre nos, o
jornal era de Ferreira de Araújo, de José do Patrocínio, de Fulano,
de Beltrano... Hoje de quem são? A Gazeta é do Gaffrée, o País é do
Visconde de Morais ou do Sampaio e assim por diante. E por detrás
dela estão os estrangeiros, senão inimigos nossos, mas quase sempre
indiferentes às nossas aspirações...
Andrade acabou
de falar e tirou o chapéu um instante. Vi-lhe o cabelo crespo,
lanudo e revolto e toda a sua grande cabeça angustiada e inteligente
assomou aos meus olhos com uma grande expressão de rebeldia. Coado
através das árvores, um jato de luz veio bater-lhe em cheio e ela
mais bela me apareceu quando inundada por aquela luz de ouro.
Sentando-se, o seu ar já era outro, manso, passivo, e a sua voz,
antes tão enérgica, passou a ser macia, preguiçosa e tomou um ar
distraído até despedir-se. Nós fomos jantar com o dinheiro que ele
deu ao Leiva e soube por este alguma coisa da sua vida passada. Fora
estudante de Medicina na Bahia, e freqüentava o segundo ano quando
um estudante mais antigo lhe dissera: “Apanha isto aí, 'seu'
calouro!” Andrade olhou-o devagar e virou-lhe as costas. O veterano
exacerbou-se com o olhar, quis obrigá-lo a obedecer, empregando a
força; e, como fosse mais forte, Plínio bruscamente apanha de cima
da mesa de um guarda uma raspadeira, crava-a várias vezes no colega
e mata-o. Atualmente, vivia ensinando História Natural nos colégios
e publicando panfletos em que a sua irritação lhe congestionava a
frase indignada. Era odiado e gostava de sê-lo.
Esse domingo foi
um dos últimos que passei com relativa satisfação. Invadia-me uma
indiferença, uma atonia, que me fazia viver sem me decidir a tentar
o menor passo para sair da situação em que me achava. Media as
dificuldades, os óbices, os tropeços, achava-os iníquos mas
superiores às minhas forças, Abandonara-me à miséria que a proteção
de Agostinho Marques impedia que chegasse a ser declarada. Fizera-me
seu professor e secretário; mas era difícil dar-me o ordenado que me
tinha marcado. Fazia-lhe requerimentos, cartas de amor, ensinava-lhe
os prolegômenos de alguns preparatórios; mas a sua pobreza
intelectual e a sua malandragem resistiam particularmente à entrada
na sua cabeça da menor noção. Nunca chegou a compreender os teoremas
de divisibilidade e a sua memória não guardava as regras do plural
francês. Aos poucos, desistiu da lição e diminuiu-me o ordenado que
era anteriormente de quarenta mil-réis, dados aos bocados.
Entretanto, cada dia se apurava mais no trajar, fazia amigos entre a
gente importante, cercava-os, tinha um cumprimento e um sorriso para
cada um.
Num dia de
abandono em que lhe cheguei de manhã a casa, pedindo-lhe dez
tostões, contou-me que estivera na véspera numa grande “esbórnia”.
Tinham sido seus companheiros o Deputado S., Leader do
Governo, e o doutor H.; o primeiro foi mais tarde ministro e o
segundo ainda é desembargador da Corte de Apelação.
Marques preferia
que eu lhe pedisse dinheiro a experimentar o seu prestigio junto aos
seus poderosos amigos, solicitando uma colocação para mim. Uma vez
que lhe falei a respeito, esforçou-se por me mostrar que era
impossível enquanto os seus amigos estivessem por baixo. Enquanto
ele esteve no Rio deu-me roupas; tive com que pagar o quarto e
dinheiro para comer com o intervalo de quarenta e oito horas. Um
belo dia, porém, disse-me que ia para fora, para um Estado do Norte,
tratar de negócios, demorando-se dois ou três meses. Foi uma grande
época de fome e sofrimento na minha vida. Leiva era incapaz do menor
obséquio; nada lhe fazia retirar um tostão dos seus perfumes e das
suas roupas. Vendi as melhores roupas que tinha, tudo que tinha
valor vendi, e, quando nada mais tinha que vender, passei dias
inteiros sem tomar café. Lá chegava uma ocasião que alguém, um quase
desconhecido, uma fisionomia encontrada momentaneamente, me
convidava a jantar; e se não fossem eles, eu talvez tivesse morrido
de inanição ou furtado bolos às confeitarias. Esperava resposta de
uma carta minha que não tardou a vir. Recebi-a na “posta restante”
e, encostado a uma coluna, pus-me a lê-la. Tio Valentim dizia-me que
lá atravessavam uma grande crise. Minha mãe estava de cama, muito
mal, desenganada...
Não continuei a
leitura; deixei cair a mão ao longo do corpo e estive a olhar a rua,
sem ver coisa alguma. Morria minha mãe! E via-a logo morta, muito
magra, os círios, o crucifixo, o choro... Passou-me pelos olhos a
sua triste vida, humilde e humilhada, sempre atirada a um canto como
um móvel velho, sem alegria, sem fortuna, sem amizade e sem amor...
Durante aqueles
meses de ausência, eu pouco me detive na sua recordação; mas agora
elas eram freqüentes e a sua figura flutuava a meus olhos: magra,
esquálida, com o corpo premido pelos trabalhos e tendo pelas faces
aquelas manchas que pareciam de fumaça entranhada... Eu quis
envolver essa recordação com o que havia em mim de mais terno e
também as outras que me vieram: a volta do colégio, o abraço que eu
lhe dava; a minha doença, como ela me dava remédios... E tudo vinha
com pressa do fundo de mim mesmo, subia uma recordação que expulsava
outra; por fim, tudo se baralhou, tornou-se confuso e os meus olhos
se orvalharam de pranto.
—Oh! Caminha!
Onde tens andado? Que tens, rapaz?
Era Gregoróvitch
Rostóloff. Falei, contei-lhe a vida. Os seus olhos de conta mais se
arredondaram de desconfiança; mas, depois de duas ou três perguntas,
de examinar-se o vestuário e algumas palavras de consolo, ao
despedir-se, assim me convidou:
—Aparece-me
logo, à noitinha, na redação do O Globo.
VIII
Era uma sala
pequena, mais comprida que larga, com duas filas paralelas de
minúsculas mesas, em que se sentavam os redatores e repórteres,
escrevendo em mangas de camisa. Pairava no ar um forte cheiro de
tabaco; os bicos de gás queimavam baixo e eram muitos.
O espaço era
diminuto, acanhado, e bastava que um redator arrastasse um pouco a
cadeira para esbarrar na mesa de trás, do vizinho. Um tabique
separava o gabinete do diretor, onde trabalhavam o secretário e o
redator-chefe; era também de superfície diminuta, mas duas janelas
para a rua davam-lhe ar, desafogavam-no muito. Estava na redação do
O Globo, jornal de grande circulação, diário e matutino,
recentemente fundado e já dispondo de grande prestigio sobre a
opinião. Falei ao Oliveira, perguntando-lhe pelo doutor
Gregoróvitch. O eminente repórter levantou um pouco o olhar de cima
do importante escrito (relação dos decretos assinados no último
despacho) e, ao dar com a minha fisionomia conhecida e humilde,
abaixou-o logo e, entre dentes, transcendentalmente superior,
respondeu: “Ainda não veio”. Eu não tinha mais onde dormir, havia
dois dias que não comia, tinha a máxima necessidade de falar ao
russo. Intimidado com a secura do Oliveira, fiquei de pé hesitando
fazer-lhe uma segunda pergunta. Medroso e esfomeado, deixei-me assim
permanecer alguns minutos debaixo daquele teto que abrigava a
falange sagrada que vinha combatendo pelos fracos e oprimidos.
Felizmente,
houve alguém que me fez sentar e me convidou a esperar. Debaixo das
penas, algumas nervosas e rápidas, outras, calmas e vigorosas, o
papel rinchava sob o maior silêncio. Eram sete horas e pouco; as
pessoas importantes do jornal ainda não tinham chegado. Laje da
Silva, sempre com aquelas suas maneiras atenciosas, com aquele seu
ar indecifrável, entrou na redação, não me olhou sequer e foi direto
ao Oliveira. Estiveram alguns momentos falando em voz baixa, depois
saiu cumprimentando aqui, ali, deixando no ambiente um grande
desprendimento de simpatia e sedução. Houve quem dissesse quando
saiu:
— Que queria
esta “águia” Oliveira?
— Nada...
Procurava o Rabelo... E depois ajuntou: Vocês são injustos, não é
uma “águia”... “Águia” é um cavador de negociatas, de arranjos
desonestos; ele não. Não há uma bandalheira em que se diga que ele
se meteu...
— E as notas
falsas?
— Ora! Ninguém
está livre de que um tratante pague uma dívida em notas falsas e, na
boa fé, vir fazer pagamentos com ela...
— Coitado! fez o
outro com um arzinho canalha.
— Afinal,
objetou o Oliveira indignado, quem é honesto para você, Meneses?
Todos são ladrões, prevaricadores... Livra! Que língua!
A conversa tinha
cessado quando o diretor penetrou na sala. Era o doutor Ricardo
Loberant, um homem muito alto e muito magro, anguloso, com um grande
bigode de grandes guias, louro, de um louro sujo, tirando para o
castanho, e um olhar erradio, cheio de desconfiança. Era um homem
temido, temido pelos fortes, pela gente mais poderosa do Brasil,
ministros, senadores, capitalistas; mas em quem, com espanto, notei
uma falta de firmeza, de certa segurança de gestos e olhar, própria
dos vencedores. Fora uma irrupção. Ninguém o sabia jornalista, mesmo
durante o seu curso mal-amanhado não sacrificara às letras: fora
sempre tido como viveur, gostando de gastar e freqüentar a
sociedade das grandes cocottes. Um belo dia, o público da
cidade ouviu os italianos gritarem: O Globo! O Globo! Os curiosos
compraram-no e com indiferença leram ao alto o nome do diretor:
Ricardo Loberant. Quem é? Ninguém sabia. Mas o jornal atraia, tinha
um desempenho de linguagem, um grande atrevimento, uma critica
corajosa às coisas governamentais, que, não se sabendo justa, era
acerba e parecia severa. Este gostou, aquele apreciou, e dentro de
oito dias ele tinha criado na multidão focos de contágio para o
prestigio de sua folha. Vieram as informações a seu respeito.
Algumas pessoas do foro informaram que o doutor Ricardo Loberant era
um advogado violento, atrevido, que tinha por hábito discutir pelos
“apedidos” do Jornal do Comércio, com mais azedume que lógica, as
causas intrincadas que lhe eram confiadas. E o jornal pegou. Trazia
novidade: além de desabrimento de linguagem e um franco ataque aos
dominantes, uma afetação de absoluta austeridade e independência,
uma colaboração dos nomes amados do público, lembrando por este
aspecto os jornais antigos que a nossa geração não conhecera. O Rio
de Janeiro tinha então poucos jornais, quatro ou cinco, de modo que
era fácil ao Governo e aos poderosos comprar-lhes a opinião
favorável. Subvencionados, a critica em suas mãos ficava
insuficiente e cobarde. Limitavam-se aos atos dos pequenos e fracos
subalternos da administração; o aparecimento d'O Globo levantou a
critica, ergueu-a aos graúdos, ao presidente, aos ministros, aos
capitalistas, aos juizes, e nunca os houve tão cínicos e tão
ladrões. Foi um sucesso; os amigos do Governo ficaram em começo
estuporados, tontos, sem saber como agir. Respondiam frouxamente e
houve quem quisesse armar o braço do sicário. A opinião salvou-o, e
a cidade, agitada pela palavra do jornal, fez arruaças, pequenos
motins e obrigou o Governo a demitir esta e aquela autoridade. E O
Globo vendeu-se, vendeu-se, vendeu-se...
Aquele jornal
que era sua propriedade, recebia também a sua inspiração. Nenhum dos
seus redatores tinha uma personalidade suficientemente forte para
resistir ao ascendente da sua. Medíocres de caráter e inteligência.
embora alguns fossem mais ilustrados que ele, a ação deles no jornal
recebia impulsão do doutor Ricardo, o sinete de sua paixão
dominante, a sua característica; e esta era o despeito de sua fraca
capacidade intelectual, a resistência que o seu cérebro oferecia ao
trabalho mental continuo, de modo a não lhe permitir chegar às altas
posições pelo prestigio do talento e do estudo, não lhe deixando o
seu grande orgulho que chegasse de outra forma mais geral e mais
fácil. Com uma grande sede de domínio e grandes apetites de mulheres
e prazeres, mas sem talento, sem pertinácia e paciência, para
atingir à fortuna e aos grandes cargos, consciente dessas falhas, o
doutor Ricardo tinha ai um depósito inexaurível de emoções, sempre a
esporeá-lo, a excitá-lo e bastante forte para marcar a sua pessoa e
os seus atos.
Demais, o seu
desgosto e o seu despeito podiam cevar-se na mediocridade de
inteligência e na geral desonestidade dos que governavam e
dominavam; era só fechar os olhos e estender a mão. Diziam que os
primeiros artigos não tinham sido escritos pôr ele, mas deviam ter
sido inspirados; foi a sua paixão contagiosa que os ditou ao amigo
complacente que os escreveu. Durante os cinco anos que estive na
redação, senti que o seu estado d'alma “pegava”, alastrava-se pelos
amigos e subalternos, tanto que, nas suas ausências, o diário não
perdia o tom e os artigos pareciam ter sido revistos por ele na
véspera e saírem de sua fonte inexaurível de desgosto, despeito e
rancor. Entretanto, fora do momento, fora do minuto em que se punham
a escrever e sentiam a presença do O Globo diante dos olhos, aqueles
redatores eram a gente mais satisfeita desta vida, satisfeita
consigo, com a posição que tinham e com a sociedade que os cercava.
O doutor Ricardo
Loberant entrou fumando com força seguido de Pacheco Rabelo (Aires
d'Ávila), redator-chefe do jornal, a segunda cabeça da casa. Era um
homem gordo que se movia pela sala com a dificuldade de um boi que
arrasta a relha enterrada da charrua. Havia na sua marcha um grande
esforço de tração e um monóculo petulante na face imóvel não lhe
diminuía o peso da figura. Os dois penetraram na redação pondo na
sala uma inexplicável atmosfera de terror. Pelos longos anos em que
estive na redação do O Globo, tive ocasião de verificar que o
respeito, que a submissão dos subalternos ao diretor de um jornal só
deve ter equivalente na administração turca. É de santo o que ele
faz, é de sábio o que ele diz. Ninguém mais sábio e mais poderoso do
que ele na Terra. Todos têm por ele um santo terror e medo de cair
da sua graça, e isto dá-se desde o continuo até o redator competente
em literatura e coisas internacionais.
Passando por
entre as mesas, tal era a concentração das faces e o ar aterrado
daqueles homens tão arrogantes lá fora, tão sublimes na rua, que eu
pensei que se fossem atirar ao chão para serem pisados por aquele
novo deus, dando-me ali um espetáculo da Índia mística.
Ricardo Loberant
e Aires d'Avila entraram no gabinete onde estava Leporace. O diretor
tirou o chapéu, descansou a bengala num canto, sentou-se ao
bureau-ministre e gritou bem alto.
— “Seu”
Leporace, como e que o senhor deixa publicar esta porcaria (apontou
o jornal) na primeira página?
Leporace era o
secretário, arrogante como todo jornalista, apesar de ser uma pura
criação de Loberant. Formado, sem emprego, sem fortuna, sem
“pistolões”, veio a encontrar-se com o doutor Ricardo. Loberant
gostou da sua submissão, do ar respeitoso com que era tratado pelo
rapaz, daquela espécie de admiração muda pelo seu gênio que ninguém
sentia, e começou a interessar-se por ele dando-lhe sociedade na
banca, arranjando-lhe clientes. Começou precisando dele para apoiar
a sua pessoa, teve pena depois da sua cobardia, da sua inaptidão
para “cavar”, acabou amando-o inteiramente. Quando fundou o jornal,
trouxe-o como redator. Leporace foi aprendendo com os outros o
oficio e acabou secretário, sumidade em literatura e jornalismo,
árbitro do mérito, distribuidor de gênios e talentos — ele que nunca
tivera o mínimo gosto, a menor inclinação por essas coisas e passara
a meninice e as duas mocidades atracado com compêndios e fazendo
exames como toda a gente! Hoje, é quase uma celebridade e passeia de
carro pelas ruas asfaltadas do Rio de Janeiro, tendo ao lado a
mulher e os pimpolhos.
O berro de
Loberant fez estremecer a natureza gelatinosa de Leporace.
Ergueu-se, foi até à mesa do diretor, falou-lhe ciciando,
desculpando-se e explicando-se. Na sala, ouvimos todos e o autor da
“porcaria”, Adelermo Caxias, recebeu aquela injúria sem o mais leve
movimento de revolta, resignadamente, com resignação difícil de
esperar em escritor do seu talento, uma grande esperança das
gerações novas.
Estava ali havia
mais de meia hora. Depois da brusca reprimenda do diretor, o
silêncio fez-se de novo, e os redatores continuaram a escrever, indo
um, de onde em onde, consultar outro timidamente em voz baixa ou
procurar uma coleção de jornais distante.
A presença do
diretor na sala contígua era sentida pelo ruído constante do papel
rasgado; parecia que ele escrevia tiras para rasgá-las logo que
estavam escritas a meio. Do meu lugar, via-lhe a ponta dos ombros e
a Aires d'Ávila inteiramente. O jogo de luzes projetava
fantasticamente este último no vão da parede defronte. A sua face
alongava-se desmedidamente e o crânio diminuía; o maxilar inferior
avançava muito, o nariz ficava colado ao superior e vinha terminar
com ele; e tudo tomava uma posição oblíqua, como se fosse uma imensa
cabeça de porco. Escrevia, ora com monóculo, ora sem ele; e fumava
com a satisfação de um turco que repousa do jantar para se fatigar
no harém. Num dado momento, o doutor Ricardo ergueu-se
impetuosamente e surgiu na sala como um vendaval. Gritou:
— Eu já disse
aos senhores que isto não é escada para ninguém subir... É um
escândalo! Todo dia elogios, adjetivos a encher o... desses pulhas
ai! Já disse que “eminente” aqui é só o José Bonifácio. — Arre! Quem
é esse tal Ruskin que morreu?
Ninguém se
animou a responder e ele continuou no seu primeiro tom:
— Um literato ai
qualquer, um contador de caraminholas... Não quero mais que se chame
ninguém de eminente nas colunas do meu jornal, senão o José
Bonifácio — saibam de uma vez por todas!
O doutor
Gregoróvitch não chegava e comecei a sentir-me também invadido por
aquela atmosfera de terror. O diretor tinha voltado ao seu gabinete
e continuou a rasgar papel. Certa vez, levantou-se, foi até à janela
e, na volta, eu pude ver o seu maxilar proeminente e quadrado e o ar
terrível que tinha a sua fisionomia banhada da turva luz que se
desprendia do olhar. Então, admirei-me que aquele homem, sob cujo
nome apareciam tão formidáveis ataques aos nossos problemáticos
tiranos, fosse ele mesmo, na administração de sua folha, um tirano
malcriado e feroz. Ele parecia não achar sossego: sentava-se,
levantava-se, ia à janela; por fim saiu estrepitosamente. Ao chegar
à porta que dava para o corredor, voltou e gritou a esmo:
— O Gregoróvitch
já veio?
A um só tempo
quase todos responderam prestamente:
— Ainda não,
senhor doutor.
—Bem, retrucou o
doutor Ricardo. Quando ele chegar, digam-lhe que escreva um artigo
sobre o empréstimo da Prefeitura... É preciso não deixar descansar
esses tratantes! Lá em cima da minha mesa, acrescentou logo, está o
começo do meu e ele que continue...
Leporace veio
até à porta receber as recomendações, embora Loberant não se tivesse
dirigido a ele. Logo que o diretor saiu, correu-lhe à mesa para
apanhar os preciosos escritos. Vi-os. Eram três delgadas tiras de
papel cheias de emendas e de algumas frases em grandes letras.
Sentindo-o longe, os seus auxiliares voltaram a conversar.
— Está com a
bicha, disse o Meneses. Ainda não tinhas visto disso, hein Adelermo?
Aqui é assim...
— Admira-me que
só agora tivesse visto que era porcaria... De manhã, nada disse.
— Não há
admirar, fez um outro. A mulher só lhe fala nas coisas do jornal ao
jantar, e ele guia-se muito pela opinião dela...
Adelermo acendeu
um cigarro, tirou uma fumaça calado; depois, impregnado de tristeza,
disse vagarosamente que era triste que os seus trabalhos tivessem
que ficar sujeitos ao veredictum de uma menina das irmãs de
caridade. Os outros nada lhe disseram e ele acendeu de novo o
cigarro, pôs-se a olhar ao longe com tristeza, em seguida essa
expressão desfez-se e quando voltou a trabalhar sua fisionomia
sorria de orgulho interior. O Oliveira então interveio:
— És injusto com
Dona Inês, Adelermo... Não é como tu dizes uma simples menina das
irmãs... É uma senhora ilustrada; fala francês, monta a cavalo e...
Ainda outro dia, eu vi uma carta dela... Que letra! E que
ortografia! Imagina que eram só termos de Medicina... Terapêutica...
Psicologia... agapanto... Não é brinquedo! E todos corretos! Eu fui
ver no dicionário...
No gabinete, o
anafado redator-chefe continuava a escrever, fingindo não dar
atenção à conversa. O charuto estava pelo meio e era aspirado com o
vigor de uma bomba poderosa. Acabando de escrever, leu o artigo
vagarosamente, e ergueu-se e veio ao umbral do tabique:
— Estás zangado
com o Ricardo, Adelermo?
— Não, doutor,
mas...
— Vocês são
assomados... E da idade... Se não se atravessar certas coisas, não
se vai mesmo. Olhem: eu, logo ao sair da academia (!), fui trabalhar
com meu pai, no Diário Fluminense. Uma noite, escrevi um artigo e
julgava-o sofrível. Pois bem: o velho era casmurro, veio até à sala
de redação e rasgou-o todinho na minha cara e à vista de uma porção
de gente...
Parou de falar,
tirou uma fumaça e depois de ter franzido a fisionomia para manter o
monóculo no lugar, perguntou vitoriosamente:
— E agora, não
estou aqui?
— Eu sei,
doutor, falou o Adelermo; mas...
— Vocês não têm
outro patrão como o Ricardo, continuou Aires d'Ávila, sem se
incomodar com o Adelermo. Vejam ( por aí ele teve um arroto do
jantar saboroso). Vejam o que ele fez com o Sanches?! É isso... Há
poucos com a sua generosidade e grandeza d'alma... É um fidalgo, um
mãos-abertas!
O Oliveira
confirmou as asseverações do pachorrento redator, acrescentando:
— E demais vejam
quem fala mal dele... São esses ladrões, esses rufiões, gente
desmoralizada que quer avançar...
— Eu digo isso
sempre dos que o julgam mal, disse alguém. Ainda ontem, conversando
com o Andrade, tive ocasião...
— Você se dá com
esse Andrade? indagou o Oliveira.
— Dou-me. É um
belo rapaz, meio...
— Qual! exclamou
Oliveira. É uma besta!
— Não é,
Oliveira; é um rapaz que escreve...
— Qual! Eu quero
ver esses literatos escreverem duas colunas de incêndio, aqui, no
duro... O próprio Rui...
Aires d'Ávila
prudentemente interrompeu a critica do Oliveira. Não era tanto em
obediência à sua admiração pelo famoso advogado; com certeza era
pelo respeito que lhe inspirava a sua posição política. Interrompeu,
perguntando:
— Quem é esse
Andrade?
A amizade
subalterna do Oliveira esperava essa pergunta para explodir em arras
de sua dedicação ao doutor Loberant.
— É um moleque
ai, uma besta!
O paquiderme
colocou o monóculo e disse com toda a gravidade:
— Ah! Já sei...
Um hâbleur! Gente que confunde o brilho com a inteligência...
Fracas inteligências... Fracas inteligências a que a mocidade dá um
brilho fugaz...
E o monstruoso
redator desandou dizendo asneiras. Eu estava ali de colarinho sujo,
esfomeado, mas tive ímpeto de discutir e de quebrar a cara dos
idiotas que o ouviam. Entre eles, havia alguns a quem cabia bem a
carapuça, mas que se calaram cobardemente. Queria perguntar-lhe se
aqueles seus artigos acacianos, cheirando ainda muito à brochura
francesa de dois mil e quinhentos se podiam pôr a par dos trabalhos
do Tito Lívio, do Tobias Barreto; eu queria perguntar-lhe se a sua
genialidade no artiguete seria capaz de aparecer se tivesse nascido
nas condições desfavoráveis do Caldas Barbosa, do José Maurício, do
Silva Alvarenga e outros!
E não sei que
movimento fiz na cadeira, sopitando a vontade de falar, que o
Megatherium notou e perguntou-me:
— Que é que o
senhor deseja?
— Falar ao
doutor Gregoróvitch.
— Oliveira, o
Gregoróvitch quando vem?
— Às oito horas.
— Você, meu
filho, tem muito que esperar, disse ele com doçura. São sete e um
quarto ainda.
— Esperarei,
disse eu.
E eles
recomeçaram a conversar sobre outro assunto e vieram a cessar
instantaneamente quando se ouviram passos na escada. Esperava-se o
doutor Loberant, mas entrou o fino, o elegante, o diplomático, o
macio Frederico Lourenço do Couto, com a sua linda barba perfumada e
o seu grande queixo erguido e atirado para adiante como um aríete de
couraçado. Vinha todo perfumado, de olhar lustroso, desprendendo
essências, com o peitinho da camisa a brilhar imaculadamente e um
grande botão de coral ao centro, rodeado de brilhantes. Trazia o
sobretudo debaixo do braço e entrou pisando forte, dando amáveis
boas-noites. Vim a conhecê-lo melhor e a minha antipatia não
diminuiu; entretanto, hoje, ao recordar-me com que sombria energia
ele pôs fim ao seu desespero, ao ver diante de meus olhos a imagem
do seu cadáver com aquela fraca cabecinha estourada por uma bala,
tenho uma grande e imensa pena e lastimo que a minha total
ignorância das coisas da Igreja não me permita rezar uma oração em
favor de sua alma. Era o Floc, pseudônimo com que assinava os seus
artigos, os artigos de três tiras, ligeiros e originais, em que, na
máxima parte, ele contava uma linda anedota literária donde concluía
as suas substanciosas opiniões.
Na redação, era
conhecido e respeitado como entendido em literatura e coisas
internacionais. Ele e o Lobo, o consultor gramatical, eram os dois
mais altos ápices da intelectualidade do O Globo. Eram os
intelectuais, os desinteressados, ficavam fora da ação ordinária
daquele exército. Nunca se metiam nas polêmicas, não procuravam
escândalos, não escreviam alusões. Eram os estandartes; as águias...
Gregoróvitch era a artilharia. Com o seu estilo desconjuntado e a
sua violência injuriosa, abria brecha nas linhas adversárias e
dizimava-as de longe. Estrangeiro, nada sabendo da nossa história,
nem pelo estudo nem a sentindo pelo sangue, a sua critica e o seu
ataque tinham uma violência desmedida. Não poupava, não desculpava,
não sentia até que ponto o homem era culpado, até que ponto a marcha
das coisas fazia o homem culpado. Ligeiramente enfronhado nas causas
da política do momento, ele só via diante de si um aspecto do fato,
não sentia inconscientemente os outros que se ligavam com o passado
que ele não conhecia, nem os outros que o futuro pressentido
condicionava. Um brasileiro, educado e criado no meio das tradições,
dos usos, dos hábitos, das qualidades, dos defeitos do seu meio, não
teria a violência de sua linguagem, a sua força de critica, a
brutalidade de seu ataque.
Acharia na sua
educação e nos seus costumes desculpa para as faltas dos outros que
ele sentia também ser suas. Gregoróvitch que, além de estrangeiro,
não tinha pátria ao certo, era incapaz de apanhar relações,
explicações, só via faltas, erros, onde havia simplesmente efeitos,
resultados, e atirava-se com toda a violência de seu temperamento de
aventureiro e condottiere da pena contra aquele reino de
incas, de astecas que ele não compreendia. Além dele, havia o Losque
e o Lara, homens de espirito, humoristas, espécie de cavalaria,
parte viva no ataque e capaz ainda de deitar frechas mortais na
retirada. O resto era a infantaria, o grosso do exército, do qual
fazia parte o Oliveira, admirando o diretor como um deus e
supondo-se extraordinário no seu ofício de repórter; o resignado
Meneses, indulgente criatura que naquele ambiente de fatuidade e
ignorância era o único simples e o único que estudava; o Rolim, o
elegante Rolim, vigorosamente analfabeto, mas lindo como Narciso; o
Costa, o Barros, o agente de anúncios que, não contente em auferir
vultosas comissões pela publicação deles, ainda lhe pedia a vaidade
a ilusão de passar por “homem de pena” nas “partidas” de clubes
dançantes e em outras festividades, onde ia sempre representar o
jornal e exercer a eloqüência, respondendo aos brindes feitos à
folha, assessorado pelo Orador Popular; e, além destes, quantos
mais!
Muitos. Mas há
dois colaboradores que, em todo o jornal, devem merecer observações
especiais e estudo à parte. São eles: o charadista e o cronista
esportivo.
Destes dois
auxiliares das gazetas não sei qual o mais interessante e curioso,
embora dessemelhantes. O charadista vive sempre pobre e mal vestido;
o entendido em cousas de cavalos, apurado no vestuário, sempre com
dinheiro, jóias, anéis, apesar dos exíguos vencimentos que tem.
Os repórteres e
redatores têm por este último um desprezo mal sopitado e não o
consideram jornalista. Admitem-no como um amador, um curioso, um
ornamento inútil, assim como uma filigrana em vaso destinado a
misteres úteis ou um remate caprichoso em um móvel indispensável.
Eles mesmos
assim se consideram e admitem tacitamente a opinião dos jornalistas,
pois formam sociedades à parte e preferem ao convívio dos colegas
das folhas, o comércio de proprietários de animais de corridas, de
tratadores, de jóqueis, de sujeitos de book-maker, enfim
desses homens de coudelarias e adjacências que, com um pouco mais de
ferocidade e sangue, lembram, pela sua insignificância e inutilidade
e, ao mesmo tempo, pela importância a que se arrogam e a estima em
que são tidos, os retiários, os mirmillons, os bestiários e
outras espécies de gladiadores antigos e o seu cortejo necessário.
Não há nada mais
enfadonho que uma crônica de corridas. Quem lê uma, lê todas.
Excetuando os dados de momento, são escritas com os mesmos verbos,
os mesmos adjetivos, os mesmos advérbios.
Até o tom
homérico em que são escritas, concorre para essa monotonia.
No seu sopro
épico, há sempre o apelo para os “apostos” que se repetem, desde que
se fala em tal ou qual animal.
Têm-nos, os
cronistas, sempre prontos na memória e não se esquecem de colocá-los
logo que venham a referir-se a dado e certo cavalo.
Se tratam de
“Rayon d'Or”, por exemplo, imediatamente o analista dos prados deixa
pingar da pena e encaixa, entre virgulas, bem ao lado do nome do
cavalo: “o valente filho de ‘Bayard’ e ‘Nínive’”; se vai dizer
qualquer coisa da égua “Maracanã”, não se esquece nunca de escrever
como reforço ao nome da alimária: “a vitoriosa pensionista do
stud São Francisco”.
A ênfase lhes é
indispensável para vazar a emoção que trazem dos prados e cantar as
pugnas cavalares.
Para eles, não
são potros e éguas que se batem; são heróis de Homero. É Agamenon, é
Priamo, é Heitor, é Aquiles que estão a pelejar diante dos muros de
Tróia e com os Deuses e Deusas nas arquibancadas.
Menos
considerado do que o cronista de coisas eqüinas, nos jornais, só o
charadista.
Ele não tem uma
classificação justa e certa; e todos os homens de imprensa têm
escrúpulos em qualificá-lo de colaborador.
Em geral é um
rapazola, empregado aqui ou ali, que não vence ordenado algum na
folha, melancólico, curvado, afigurando-se-nos sempre que vive
debruçado sobre dicionários e, não sabemos por quê, com uma forte
lente como se fosse um gravador de miniaturas.
Vem ao jornal,
procura a correspondência, entrega com timidez a “seção” ao
secretário e ninguém lhe nota a presença resignada e paciente de
tenaz fabricante de quebra-cabeças.
O do meu jornal,
embora fosse pouco assíduo à redação, como os seus semelhantes, pude
conhecer mais de perto.
Era ele um velho
de cerca de sessenta anos, empregado do Ministério da Marinha, no
Arsenal ou em uma fábrica de pólvora.
Usava costeletas
sempre bem aparadas a tesoura, tinha uma cor terrosa, baça,
pince-nez, não largava a piteira de coco com um cigarro modesto e
pisava como se quisesse dar pequenos saltos. Tinha um ar de
saracura.
Além de
charadista, julgava-se poeta, pelo simples fato de compor uns
monólogos desenxabidos e recitá-los nas salas.
Dei-me muito com
ele e posso garantir que não conheci nunca pessoa tão cheia de
cândido orgulho como esse maníaco de charadas.
Imaginava-se uma
grande coisa, um intelectual, um escritor e era rara a vez que,
conversando comigo, não se queixasse da sua situação no
funcionalismo público, da pouca importância que davam aos seus
talentos.
— Veja você só:
estou há quase quarenta anos no Ministério e não fazem nada por mim.
Tenho tido várias comissões importantes. Organizei o catálogo da
Biblioteca da Escola de Aprendizes e, ainda há dias, recitei um
monólogo meu — “Os Barbados” — na casa do Contra-Almirante Esteves.
As moças gostaram muito e a filha do almirante até me disse: “Vou
falar a papai, para aproveitar a inteligência do senhor”.
Soube mais tarde
que, de fato, não havia festa em casa de qualquer magnata da
Marinha, para que ele não fosse convidado. Orgulhava-se muito com
isso e, ao dia seguinte, contava aos colegas as atenções que tinha
recebido, como para provocar a inveja deles.
A verdade,
porém, é que lá figurava como um músico de banda, um cantador de
modinhas ou um pelotiqueiro que lá fossem para distrair as moças,
sem ficar no mesmo pé de igualdade que os outros convidados. Mesmo
assim, a sua vaidade de poeta doméstico ficava satisfeita.
A promessa da
filha do Esteves deu-lhe muitas esperanças; e, após algum tempo, eu
lhe perguntei:
— O senhor já
arranjou alguma coisa?
— Qual! Não me
fizeram nada. É isto: quando querem versos, pedem-me, rogam; quando
querem recitativos, chegam quase a chorar; mas...
— Que é que o
senhor queria?
— Eu queria ir
para a secretaria.
— Por que não o
nomeiam?
— Há a tal
história de concurso... Uma bandalheira... Fazem, mas não sabem
nada. Um dia destes, conversando com o Chaves, segundo oficial da
secretaria, ele não sabia o que era crematística... É assim!
Era a sua
obsessão, além das charadas, ser amanuense da secretaria de Estado
do seu ministério.
Pobre velho!
Queria, no fim da vida, ocupar um lugar de menino!
Antônio Galo,
era este o seu nome, não deixava os dicionários e almanaques de
lembranças, e dizia que, na repartição, pelo vício do maneio de
vocabulários e dicionários, tinha substituído o habitual aos
funcionários públicos de ler jornais.
Era assim
composta aquela peça jornalística que tinha irrompido pela vida
política e administrativa do Brasil com a violência e com o
inesperado de um fenômeno vulcânico.
À frente, estava
o doutor Ricardo Loberant, bacharel em Direito, de inteligência
duvidosa e saber inconsciente, com o seu estado-maior, formado de
Aires d'Ávila, um monstro geológico com prematuros instintos de
raposa; e o Leporace, um secretário mecânico, automático, ser sem
alma, sem defeitos nem qualidades, que recebia os seus movimentos do
exterior e os comunicava às outras peças da máquina; à parte, um
tanto afastado, como aqueles traficantes que acompanham os
exércitos, havia o Alberto Pranzini, o gerente, um italiano de olhar
torvo a abranger um grande arco de circulo no horizonte, calculador
de níqueis, que joeirava a despesa e trazia para as gavetas do
jornal os tostões da população e um pouco dos lucros do comércio
português no Rio de Janeiro, isto é, de todo o comércio da cidade,
pois todo ele é português, tem o seu espírito, a sua alma, e as
regras.
Floc, porém,
sobre todos tinha o grande prestigio de ter estado em Paris e ter
sido segundo-secretário da nossa legação em Quito. Por isso, ele
mesmo se julgava mais depuradamente artista que o resto dos rapazes
que faziam literatura pelo Brasil em fora; e o seu estágio
diplomático em Quito dava-lhe também um infalível julgamento nas
coisas de alta elegância e um saber inarrável nas maneiras de tratar
duquesas e princesas. Fazia a crônica literária, as crônicas
teatrais dos espetáculos de todas as celebridades, as informações
sobre literatura e pintura, além do plantão semanal em que ajeitava
frases lindamente literárias, dados da Psicologia chic, as noticias
de assassinatos perpetrados por soldados ébrios na Rua de São Jorge,
não esquecendo nunca de dizer que o “criminoso é o tipo acabado do
criminoso nato, descrito pelo genial criminalista italiano
Lombroso”. Ia a um banquete diplomático. A sua entrada não perturbou
a conversa.
— ... um
moleque! zurrou o Oliveira.
— De quem falas,
Oliveira? indagou o recém-chegado.
— Um mulato ai,
um tal Andrade...
— Incomoda-te o
que ele escreve?
— Com certeza,
pois se chama o doutor Ricardo de pirata, de Barba-Roxa...
— Ora! Tu! Essa
gente está condenada a desaparecer; a ciência já lhes lavrou a
sentença...
Ele de ciência
sabia o nome e ignorava a conta de dividir. Calou-se um instante e
acrescentou:
— É preciso
fulminar os nulos!
Lobo tinha-se
mantido calado. Durante toda a conversa, dissera uma ou outra frase
ligeira. Revia absorvido um artigo e não queria distrair-se de modo
a perder a menor regra gramatical com que pudesse emendar o
original.
Tendo o Floc e o
Oliveira cessado de falar, alguém perguntou-lhe:
— Doutor Lobo,
como é certo: um copo d'água ou um copo com água?
O gramático
descansou a pena, tirou o pince-nez de aros de ouro, cruzou
os braços em cima da mesa e disse com pachorra e solenidade:
— Conforme: se
se tratar de um copo cheio, é um copo d'água; se não estiver
perfeitamente cheio, um copo com água. Explanou exemplos, mas não
pôde levá-los à dezena, pois alguém apontou na porta, o que mereceu
uma exclamação do Aires d'Ávila: o Veiga!
Todos se viraram
e imediatamente apanharam no ar uma fisionomia sorridente repassada
de admiração. Voltei-me também. Descobri logo quem era. Os retratos,
espalhados pelos quatro cantos do Brasil, tinham tornado familiar
aquela fisionomia; mas, de perto, ali a dois passos de mim, o seu
olhar fixo, atras de fortes lentes, a testa baixa e fugidia, quase
me fizeram duvidar que fosse aquele o Veiga Filho, o grande
romancista de luxuoso vocabulário, o fecundo conteur, o
enfático escritor a quem eu me tinha habituado a admirar desde os
quatorze anos... Era aquele o homem extraordinário que a gente tinha
que ler com um dicionário na mão? Era aquela a forte cerebração
literária que escrevia dois volumes e três volumes por ano e cuja
glória repousava sobre uma biblioteca inteira? Fiquei pasmado. Com
aquele frontal estreito, com aquele olhar de desvairado, com aquela
fisionomia fechada, balda de simpatia, apareceu-me sem mobilidade,
sem ductibilidade, rígido, sinistro e limitado. Acresce que o branco
da sua tez soava falso, e do seu espirito julguei logo, vendo o
esforço que punha a escova na testa para ganhar diariamente terreno
no cabelo! Foi uma má impressão que se desfez mais tarde.
— Veiga, disse
Floc depois dos cumprimentos, gostei muito da tua conferência. Foi
uma epopéia, uma ode triunfal ao grande corso!
— Houve
pedacinhos lindos, intrometeu-se o Oliveira. Quando, por exemplo, o
doutor falou naquele inglês lá da ilha que tinha feito sofrer “o
último grande homem da nossa espécie”, foi como se eu tivesse visto
o próprio Napoleão — grande, alto, com aquele cavanhaque.
— Napoleão era
baixo e não tinha barba, disse alguém.
— É um modo de
dizer, quero falar na figura, na... Era extraordinário mesmo! E a
gente, continuou Oliveira, e a gente fica admirado que um homem
desses tenha sido cercado, acuado em Sedan!
— Em Waterloo, é
que você quer dizer...
— Em Waterloo!
Não foi em Sedan? O Zola, na Derrocada... Eu li!
— Ah! Isto é
Napoleão III, acudiu Floc.
— É VERDADE! Fez
o Oliveira. Que confusão!
Veiga Filho
passeava a olhar pela sala, distraído, sem dar grande atenção ao
Oliveira. Digeriu o seu triunfo e só saiu dessa digestão difícil,
quando Floc lhe disse:
— E quanta
gente! Muitas senhoras... moças, gente fina... Estavam as
Wallesteins, as Bostocks, as Clarks Walkovers... Podes-te gabar que
tens o melhor auditório feminino da cidade... Nem o Bilac.
Por ai os seus
olhos tiveram uma grande e forte expressão de triunfo. Disfarçou com
um movimento de modéstia e perguntou:
— Já deste a
notícia?
— Ainda não; não
tenho tempo... Vou ao banquete do ministro e...
— Quando a vais
fazer?
— Hoje não
posso, vou ao banquete; mas o Leporace podia dar... Leporace (gritou
para o secretário), escreve a noticia da conferência do Veiga!
— Não tenho
tempo, objetou o fanhoso secretário, aproximando-se do grupo.
Durante minutos
estiveram discutindo quem devia dar ou não a noticia, sem chegar a
um acordo. Leporace, então, lembrou que o próprio Veiga a fizesse:
— Estás doido!
objetou o romancista. Não viste o que aconteceu da outra vez? Que
diriam?
— Ora! Que
tolice! Como se houvesse alguém que acreditasse no murmúrio desses
literatecos... Umas bestas, uns vagabundos; escreve, anda!
A sua natureza
de boa fé complacente fê-lo aceder.
Eu demorei-me
ainda muito e pude ouvi-lo ler a noticia. Começou dizendo que era
impossível resumir uma conferência de um artista como Veiga Filho.
Para ele, as palavras eram a própria substancia de sua arte. Dizer
em alguns períodos o que ele dissera em hora e meia, era querer
mostrar a beleza do fundo do mar com uma gota d'água trazida de lá
(não citou o autor). Em seguida, a grande glória das letras partias
mostrou como tinha começado: citou Nietzsche, de quem, hoje, entre
nós, Veiga Filho e um dos mais profundos conhecedores e a cuja
filosofia a sua inspiração obedece. Começou com o Zaratustra: o
homem é uma ponte entre o animal e o super-homem. Daí partiu
seguindo o grande corso na passagem desta ponte. Serviu-se dos mais
modernos historiadores: Masson, Albert Sorel, Lord Rosebery.
Descreveu a batalha de Austerlitz, contou a campanha da Rússia e a
passagem do Berezina foi motivo para uma descrição das mais
artísticas que até agora se fez na nossa língua. Pelo auditório,
quando ele mostrou aqueles milhares de homens, caindo ao rio gelado,
amontoando-se uns sobre os outros, debatendo-se, lutando sob uma
chuva de metralha, correu um frisson de terror.
Contestou teorias de Tólstoi, pôs finas notações aos ataques feitos
a Napoleão e ao estudo de seu gênio por Lombroso. Patenteou uma
grande erudição e conhecimentos não suspeitados; e, quando a sua
palavra colorida descreveu os suplícios desse titã roído pelo
enfado, houve na sala um soluço.
Foi um duplo
triunfo, terminava assim a noticia, de Veiga Filho e de Napoleão, o
último grande homem que a nossa espécie viu, cuja grandeza e cujos
triunfos aquele grande artista soube pintar e descrever, jogando com
as palavras como um malabarista hábil faz com as suas bolas
multicolores. Raro e fugace gozo foi essa conferência do eminente
cultor das letras pátrias.
Veiga Filho
acabou de ler a noticia no meio da sala, cercado de redatores e
repórteres. Enquanto ele lia cheio de paixão, esquecido de que fora
ele mesmo o autor de tão lindos elogios, fiquei também esquecido e
convencido do seu malabarismo vocabular, do sopro heróico de sua
palavra, da sua erudição e do seu saber...
Cessando,
lembrei-me que amanhã tudo aquilo ia ser lido pelo Brasil
boquiaberto de admiração, como um elogio valioso, isto e, nascido de
entusiasmo sem dependência com a pessoa, como coisa feita por um
admirador mal conhecido! A Glória! A Glória! E de repente,
repontaram-me dúvidas: e todos os que passaram não teriam sido
assim? e os estrangeiros não seriam assim também?...
Mas, a
indiferença da nossa gente, pelas coisas de espírito, talvez
justifique tais manejos, penso agora.
Naquela hora,
presenciando tudo aquilo, eu senti que tinha travado conhecimento
com um engenhoso aparelho de aparições e eclipses, espécie
complicada de tablado de mágica e espelho de prestidigitador,
provocando ilusões, fantasmagorias, ressurgimentos, glorificações e
apoteoses com pedacinhos de chumbo, uma máquina Marinoni e a
estupidez das multidões.
Era a Imprensa,
a Onipotente Imprensa, o quarto poder fora da Constituição!
IX
Aos poucos
esqueci-me dos dias de fome passados a deambular pelas ruas da
cidade. Tinha já um quarto, cama e um lavatório de ferro, pensão de
almoço e jantar; e, ainda, do ordenado, me sobravam sempre alguns
mil-réis para comprar, de quando em quando, umas botinas de abotoar
ou um chapéu da palha mais catita. Gregoróvitch dera-me um terno de
roupa e por todo o tempo em que fui continuo, conheci vários
alfaiates caros por intermédio do corpo dos outros.
No começo,
custei a conformar-me com a posição de continuo, mas consolei-me
logo, ao lembrar-me dos meus heróis do Poder da Vontade; e não foi
sem desgosto que aceitei as fatiotas daqueles desconhecidos.
Custou-me muito curvar-me a tão vil necessidade; com o tempo, porém,
conformei-me, e de tal modo me habituei que, mais tarde, quando a
minha situação mudou, foi-me preciso grande esforço, para me
habituar a comprar roupa em primeira mão. Achava-a cara, e o
dinheiro gasto nela, despendido inutilmente, como se o gastasse em
orgias e bebedeiras. Os meus vencimentos eram aumentados pelas
gorjetas. Havia-as de duzentos réis, mas, em geral, eram de
quinhentos réis para cima. A gente dos jornais é pródiga como
jogadores e gosta de aparentar desprezo pelo dinheiro e
generosidade. Uma vez, recordo-me bem, um repórter, entrando alta
noite na redação, com o olhar brilhante e o passo um tanto trôpego,
disse-me cheio de efusão:
— Caminha, tens
dinheiro?
— Tenho, sim
senhor, dois mil-réis... O senhor...
Ele não entendeu
bem a minha resposta e continuou com a voz pastosa:
— Sabes donde
venho? Do Aplomb Club. Ganhei oitocentos mil-réis no baccarat...
Arre! Que desta vez levei a melhor ao Laje... Sabes quem bancava? O
Demóstenes, o doutor Demóstenes Brandão, pretor, primo de um
ministro.
O repórter
falava bamboleando a cabeça e agitando os braços molemente. Esteve
alguns instantes calado, a revirar os olhos, e depois puxou da
algibeira uma nota de vinte mil-réis e disse-me:
— Toma! Vai
procurar um bom fim de noite...
Eu tinha cem
mil-réis por mês. Vivia satisfeito e as minhas ambições pareciam
assentes. Não fora só a miséria passada que assim me fizera; fora
também a ambiência hostil, a certeza de que um passo para diante me
custava grandes dores, fortes humilhações, ofensas terríveis.
Relembrava-me da minha vida anterior; sentia ainda muito abertos os
ferimentos que aquele choque com o mundo me causara. Sem os achar,
em consciência, justos, acobardava-me diante da perspectiva de novas
dores e apavorei-me diante da imagem de novas torturas.
Considerei-me feliz no lugar de continuo da redação do O Globo.
Tinha atravessado um grande braço de mar, agarrara-me a um ilhéu e
não tinha coragem de nadar de novo para a terra firme que barrava o
horizonte a algumas centenas de metros. Os mariscos bastavam-me e os
insetos já se me tinham feito grossa a pele...
De tal maneira é
forte o poder de nos iludirmos, que um ano depois cheguei a ter até
orgulho da minha posição. Senti-me muito mais que um continuo
qualquer, mesmo mais que um continuo de ministro. As conversas da
redação tinham-me dado a convicção de que o doutor Loberant era o
homem mais poderoso do Brasil; fazia e desfazia ministros, demitia
diretores, julgava juizes e o presidente, logo ao amanhecer, lia o
seu jornal, para saber se tal ou qual ato seu tinha tido o placet
desejado do doutor Ricardo. Participar de uma redação de jornal
era algo extraordinário, superior, acima das forças comuns dos
mortais; e eu tive a confirmação disso quando, certa vez, na casa de
cômodos em que morava, dizendo-o ao encarregado que trabalhava na
redação do O Globo, vi o pobre homem esbugalhar muito os olhos,
olhar-me de alto a baixo, tomar-se de grande espanto como se
estivesse diante de um ente extraordinário. As raparigas que
residiam junto a mim, lavadeiras e costureiras, criadas de servir,
apelidaram-me “o jornalista”, e mesmo quando vieram a ter exato
conhecimento da minha real situação no jornal, continuei a ser por
esse apelido conhecido, respeitado e debochado.
Fiquei enervado
de orgulho pueril, tratando toda a gente com um desdém sobranceiro,
sentindo-me tocado, atingido por um pouco da grandeza que cabia ao
doutor Loberant, ao Losque e ao inimitável Floc.
Depois de
acobardado, tornei-me superior e enervado e não tentei mais mudar de
situação, julgando que não havia no Rio de Janeiro lugar mais digno
para o genial aluno de Dona Ester que o de continuo numa redação
sagrada. Não estudei mais, não mais abri livro. Só a leitura d'O
Globo me agradava, me dava prazer. Comecei a admirar as sentenças
literárias do Floc, as pilhérias do Losque, a decorar a gramática
homeopática do Lobo e a não suportar uma leitura mais difícil, mais
densa de idéias, mais logicamente arquitetada, mesmo quando vinha em
jornal. Era pesado e...
Nos jornais do
Rio, os seus sacerdotes consumados entendem por artigo pesado os
extensos ou aqueles que não desenvolvem, até à tolice minuciosa,
noticias de crimes sensacionais et reliqua. Nada influi para
modificar-lhes o julgamento a atração do artigo, já pelo assunto, já
pelo modo de tratá-lo, já pelo estilo do escritor. Desde que não se
trate de crimes espantosos, de idiotas intrigas políticas, uma
crônica mais pensada ou um artigo mais estudado será refugado como
pesado. A gente dos jornais do Rio só tem idéias feitas e clichés
de opiniões de toda a natureza incrustados no cérebro.
A não ser o
Jornal do Comércio, pode-se dizer que os diários do Rio nada têm o
que se leia e todos eles se parecem, pois todos têm a preocupação de
noticiar crimes, escândalos domésticos e públicos, curiosidades
banais e, em geral, ilustrados com zincografias que nada têm com o
caso, quando não são hediondas ou imorais, como aconteceu com O
Globo que, certa vez, deu a de um cadáver exumado, inteiramente nu.
A imprensa
popular de qualquer país, por exemplo: o Martin, o Journal (falo dos
que conheço) — não é tão indigente de leitura, de atrativos outros
que não o vulgar noticiário, como os jornais do Rio, nos quais quase
não existe colaboração de qualquer natureza.
Guiados pelas
mesmas leis, obedecendo quase a um único critério, todos eles se
parecem; e, lido um, estão lidos todos.
Continuemos,
porém, a narração da minha vida de quase jornalista.
Em menos de ano
e tanto, tinha já construído uma pequena consciência jornalística
para meu uso. Julguei-me superior ao resto da humanidade que não
pisa familiarmente no interior das redações e cheio de inteligência
e de talento, só porque levava tinta aos tinteiros dos repórteres e
dos redatores e participava assim de um jornal, onde todos têm
gênio. Os contínuos, os revisores, os caixeiros de balcão, o
gerente, os redatores, os homens das máquinas, os tipógrafos, os
agentes de anúncios, todos têm gênio, muito gênio mesmo, quando de
sobra não têm também muito espirito, muito mesmo! Aquela casa, como
todas do seu feitio, em que se fabricam novidades para o público,
era uma colmeia de gênios. Colmeia é bem o termo porque era pequena
e acanhada. Os redatores escreviam uns em cima dos outros; na
revisão, que ficava misturada com a composição, não se podia andar;
e pela noite os bicos de gás sem vidros iluminavam tudo aquilo
lobregamente, com grandes hiatos de sombras como um porão de navio.
Pela sala em que esses dois departamentos funcionavam, flutuava um
forte odor de urina, desprendido de um mictório, que existia entre
duas caixas da tipografia. No dia que notei isso, não fazia oito que
um artigo furioso atacava o Governo pelas más condições higiênicas
do Hospício Nacional de Alienados.
Quando se
tratava de per si com qualquer dos empregados do jornal, ficava-se
admirado que a folha se imprimisse e se escrevesse diariamente. Floc
tinha em pouca conta Losque: um bufão, dizia ele; Bandeira
desprezava Floc: um eunuco; e todos como que pareciam querer
entredevorar-se até aos ossos. Entretanto, quando um fazia anos, a
seção competente gemia e os adjetivos mais ternos e mais
camaradários não eram poupados. De seção para seção, a guerra era
terrível. A revisão dizia que a redação era analfabeta; a tipografia
acusava ambas de incompetentes; e até a impressão que não lia nem
via originais tinha uma opinião desfavorável sobre todas três.
A redação não
perdoava a menor falha da revisão. Às vezes, eram os originais
defeituosos; em outras, havia descuido ou a pretensão fazia emendar
o que estava certo; mas sempre as reclamações choviam por parte dos
redatores, dos colaboradores e dos repórteres.
Um caso curioso
deu-se com um artigo de Aires d'Ávila. Na sua cantilena diária, o
paquidérmico plumitivo tinha escrito “pesados 200$000 impostos pelo
Congresso”, mas, passando de uma linha para outra, cortara a quantia
pelo cifrão, sem o qual, a revisão e a tipografia entenderam “200
ovos postos pelo Congresso”. Ávila às nove horas da manhã veio ao
jornal, furioso, com as banhas agitadas, todo ele nervoso de pasmar,
pois sempre me pareceu sem nervos. O que tinha sido uma simples obra
do acaso, atribuía ele a uma canalhice da revisão, uma pilhéria de
mau gosto.
De tarde o chefe
da revisão foi chamado, quis explicar o “gato”; mas a nada se
atendeu e houve algumas demissões. Não eram raras aliás. No jornal,
há-as de mês a mês; por dá cá aquela palha, o diretor ou o
secretário demite, suspende, multa nos ordenados. Dai vem o terror
dos subalternos, a lisonja, o respeito religioso de que são cercados
os chefes. Entretanto, quantas vezes se não lêem acres censuras ao
ministro que demitiu este ou aquele funcionário, por motivos em
geral mais plausíveis!
Unicamente
Gregoróvitch não fazia carga sobre a revisão. Para ele, tanto se lhe
dava sair “nós fomos” como “nós foi”. Não tinha nenhum amor pelos
escritos; eram como cutiladas, tanto fazia matar, ferindo no pescoço
como rachando a cabeça meio a meio. O que ele queria era matar,
ferir, golpear: a maneira pouco se lhe dava. E era uma felicidade
para a revisão que ele pensasse assim. No jornal, só o russo tinha
prestigio e iniciativa. Os outros curvavam-se servilmente ao
diretor. O que não seria se o doutor em Exegese Bíblica tivesse os
cuidados puristas do Oliveira, que reclamava um “propositalmente”
por propositadamente! Toda a sua gramática estava aí. Ele conseguira
saber que “propositalmente” não era aconselhado pelo Rui e aí do
revisor que deixasse escapar um na sua seção! O próprio Loberant,
tão ignorante como o Oliveira, péssimo escritor, tinha fúrias
extraordinárias quando lhe trocavam uma palavra no luminoso artigo.
Diariamente, mesmo quando não escrevia, corria o jornal de manhã, de
principio ao fim, auxiliado pela mulher, para descobrir erros
segundo a gramática do Lobo. Graças a leituras das “sorites” do
esquálido gramático, Loberant julgava-se um purista; demais, ele
sempre tivera culto pelo dicionário, pelo purismo. Era um gosto ver
surgir nos seus artigos-descomposturas termos catados ao Morais e ao
Domingos Vieira. E essa sua crença de purista e cultor da língua
juntara-se, com o tempo, à de ser também um grande homem, um
messias, um homem providencial. Com cuidado e atilamento, afastara
do jornal toda e qualquer pessoa de mais talento que ele.
Proprietário da folha, absorvera-a toda em si: os artigos, a criação
das seções, as referências elogiosas, as “cavações”, tudo só se
fazia com sua audiência e aprovação. Ele pairava sobre o jornal como
um sátrapa que desconhecesse completamente qualquer espécie de lei,
fosse jurídica, moral ou religiosa. Não havia regulamentos, praxes;
o jornal era ele e a coerência de suas opiniões vinha dos impulsos
desordenados de sua alma, que o despeito agitava em todos os
sentidos. No curto prazo de uma semana, o seu jornal atacou, elogiou
e qualificou herói o ministro da Guerra; e nenhum dos três artigos
saiu da sua pena; foram escritos à sua ordem pelo Adelermo Caxias,
que se gabava de honestidade intelectual. Na redação era assim:
escrevia-se, mediante ordem do diretor, hoje contra e amanhã a
favor. Floc, entretanto, gabava-se de ter autonomia nos seus
artigos. Eram puramente literários, ou tinham esse propósito, e, à
luz da inteligência de Loberant, era-lhe perfeitamente indiferente
que o naturalismo fosse elogiado e o nefelibatismo detratado; que a
Academia de Letras tivesse referências elogiosas ou recebesse
epigramas acerados. Floc era contra a Academia, contra os novos,
contra os poetas, contra os prosadores; só admitia, além dele, com a
sua obra subjacente, que se poetassem e fizessem versos, certos
rapazes de sua amizade, bem-nascidos, limpinhos e candidatos à
diplomacia. Confundia arte, literatura, pensamento com distrações de
salão; não lhes sentia o grande fundo natural, o que pode haver de
grandioso na função da Arte. Para ele, arte era recitar versos nas
salas, requestar atrizes e pintar umas aguarelas lambidas,
falsamente melancólicas.
Na crítica,
tinha-se na convicção de um fazedor de poetas, um consagrador de
reputações; com aquele endosso da firma burlesca — Floc — o autor
que lhe recebesse elogios, passava imediatamente para o Larousse .
Ignorante, insciente, com uma leitura de pacotilha, não se animava a
desenvolver qualquer teoria, a ter um ponto de vista qualquer;
bordava umas banalidades — “uns deliciosos momentos de gozo estético
deu-nos, etc.; a sua alma vibra e palpita, etc.”.
Ainda tenho nos
meus papéis a noticia que ele deu de uma plaquette de verso
do poeta Almeida Lopes. Começava assim portentosamente a noticia:
“Eis aqui um caso singular, e que desnorteia os princípios
geralmente admitidos em hereditariedade. O Senhor Almeida Lopes,
filho de escritores, nasceu poeta e escritor”.
Não sabia Floc
que, como grande número de sábios, o povo sentencia: “filho de peixe
sabe nadar; quem sai aos seus não degenera”, etc., etc.
Certamente, ele
possuía, sobre herança psicológica, noções muito mais elegantes,
branquinhas e limpinhas que as admitidas geralmente.
Com isso, e
repetidos elogios aos outros jornalistas, adquiriu ele uma linda
reputação e um grande prestigio de talento e de artista. Quando se
suicidou (oh! como isto é triste de recordar!), quando se suicidou
fui-lhe ver os livros; lá havia a Grande Marnière, de Ohnet; Je suis
belle, de Victorien de Saussay; uns volumes de Bourget, alguns de
Maupassant, nenhum historiador, nenhum filósofo, nenhum estudo de
critica literária, mas dez de anedotas literárias de autores de
todos os tempos e de todos os países. A sua critica não obedecia a
nenhum sistema; não seguia escola alguma. As suas regras estéticas
eram as suas relações com o autor, as recomendações recebidas, os
títulos universitários, o nascimento e a condição social. Elogiava
nefelibatas, se eram de sua amizade, se eram “limpos”; detratava se
não eram. Tinha, além, dois princípios: a aristocracia da arte e a
fulminação dos nulos. Entendia a seu modo aristocracia da arte, isto
é, arte feita pelos aristocratas como ele, cujo pai tivera na
primeira mocidade uma taverna em Barra Mansa.
Uma tarde,
chegou à redação com uma plaquette, impressa em Portugal,
tendo por título — Coração Magoado. Encontrando Leporace,
mostrou-lhe a brochura:
— Conheces?
— Não. Deixa-me
vê-la.
Leporace quis
dar a sua fisionomia flácida, aos músculos inexpressivos de sua
face, uma expressão de finura, de atilamento particular de
entendido. Leu o titulo, o nome do autor, folheou o livro e
perguntou:
— Quem é
Odalina?
— Uma poetisa
portuguesa de muito talento... Está de passagem e vem tratar de uma
revista — O Bandolim... Os versos são líricos, mas de uma pureza de
sentimento e cheios de um acento pessoal de encantar... Eu não gosto
da arte pessoal; a arte (tomou outra atitude) deve refletir o mundo
e o homem, e não a pessoa... Penso como Flaubert... Vê só este:
“Meu coração por
desgraça
Entrou no meu
pensamento
É como crime de
faca
Que nunca {em
livramento.”
— Notaste,
acrescentou ao terminar a leitura, como está bem aproveitada a
devida cadência da trova popular para exprimir um alto conceito
filosófico? Ela quer dizer que o julgamento, a lucidez de sua
inteligência é perturbada pelo Amor, pelo sentimento... E como ela
compara bem com um dizer popular, essa coisa alta e transcendente! O
livro é notável... Vê só esta quadrinha, que perfeição! Quanta
emoção há nela! Ouve:
“Quem tem amores
vai dormir
Na porta do seu
amor
Das pedras faz
cabeceira
Das estrelas
cobertor.”
Leporace pediu
de novo o livro e pôs-se a folheá-lo, lendo aqui e ali. Não teve uma
palavra para dizer, descansou o livro e perguntou:
— Quem te
apresentou?
— O Raul de
Gusmão.
— O Raul! Com
mulheres! E casada?
— É, com o
Visconde de Varannes, um fidalgo francês.
— Olá! Deve ser
uma grande família, nobreza antiga... O nome é histórico, rematou
Leporace satisfeito por ter encontrado uma observação a fazer.
— Não sei se é.
— O marido veio
com ela?
— Não. Ela vive
separada do marido...
— Ahn! Vais
escrever sobre ela, não?
— Naturalmente.
E os dois
sorriam: Floc cheio de satisfação, recordando vagamente as mulheres
já gozadas; Leporace com um evidente travo de amargura nos lábios. O
critico preparava-se para se pôr à mesa, quando entravam o doutor
Loberant e Gregoróvitch. O diretor vinha com a fisionomia alegre.
Floc e Leporace, este mais que aquele, acolheram com as grandes
mostras de respeito de sempre a presença do doutor Ricardo Loberant.
O desbotado secretario deu-lhe conta das recomendações do dia
seguinte. Tinha posto mais uma “brotoeja” contra o prefeito e fizera
escrever um solto combatendo o empréstimo da Prefeitura; e, se não
saíra a “porrada” na gente do Paraná, fora porque o vira a conversar
com o Xavantes.
— Ora, “seu”
Leporace! exclamou o diretor. Que é que tem isso! O jornal é uma
coisa e eu sou outra...
— Pensei...
— Bem... Foi
bom... Mas não me deixe de bater na Prefeitura... É um escândalo!
Uma vergonha! Só o Machado vai ganhar mil contos... Embirro com esse
Machado... Um tratante que não me cumprimenta... Ainda se fosse
outro, vá! E não e isso; é um nulo, um titulo desvantajoso, e que
juro!... Não o deixem, não o deixem; havemos de ver se o O Globo
vale ou não vale...
E o diretor
rematou as suas recomendações com um baixo palavrão insultuoso. Floc
e Leporace tinham ficado a ouvir o venerável diretor; Gregoróvitch,
sentado, fumando, estivera a ler o livro da poetisa portuguesa.
— De quem é
isto? perguntou.
— É meu.
— É o autor que
pergunto.
— O autor! É uma
fidalga portuguesa...
— Livra! São
versos de folhinha...
— De folhinha!
— De folhinha,
sim. Este aqui. “Quem tem amores vai dormir” — é “verso” de hoje
até!
— Não é
possível! Não é possível! reclamou o crítico literário.
— Queres ver?
Caminha, gritou o russo para mim, traze-me aí o “verso” de hoje.
Procurei-o nos
papéis de uma cesta e entreguei-o ao redator poliglota. O
estrangeiro passou os olhos no papelucho e entregou-o ao Floc. O
oráculo artístico do jornal correu rapidamente os versos e
confessou: é verdade, acrescentando — que cinismo! mas sem convicção
nem indignação.
O diretor tinha
entrado para o gabinete seguido de Leporace e nenhum dos dois ouvira
o breve diálogo trocado na sala entre os dois redatores. De repente,
com aquela sofreguidão que lhe era peculiar e que ele punha nos
atos, nos afetos e nos seus medíocres artigos, chegou-se à porta e
perguntou ao Floc:
— Vi esse tal
Andrade na rua... O jornaleco dele ainda continua a sair?
— Penso que sim.
— Tens lido?
— Às vezes.
— Continua a
insultar-me?
— Sempre. E
acrescentou: O doutor se incomoda com o que diz esse vagabundo?
— Não... Ora!
Mas... Deixa estar que ele há de precisar de mim, há de cair em
alguma; então veremos... Não se esqueçam dele, quando for ocasião,
casquem... Patife!!!
E passou por mim
ainda com os dentes rilhados, cheio de raiva, desabotoando a
barguilha, apressado para o mictório, olhando para o lado em que eu
estava, como querendo dar a entender que ele era forte, muito forte,
e havia de esmagar um dia aquele pigmeu que ousava pôr-se diante do
seu caminho triunfante, atirando-lhe alfinetadas com uma cômica
violência liliputiana. Havia de esmagá-lo, inutilizá-lo para sempre
e faze-lo sofrer eternamente o grande desaforo de o não supor Deus
no “Domingo”, a ele, doutor Ricardo Loberant, diretor-proprietário
d'O Globo, jornal independente, órgão do povo e dos sofredores,
pesadelo dos ministros, espada de Dâmocles suspensa sobre a tríade
política e administrativa da República. E ele tinha razão.
O terror que
inspirava dentro do jornal, irradiava para fora. Aquele homem
magrinho, fraco de corpo e de inteligência, sem cultura. amedrontava
a cidade e o país. Todos o cortejavam; os colegas que o combatiam,
evitavam feri-lo de frente. Um ou outro, num momento de desespero,
tinha a coragem de enfrenta-lo; mas era num momento de desespero.
Armados, cercados de todos os lados, tinham uma convulsão e
atiravam-se, desferindo golpes para a esquerda e para direita. Se
porventura algum era mais certeiro e parecia esmagar o doutor
Loberant, ficava-se pasmado que se desse o contrário. Longe de
perder prestigio, esses ferimentos aumentavam-no. O povo não queria
ver a sua ignorância, a sua inabilidade no escrever; era valente e
dizia a verdade. Houve uma polêmica sobre um tratado de limites em
que o seu desconhecimento da geografia pátria ficou patente; o
jornal foi mais lido. Em outra vez, deu como tendo feito
oferecimentos a conventos do Brasil, reis da dinastia de Borgonha;
recebeu uma ovação. De dia para dia, o jornal crescia em venda.
Todos o liam; era o jornal dos desgostosos, dos pequenos empregados,
dos ratés de todas as profissões e também dos ricos que não
podem ganhar mais e dos destronados das posições e das honras. Na
venda avulsa, nenhum o excedia, nem o próprio Correio da Manhã. Só o
Jornal do Brasil se mantinha emparelhado com ele, e a rivalidade era
acesa. Julgando que a prosperidade do outro era devida aos bonecos,
Loberant punha na sua folha bonecos. Parecendo-lhe que isso não era
o bastante, forjava anúncios, “calhaus”, calhaus de “precisa-se”, de
"aluga-se", de pequenos anúncios que, em abundância, parecem ser o
índice da prosperidade de um jornal. Mas não contente com esses
expedientes todos, um dia o doutor Loberant, supondo a popularidade
do rival devida à falta de gramática nos artigos, chegou à redação
furioso e, com o seu modo habitual, berrou:
— Não quero mais
gramática, nem literatura aqui!... Nada! Nada! De lado essas
porcarias todas... Coisa para o povo, é que eu quero!
O Lobo, que
estava na sala, teve em começo um grande olhar de tristeza com que
envolveu toda a sala e a coleção de jornais dependurados pelas
paredes. Depois de um momento de hesitação, tomou coragem e
observou:
— Mas, doutor...
— Ora, Lobo! já
vem você...
— Mas, doutor, a
língua é uma coisa sagrada. O culto da língua é um pouco o culto da
pátria. Então o senhor quer que o seu jornal contribua para
corrupção deste lindo idioma de Barros e Vieira.
— Qual Barros,
qual Vieira Isto é brasileiro — coisa muito diversa!
— Brasileiro,
doutor! falou mansamente o gramático. Isto que se fala aqui não é
língua, não é nada: é um vazadouro de imundícies. Se Frei Luís de
Sousa ressuscitasse, não reconheceria a sua bela língua nesse
amálgama, nessa mistura diabólica de galicismos, africanismos,
indianismos, anglicismos, cacofonias, cacotecnias, hiatos,
colisões... Um inferno! Ah, doutor! Não se esqueça disto: os romanos
desapareceram, mas a sua língua ainda é estudada...
Loberant não
ficou abalado com a exortação do gramático. Manteve a ordem que lhe
parecia necessária para o aumento de alguns milheiros na venda de
sua folha. Conquanto afetasse esse desprezo pela literatura, ele não
deixava de ter pretensões a intelectual. Com a prosperidade do
jornal, a sua pretensão aumentava. Julgava-se um Patrocínio, um
Ferreira de Araújo, um Bocaiúva; embora não escrevesse com destaque,
ele ia buscar o seu parentesco espiritual em Rochefort, Luís
Veuillot e outros nomes de jornalistas estrangeiros de que tinha
informações.
O seu gabinete
era alvo de uma peregrinação. Durante o dia e nas primeiras horas da
noite, entrava toda a gente, militares, funcionários, professores,
médicos, geômetras, filósofos. Uns vinham à cata de elogios, de
gabos aos seus talentos e serviços. Grandes sábios e ativos
parlamentares eu vi escrevendo os seus próprios elogios. O leader
do governo enviava notas, já redigidas, denunciando os conchavos
políticos, as combinações, os jogos de interesses que se discutiam
no recesso das antecâmeras ministeriais. Foi sempre coisa que me
surpreendeu ver que amigos, homens que se abraçavam efusivamente,
com as maiores mostras de amizade, vinham ao jornal denunciar-se uns
aos outros. Nisso é que se alicerçou o O Globo; foi nessa divisão
infinitesimal de interesses, em uma forte diminuição de todos os
laços morais.
Cada qual mais
queria, ninguém se queria submeter nem esperar; todos lutavam
desesperadamente como se estivessem num naufrágio. Nada de
cerimônias, nada de piedade; era para a frente, para as posições
rendosas e para os privilégios e concessões. Era um galope para a
riqueza, em que se atropelava a todos, os amigos e inimigos,
parentes e estranhos. A República soltou de dentro das nossas almas
todas uma grande pressão de apetites de luxo, de fêmeas, de brilho
social. O nosso império decorativo tinha virtudes de torneira. O
encilhamento, com aquelas fortunas de mil e uma noites, deu-nos o
gosto pelo esplendor, pelo milhão, pela elegância, e nós atiramo-nos
à indústria das indenizações. Depois, esgotado, vieram os arranjos,
as gordas negociatas sob todos os disfarces, os desfalques,
sobretudo a indústria política, a mais segura e a mais honesta. Sem
a grande industria, sem a grande agricultura, com o grosso comércio
nas mãos dos estrangeiros, cada um de nós, sentindo-se solicitado
por um ferver de desejos caros e satisfações opulentas, começou a
imaginar meios de fazer dinheiro a margem do código e a detestar os
detentores do poder que tinham a feérica vara legal capaz de
fornecê-lo a rodo. Dai a receptividade do público por aquela espécie
de jornal, com descomposturas diárias, pondo abaixo um grande por
dia, abrindo caminho, dando esperanças diárias aos desejosos, aos
descontentes, aos aborrecidos. E os outros jornais? Nos outros o
suborno era patente; a proteção às negociatas da gente do governo
não sofria ataques; não demoliam, conservavam, escoravam os que
dominavam.
Loberant sabia o
segredo do seu sucesso e velava pela folha com cuidados especiais.
Diariamente lhe vinham informações sobre a venda avulsa, sobre o
movimento de anúncios. Se decaiam um pouco, logo procurava um
escândalo, uma denúncia, um barulho, em falta um artigo violento
fosse contra quem fosse. Havia na redação farejadores de escândalos;
um, para os públicos; outro, para os particulares. Este era o mais
interessante. Tinha uma imaginação doentia; forjava coisas
terríveis, inventava, criava crimes. Eram cárceres privados,
enterramentos clandestinos, incestos, tutores dolosos, etc.
Porém, os
grandes escândalos, os grossos, as ladroeiras públicas eram
denunciadas pelos próprios funcionários desgostosos, por políticos
pedinchões e não satisfeitos e pelos próprios subordinados. A venda
cresceu sempre, mas com todos esses alvitres houve um momento em que
estacionou. Loberant encheu-se de temor, carregou mais nas
descomposturas, começou a implicar com o chefe de polícia; mas nem
assim subia. Uma frase equivoca que lhe saíra da pena, determinou o
aparecimento de um “apedido” no Jornal do Comércio, denunciando-o
como inimigo da colônia portuguesa, tanto assim que não tinha um
português na redação da sua gazeta. Foi Aires d'Ávila quem leu o
“apedido” e o mostrou ao diretor. Era hábito de muitos anos, depois
de ver o palpite do bicho, correr os “apedidos” dos jornais e lê-los
atentamente. Ali, ele procurava caminho para as “cavações”,
informava-se das reputações, preparava os “ganchos”. Loberant,
quando teve noticia da mofina, considerou bem a falta e pediu o
alvitre do Floc.
— Conheces aí
algum capaz?
— Qual, não há!
— Como
poderíamos arranjar um português para redator, dize lá?
Anos mais tarde,
ele não teria dificuldades. O chefe do gabinete da monarquia
lusitana encarregar-se-ia de arranjar-lhe um. Floc lembrou um
alvitre:
— Encomenda-se a
Portugal.
E fui eu
encarregado de levar o telegrama ao submarino. Não se tratava já de
um redator; pedia-se a uma livraria de Lisboa um redator e dois
correspondentes literários. Nos dias seguintes, era o seu primeiro
cuidado indagar se já tinha chegado a resposta. Veio afinal. Os
correspondentes já estavam arranjados, mas não havia quem quisesse
vir. Iam ver. Dias depois, ao abrir a correspondência, Leporace deu
com a resposta de Lisboa e correu alvissareiro para o diretor.
— Cá está ele...
Está arranjado...
— O quê?
— O redator
português.
— Ahn!
E leu o
telegrama. Embarcaria no primeiro paquete. Era espirituoso,
entendido em coisas portuguesas e queria setecentos mil-réis
francos. Aceitou e nesse sentido telegrafou para Lisboa. Quando
voltei da Western, Pranzini, o gerente, entrava na redação. Chegava
com o sobrecenho carregado e os olhos fuzilando indignados. Pranzini
era o cão de fila do diretor. O cofre e a economia do jornal
estavam-lhe inteiramente entregues. Ele pagava e recebia, depositava
dinheiro, arbitrava os preços da matéria paga. Todos estavam sob a
sua tirania; precisavam adulá-lo, amima-lo e ele abusava
extraordinariamente dos grandes poderes de que estava investido.
Ficava-lhe bem a função. Era cúpido, metódico, organizado. No
jornal, vivia sempre em mangas de camisa e a fieira dos botões do
colete não se afastava nunca do eixo do peito. A fisionomia era
larga e dura; grandes faces assimétricas, queixo forte e quadrado,
pouco distinto do maxilar, uma grande dificuldade em sorrir. Aquela
inteligência rudimentar de aldeão italiano tinha finuras de doutor
da escolástica. Certa vez furtou-se ao pagamento de uma comissão do
anúncio de uma casa, sob o pretexto de que a autorização falava em
“Bal Masqué” e o nome do estabelecimento era “Au Bal Masqué”.
Murmurava-se no jornal que ele desviava um pouco as rendas do
diretor, mas dizia-se também que este não se importava porque assim
indiretamente pagava as doces intimidades com a amante do italiano,
uma pequena mulher, coberta de um pêlo fino e abundante, de carnes
duras e grandes ancas provocadoras.
— Sabes,
Pranzini? Temos o homem... De Lisboa chegou-nos a resposta.
— É bom... Vocês
sabem, sem português, nada aqui vai adiante. Os patrícios exigem, é
justo: eles são talvez trezentos mil, pagam rios de dinheiro em
anúncios — é justo!
Depois, tomando
outro tom de voz falou assim ao diretor:
— Tenho aqui
este vale pra o senhor visar.
— Eu já disse a
você que não é preciso...
— Não é isso. É
que com este tive dúvidas. Tratava-se de um artigo que não saiu
assinado. Não parecia ser colaboração e eu...
— De quem é o
vale?
— Do Veiga
Filho.
— De que artigo?
— Um sobre o
Teixeira de Almeida.
— Mas o quê!
exclamou o diretor. Pois se foi ele próprio que pediu para
escrevê-lo, dizendo-me que tinha sido colega de escola do homem,
como é que cobra?... Enfim deixa-me vê-lo.
O doutor
considerou bem o pedaço de papel que tinha na mão, abanou a cabeça e
veio dizendo:
— Esses
literatos! Livra! Até as lágrimas cobram.
Floc nada
dissera. Evitava fazer qualquer critica ao mestre incomparável da
nossa língua. Losque, tendo deixado de escrever, meteu-se na
palestra. Tinha a mania do “espírito”; mas não era propriamente
espirito que ele queria ter. A sua mania era ser um ironista, à moda
inglesa — um humorista. Fazia de si um retrato de Sterne, de Lamb,
de Swift; embora não soubesse urna linha de inglês filiava a sua
graça, o seu feitio de rir, no gênio britânico. Não é que isso, de
fato, houvesse nele; faltava-lhe na ironia o imprevisto, o alcance
moral e filosófico, aquela meditação por absurdo que Taine achou em
Swift. Ele tinha a graça fácil dos pequenos autores e muitas das
suas boutades tinham origem nos autores portugueses e franceses de
segunda ordem. Não era uma atitude de pensamento, um estado d'alma
constante, um julgamento sobre os homens e as coisas; era uma
profissão, um ganha-pão, que ele executava automaticamente.
Adaptável, sem
rebeldia nem independência de caráter, escrevia pilhérias como um
amanuense faz ofícios. Nunca tinha escrito obra de vulto, a não ser
uma novela de calembours, em que explorava esse velho filão
do roceiro acanhado. Combinava a sua virtuosidade pilhérica com a de
escritor de estirados artigos sobre a crise do açúcar e o
policiamento da cidade. Era autor de várias revistas, com algumas
pilhérias novas e bem achadas. Sem ser moço, não era velho e ia
fazendo a sua carreira nos jornais com vagar e submissão, tendo já
uma vaga reputação no seio do público. Sabendo da vida de todo o
mundo, inventando mesmo, quando os dados lhe faltavam, punha um
grande esforço, uma nota de arte no cultivo da maledicência, da
“trepação”. Diariamente estudava assuntos, organizava pilhérias e
logo que o momento se oferecia desandava. Viera nesse dia. Ao
entrar, enquanto Leporace conversava na sala, pusera-se a escrever a
sua celebrada seção — “Pulgas e Brotoejas” — constantemente cheia de
alusões, de ditinhos, de versos aos políticos, em que ele gastava
uma certa dose de talento, já um tanto diminuído pelo automatismo
adquirido. Acabando de escrever a seção, procurou um rodeio e
dirigiu a conversa para o ponto que queria:
— De fato este
Rio tem coisas bem singulares. Vocês conhecem a viúva País Brandão?
Nem todos
responderam, mas Leporace que se gabava de conhecer toda a cidade: —
as ruas, becos, segredos — acudiu prontamente:
— Ora! Como não?
Uma loura de forte nariz romano, que anda sempre de preto? Ora,
muito!
— É essa mesma.
Mora num palácio na Rua das Laranjeiras...
— Mas que tem
ela? indagou Floc.
— É um caso
curioso.
Leiva veio
interromper a conversa. Há dias que ele estava no jornal, fazendo
polícia. Sabendo que eu me fizera continuo, começou a procurar-me e
por aí foi travando relações, “engrossando” habilmente, até que um
dia entrou como repórter e começou a gritar comigo para que eu lhe
trouxesse penas. Losque continuou:
— Passa por
séria, por ser um poço de virtudes. Ninguém se anima a requestá-la.
O rosto é de Messalina, mas a alma de Cornélia; entretanto...
Calou-se um
pouco, suspendeu o auditório, para obter o efeito desejado.
— Mas é curioso,
continuou devagar; é curioso que o seu egoísmo familiar a tivesse
levado tão longe.
— Por quê?
perguntou alguém.
— Por quê!?
Porque vive em mancebia com o sobrinho e com o filho.
Os circunstantes
não se espantaram; sorriram incredulamente.
— Qual! fez um.
— Engraçado,
aduziu sem ir de encontro a dúvida geral, é que ela não pode
suportar um só! Hão de ser os dois, juntos, um do lado esquerdo e
outro do lado direito... Disse-me a Fulgência, que foi lá criada,
que uma noite, não vindo um deles, ela a passou toda na sala de
jantar chorando e arrancando os cabelos.
— É um caso
curioso de psicopatia sexual, falou Loberant. Em Londres, há casos
especiais quase em gênero semelhante; mas ao contrário: é um homem
para duas mulheres, parentas próximas, irmãs, mãe e filha; mas como
este não conhecia... Mas quem te informou, Losque?
— Uma rapariga
que é minha criada, e foi da viúva. É maravilhoso! Que revulsão na
alma! Que móveis íntimos a levaram a isso! Que forte ideal amoroso
não encontrado foi esse que a obrigou a reunir dois rapazes para
satisfazê-lo!
Leporace então
observou:
— Esta sociedade
está muito corrupta.
Gregoróvitch
entrava e ainda ouviu as palavras do secretário. Parou um instante,
concertou os óculos de aros de ouro e exclamou com malícia:
— Oh! Catão!
— Não sou Catão,
mas o que há por aí, pelos bastidores, causa espanto. A sociedade,
ao que parece, despenha-se...
— Sempre houve
quem dissesse isso, objetou o russo. Se examinares os satíricos de
todos os tempos, eles te revelarão a sociedade sempre corrupta e
desbocada... Eu julgo a moral impossível!
— Por quê?
— Porque é feita
para diminuir em nós o que é de mais estrutural e de mais profundo:
a individualidade, o prazer e os instintos!
— Mas a
sociedade precisa repousar nela; senão... disse Leporace.
— Não há dúvida!
— Então
concordas que, em face da própria sociedade, nós nos devemos
esforçar por justificar as regras morais, manter sempre de pé os
seus preceitos.
— Mas se têm
sido inúteis todos os esforços das religiões — a força mais poderosa
para uma modificação inteira do indivíduo, como havemos de
consegui-lo? Demais... demais, para quê?
— Para a
eternidade da espécie, falou com ênfase Leporace.
— Valeria a
pena? retrucou Gregoróvitch.
E todos se
calaram sem achar de pronto uma resposta cabal.
X
Os meus
primeiros conhecimentos foram-se paulatinamente afastando de mim.
Laje da Silva, desde que me vira de botas rotas e esfomeado,
passara a cumprimentar-me friamente, superiormente; Leiva
tratava-me bem ainda, mas marcando distância, desde que se fizera
repórter; e o próprio Gregoróvitch esquecera-se da maneira por que
nos
conhecêramos e
tratava-me com a brandura que usava com todos os inferiores. Só o
Plínio de Andrade, mais por sistema do que por qualquer outra coisa,
continuava a dispensar-me a consideração de igual. Fora ele que me
explicara a questão do empréstimo da Prefeitura. Era verdade que o
título não era bom; mas a questão não girava só em torno disto. O
pomo de discórdia residia na comissão do lançamento do empréstimo, e
sendo esta avultada, perto de mil e tantos contos, permitia gordas
gorjetas aos jornalistas e políticos. O Governo queria o corretor
Machado, mas organizara-se um sindicato no intuito de obtê-lo para o
banqueiro Rodrigues. Aires d'Ávila, ocultamente, fazia parte do
partido de Rodrigues e o doutor Ricardo, que já de há muito
antipatizava com o Machado, foi por ele convencido que devia
combater com todas as forças a operação projetada. Raro era o dia em
que na folha não saíssem algumas linhas tendentes a contrariar o
lançamento do grande empréstimo interno. Todos colaboraram para esse
fim. Aires d'Ávila, sempre na estacada, desovava argumentos no seu
artigo diário, escrito num estilo de exercício de classe;
Gregoróvitch escrevia os soltos, sueltos, curtos, breves, mas
fortes, cheios de injúrias, atrevidos; Floc, nas suas esforçadas
crônicas literárias ou teatrais, dava alfinetadas; mas quem ia
desmoralizando a operação era Losque com as quadrinhas satíricas das
“Brotoejas”. A cidade inteira sabia-as de cor e pelos bondes, nas
confeitarias, nos cafés, nas escolas, nas espeluncas, nas casas
mal-afamadas, por qualquer coisa se dizia o estribilho com que elas
acabavam: — “e dinheiro não virá”. Se alguém perdia no jogo e era
jocoso, ao apostar segunda vez, dizia: “e dinheiro não virá”. Em
conversa de família, se qualquer pessoa queria referir-se ao gorado
casamento rico de um desembargador, que partira para Paris à caça de
uma herdeira, comentava: ele vai e... “o dinheiro não virá”. Era
bastante que em qualquer momento, fosse como fosse, se encaixasse o
estribilho, para se obter um franco sucesso de riso.
A atitude do
Governo era curiosa. Às vezes ostentava-se forte, mandava dizer
pelos seus jornalistas que o lançaria pelo corretor que entendesse.
Os artigos rompiam, mostrando as vantagens da operação, mas
Loberant, ou alguém por ele, atirava no dia seguinte um artigo
descompassado, pejado de descompostura, e os adversários esfriavam.
Neles não se raciocinava, não se ia adiante dos argumentos do
adversário. Afirmava-se e insultava-se o contendor com alguns
palavrões do calão do Quinhentos ou do Seiscentos. E essas palavras
ressuscitadas eram de efeito seguro. A multidão guardava-as de cor,
procurando-lhes a significação e o sentido.
Nos “apedidos”
do Jornal do Comércio, era interessante o combate. Havia artigos
sisudos, cheios de citações, Léon Say, Leroy-Beaulieu, versos de
Racine; havia epigramas, ligeiros e ágeis que nem um torpedeiro, e
venenosos que nem uma cascavel.
No meio de todo
esse emaranhado de coisas graves, desse espesso enleamento de
paixões, de vilezas e ambições, lá aparecia, na famosa subdivisão do
velho quotidiano, uma clareira de desinteresse, de afastamento do
mundo, das coisas vis e baixas. Era o “apedido” de um louco que
parecia sorrir, ria sua loucura, das nossas brutais preocupações de
cada dia. Pairava alto, muito longe.
Era um antigo
funcionário de Fazenda que se dizia grande poeta épico e se propunha
a cantar a imortalidade de um sertanejo que havia guiado
corajosamente não me recordo que viajante estrangeiro, lá nos igapós
da Amazônia.
Assim começava o
poema:
“Rapaz! Tua
glória quero cantar
Imortal como se
fosse Waterelo
Neste poema que
é todo meu
E que de ninguém
fui copiar”
E seguia:
“30 por uma
tinha
40 por uma
migalha
60 por uma cara
70 por um
borralho”
Continuava assim
desassisado, delirando; mas desdenhoso das contendas que se travavam
bem junto dele.
Os velhos
lembravam-se do “Mal das Vinhas”, do “Príncipe Ubá” e outros
dementados, constantes fregueses da seção paga do velho Jornal do
Comércio.
Os moços, como
eu, tinham um grande prazer em ver como superiormente brilhava, com
altas virtudes, a loucura, naquele trevoso enquadramento de baixos
interesses, de injúrias e sordícia monetária.
O mais notável,
porém, eram as verrinas, alusões a vícios e maus hábitos dos
adversários. Causava pasmo o esforço de imaginação despendido em se
obter circunlóquios bastante claros para serem compreendidos no seu
verdadeiro sentido por toda a gente e bastante velados para não
haver impedimento na sua publicação. O diretor era alvejado com
encarniçamento; não se incomodava, mas nos artigos fingia-se ferido,
desgostoso. Aires d'Ávila recebia também um bom quinhão. Veio até
publicado um epitáfio seu, em verso, terrivelmente sarcástico, que
era atribuído a um poeta famoso pela perfeição dos seus versos, pelo
seu humor boêmio e veia satírica. Dizia assim:
P. R.
(A. A.)
“Quando ele se
viu sozinho
Da cova na
escuridão,
Surripiou de
mansinho
Os bordados do
caixão”
Apesar disso
tudo, ambos se mantinham inalteráveis e calmos. Aquilo era como um
torneio de xadrez e eles o estavam jogando calmamente a fumar um
charuto. A população é que vivia inquieta, ora, pendendo para aqui;
ora, para ali, mas sempre tendo em vista a opinião d'O Globo. Havia,
porém, nesse torneio um prêmio, um grande prêmio, de mil e tantos
contos, dos quais algumas dezenas iriam parar às algibeiras de Aires
d'Ávila e de Laje da Silva, cujas visitas ao ventrudo jornalista
eram assíduas e prolongadas. O antigo padeiro de Itaporanga
continuava no seu semimistério, mas sempre solicito, bem
relacionado, procurando um e outro. Ultimamente explorava uma casa
de divertimentos na Lapa, “Folies Bergères”, onde se dizia haver
jogo oculto. Não havia estréia de uma cantora que não mandasse
convites individuais para o pessoal de todos os jornais. Ele sabia
os nomes de um por um, desde a redação até à administração, passando
pelas oficinas, revisão e expedição.
A batalha,
entretanto, não se decidia. As duas hostes em luta não ganhavam
terreno. Um dia era da gente do prefeito; outro dia, era dos
adversários. Vinha um assassinato, um incêndio; havia uma trégua. O
Governo temia um fracasso e esperava. Surgiu, porém, a questão dos
sapatos obrigatórios que precipitou os acontecimentos. É de pouco
tempo esse motim e muitos dos meus leitores ainda se recordam
perfeitamente dos acontecimentos. Escrevendo agora estas páginas, eu
tenho escrúpulos. Parece-me que vou acusar o doutor Loberant de ter
movido essa sangrenta arruaça e ser culpado da morte de algumas
dezenas de cidadãos nas barricadas improvisadas. Não é o meu fito
esse, pois estou bem certo de que ele, como ninguém, não é capaz de
medir e avaliar as múltiplas reações que as nossas palavras podem
operar nos outros quando transmitidas. Seria ignóbil que eu o
quisesse acusar. Ele foi, por assim dizer, um benfeitor meu e todos
menos eu podem fazê-lo e têm esse direito que me escapa. Contudo,
embora possam ser tomadas nesse sentido, as minhas palavras dirão
fielmente o que vi e o que senti.
Nascera a
questão dos sapatos obrigatórios de um projeto do Conselho
Municipal, que foi aprovado e sancionado, determinando que todos os
transeuntes da cidade, todos que saíssem à rua seriam obrigados a
vir calçados. Nós passávamos então por uma dessas crises de
elegância, que, de quando em quando, nos visita. Estávamos fatigados
da nossa mediania, do nosso relaxamento; a visão de Buenos Aires,
muito limpa, catita, elegante, provocava-nos e enchia-nos de loucos
desejos de igualá-la. Havia nisso uma grande questão de amor-próprio
nacional e um estulto desejo de não permitir que os estrangeiros, ao
voltarem, enchessem de criticas a nossa cidade e a nossa
civilização. Nós invejávamos Buenos Aires imbecilmente. Era como se
um literato tivesse inveja dos carros e dos cavalos de um banqueiro.
Era o argumento apresentado logo contra os adversários das leis
voluptuárias que aparecem pelo tempo: “A Argentina não nos devia
vencer; o Rio de Janeiro não podia continuar a ser uma estação de
carvão, enquanto Buenos Aires era uma verdadeira capital européia.
Como é que não tínhamos largas avenidas, passeios de carruagens,
hotéis de casaca, clubes de jogo?”
Laje da Silva,
farejando o que continha de negociatas nos melhoramentos em
projetos, propugnava-os com ardor. Nas suas conversas na redação
constantemente dizia:
— Que são dez ou
vinte mil contos que o Estado gaste! Em menos de cinco anos, só com
as visitas dos estrangeiros, esse capital é recuperado... Há cidade
no mundo com tantas belezas naturais como esta? Qual!
Aires d'Ávila
chegou mesmo a escrever um artigo, mostrando a necessidade de ruas
largas para diminuir a prostituição e o crime e desenvolver a
inteligência nacional.
E os da frente,
os cinco mil de cima, esforçavam-se por obter as medidas
legislativas favoráveis à transformação da cidade e ao
enriquecimento dos patrimônios respectivos com indenizações
fabulosas e especulações sobre terrenos. Os Haussmanns pululavam.
Projetavam-se avenidas; abriam-se nas plantas squares,
delineavam-se palácios, e, como complemento, queriam também uma
população catita, limpinha, elegante e branca: cocheiros
irrepreensíveis, engraxates de libré, criadas louras, de olhos
azuis, com o uniforme como se viam nos jornais de moda da
Inglaterra. Foi esse estado de espírito que ditou o famoso projeto
dos sapatos.
Ao ser
apresentado, ninguém lhe deu importância, mesmo porque dias antes
houvera um crime sensacional, que monopolizara a atenção da cidade.
Eu tinha feito o
serviço de dia e ia sair. Seriam cinco para as seis horas, quando o
Lemos, repórter de polícia, entrou ofegante, e deslumbrado. Chegou e
falou ao secretário, nervoso de contentamento, com a palavra
entrecortada, oprimido de felicidade:
— Um crime! Um
grande crime!
— Onde?
— Em Santa Cruz,
nos campos de São Marcos... Uma mulher e um homem foram encontrados
mortos a facadas e decapitados... Vestiam com luxo... Parecem
pessoas de tratamento... Um mistério!
Todos os
circunstantes ouviram estuporados a breve narração do repórter.
Depois de um curto silêncio, choveram as perguntas. Lemos nada
sabia; recebera a notícia do Teixeira que estivera na polícia, onde
pouco mais sabiam. A notícia viera de Santa Cruz pelo telégrafo...
Leporace, que raramente saia de sua natureza de celentério, pôs-se
nervoso e começou a dar as providências, a explorar o caso:
— Já um
boletim... Já!
E logo
rapidamente, Adelermo começou a traçar em letras garrafais a notícia
que o Lemos trouxera. Eu fui pregá-lo à porta; da sacada, Leporace
avaliava o efeito. O primeiro curioso que passou, parou e quedou-se
a ler. Vieram outros e em breve uma multidão estacionava em frente
do jornal. A notícia espalhou-se rapidamente, com uma rapidez de
telégrafo, com essa rapidez peculiar às noticias sensacionais que,
nas grandes cidades, se transmitem de homem a homem quase com a
velocidade espantosa da eletricidade. O doutor Loberant entrou,
atravessando a custo por entre a multidão. Tinha ouvido qualquer
coisa e correu ao jornal. Que houve? perguntou. Contaram-lhe. A sua
fisionomia abriu-se risonha, sorridente, e feliz. Ia vender mais mil
ou dois mil exemplares. Chegou à janela e viu a multidão crescer
sempre. Veio até à sala da redação e perguntou com império:
— Quem está
fazendo a “cabeça”?
Chama-se
“cabeça” nos jornais às considerações que precedem uma notícia.
Feita com a moral de Simão de Nantua e a leitura dos folhetins
policiais, a “cabeça” é a pedra de toque da inteligência dos
pequenos repórteres e dos redatores anônimos.
Para dar um
exemplo, vou reproduzir aqui trechos de uma “cabeça”.
Tratava-se de
uma briga entre amantes e o repórter, após intitular a notícia — “o
eterno ciúme” — começou a filosofar, com muita lógica e inédita
psicologia:
“O ciúme, esse
sentimento daninho que embrutece a imaginação humana e a arrasta à
concepção de crimes, cada qual mais trágico e horripilante, não
cessa de produzir seus efeitos maléficos”.
Continuava, após
um período intermediário:
“No caso de que
nos vamos ocupar, trata-se da briga entre dois amantes, motivada de
uma parte pelo ciúme e da outra pela repulsa natural de quem se
sente ofendido e maltratado”.
São assim, com
poucas variantes, as “cabeças”.
No Despacho
havia um especialista nesse gênero jornalístico que era tido por
gênio.
— Não há como o
Matoso! Que facilidade! Que rapidez! Escreve trinta tiras em uma
hora! diziam os colegas.
Isto lhe valia
uma fama e um conceito, entre os seus, superiores aos que o
Conselheiro Rui Barbosa goza em todo o Brasil. É preciso saber-se
que as tiras no jornal são menores e levam menos palavras que as
redigidas por qualquer pessoa não afeita ao oficio. São escritas com
grandes intervalos entre as linhas e grandes espaços entre as
palavras, para facilitar a composição.
Demais eram as
banalidades, os conceitos familiares sobre o crime e os criminosos
que ele desenvolvia com a convicção de quem estivesse fazendo um
estudo profundamente psicológico e social. Oh! A vaidade dos
desconhecidos da imprensa é imensa! Todos eles se julgam com funções
excepcionais, proprietários da arte de escrever, acima de todo o
mundo. Não reconhecem que são como um empregado qualquer,
funcionando automaticamente, burocraticamente, e que uma notícia é
feita com chavões, chavões tão evidentes como os da redação oficial.
Quase todos os repórteres e burocratas dos jornais desprezam a
literatura e os literatos. Não os grandes nomes vitoriosos que eles
veneram e cumulam de elogios; mas os pequenos, os que principiam.
Estranha ignorância de quem, por intermédio dos artigos dos que
sabem, copia os processos dos romancistas, as frases dos poetas e
deturpa os conceitos dos historiadores, imitando-lhes o estilo com
uma habilidade simiesca...
Leporace,
apanhado em falta, respondeu timidamente, ao diretor:
— Ninguém.
— Pois já deviam
ter pensado nisso... Vá, “Seu” Adelermo, faça a “cabeça”; e o
senhor, “Seu” Lemos, já para Santa Cruz!
— Só há trem
daqui a uma hora e com certeza não apanho o que volta de lá às sete
e quarenta e cinco...
— Não faz mal.
Vá, durma lá, telegrafe... Passe na caixa e diga ao Pranzini que lhe
dê duzentos mil-réis...
O diretor
retirou-se e Adelermo começou a escrever.
— Qual será o
título? fez ele suspendendo a pena.
— “Crime no
Pampa”, gritou o Oliveira.
Oliveira, Carlos
Oliveira, era da Bahia. Maneiroso, mesureiro, captara a amizade e o
compadresco do diretor, de Aires d'Ávila e Losque; fizera-se grande
influência no jornal, no qual já colocara dois redatores, Adelermo e
Losque, e muitos repórteres. Ganhava como redator importante; mas o
seu serviço era trazer noticias da Estrada de Ferro e dos
Telégrafos. Na redação, limitava-se a escrever: “Foram concedidos
passes aos telegrafistas F. e S.; a linha de Vista Alegre, 9.°
distrito, está interrompida, devido, etc.”; na rua, porém, entre os
auxiliares de escrita e os diretores, fazia constar que escrevia
artigos e crônicas. Vendia a sua pomada .
Adelermo Caxias
não compreendeu bem o titulo de Oliveira e perguntou: —Por que
pampa?
— Pampa não é
campo?
Caxias, apesar
da justificativa, não o quis e perguntou a outro:
— Qual deve ser,
Floc?
— “Bucolismo e
tragédia”?
— Qual! É
erudito...
— “Ciúme e
crime”.
— Por que ciúme?
Por fim, chegou
Leporace e lembrou um título rocambolesco de romance popular:
“Descampado da morte”. Boa idéia! — gritaram todos; e Adelermo
pôs-se a escrever.
A calma voltou
um instante à redação, mas foi logo interrompida pelo tilintar do
telefone. Lemos, que estava na polícia, mandava dizer que se tinha
encontrado um chapéu de palha, quase junto aos cadáveres. A
multidão, em frente ao jornal, aumentava sempre. Muitos subiam
pedindo informações. A curiosidade era geral; o crime impressionara
a população. Por essa estranha e misteriosa faculdade das multidões,
aquele caso, vulgar um mês antes ou depois, naquele dia tomou a
proporção de um acontecimento, de um fato pouco comum. Para atender
à impaciência da massa, constantemente se telefonava para a polícia.
A resposta era a mesma; não havia noticias. O diretor, por detrás da
veneziana semicerrada, espreitava o poviléu embaixo. Os repórteres
chegaram trazendo para a redação a ansiedade das ruas, a emoção dos
cafés — toda a imprevista vibração da cidade em face daquele fato de
polícia quase banal.
Cá do outro lado
da sala de redação, sentíamos que o “doutor” ouvia todas aquelas
noticias com interesse. Havia estalidos na cadeira, tênues ruídos de
movimentos de atenção. Houve um momento em que não se conteve. Veio
à sala geral, inquirindo este, perguntando àquele; e certo da
superexcitação do público, da extensão que a notícia tinha alcançado
na cidade, da intensa curiosidade que dominava toda a gente e ainda
mais que o Jornal do Brasil punha, de quando em quando, um boletim —
determinou que o Adelermo inventasse qualquer coisa, indícios,
depoimentos, quaisquer informações. E fez isso em altas vozes,
congestionado, meio zangado e meio contente, expectorando injúrias
contra o rival.
Adelermo era a
imaginação do jornal. Nascera no Maranhão e escrevia regularmente.
Apesar de nunca se ter feito notar por uma associação mais original
de idéias, no jornal era imaginoso porque nascera no Norte e tinha
uma boa dose de sangue negro nas veias. As generalizações dos
jornais são infalíveis...
Mas... Adelermo
era a imaginação do jornal, e em seus ombros recaia todo o peso da
necessidade de informações imediatas ao público quando os documentos
faltavam ou eram omissos.
Se havia um
atentado anarquista ou um terremoto na Europa e o telegrama era por
demais conciso, Adelermo tinha o encargo de desenvolvê-lo, de
explicá-lo, de reconstruir a cena para o gosto público. Às vezes,
pediam-se-lhe mais detalhes; o diretor queria a descrição do
complot, a cena da “sorte”, à lôbrega luz de um fumarento
lampião, em uma mansarda.
Adelermo era
obediente e fazia. Intimamente desgostava-se com aquele papel de
mentiroso; mas temia ser despedido, posto na rua. Era esse o grande
terror de todos. Não eram os ordenados, não era a miséria que os
apavorava; temiam não encontrar outro lugar nos jornais e perderem
por isso a importância, a honra suprema de pertencer ao jornalismo.
Eles não valiam por si; o jornal é que lhes dava brilho.
Nas invenções de
Adelermo, quase sempre se passavam coisas fantásticas e curiosas.
Havia então
complicações de topografia, ruas metidas umas nas outras; mas o
terremoto que a potente imaginação de Adelermo levava às grandes
cidades da Europa, passava completamente despercebido ao público e
ninguém, dias depois, se lembrava de cotejar as noticias dadas pelo
O Globo com as que vinham nos jornais da Europa.
Caxias não se
deteve; pôs-se logo a escrever. Ele não conhecia a região; nunca
passara de São Francisco Xavier e fora uma vez acompanhar um figurão
argentino a Belo Horizonte em serviço de reportagem, num rápido.
Para os lados de Santa Cruz, nunca tinha ido, não sabia coisa alguma
da situação da localidade, da sua posição relativa às outras
estações. Tendo tido notícia que os empregados da estrada não se
lembravam de ter visto desembarcar na estação um par nas condições
do assassinado, concluiu que o casal tinha ido a pé de Cascadura —
estação que lhe parecia ser muito próxima do tradicional curato.
O boletim ia ser
posto, quando alguém mais bem informado objetou:
— Cascadura! Não
é possível, Adelermo! Fica léguas distante de Santa Cruz.
— Então de onde
podia ser? Eles foram a pé da estação mais próxima... Isso não há
dúvida! Qual a estação mais próxima que conheces?
O outro fez um
grande esforço de memória, esteve uns instantes a pensar, e disse
por fim:
— Há Realengo...
Depois... Depois... Campo Grande! Devia ser Campo Grande!
Imediatamente,
sem que de todo ficasse apagada a palavra Cascadura, Caxias emendou
e o novo boletim foi pregado.
A rua encheu-se
ainda mais. Havia gente de toda a sorte: velhos, moços, burgueses,
operários, senhoras — gente de todas as idades e condições. Os que
ficavam mais distante, no passeio fronteiro, para ver melhor,
punham-se nos bicos dos pés, cheios de ansiedade. Quando subi a
escada, voltei-me um instante e vi aquela centena de pessoas, com as
pálpebras arregaladas, o pescoço erguido, esforçando-se por ler
aquele carapetão formidável forjicado naquela fábrica de carapetões
que se chama o jornal.
A redação
recebera uma visita. Era a Viscondessa de Varennes, que conversava
com Floc. Os dois estavam no período de namoro; ela, retirando todo
o proveito, em noticias, péssimos sonetos publicados na primeira
página; ele, oleoso, gastando os seus melhores sorrisos e alguns
mil-réis de sua algibeira econômica.
— Oh! Senhor
doutor Couto! dizia ela. Que coisa! Como isto está! Que malvadez! Eu
vinha rindo, quando li... Fiquei apavorada!... Não sei. Meu Deus!
Quando vejo isso até tenho medo de viver...
Leporace passou
e deitou sobre a poetisa um olhar cheio de desejos. Os enormes olhos
de boi da poetisa voltaram um instante para o secretário que se
desfez em cortesias. A viscondessa estava em relações com todos os
redatores e repórteres, e todos eles esperavam cedo ou tarde tê-la
uma noite nos braços.
Com a sua finura
de profissional do amor, ela bem percebia a fome que todos aqueles
homens tinham do seu corpo fatigado. Não desanimava a nenhum,
recebia homenagens, sorria com o seu longo sorriso, contraindo as
grandes maçãs carminadas, abanava-se um instante com o leque,
ajeitava a saia de seda de modo a lhe desenhar melhor as pernas e
pedia favores: uma referência, uma notícia, a publicação de um
soneto, de um conto. Assim se valorizava. Os únicos da gazeta que
não a queriam absolutamente, eram o diretor e Gregoróvitch. Este,
quando a ouviu tão temerosa, prorrompeu bruscamente com a sua voz
metálica:
— Ora, minha
senhora! Nós todos somos criminosos... A senhora também o é!
— Eu, doutor!
— Sim! A senhora
para viver tirou a vida de muita gente; para ter esse vestido, esses
laçarotes, tira a de muitos outros... A nossa vida só se desenvolve
com grandes violências sobre as coisas, sobre os animais e sobre os
semelhantes...
— Mas dessas não
o sabemos!
— Talvez não
seja tanto assim...
A viscondessa
estendeu a mão ao viçoso Floc, abarcou com o olhar a sala toda e
saiu arrastando o corpo pequeno e pesado.
Caxias
continuava no seu serviço dos boletins periódicos. Alguns jornais da
tarde deram uma segunda edição. O Globo, porém, com os seus cartazes
contínuos, distraia os compradores. Nos portais, já não havia mais
lugar. Os boletins iam de cima para baixo; alguns já cobriam os
outros. O povo continuava aglomerado. Escurecia. Houve alguém que
acendeu um fósforo para ler melhor. O doutor Ricardo, que viera de
jantar, vendo o gesto do popular, mandou que o foco elétrico da
fachada fosse aceso.
Nos outros
jornais, que tinham também afixado boletins, logo o imitaram; e a
Rua do Ouvidor, àquela hora da tarde excepcionalmente transitada e
iluminada, surgiu como num dia de festa. Todo o jornal convergia
para o crime. Mandou-se retirar uma grande parte da matéria, sair o
lindo artigo da festejada colaboradora Pilar de Giralda, uma velha
senhora das salas burguesas de Botafogo e Petrópolis, que dera em
escrever, depois de avó, uns contos colegialmente eróticos ou uns
artigos com pretensões a propagar a emancipação da mulher e o
divórcio. Saiu também o folhetim do jovem Deodoro Ramalho, um
discípulo de Veiga Filho, autor de uns contos pastosos, pejados de
frases redondas, redondinhas, que escapavam quase diariamente pelas
colunas d'O Globo, com a mole resistência da massa de tinta que sai
de uma bisnaga.
O seu folhetim
tinha sempre pretensão a graça, a coisa ligeira e leve, sem deixar
de ser intelectual. Além do folhetim semanal, escrevia também um
conto aos domingos, histórias juvenis de namoros burgueses e
casamentos de bacharéis e doutores. Era de uma fecundidade de parvo.
Não havia tolice que lhe passasse pela cabeça, que não escrevesse.
Mas tinha admiradores: sua noiva, os futuros sogros, alguns colegas
de escola e meia dúzia de meninas da Rua dos Voluntários.
O doutor Ricardo
respeitava a sua literatura por sabê-lo com distinção em Matéria
Médica, no que ele encontrava grande competência para o valor
literário de produções do rapaz. Demais, as suas relações, o rigor
colegial da sua vida, os seus olhos azuis, tinham-lhe valido a
respeitosa consideração de todos os repórteres, redatores e
colaboradores.
Raul Gusmão, com
aquela covardia moral que o caracterizava, logo que o soube tão
relacionado nas Laranjeiras, com influência entre os colegas,
falando familiarmente com deputados e senadores — gente influente
para a glória e tudo o mais — começou a elogiá-lo pelo seu jornal. O
Binóculo não cessava de acusar-lhe a passagem pela Rua do Ouvidor: o
doutor Deodoro Ramalho, o fino conteur do O Globo. E ele, por sua
vez, ecoava no jornal de Loberant: “o nosso amigo Florêncio Silva,
cujo temperamento tumultuário foi um belo espetáculo para a geração
atual, acaba, etc., etc.”.
E assim se foi
fazendo uma celebridade, homem notável, admirado nos salões e houve
(ele disse uma vez na redação) uma moça que o achou de qualquer modo
parecido com o Pierre Weber, no estilo e na fisionomia. Ele
perguntou então ao Floc quem era esse tal Weber.
— Oh! Não
conheces?! É uma celebridade ultraparisiense, “parisianíssima”... Só
lá pode haver destas... Nada de calhamaços, de coisas pantafaçudas e
solenes; ligeireza, gauloiseries, um quase tudo e um quase
nada, como disse alguém... É dos cinco reis do espirito francês
atual: ele, o Tristan Bernard, o Courteline, o Alphonse Allais...
Nunca leste — Vous m'en direz tant — dele e do Tristan
Bernard?
— Nunca.
— Pois é
preciso... Vocês levam-se voltados para o calhamaço, têm a mania
livresca, e não conhecem a verdadeira literatura francesa... É o
papá Flaubert e o vovô Hugo...
E, durante todo
o seu curso, o jovem Deodoro Ramalho desovou contos, artigos,
folhetins e tirou dezenas de distinções na Faculdade de Medicina. Na
escola, as distinções vinham-lhe do seu prestigio de jornalista; no
jornal, a sua superioridade partia das suas distinções na escola.
No dia do crime,
porém, o diretor não poupou o seu folhetim engraçadíssimo. Ordenou
que não saísse, pois queria página e meia sobre o crime; que se
inventasse, que se dessem os menores pormenores, as suspeitas mais
desarrazoadas; que se fizesse o histórico de Santa Cruz e da Estrada
de Ferro Central do Brasil. Fosse com que fosse, ele queria página e
meia e cinco mil exemplares para a venda avulsa.
Dividido o
serviço, cada um dos repórteres e redatores ficou encarregado de uma
parte das muitas em que se dividiu a notícia do crime sensacional. A
primeira página, a página sagrada dos conselhos sisudos do austero
Aires d'Ávila, da alta literatura do Veiga Filho, do ciciar amoroso
da velha Pilar, foi literalmente cheia com o histórico de Santa Cruz
(coluna e meia), a “cabeça” de Caxias, os retratos de Dom João VI,
da rainha Dona Carlota, de Dom Pedro I, de José Bonifácio, do
Visconde de Cairu. Os cadáveres, além das suas fotografias, vinham
descritos com muita minúcia e larga fantasia e não se esqueceram de
informar também que junto a eles havia fragmentos de “grés”, granito
em decomposição, mas, “grés”, segundo a petrografia jornalística.
Os dicionários,
os manuais, os indicadores de toda a sorte, andavam de mão em mão. A
redação trabalhava sofregamente, quando veio interrompê-la no afã o
jovem doutor Franco de Andrade, grande prêmio da Faculdade da Bahia,
literato, alienista e clinico ao mesmo tempo. Viera na comitiva de
um ministro baiano e já possuía quatro empregos. Além de lente
substituto, era médico do Hospício, legista da Policia e subdiretor
da Saúde Pública. Escrevera um volume de poesias místicas e
espalhava nas aulas o mais vulgar materialismo. Era idealista em
verso; em prosa, positivista. Com isso, era dono de umas maneiras
delicadas, de uma amabilidade que cativava as redações em peso.
Penetrou na sala sorridente, dizendo uma pilhéria a um, fazendo uma
pergunta a outro. Alguém perguntou a sua valiosa opinião sobre o
crime; o extraordinário sábio não se fez de rogado:
— Penso que o
exame médico-legal não se deve limitar a uma simples autópsia...
Convinha que se o fizesse mais amplo... A exemplo do que se procede
na Índia, onde a confusão de raças é imensa e, portanto, a raça é um
bom dado para identificar, seria bom que se fizessem mensurações
antropológicas...
— Sem a cabeça,
é possível doutor? perguntou Losque.
— Perfeitamente.
E o grande
prêmio da Bahia, alternativamente Maeterlinck, Charcot e Legrand du
Saule, tomou uns ares doutorais como convinha, e continuou:
— O professor
Broca indicava trinta e quatro mensurações de primeira ordem;
Topinard era de opinião que havia dezoito necessárias e quinze
facultativas; mas Quetelet, na sua Anthropométrie, exige quarenta e
duas.
A redação estava
embasbacada. Todos deixaram de escrever para ouvir o sábio moço. O
jovem medalhado passeou um instante pela sala o seu imenso olhar
cheio de apetites e ambições, e emendou:
— Dessas, muitas
são tomadas nos membros e no tronco: o talhe, a bacia, o fêmur,
etc., etc. Demais, ainda se têm outros dados auxiliares: a seção dos
cabelos, o exame microscópico do pigmento... Um operador hábil pode
com tais meios indicar perfeitamente a raça e a sub-raça do
indivíduo...
No dia seguinte,
o jornal desenvolvia os conselhos do jovem e notável doutor Franco
de Andrade; e a medida era tão sábia que, no mesmo dia, o chefe de
polícia escalava-o para fazer o serviço médico-legal, exigindo-lhe o
estudo antropológico dos cadáveres.
Não lhe foi
difícil fazê-lo. Vinte e quatro horas depois o laudo estava
publicado e o O Globo desfazia-se em elogios ao notável trabalho
cientifico do doutor Franco de Andrade, “um moço, desta nossa forte
geração moderna, que sabe aliar o saber e a simplicidade”.
E como se o
valente órgão tivesse falado no interior de uma abóbada, todos os
outros jornais, neutros, governistas, oposicionistas, lhe repetiram
as frases e os gabos ao talento do doutor Franco.
O crime ficou
sendo a grande preocupação pública durante os sete dias que se
seguiram. O laudo do doutor Franco concluía que o homem era mulato,
muito adiantado é verdade, um quarteirão, mas ainda com grandes
sinais antropológicos da raça negra. As testemunhas, porém, entre
elas o chefe e os condutores dos trens, não se lembravam de ter
transportado nenhum par em tais condições. Só um dentista, político
na localidade, depusera ter cruzado na estrada com um casal nas
condições indicadas pelo laudo do doutor Franco. As indagações
continuavam e o crime sacudia a cidade. A sua brutalidade e o seu
mistério como que continham ameaças a todos; além do que estava
envolvido numa atmosfera de amor, de amor proibido, embalsamada de
luxo, de elegância e mocidade, que abalava e preocupava todas as
imaginações.
Durante a semana
o doutor Ricardo não se esqueceu um só dia de indagar como ia a
venda. A tensão da opinião era grande e aumentava. Não se falava em
outra coisa nas casas, nos bondes, nas repartições. Os jornais
superexcitavam-na mais, inventando detalhes, fazendo suposições,
indicando pistas. Adelermo não cessava de imaginar: foi o rei do
jornal naqueles dias, com grande inveja de Floc.
— Oh! Como você
tem imaginação! dizia ele com amargura.
Às vezes, fora
de todo o propósito, fingia desdenhar a faculdade primordial de
Adelermo, tachando-a de qualidade inferior. Não bastando este, veio
também com o seu burilado Veiga Filho, que ganhou algumas centenas
de mil-réis...
Passaram oito
dias e nada se adiantava. Um acaso permitiu a identificação dos
assassinados. Um dono de hotel, tendo um dos seus quartos ocupados
por um casal que não aparecia, desconfiou que tivesse sido ele o
assassinado. Foi à polícia, as autoridades arrombaram as portas e as
malas. Numa delas, encontraram uma carteira de identificação,
passada pela polícia de Buenos Aires. Um sargento teve a idéia de
confrontar a ficha dactiloscópia com a do cadáver do homem; e
descobriu-se que o morto era o cidadão italiano Pascoal Martinelli,
estabelecido com fábrica de massas na capital portenha, que partira
para a Europa com a mulher, tencionando demorar-se uns dias no Rio
de Janeiro. Um dia antes dessa elucidação, o doutor Franco de
Andrade era nomeado diretor do Serviço Médico-Legal da Polícia da
cidade do Rio de Janeiro.
XI
Durante todo
esse tempo, residi em uma casa de cômodos na altura do Rio Comprido.
Era longe; mas escolhera-a por ser barato o aluguel. Ficava a casa
numa eminência, a cavaleiro da Rua Malvino Reis e, atualmente, os
dois andares do antigo palacete que ela fora estavam divididos em
duas ou três dezenas de quartos, onde moravam mais de cinqüenta
pessoas.
O jardim, de que
ainda restavam alguns gramados amarelecidos, servia de coradouro. Da
chácara toda, só ficaram as altas árvores, testemunhas da grandeza
passada e que davam, sem fadiga nem simpatia, sombra às lavadeiras,
cocheiros e criados, como antes o fizeram aos ricaços que ali tinham
habitado. Guardavam o portão duas esguias palmeiras que marcavam o
ritmo do canto de saudades que a velha casa suspirava; e era de ver,
pelo estio, a resignação de uma velha e nodosa mangueira,
furiosamente atacada pela variegada pequenada a disputar-lhe os
grandes frutos, que alguns anos atrás bastavam de sobra para os
antigos proprietários.
Houve noites em
que como que ouvi aquelas paredes falarem, recordando o fausto
sossegado que tinham presenciado, os cuidados que tinham merecido e
os quadros e retratos veneráveis que tinham suportado por tantos
anos. Lembrar-se-iam certamente dos lindos dias de festa, dos
casamentos, dos aniversários, dos batizados, em que pares bem-postos
dançavam entre elas os lanceiros e uma veloz valsa à francesa.
À noite, quando
entravam aqueles cocheiros de grandes pés, aqueles carregadores
suados, o soalho gemia, gemia particularmente, dolorosamente,
dolorosamente, angustiadamente... Que saudades não havia nesses
gemidos dos breves pés das meninas quebradiças que o tinham
palmilhado tanto tempo!
A casa
pertencera talvez a um oficial de Marinha, um chefe de esquadra.
Havia ainda no teto do salão principal um Netuno com todos os
atributos. O salão estava dividido ao meio por um tabique; os
cavalos-marinhos e uma parte da concha ficaram de um lado e o deus
do outro, com um pedaço do tridente, cercado de tritões e nereidas.
Num cômodo (em
alguns) moravam as vezes famílias inteiras e eu tive ali ocasião de
observar de que maneira forte a miséria prende solidamente os
homens.
De longe, parece
que toda essa gente pobre, que vemos por aí, vive separada, afastada
pelas nacionalidades ou pela cor; no palacete, todos se misturavam e
se confundiam. Talvez não se amassem, mas viviam juntos, trocando
presentes, protegendo-se, prestando-se mútuos serviços. Bastava,
entretanto, que surgisse uma desinteligência para que os tratamentos
desprezíveis estalassem de parte a parte.
Certo, quando
assistia a tais cenas, não ficava contente, mas também não sabia
refletir por aquele tempo, que, seja entre que homens for, desde que
surjam desinteligências, logo rompem os tratamentos desprezíveis
mais à mão.
Vi aí, na casa
do Rio Comprido, os mais disparatados casos; e, pela manhã, aos
domingos, quando me debruçava à janela, olhava brincando no terreiro
uma pequenada em que se misturava o sangue de muitas partes do
mundo. Em nenhum deles havia o gárrulo e a inocência dos meninos
ricos; quando não eram humildes e tristes, eram irritáveis.
Facilmente surgia uma rixa entre eles e o choro passava do contendor
vencido a ser geral entre todos, com os castigos infligidos pelas
mães aos culpados e não culpados.
Admirava-me que
essa gente pudesse viver, lutando contra a fome, contra a moléstia e
contra a civilização; que tivesse energia para viver cercada de
tantos males, de tantas privações e dificuldades. Não sei que
estranha tenacidade a leva a viver e por que essa tenacidade é tanto
mais forte quanto mais humilde e miserável. Vivia na casa uma
rapariga preta que suportava dias inteiros de fome, mal vivendo do
que lhe dava uma miserável prostituição; entretanto, à menor dor de
dentes chorava, temendo que a morte estivesse próxima.
Quando refletia
assim, era tarde e, da janela do meu quarto, eu via bem a cortina de
montanhas desde Santa Teresa ao Andaraí. O sol descambara de todo e
a garganta da Tijuca estava cheia de nuvens douradas. Um pedaço do
céu era violeta, um outro azul e havia mesmo uma parte em que o
matiz era paramente verde.
Olhei aquelas
encostas cobertas de árvores, de florestas que quase desciam por
elas abaixo até às ruas da cidade cortadas de bondes elétricos.
Quantas formas já as cobriram — quantas vidas já as não tinham
pisado! Depois que a civilização viera, quantas vezes elas não
tinham sido despovoadas, e perdido o seu tapete de verdura!? E pelos
séculos, apesar dos cataclismos, das evoluções geológicas, da ação
do homem, nem uma só vez aquela terra deixara de fazer surgir
plenamente, nas ramagens das árvores e nas plumagens do passaredo, a
energia vital que estava nas suas entranhas!
A minha vida
passava-se um pouco à parte naquele grande casarão. Cumprimentava a
todos, mas pouco falava. Só a minha lavadeira mantinha relações
comigo, e era por ela que eu sabia da vida daquele vasto cortiço.
Era uma velha
mulata, já muito feia e de fisionomia desfeita. De gênio folgazão e
comunicativo, gostava de conversar, considerando com ceticismo
especial as coisas da vida, as suas variações.
— Já fora gente,
dizia-me, hoje... Assim é a vida, continuava, a noite vem depois do
dia, isto para uma como eu. Para outros, é o contrário, o dia vem
depois da noite. Não viu a Maria, exemplificava, em sua voz
preguiçosa enquanto eu conferia a roupa. Não conheceu?
Respondia-lhe
que não; ela então explicava:
— ... aquela
rapariga clara, casada, que morava num quarto lá embaixo.
Eu insistia que
não, e a velha mulher retorquia:
— Não vem ao
caso — e continuava: — O marido dera em beber, e em maltratá-la. Uma
noite, voltando muito bêbado da rua, espancou-a. Foi para a
Misericórdia e lá encontrou alguém, um doutor, não sei, que se
enfeitiçou por ela... Hoje, menino, anda num estadão! Xi! É assim:
para uns, a noite vem depois do dia; para outros é o contrário...
E por fim
acrescentava com desgosto:
— Eu também tive
homem por mim; mas não soube aproveitar... Quando ele morreu, as
filhas quase me tiraram a roupa do corpo... Ah! Esta vida!... Estão
certos, os colarinhos?
Por aí,
calava-se e ficava olhando o chão, absorta em recordações e em
saudades. Eu então indagava:
— Não teve
filhos, Dona Felismina?
— Tive dois: uma
moça e um rapaz.
— Estão bem;
não?
— Um, o rapaz
morreu; e a moça...
— Está casada?
— Não... Vive
com um homem... Deu muitas cabeçadas... Não foi ela... O senhor
sabe: nós, quando não temos ninguém, é isso...
E levantou-se
sacudindo a cabeça como querendo enxotar a mágoa que a queria
invadir...
Levantara-me
muito cedo naquela manhã para ir ao jornal. Não me competia o
serviço diurno naquele dia; mas o redator português chegava às dez
horas e eu recebera ordem para ir ao seu encontro no cais. No
jornal, o diretor é uma espécie de senhor feudal a quem todos
prestam vassalagem e juramento de inteira dependência: são seus
homens. As suas festas são festas do feudo a que todos têm obrigação
de se associar; os seus ódios são ódios de suserano, que devem ser
compartilhados por todos os vassalos, vilões ou não. A recepção do
redator português era uma festa sua e ele exigia esse aparato para
que tivesse uma repercussão favorável na grande colônia portuguesa.
Todos tinham que ir. E se bem que simples continuo, o diretor exigia
terminantemente a minha presença, para mostrar aos outros periódicos
rivais que no seu não havia distinções vãs, “era uma tenda de
trabalho onde mourejavam irmãos”.
É outra mentira
dos jornais que logo senti.
Não há
repartição, casa de negócio em que a hierarquia seja mais ferozmente
tirânica. O redator despreza o repórter; o repórter, o revisor; este
por sua vez, o tipógrafo, o impressor, os caixeiros do balcão. A
separação é a mais nítida possível e o sentimento de superioridade,
de uns para os outros, é palpável, perfeitamente palpável. O diretor
é um deus inacessível, caprichoso, espécie de Tupã ou de Júpiter
Tonante, cujo menor gesto faz todo o jornal tremer. Para ciência dos
povos, porém, aquilo é “uma tenda de trabalho onde mourejam irmãos”;
e por ser assim eu tive que me levantar cedo e pedir na véspera um
par de punhos a Dona Felismina. Ela entregou-mos, indagando:
— Diga-me uma
coisa “Seu” Caminha: há aí uma lei que obriga todos a andarem
calçados?
— Há uma postura
municipal.
— Mas e verdade
isso mesmo? Pois então todos, todos?
— Na rua, é. Por
que se assusta?
— Dizem que as
folhas falam nisso e que até, contam aí, que quem tiver pé grande
tem que sofrer uma operação para diminuir os pés, como os chinas ...
É verdade?
— Qual! É
balela! Quem lhe contou?
Ao sair, ainda
ouvi que, pelos corredores, se discutia o assunto com calor, girando
sempre a conversa em torno daquela operação chinesa que o governo
queria impor à população.
No escritório já
encontrei Floc, perfeitamente escanhoado, a preparar a notícia da
chegada do novo redator. Lia um período alto e ouvi que descrevia o
estado do mar e a agitação das pequenas embarcações em torno do
transatlântico. Nos jornais, os artigos impressionistas são sempre
feitos antes das impressões.
Premeditou-se
certa ocasião uma corrida de automóveis que foi mais tarde proibida
pela polícia, por ter de efetuar-se nas ruas centrais.
O filho de Aires
d'Ávila, que fazia por esse tempo um curso manhoso de Direito e
escrevia no grande jornal umas sensaborias, compôs com antecedência
uma discrição eloqüente da corrida. Veio a proibição; mas o artigo
saiu, sob o pretexto de que tinha raros méritos literários! É
assim...
Floc escrevia
nervosamente as impressões que ia sentir no desembarque. Estava de
costas e, de quando em quando, rasgava uma ou duas tiras escritas.
Num dado momento, ergueu-se bruscamente, deixou escapar uma
exclamação desesperada, amarrotou todo o papel que tinha escrito, e
atirou-o com raiva à cesta. Depois de ter ido à janela, voltou a
escrever com os mesmos trejeitos, com as mesmas mostras de
desespero, que só desapareceu e se ocultou com a entrada do velho e
esquálido gramático Lobo.
O caturra vinha
também de mau humor. Não raro isso acontecia, mas naquela manhã a
tempestade interior parecia ser amedrontadora. Vestia de preto, como
habitualmente: uma velha sobrecasaca curta, desusada, com as abas
espapadas e grandes placas luzentes nas costas. Tinha um pescoço de
ave a sair de uns colarinhos muito baixos que a gravata cobria
inteiramente. Usava cabelo curto, óculos sem aros e possuía uma
testa curta com uma grande e constante ruga horizontal. Tinha
curiosas manias. Se estava de bom humor, traduzia de uma língua para
outra os provérbios e os anexins que surgissem na conversa. Era
bastante alguém dizer: “de grão em grão a galinha enche o papo”;
para ele retorquir da sua mesa, abandonando a revisão gramatical:
— Em francês: “petit
à petit l'oiseau fait son nid”; os ingleses, porém, dizem...
Naquela manhã
não parecia disposto ao seu sport favorito. Entrou
carrancudo, com a ruga mais acentuada, cumprimentou ligeiramente
Floc, e, já sentado, perguntou-lhe, olhando-o por cima dos óculos:
— Quem é este
Sanches que escreveu este artigo sobre "Bancos emissores"?
— Não sei bem,
disse Floc. Creio que é um advogado aí.
— Que ignorante!
Pois esta besta não escreveu — um dos que foram — isso se admite?
Qual! Como é que saem batatas destas?! Estou desmoralizado... Todos
sabem que tenho aqui a responsabilidade da língua... Que dirá o João
Ribeiro? o Said Ali? o Fausto? E o Rui, que dirá? Naturalmente vão
acusar-me de ignorante... Vou dizer ao Ricardo que preciso ver todos
os originais, senão declaro publicamente que não tenho
responsabilidade com a gramática do O Globo. Não é possível ser
assim!
A sua irritação
— soube-se mais tarde — provinha verdadeiramente do ataque que um
professor da Normal fizera à sua grande obra — Colocação dos
pronomes; teoria e prática —, um fascículo de trinta e seis páginas
tão embrulhado de regras que fazia mais errar quem o lesse do que
mesmo acertar.
Lobo gozava de
uma grande ascendência sobre o animo do diretor. Emendava-lhe os
artigos e fora imposto no jornal por sua mulher, Dona Inês, a quem o
padre Bos, das irmãs, recomendara como sábio. N'O Globo todos lhe
temiam o mau humor, por sabê-lo influente e prestigiado, como
sabichão em Gramática, em Geografia e em línguas. Loberant não
escondia o seu respeito. Para ele, a mais alta expressão da cultura
era falar inglês e Lobo sabia pedir água na língua do grande
império.
A Gramática do
velho professor era de miopia exagerada.
Não admitia
equivalências, variantes; era um código tirânico, uma espécie de
colete de força em que vestira as suas pobres idéias e queria vestir
as dos outros. Há três ou cinco gramáticas portuguesas, porque há
três ou cinco opiniões sobre uma mesma matéria. Lobo organizara uma
série delas sobre as inúmeras dúvidas nas regras do nosso escrever e
do nosso falar e ai de quem discrepasse no jornal! Era emendado da
primeira vez, da segunda repreendido, da terceira podia ser até
despedido, se ele estivesse de mau humor.
Nos seus bons
dias, tinha a mansuetude e os modos convincentes de um professor de
primeiras letras e recitava muitas vezes aos ouvidos do repórter
recalcitrante todas as regras do Sotero sobre o emprego do infinito
pessoal, chamando-o por filho, repetindo exemplo. Não admitia que se
escrevesse “vieram lhe chamar”, se alguém o fizesse em dias de mau
humor, era certo ter de refazer de começo ao fim o seu trabalho.
Nem todos,
porém, se sujeitavam à sua inspeção gramatical; Floc, Leporace e
Caxias eximiam-se e Gregoróvitch amedrontara-o com alguns berros e
palavrões, quando o fiel gramático do jornal quis corrigir o seu
original.
O russo entrava
naquele momento na redação. O paquete chegava às onze horas e pouco
faltava. Vendo-o entrar, Floc perguntou:
— Não vais,
Gregoróvitch?
— A quê?
— Ao desembarque
do nosso redator.
O russo não lhe
respondeu logo. Sentou-se, encolheu a cabeça dentro do corpo como
uma tartaruga, franziu a grande boca, depois retrucou:
— Eu! Eu vou lá
a esses espetáculos... Isso é um baixo “engrossamento”...
O diretor
entrava e o doutor Divã não dissimulou a resposta. Loberant, sempre
autoritário com todos, era de uma delicadeza excepcional com o
doutor pelo Cairo ou por Sófia.
— Você é um
esquisito, Gregoróvitch — foi só o que ele observou.
E saímos. Éramos
um bando à frente do qual marchava o doutor Ricardo, apressado, com
as guias dos bigodes esfareladas ao vento e as abas da sobrecasaca
cinzenta a baterem como asas de uma grande ave vulturina. Levava a
bengala erguida e com todos nós atrás, andando celeremente, parecia
um delegado em diligência ou um chefe eleitoral que vai perturbar
com capangas a seção que lhe não é favorável.
Fazia um sol
inclemente — sol de dezembro pela manhã. No cais já estavam a
família do diretor, mulher e filhas pequenas, as filhas de Aires
d'Ávila, cuja beleza tinha — gabos especiais nas conversas dos cafés
e confeitarias — a claque inteira do O Globo, o núcleo que gerava e
transmitia pela cidade o talento de Ávila, as qualidades cívicas do
doutor Ricardo e os dotes literários do jovem Deodoro Ramalho, que
lá estava com a sua noiva e o seu passo de valsista impenitente.
Outros chegaram depois, Floc ficou entre as senhoras. As suas faces,
os olhos, a testa breve e até os longos bigodes pretos adquiriram
uma radiação especial; o próprio queixo aproximou-se do plano do
peito e vim a conhecer outro Floc, simpático, interessante, todo ele
cativante e natural.
Inútil é dizer
que fiquei de longe, sozinho, como sempre fiquei nessas coisas e
como parece ser meu destino ficar sempre. Dona Inês, a mulher do
doutor Ricardo, entretanto, deu-me bom-dia e fez um “como vais
Isaías”, bondoso e superior. Tinha-se na conta de ilustrada e nobre.
Era o oráculo literário e intelectual do marido. Julgava-se
ilustrada porque aprendera a recitar umas coisas das irmãs de
Botafogo e pintar flores; nobre, porque tinha um irmão deputado e o
seu pai chicanara no interior do Brasil.
O cais estava
agitado e concorrido. O Congresso estava a fechar-se, partia um
paquete para o Norte e os congressistas começavam a fugir. Os
magnatas: ministros, juizes, coronéis, ricaços, engrossadores com as
suas mulheres e filhas, encontravam-se ali em tocantes despedidas a
amigos das duas Câmaras. A Viscondessa de Varennes, a famosa
Odalina, poetisa de muito mérito e tão do gosto de Floc, viera
também. O doutor Ricardo afastou-se logo dela com a senhora; mas a
fidalga insinuara-se no grupo das filhas de Ávila e lá ficara a
deitar os seus grandes olhos de Juno para a massa masculina,
brilhante e rica, que se apinhava no cais. Chegou por último Aires
d'Ávila, com a sua marcha difícil agitando a cabeça e balouçando os
braços, no intuito de mais depressa impelir o corpo de chumbo.
Chegavam em
carros, coupés e espalhavam-se pelo jardim, disputando as
sombras das árvores em grupos de homens e senhoras. O pessoal
masculino era soberbo: a nata — Senado, Câmara, altos tribunais,
grandes patentes do Exército e da Marinha — cartolas reluzentes e
negras sobrecasacas a enquadrar os dourados dos uniformes. Tudo
vergado ao sol indiferente e forte. As senhoras sentiam-se mal,
envolvidas naquelas fartas ondas de luz e calor. Os bosquetes de
arbustos tinham uma despreocupação divina e as grandes árvores
nodosas davam uma escassa e compassiva sombra. As lanchas de
aluguel, com bandeiras em que se lia o titulo do jornal, não tinham
chegado. Eu esperava, afastado do grosso da claque, tímido diante de
tanta grandeza inabalável. Chegou um ministro. Um movimento igual
fez todos voltarem-se para o lado em que ele vinha. A atitude foi
instantânea em cada homem e em cada mulher; era como se ao centro de
uma porção de limalha de ferro espalhada, se houvesse chegado um
pequeno imã.
O doutor Ricardo
cumprimentou a alta autoridade e, a seu chamado, foi-lhe falar. Além
do ministro, intermeteu-se uma nova personagem; um preto velho,
quase centenário, de fisionomia simiesca e meio cego.
Trazia na mão
esquerda um caniço que distendia um arame de pescaria; com a
direita, auxiliado por uma varinha, vibrava dolentemente a corda,
enquanto balbuciava qualquer coisa. Ia de grupo em grupo, tangendo o
seu monocórdio extravagante. Cantava talvez uma ária de uma
extravagante beleza, certamente só percebida por ele e feita pela
sua alma para a sua alma... Tocava e esperava esmolas. Em todas as
fisionomias, havia decerto piedade, comiseração, e mais alguma coisa
que não me foi dado perceber. Era constrangimento, era não sei o
quê...
O preto tinha os
pés espalmados e, com a cecidez e a velhice, andava de leve, sem
quase tocar no chão, escorregava, deslizava — era como uma sombra...
Sob aquele sol
muito forte, à rebrilhante luz daquela manhã de verão, por entre
tanta gente rica e forte, aquele seu instrumento infantil, a
puerilidade da música, o seu aspecto de sombra, juntavam-se para dar
um relevo cortante à sua miséria e à sua fragilidade... Ele, com a
sua resignação e miséria, e o sol, com a sua força e indiferença,
tinham um certo acordo oculto, uma relação entre si quase perfeita.
O negro ia... Ia tocando já sem forças a plangente música das
recordações do adusto solo da África, da vida fácil de sua aringa e
do cativeiro semi-secular!
As lanchas
aproximaram-se e embarcamos. O paquete ainda fumegava, rodeado de
lanchas e pequenas embarcações de remos. Logo ao entrar, demos com o
novo redator. As filhas de Aires d'Ávila cercaram-no. Elas eram as
figuras decorativas do jornal. Bonitas, como toda a moça que sabe
dispor dos seus atavios e vestidos, não faltavam a qualquer festa do
O Globo. Nos banquetes, nos piqueniques, nas soirées do
diretor, nos embarques e desembarques, nos enterros, lá estavam elas
com as suas lindas toilettes, irrepreensivelmente calçadas e
enluvadas. Tinham uma emanação luxuriante e uns grandes olhos
inquietos, banhados de muita luz; as narinas móveis aspiravam com
ânsia todos os perfumes e exalações e uma delas tinha o tic
de morder os lábios. Era um gosto vê-las por entre os homens,
animadas, com grande satisfação nos olhos, sorrindo para este,
atendendo aquele, namorando. Amavam as grandes festas, em lugares
afastados, onde vai muita gente...
Cercaram logo o
novo redator, estabeleceram a cordialidade entre ele e o pessoal do
jornal e ficaram junto dele, quando fomos à mesa tomar champagne.
O doutor Ricardo julgou do seu dever erguer um brinde; o novo
redator respondeu:
— Me falece
competência para falar de si, começou.
Lobo, que
continuava de mau humor, não se conteve e exclamou do canto:
— Xi! Quanta
asneira!
O recém-chegado
não se vexou e todos ficaram calados de espanto diante da grosseria
do velho gramático. Loberant olhou-o severamente e Lobo suportou-lhe
o olhar com coragem. O novo redator continuou, insistindo na
primeira frase, sem mais sequer olhar o pedagogo.
De volta, ainda
se deu um incidente desagradável no cais. Dona Inês e as filhas do
diretor já iam longe, quando ele se aproximou de um senhor de
cartola. Lembrei-me que tinha sido aquele senhor que tinha chamado o
ministro para embarcar, quando o doutor Ricardo conversava com o
potentado. Era deputado e o doutor Ricardo altercava com ele:
— “Seu” patife!
“Seu” cáften! Então você pensa que eu preciso de emprego?... Sou
independente, tenho o meu jornal...
O outro
respondia:
— Apulcro de
Castro! Canalha! Bêbedo!
Não se demoraram
muito; em breve se atracaram e rolaram pela areia do jardim. Ricardo
saiu da luta deitando sangue pela boca e foi levado para um hotel
próximo. Veio o médico e eu fiquei a seu lado, dando-lhe a poção de
hora em hora.
Acalmou-se e
pareceu dormir. Deixei-o só, mas voltei logo. Acordara e, de braços
na borda da cama, com a boca semicerrada, olhava fincadamente o
chão. Cismava na vida e considerava a terra. Animei-me:
— Precisa alguma
coisa, doutor?
— Preciso.
— O quê, doutor?
E virou-se para
o lado sem me responder...
XII
— O senhor é da
redação?
— Sim, senhor.
— Trago este
volume de versos — Anelos — para oferecer ao jornal...
— Pode deixá-lo.
O poeta
falava-me de pé, desconfiado e com longas interrogações no olhar. Na
sala, não havia ninguém da redação, propriamente, e, quando me
perguntou se eu o era, respondi-lhe afirmativamente, por pura
vaidade.
O rapaz não me
entregou logo o livro. Manteve-o na mão, olhando muitas vezes as
coleções de jornais, os retratos das paredes, a sala toda como se
procurasse guardar de cor aquele aspecto e familiarizar-se
inteiramente com ele.
— É o senhor o
autor da obra? perguntei.
— Sou, pois não.
O senhor sabe: ninguém pode nunca estar certo de ter ou não
habilidade. Escreve-se, os amigos gostam; mas, se não se tem coragem
para sujeitar um volume à critica, fica-se na dúvida se é a simples
amizade dos camaradas que louva as nossas produções, ou se há
mérito, de fato, nelas... Sou muito moço, tenho vinte e dois anos,
faço versos desde os dezoito; agora, fiz uma escolha e publiquei
este volume... Queria que os senhores dissessem alguma coisa, que
notassem os defeitos, para eu me corrigir, caso fosse possível.
— Isso é com o
crítico literário.
— Quem é?
— É o Floc, não
conhece?
— Muito! Leio-o
sempre. Até tenho aqui uma opinião dele que achei muito acertada.
Creio que é do folhetim da semana passada...
O jovem poeta
descansou o chapéu sobre uma mesa, puxou a carteira e esteve a
procurar entre os papéis o retalho de Floc, sempre perseguido por um
cacho de cabelos louros que teimava em lhe cobrir o olho direito. O
cacho caia, ele retirava-o com a mão; teimava em voltar, ele sacudia
a cabeça para levá-lo para cima, e assim custou a achar o pequeno
retângulo de papel, perdido entre uma porção de cartas, cartões e
versos de que estava pejada a carteira.
Encontrando-o,
não se demorou em lê-lo; tinha a secreta intenção de me convencer do
grande apreço em que tinha o talento do viçoso Floc. Leu: - “Para
mim, a verdadeira Arte é aquela que consorcia o ideal com o real; é
aquela que, não desprezando os elementos representativos da
realidade, sabe pelo ideal arrebatar as almas aos paramos do
incognoscível”.
Guardou a
carteira com a valiosa opinião do esteta viajado em Quito; e
continuou já um tanto desembaraçado:
— Concordo
plenamente com ele. Nos Anelos, se o senhor ler, há de ver que
sempre procurei não me afastar desse ponto de vista... E acho que
deve ser assim real e ideal, juntos é verdade, mas este
espiritualizando aquele, dominando-o e vencendo-o... Gosto
imensamente do Senhor Floc; acho-o um critico sagaz, ilustrado, cujo
julgamento sobre os meus versos eu receberia com especial agrado...
O senhor falará a ele, não é?
Prometi-lhe e o
cândido poeta Félix da Costa saiu satisfeito, apertando-me a mão
demoradamente, oferecendo-me a casa e os préstimos. Folheei um
instante o livro; era uma plaquette de cento e tantas paginas,
povoadas de sonetos e outras poesias soltas. Depositei-o sobre a
mesa do secretário. De antemão, sabia que Floc não se deteria na sua
leitura. Os livros nas redações têm a mais desgraçada sorte se não
são recomendados e apadrinhados convenientemente. Ao receber-se um,
lê-se-lhe o titulo e o nome do autor. Se é de autor consagrado e da
facção do jornal, o critico apressa-se em repetir aquelas frases
vagas, muito bordadas, aqueles elogios em cliché que nada
dizem da obra e dos seus intuitos; se é de outro consagrado mas com
antipatias na redação, o cliché é outro, elogioso sempre mas não
afetuoso nem entusiástico. Há casos em que absolutamente não se diz
uma palavra do livro. Acontecia isso com três ou quatro autores. Um
deles era Raul Gusmão, a quem o diretor invejava o talento de
escrever; além dele, havia um grande poeta, respeitado em todo o
Brasil, e um outro moço que se rebelara contra a ditadura do jornal.
Com os nomes novos não havia hesitações; calava-se, ou dava-se uma
notícia anódina, “recebemos, etc.”, quando não se descompunha.
Aos olhos dos
homens da imprensa, publicar um livro é uma ousadia sem limites, uma
temeridade e uma pretensão inqualificáveis e dignas de castigo.
— Como é, disse
certa vez Oliveira, que este sujeito publicou um livro?... Um
desconhecido! Um idiota magro! Um tipo que nunca escreveu coisa
alguma...
Ele queria dar a
entender como não tendo escrito coisa alguma, o fato do rapaz não
ter publicado artigos nos jornais ou feito mesmo a reportagem dos
Telégrafos. O pensamento comum dos empregados em jornais é que eles
constituem, formam o pensamento do nosso país, e não só o formam,
mas "são a mais alta representação dele". Fora deles, ninguém pode
ter talento e escrever, e, por pensarem assim, hostilizam a todos
que não querem aderir à sua grei, impedem com a sua critica hostil o
advento de talentos e obras, açambarcam as livrarias, os teatros, as
revistas, desacreditando a nossa provável capacidade de fazer alguma
coisa digna com as suas obras ligeiras e mercantis.
Por acaso, se o
trabalho consegue vencer a hostilidade de semelhante gente, sempre
cheia de preconceitos, eles ficam a matutar, pois não admitem
esforço e honestidade intelectual em ninguém: de quem o autor
copiou?
Os mais hábeis
daqueles que estão de fora, porém, quando premeditam a infame
ousadia de publicar, arranjam preliminarmente relações de amizade
nos jornais, de modo a obter um bom acolhimento para o seu trabalho.
Isso acontece com os de pequeno nascimento, com os que vêm dos
Estados; mas autor que nasceu no Rio, de certa camada, que tenha
títulos e empregados, pode estar seguro que a critica anônima dos
jornais lhe será unânime em elogios e animação.
N'O Globo, as
coisas corriam assim. O secretário recebia o volume e dava-o a Floc.
Quimera, romance, Abílio Gonçalves, lia Floc alto, e logo
perguntava:
— Quem é este
Abílio Gonçalves?
— Não conheces?
É o filho do senador Gonçalves, de São Paulo.
Floc olhava
outra vez o livro e voltava:
— É formado?
— É, retorquia
Leporace; é engenheiro de minas.
— Hum! fazia
Floc com segurança, mudando a primitiva antipatia que se lia na
contração dos lábios, para um breve sorrir de benevolência.
No dia
consagrado, o folhetim aparecia cheio de blandícias, de elogios,
fosse o livro bom ou mau, fosse o pai senador da oposição ou do
Governo.
Houve uma
ocasião em que Floc, para mais erguer o filhote criticado, forjou um
elogio de um autor francês como tendo sido feito a um livro que
aparecera há duas semanas no Rio de Janeiro.
Se o nome do
autor era obscuro, se as informações colhidas lhe não davam de
pronto um estado civil decente, Floc adiava a notícia e esperava que
os grandes nomes da critica se pronunciassem. Se eram favoráveis ao
livro, ele repetia os elogios, ampliava as observações; se eram
desfavoráveis, 0 elegante e viçoso critico dava curso à sua natural
hostilidade aos nomes novos que não surgiam nos jornais. Havia,
porém, uma casta de autores, que ele sempre elogiava; eram os
diplomatas. Um destes senhores publicou certa vez uma compilação de
naturalistas e de receitas agrícolas com fingimentos de Maeterlinck,
sobre as frutas nacionais. Floc não se conteve: desandou um folhetim
inteiro sobre o volume, elogiando a sua virtuosidade artística, o
seu estilo límpido e sereno, mostrou o pensamento panteístico que o
animava, só porque o primeiro secretário da Legação de Caracas
dissera que o mamão era terno e resignado.
Dado que o livro
tratasse do assunto que ele desconhecesse inteiramente, o processo
era outro. Ele fazia como o abissínio faz com o boi em que viaja
montado: tirava pedaços da própria obra e criticava.
Eu não quis
dizer tudo isso ao poeta de Anelos. Era melhor mantê-lo na ilusão de
que pudesse haver alguma independência e espontaneidade no
julgamento dos jornais; e quando Floc chegou, com o seu grande
queixo atirado para diante como um aríete e os seus bigodes de
azeviche, dei-lhe o livro. Depois de manuseá-lo um instante, falou
com azedume:
— Que nome!
Félix da Costa! Parece até enjeitado! É algum mulatinho?
— Não. É mais
branco que o senhor. É louro e tem olhos azuis.
— Homem, você
hoje está zangado...
Ele não
compreendia, que eu também sentisse e sofresse.
E arredou o
livro para a ponta da mesa e pôs-se a escrever. Era a sua tortura;
era o seu pesadelo. Quase sempre as crônicas literárias, as
fantasias, as noticias de teatro, as trazia escritas de casa; mas o
serviço normal, era obrigado a fazê-lo na própria redação. Preferia
ficar só, e quando estava, escrevia para adiantar serviço. A sua
oclusão mental não fora capaz de me julgar e ele não me supunha
bastante atilado para observar a sua dificuldade. Então, mesmo na
minha presença, mordiscava os bigodes, dava suspiros, falava alto;
mas ao chegar um outro dos colegas, continha-se, procurava diminuir
a contração dos supercílios e o franzir da testa que lhe denunciavam
o desespero e o esforço. Floc não tinha o dom de improvisar o
artigo, não possuía esse talento especial de presteza de pensamento,
essa facilidade em vazá-lo logo no papel, com que se fizeram
conhecidos José do Patrocínio e Justiniano José da Rocha. Na
redação, havia alguns que escreviam com facilidade e rapidez, mas
sem brilho nem relevo. Meneses era quem tinha mais destaque, quem
mais força possuía no dizer, mas a sua pessoa resistia muito, não se
queria transmitir ao artigo, temia, e por isso ele perdia muito.
Quem tivesse
perfeitamente o dom de inventar, de arquitetar instantaneamente o
artigo e escrevê-lo com sabor literário, movimento brilhante,
vigoroso, orgânico, não havia. Losque, muito mais fraco do que
Meneses, fingia-se de posse desse dom sagrado. Faltava-lhe novidade,
invenção, força no dizer; tinha uns certos períodos, um constante
arranjo de frases que ele adaptava ao assunto do momento, com as
variantes necessárias. Gregoróvitch escrevia rapidamente,
desenvolvia o artigo com muita força e paixão, mas era tumultuário
até ao emaranhado e a falta de sentimento da língua não lhe dava uma
arquitetura aos períodos. A música do idioma fazia-lhe falta,
completamente. No mais, todos escreviam com acanhamento, sem
naturalidade; as palavras fugiam-lhes no momento de escrever. Isso
que num temperamento literário pode transformá-lo em grande
escritor, num jornalista a nada leva. Aliás, nenhum deles tinha o
sentimento do seu defeito. Floc unicamente, com certeza devido aos
seus grandes desejos literários e artísticos, sentia bem essa
inferioridade e sofria com ela. Não procurava corrigir-se, adquirir
a plasticidade necessária; o oficio não permitia e fora dele não
tentava nada, com medo do desastre e do insucesso, embora na
tentativa muito pudesse ganhar a sua vontade e o escritor que
houvesse nele. Sofria...
Nos dias
seguintes às festas de luxo, quando era encarregado dos
comptes-rendus, era de ver o seu azedume contra o Raul Gusmão,
que os fazia também para o Despacho. Em geral saiam antes dos seus,
à tarde, de modo que ele chegava à redação notando-lhe as invenções
e os exageros. Sempre, porém, senti na sua critica a impotência e o
despeito de não ver citada pelas senhoras conhecidas uma imagem mais
faiscante, como faziam com as do rival. Entretanto, eram amigos e
elogiavam-se sempre que podiam.
Floc, naquele
momento, recebera uma aragem de inspiração. Escrevia com
desembaraço, quando Losque entrou. O recém-vindo descansou o maço de
jornais que sempre trazia, limpou o pince-nez, acendeu o cigarro de
palha e perguntou camaradariamente:
— Que escreves?
— A notícia do
baile do palácio...
— E o Rolim?
— É a
“cabeça”... Tu bem sabes que o Rolim não escreve nada que preste...
Este Rolim era o
repórter do palácio. Tinha mais de quarenta anos, uns grandes pés
espalmados e o queixo erguido para o alto quase a bater nos bigodes
fartos e negros. Tinha-se na conta de elegante, de fino e
descendente de um vice-rei do Brasil, Dom Antônio Rolim de Moura,
Conde de Azambuja. De uns tempos a esta parte, todos os brasileiros
se vão enobrecendo ao acaso... Devem ter verificado isso.
O seu ofício no
jornal era ir diariamente ao palácio presidencial, tomar conta dos
nomes dos visitantes, ou, em ocasiões excepcionais, representar o
jornal nas festas do bom-tom, em que a distinção de maneiras fosse
exigida e um ar sedutor não ficasse mal. De volta, trazia os nomes
dos circunstantes, a hora certa em que começaram as danças,
procurava a notícia anterior e mutatis mutandis a copiava.
— Este Rolim!...
É jornalista para uso externo, disse Losque acrescentando em
seguida: Você leu o Jornal do Comércio?
— Não. Por quê?
— O Teixeira
Mendes ataca a lei dos sapatos obrigatórios. Diz que isso de andar
calçado, de correção de traje, em última análise, entra no campo da
estética, assim no espiritual em que não pode o poder temporal
intervir absolutamente... Então é com o papa?
Os dois sorriram
e Floc refletiu vagarosamente:
— Eu creio que
as coisas vão mal. Há muita irritação, muito azedume por aí...
— Eu penso
também que isso não acaba bem. Hoje quando vinha de bonde, vi
comentários ao artigo do Ricardo...
— Estava bom.
Não achaste?
— Achei, fez o
outro com segurança. Ele atacou bem a questão; podia ir mesmo pelo
lado higiênico...
Entrava no
momento Leiva, que fazia polícia e “Vida Operária”. Sentindo que se
falava na questão dos sapatos, interveio na palestra:
— Vocês não
imaginam... As coisas estão feias! Estive na Gamboa e na Saúde... Os
estivadores dizem que não se calçam nem a ponta de espada. Não falam
noutra coisa. Vi um carroceiro dizer para outro que lhe ia na frente
guiando pachorrentamente: Olá hé! Estás bom para andares calçado que
nem um doutor! Por aí vocês avaliam... Creio que há “turumbamba”!
— Agora, aqui
para nós, aduzia Floc, a coisa é necessária... Causa má impressão
ver essa gente descalça... Isso só nos países atrasados! Eu nunca vi
isso na Europa...
— Ora, deixa-te
disso, Floc! observou Gregoróvitch que entrara. No Norte, é justo, o
clima, o gelo; mas no Sul, em Nápoles, na Grécia, vê-se muito...
— Isso não é
Europa.
— Engraçado! Com
que liberdade modificas a geografia... E em Londres?
— Que tem
Londres?
— Que tem! Não
há cidade do mundo em que a multidão seja mais andrajosa, mais
repugnante...
— Andam de
casaco e sapatos! gritou triunfantemente Floc.
— Que casaco!
Que sapatos! Naturalmente que hão de procurar coberturas para o
frio, mas onde vão buscá-las? Ao lixo e é um disparate! Se queres
uma multidão catita, arranja meios de serem todos remediados. Vocês
querem fazer disto um Paris em que se chegue sem gastar a
importância da passagem ao mesmo tempo ganhando dinheiro, e esquecem
de que o deserto cerca a cidade, não há lavoura, não há trabalho
enfim...
Quase todos
previam um motim; julgavam-no certo pelas observações que tinham
feito.
O doutor Ricardo
entrou seguido de Aires d'Ávila. O diretor vinha satisfeito.
Cumprimentou sorrindo e foi ao gabinete escrever. Aires d'Ávila fez
algumas considerações sobre o projeto e pediu ao Floc noticias de
uma cantora nova. Loberant, por esse tempo, gritou:
— Isaías, vem
cá! Leva-me esta carta ao Senador F. Olha, recomendou-me ao sair,
entrega em mão dele, estás ouvindo!
No momento em
que começava a descer a escada ouvi que dizia alto:
— Esses f... hão
de ver se valho ou não valho alguma coisa! Súcia!
Embaixo o
gerente, em colete, sentado diante da grande mesa, contava
harpagonescamente uma chusma de níqueis que ia dividindo em colunas,
alinhando-as depois para o lado esquerdo à proporção que contava.
O mês de maio
tinha começado naquele ano com particular doçura. Eu que já tinha
mais de dois anos de Rio de Janeiro, nunca o vi tão formoso, tão
primaveril e nunca assisti a manhãs tão lindas e azuis. Fazia uma
temperatura carinhosa e eu olhava as nuvens, as montanhas e as
árvores sob uma luz aveludada. A terra era todo um estojo macio e
tépido, feita especialmente para viver do nosso corpo. Os boatos da
redação e a tempestade que eu mesmo sentia preparar-se, em nada
diminuíam a minha sensação de bem-estar físico. Aquele começo de mês
foi para mim de grande sossego e de muito egoísmo. Embora minha mãe
tivesse afinal morrido havia alguns meses, eu não tinha sentido
senão uma leve e ligeira dor. Depois de empregado no jornal, pouco
lhe escrevi. Sabia-a muito doente, arrastando a vida com esforço.
Não me preocupava... Os ditos de Floc, as pilhérias de Losque, as
sentenças do sábio Oliveira, tinham feito chegar a mim uma espécie
de vergonha pelo meu nascimento, e esse vexame me veio diminuir em
muito a amizade e a ternura com que sempre envolvi a sua lembrança.
Sentia-me separado dela. Conquanto não concordasse em ser ela a
espécie de besta de carga e máquina de prazer que as sentenças
daqueles idiotas a abrangiam no seu pensamento de lorpas, entretanto
eu, seu filho, julgava-me a meus próprios olhos muito diverso dela,
saído de outra estirpe, de outro sangue e de outra carne. Ainda não
tinham coordenado todos os elementos que mais tarde vieram encher-me
de profundo desgosto e a minha inteligência e a minha sensibilidade
não tinham ainda organizado bem e disposto convenientemente o grande
stock de observações e de emoções que eu vinha fazendo e
sentindo dia a dia. Vinham uma a uma, invadindo-me a personalidade
insidiosamente para saturar-me mais tarde até ao aborrecimento e ao
desgosto de viver. Vivia, então, satisfeito, gozando a temperatura,
com almoço e jantar, ignobilmente esquecido do que sonhara e
desejara. Houve mesmo um dia em que quis avaliar ainda o que sabia.
Tentei repetir a lista dos Césares — não sabia; quis resolver um
problema de regra de três composta, não sabia; tentei escrever a
fórmula da área da esfera, não sabia. E notei essa ruína dos meus
primeiros estudos cheio de indiferença, sem desgosto, lembrando-me
daquilo tudo como impressões de uma festa a que fora e a que não
devia voltar mais. Nada me afastava da delícia de almoçar e jantar
por sessenta mil-réis mensais.
A irritação do
espírito popular que eu tinha observado na minha própria casa não me
fez pensar nem temer. Julguei-a especial àqueles a quem tocavam e
nunca que aquelas observações ingênuas se tivessem transformado em
grito de guerra, em amuleto excitador para a multidão toda. Mais
tarde, entretanto, verifiquei que a crença de que o Governo
pretendia operar violentamente os homens e mulheres de pés grandes,
como os chinas, é que tinha impressionado fortemente os espíritos
levando-os ao sangrento motim que estalou.
Tinha-me
recolhido cedo, depois de ter ido ao clube buscar provas ao Aires
d'Ávila. Era hábito seu ir pelas cinco horas ao clube arriscar, na
roleta, alguma coisa antes de jantar e quando pretendia demorar-se
levava as provas, indo eu ou o outro continuo buscá-las já revistas.
Em certas ocasiões, quando pelo correr do dia, não tinha tempo de
escrever, era tão forte o seu hábito que, dada a hora, corria ao
clube e voltava de lá às dez ou onze horas para escrever o artigo.
Noites havia que o sono e a fadiga eram tão fortes que, entre uma
tira e outra, o gordo e pesado jornalista cochilava e dormia até.
Então, com a precisa delicadeza, qualquer pessoa da redação
acordava-o e Aires continuava a escrever o artigo sem mesmo reler as
tiras anteriores. Em alguns dias, o sono obrigava-o a interromper o
artigo mais de uma vez.
Recolhi-me cedo
nessa noite e dormi profundamente durante toda ela. Não vi a
destruição dos combustores de iluminação, que os populares tinham
levado a efeito. Só a notei de manhã, já pelas oito horas, descendo
a ladeira. Na rua, o transito era ralo e o tráfego dos bondes
parecia ter cessado completamente. Nas esquinas, havia patrulhas de
infantaria e cavalaria e de distancia em distancia, à porta de
estalagens, afastados da polícia, havia grupos compactos de
populares. Um bonde aproximou-se, e, embora cheio, dependurei-me com
dificuldade num dos balaústres. A fisionomia das ruas era de
expectativa. As patrulhas subiam e desciam; nas janelas havia muita
gente espiando e esperando qualquer coisa. Tínhamos deixado a
estação do Mangue, quando de todos os lados, das esquinas, das
portas e do próprio bonde partiam gritos: Vira! Vira! Salta! Salta!
Queima! Queima!
O cocheiro
parou. Os passageiros saltaram. Num momento o bonde estava cercado
por um grande magote de populares à frente do qual se movia um bando
multicor de moleques, espécie de poeira humana que os motins
levantam alto e dão heroicidade. Num ápice, o veículo foi retirado
das linhas, untado de querosene e ardeu. Continuei a pé. Pelo
caminho a mesma atmosfera de terror e expectativa. Uma força de
cavalaria de polícia, de sabre desembainhado, corria em direção ao
bonde incendiado. Logo que ela se afastou um pouco, de um grupo
partiu uma tremenda assuada. Os assobios eram estridentes e longos;
havia muito da força e da fraqueza do populacho naquela ingênua
arma. E por todo o caminho, este cenário se repetia.
Uma força
passava, era vaiada; se carregava sobre o povo, este dispersava-se,
fragmentava-se, pulverizava-se, ficando um ou outro a receber
lambadas num canto ou num portal fechado. O Largo de São Francisco
era mesmo uma praça de guerra. Por detrás da Escola Politécnica,
havia uma força e os toques da ordenança sucediam-se conforme as
regras e preceitos militares. Parei. Um oficial a cavalo percorria a
praça, intimando o povo a retirar-se. Obedeci e, antes de entrar na
Rua do Ouvidor, a cavalaria, com os grandes sabres reluzindo ao sol,
varria o largo com estrépito. Os curiosos encostavam-se às portas
das casas fechadas, mas aí mesmo os soldados iam surrá-los com
vontade e sem pena. Era o motim.
As vociferações
da minha gazeta tinham produzido o necessário resultado. Aquele
repetir diário em longos artigos solenes de que o Governo era
desonesto e desejava oprimir o povo, que aquele projeto visava
enriquecer um sindicato de fabricantes de calçado, que atentava
contra a liberdade individual, que se devia correr a chicote tais
administradores, tudo isso tinha-se encrostado nos espíritos e a
irritação alastrava com a violência de uma epidemia.
Durante três
dias a agitação manteve-se. Iluminação quase não havia. Na Rua do
Ouvidor armavam-se barricadas, cobria-se o pavimento de rolhas para
impedir as cargas de cavalaria. As forças eram recebidas a bala e
respondiam. Plínio de Andrade, com quem há muito não me encontrava,
veio a morrer num desses combates. Da sacada do jornal, eu pude ver
os amotinados. Havia a poeira de garotos e moleques; havia o
vagabundo, o desordeiro profissional, o pequeno burguês, empregado,
caixeiro e estudante; havia emissários de políticos descontentes.
Todos se misturavam, afrontavam as balas, unidos pela mesma
irritação e pelo mesmo ódio a polícia, onde uns viam o seu inimigo
natural e outros o Estado, que não dava a felicidade, a riqueza e a
abundância.
O motim não tem
fisionomia, não tem forma, é improvisado. Propaga-se, espalha-se,
mas não se liga. O grupo que opera aqui não tem ligação alguma com o
que tiroteia acolá. São independentes; não há um chefe geral nem um
plano estabelecido. Numa esquina, numa travessa, forma-se um grupo,
seis, dez, vinte pessoas diferentes, de profissão, inteligência, e
moralidade. Começa-se a discutir, ataca-se o Governo; passa o bonde
e alguém lembra: vamos queimá-lo. Os outros não refletem, nada
objetam e correm a incendiar o bonde.
O apagamento
momentâneo da honestidade e a revolta contra pessoas inacessíveis
levam os melhores a esses atentados brutais contra a propriedade
particular e pública. Concorre também muito a nossa perversidade
natural, o nosso desejo de destruir, que, adormecido no fundo de nós
mesmos, surge nesses momentos, quando a lei foi esquecida e a
opinião não nos vigia.
No jornal
exultava-se. As vitórias do povo tinham hinos de vitórias da pátria.
Exagerava-se, mentia-se, para se exaltar a população. Em tal lugar,
a polícia foi repelida; em tal outro, recusou-se a atirar sobre o
povo. Eu não fui para casa, dormi pelos cantos da redação e assisti
à tiragem do jornal: tinha aumentado cinco mil exemplares. Parecia
que a multidão o procurava como estimulante para a sua atitude
belicosa. O serviço normal da folha fazia-se com atividade. Os
repórteres iam aos lugares perigosos, aos pontos mais castigados
pela polícia, corriam a cidade em tílburis. Nem os revisores nem os
seus suplentes faltavam à chamada; outro tanto sucedia com os
tipógrafos e os outros operários.
Toda essa
abnegação era para garantir os seus mesquinhos empregos. Um pobre
tipógrafo, que morava para a Saúde, onde o transito se fazia com os
maiores perigos, ficou todos os três dias no jornal. Temia ser morto
por uma bala pedida. Houvera muitas mortes assim, mas os jornais não
as noticiavam. Todos eles procuravam lisonjear a multidão, mantê-la
naquelas refregas sangrentas, que lhes aumentava a venda. Não
queriam abater a coragem do povo com a imagem aterradora da morte. A
polícia atirava e não matava; os populares atiravam e não matavam.
Parecia um torneio... Entretanto eu vi morrer quase em frente ao
jornal um popular. Era de tarde. O pequeno italiano, na esquina,
apregoava os jornais da tarde: Notícia! Tribuna! Despacho!
De há muito que
a rua parecia retomar a sua vida normal. Durante todo o dia os
passeios se fizeram como nos dias comuns; repetidamente, porém, uns
grupos que paravam no canto do Largo de São Francisco, vaiaram a
polícia. O esquadrão, com o alferes na frente, partiu como uma
flecha e foi descendo a Rua do Ouvidor, distribuindo cutiladas para
todos os lados. O pequeno vendedor de jornais não teve tempo de
fugir e foi derrubado pelos primeiros cavalos e envolvido nas patas
dos seguintes, que o atiraram de um lado para outro como se fosse um
bocado de lama.
Quando
suspenderam a carga, alguns populares trouxeram-no morto para o
escritório do jornal. O cadáver estava num estado ignóbil: tinha
quase todos os ossos partidos, o crânio esmagado e o ventre roto.
Recordei-me então daquelas palavras de Loberant:
— Esses f... hão
de ver se valho ou não valho alguma coisa! Súcia!
XIII
O homem que
acaba de morrer não era um homem vulgar. No domínio de sua difícil
arte, era uma notabilidade respeitada. Para nós, era muito mais: era
um amigo, um dedicado e leal amigo a quem muito devíamos e
prezávamos. Todos os que mourejam nesta tenda de trabalho,
certamente não hão de esquecê-lo e não há nenhum que não tenha
recebido um favor, uma alegria, uma satisfação de suas mãos.
O público que
nos lê, não sabe o quanto esta vida de jornalista é esgotante e
ingrata; não sabe que soma de energia ela exige e como nos tira os
melhores momentos de ócio e os melhores minutos de prazer. Vivemos
por assim dizer para os outros; e quem vive para os outros, é claro
que muito pouco pode viver para si.
Charles de
Foustangel atravessava a nossa vida como um anjo protetor; dele,
tirávamos alguns raros instantes de alegria no meio das agruras que
nos cercam. Era de ver como ele sabia desenvolver um menu, como
imaginava um ‘quitute’ inédito, um prato saboroso, que verve
especial punha nos nomes com que os batizava e que raros gozos eles
traziam aos nossos paladares fatigados por esses hotéis detestáveis
que nos impingem solas duríssimas por bifes de grelha. Quantas
ocasiões não fomos nós de mau humor para a mesa de jantar,
enervados, sem vontade de trabalhar, com a encomenda do artigo, da
reportagem, da crônica para o dia seguinte e sem coragem para
fazê-los, e nos levantávamos, graças à brandura do seu tempero e a
eurritmia dos seus molhos, satisfeitos, solertes, cheios de novas
energias!
A sua morte é
uma grande desgraça que nos acabrunha; e, desde que esta folha
existe, é o primeiro que a maldita Parca leva. Muitos, é verdade, já
se foram; mas não os levou a Parca. São felizes? São infelizes? Eles
lá saberão... Este ficou no seu posto até à última hora, e ainda nas
vésperas de morrer, quando a arruaça fazia cessar todo o movimento,
deu num só dia quatro mesas fartas ao pessoal deste jornal.
Era um herói, um
herói como o nosso tempo sabe compreender, isto é, um homem que põe
tudo o que há em si de força, de coragem, de inteligência e de
dedicação para um dado e único fim útil aos seus semelhantes.
Nada lhe faltava
de grande. O caráter, a inteligência e o coração, nele, chegavam à
mesma altura e agiam de concerto. Falava três línguas: português,
inglês e francês. Nascido em Arcis-sur-Aube, pátria de Danton, em
1864, e oriundo de uma família nobre, em breve emigrou para a
Inglaterra, onde abraçou a profissão em que morreu. Daí, depois de
exercê-la com paixão, veio para o Brasil esse excelente
representante da grande raça de Vatel. Era de um grande orgulho e
conta-se que não entrou para o célebre Savoy de Londres porque não
tinham permitido que assinasse o menu. Saudades. "
Um pouco abaixo
do retrato, seguia-se esse artigo de Losque e o jornal vinha tarjado
em sina] de lato. Tratava-se do cozinheiro particular do diretor,
mas a estética do necrológio pedia se fizesse um auxiliar do jornal.
A morte desse serviçal obscuro da domesticidade do doutor Loberant,
veio trazer-lhe os maiores testemunhos da sua vitória.
Todos os jornais
se referiram ao inditoso Charles de Foustangel e alguns abriram
subscrições para socorrer a família do cozinheiro. Fora do convívio
jornalístico, as manifestações de pesar não foram menores: o Centro
dos Estudantes passou um telegrama de pêsames ao presidente da
República Francesa e ao cortejo do enterro concorreram mais de
cinqüenta carros, levando perto de uma centena de pessoas, entre as
quais altas patentes do Exército e Marinha, diretores de
repartições, homens da bolsa, literatos aclamados, revolucionários
temidos e um capitão do Estado Maior, representando o presidente da
República.
A Viscondessa de
Varennes não faltou. Passou por mim, no carro, a olhar um lado e
outro com os seus grandes olhos de Juno, as olheiras violáceas,
mordiscando os lábios muito pintados, abanando-se com o seu grande
leque rococó e toda envolvida num pesado vestido de taffetas
de seda negra.
Antes de
embarcar, Floc foi até ao trem e ela despediu-se dele, estendendo a
mão pela portinhola do coupé, com metade do rosto a aparecer,
sorrindo, muito graciosa, muito lenta, numa atitude de fidalga do
século XVIII. E o negro cortejo desfilou pela rua como um triunfo
sui generis para a vitória do diretor. Na frente, ia o coche
fúnebre, sarapintado de dourados, crivado de grinaldas com flores
roxas e brancas de pano e as fitas votivas cheias de inscrições a
esvoaçar lentamente como se fossem todos os adeuses que o morto
quisesse dar naquele momento, às coisas e às pessoas. Seguiam-se-lhe
as caleças, as vitórias e coupés, transportando a alta
administração, civil e militar, as finanças, as letras e a revolução
profissional, em tocante homenagem ao grande homem que era o
cozinheiro do doutor Ricardo Loberant, diretor-proprietário d'O
Globo.
O motim obrigara
o presidente a demitir a maioria dos ministros, isto é, os ministros
atacados pelo O Globo; o prefeito e o chefe de polícia também
saíram. A lei dos sapatos foi para as coleções legislativas e o
empréstimo ficou prometido ao Rodrigues. O diário de Loberant ficou
sendo quase a sétima secretaria do Estado. As nomeações saiam de lá
e as demissões também. Bastava um aceno seu para um chefe ser
dispensado, e bastava qualquer dos seus empregados abrir a boca para
obter os mais rendosos lugares. Leporace foi nomeado diretor das
antigüidades egípcias do Museu Nacional; e Rolim, o Rolim dos
grandes postos, subdiretor da Repartição Cartográfica da República.
Leiva fora modesto: pediu e obtivera o lugar de quarto escriturário
do Tribunal de Contas, independente de concurso. Os empregos foram
assim satisfazendo a natural voracidade dos auxiliares de Loberant.
Todos eles viviam agora calmos, sorridentes, satisfeitos,
convencidos de que tinham moralizado a República. Tudo ia bem e a
administração fazia-se com a moralidade e a limpeza de uma pequena
casa burguesa. Tinham-se cinqüenta mil-réis, comprava-se; não se os
tinham, diminuía-se a conta do armazém. O jornal passou do mais
formal pessimismo ao otimismo mais idiota. O próprio Loberant
perdera a “atrabílis”, fumava com mais calma, sorria com afabilidade
e dispunha de empenhos. Era um gosto vê-lo dando audiência aos
necessitados de empregos. Apareciam diariamente aos vinte. A uns,
atendia; a outros respondia com gravidade ministerial: venha amanhã.
Floc sofria
alguma coisa; havia momentos em que se sentia patente a lata intima
que se travava nele. Ficava minutos inteiros calado, imóvel, a olhar
perdidamente as coisas... Nada quisera, pois estava à espera de uma
reorganização na diplomacia para obter o lugar de primeiro
secretário. Era o seu sonho a diplomacia, o paraíso a sua
felicidade. A todo o momento falava-lhe nos hábitos, nos costumes,
na maneira de redigir notas. Uma vez, contava ele aos colegas, na
recepção do ministro da Alemanha, a filha do ministro da Guerra...
Isto fora em Quito e enchia de pasmo ver de que maneira, nos lábios
de Floc, a vida de Quito era elegante e soberba. E ele rematava a
narração liricamente:
— Oh! A
diplomacia! Vocês não imaginam o que é! É a mais deliciosa vida que
há... Entra-se em toda a parte, têm-se os melhores lugares; é-se
cercado, amimado... Uma delícia! Pode-se ser burro ou inteligente
que é o mesmo! O secretário da Inglaterra, M. Lodge, era uma besta,
mas uma besta perfeita... Alto, vermelho que nem um tomate,
desengonçado, incapaz de dar um passo de valsa ou marcar um
cotillon; entretanto, parecia um rei nas salas... Mas era a
Inglaterra, rica e opulenta, que estava atrás dele, e era também o
prestigio da profissão que o aureolava...
E o Rolim ouvia
tudo aquilo com os lábios entreabertos, a fisionomia parada e uma
grande expressão de pasmo e assombro em toda ela. Quando Floc
acabava, ele indagava:
— E mulheres,
hein?
— Ora! Às
dúzias... Uma vez, no baile do ministro dos Estrangeiros, no palácio
da Plaza de la Concepción...
E Rolim voltava
a sonhar aquele paraíso diplomático, cheio de mesuras e
cumprimentos, de etiquetas complicadas, mas cheio também de huris de
luxo e tratamento.
Em começo, logo
após a mutação do jornal, o lindo repórter pedira um lugar na
diplomacia ou no corpo consular; mas o ministro convencera o diretor
que era desmarcado o pedido. Prometera-lhe o ministro um lugar de
amanuense na Secretaria do Estado, para o seu repórter; e depois,
com o tempo, talvez fosse possível transferi-lo para o corpo
consular. Rolim não quisera. Temia que a sua ignorância fosse posta
a claro na redação dos ofícios. Para ele, só serviam os lugares de
chefe, de diretor, em que só se tem que ter presença e assinar
papéis. Foi então que vagou o cargo de subdiretor da Repartição
Cartográfica e foi nomeado, para superintender os respectivos
trabalhos geodésicos, que de há muito estavam em começo.
Meneses, tímido
sempre, não se animava a pedir coisa alguma. Continuava
obscuramente, pacientemente, a estudar, a ler, e a contribuir para a
glória e para a fortuna do doutor Loberant. Surdo, falando com
dificuldade, muito feio, pouco conversava na redação; mas eram
constantes as perguntas de uns e de outros sobre isso e sobre
aquilo. Ele respondia com a sua voz fanhosa e retomava o serviço com
resignação, automaticamente, e assim enchia os dias e os anos.
Aires d'Ávila e
Oliveira não tinham querido emprego. Ao primeiro, a não ser de
presidente da República ou diretor do Banco do Brasil, não havia
colocação que pudesse custear os seus gastos. O que ganhava no
jornal era insuficiente para as passagens e os charutos; o resto ele
arranjava. Devia a todo o mundo e os credores quase formavam cauda
na redação. Era uma mania. A uns dizia: “Procure-me em casa”; a
outros ralhava: “Aqui não lhe posso atender, estou escrevendo...
Procure-me no escritório”. Ao que o cobrador retrucava: “Mas Vossa
Excelência já me disse que só aqui”. — “É — respondia — Mas...
Bem... É melhor você vir para a semana”...
E continuava a
fumar serenamente enquanto o cobrador descia cabisbaixo, mastigando
juras. Não havia expediente de que não lançasse mão para conseguir
dinheiro. Todos lhe serviam, desde os honestos até aos
semi-honestos. Tinha para as suas transações caixeiros e
escreventes. Laje da Silva era um deles. Na transação dos quadros
que ficou célebre, outros entraram e ganharam uma boa fatia. Não sei
se se lembram ainda do caso. Eu recordo. Certo dia, um jornal de
Pernambuco noticiou que se havia descoberto numa cidade do interior
duas grandes telas que bem podiam ser de célebres mestres holandeses
ou flamengos. E lá vinha a historia do domínio batavo no Norte, de
Maurício de Nassau, etc. Em breve, os tais quadros eram expostos no
Rio de Janeiro e as competências começaram a falar, gabando a beleza
extraordinária dos trabalhos. Não havia dia em que este ou aquele
jornal, esta ou aquela revista não se referisse com grandes encômios
aos quadros. Os competentes deram-nos como sendo de Rembrandt e J.
Van Eyck. Na tela que se atribuía a este, havia mesmo uma certa
beleza comunicativa, independente de qualquer exame ou cultura.
Representava uma grande dama adorando um Menino Jesus e o fundo era
uma paisagem de montanhas cobertas de neve, tratado com aquele
desenho correto, firme e aquela sábia perspectiva aérea que tanto
lhe gabam os críticos. Raul Gusmão escreveu um cintilante artigo;
Veiga Filho desarrumou dicionários, escreveu um folhetim maciço. Os
escritos choviam, mas o que causou surpresa foi também o assunto
merecer da pena política de Aires d'Ávila um artigo entusiástico,
confessando não entender de arte, mas louvando-se nas suas
impressões e nas opiniões dos competentes. Terminava pedindo ao
Governo que adquirisse as telas. A sua idéia foi logo bem aceita e
os tambores jornalísticos começaram a rufar. O ministro do interior
consultou a Escola de Belas Artes, que achou as telas obras-primas e
dignas de serem adquiridas. O Congresso votou o crédito e as telas
foram compradas por perto de mil contos. Não passaram, porém, três
meses que um jornal de Paris as não denunciasse como falsificadas e
apontasse o falsificador. Um outro jornal do Rio foi além: denunciou
o sindicato que tudo preparara e fizera a campanha para que o Estado
adquirisse os quadros. O jornal, entre outras pessoas, apontou Aires
d'Ávila como tendo entrado no negócio e recebido trinta contos no
Banco inglês, com o cheque n° 5327.
O esteta
entusiástico deixou passar a tempestade e, serenada que ela foi,
veio calmamente dizer que, de fato, recebera o dinheiro, mas tão
somente como advogado, para fazer minutas de requerimentos, dar
conselhos e outros pequenos serviços da profissão.
Quem ganhava
tanto com minutas de requerimentos, não precisava sujeitar-se a um
emprego.
Quase todos os
seus artigos eram mais ou menos pagos, pelo diretor e pelos
interessados; assim também procedia Veiga Filho. A sua literatura
era a duas amarras. Escreveu, certa ocasião, um conto, de coluna e
meia, passado em Teresópolis e gabando com insistência as
comodidades de um hotel. O hoteleiro, no fim do mês, ao receber a
conta dos anúncios, correu furioso ao escritório:
— Mas, já
paguei!
— Como? fez
admirado o gerente.
— Sim. Dei ao
Senhor Veiga Filho duzentos mil-réis pelo conto.
— Mas quem lhe
falou no conto, Senhor Lebrindo? Isso é lá entre os senhores... E
quer saber de uma coisa? Nós já o pagamos também.
Ninguém se
surpreendeu no jornal. Todos andavam preocupados com a obtenção de
posições e mesmo que não andassem, aquilo era quase admitido.
Oliveira andava indignado com os colegas pelo sôfrego assalto aos
lugares públicos, de que davam mostras.
— É isto, dizia
ele; vocês não prezam a imprensa, fazem dela achego, gancho; não a
dignificam, não a honram. Querem empregos públicos, como se um reles
burocrata valesse mais do que um jornalista...
— Mas não é
isso, objetava Leiva. É mais seguro...
— Qual seguro!
Então você pensa que não se é também demitido... É preciso
engrossar, bajular, fazer manifestações... Eu não quero. Da
Imprensa, para a cova, e não acho profissão mais brilhante do que a
nossa!
Ele nunca tinha
engrossado e era um grande jornalista. Losque também não quis
emprego; a sua pretensão era ser deputado. Os seus títulos
consistiam em ser redator anônimo de um grande jornal. Nunca se
fizera notar por coisa alguma, não tinha a menor influência, não se
distinguia como portador de nenhuma idéia útil e fecunda; mas queria
ser deputado, indicado por um presidente de Estado, como convinha a
um dos auxiliares do doutor Ricardo Loberant, o moralizador da
República.
No meio daquele
fervilhar de ambições pequeninas, de intrigas, de hipocrisia, de
ignorância e filáucia, todas as coisas majestosas, todas as grandes
coisas que eu amara, vinham ficando diminuídas e desmoralizadas.
Além do mecanismo jornalístico que tão de perto eu via funcionar, a
política, as letras, as artes, o saber — tudo o que tinha suposto
até aí grande e elevado, ficava apoucado e achincalhado.
Via Floc fazer
reputações literárias, e ele mesmo uma reputação; via Lospue, de
braço dado com o medíocre Ricardo Loberant, erguer à Câmara e ao
Senado quem bem queria; via Aires d'Ávila, com uns períodos de fazer
sono e uma erudição de vitrine influir nas decisões do Parlamento;
via médicos milagreiros e tidos como sábios pedirem elogios às suas
pantafaçudas obras, a redatores ignorantes; e também via Dona Inês,
a esposa do diretor, uma respeitável senhora, certamente, fazer-se
juiz dos contos e das poesias dos concursos, com a sua rara
competência de aluna laureada das irmãs de caridade.
À vista disso, à
vista dessa incompetência geral para julgar, da ligeireza e dos
extraordinários resultados que obtinham com tão fracos meios,
impondo os seus protegidos, os seus favoritos, fiquei tendo um
imenso desprezo, um grande nojo, por tudo quanto tocava às letras, à
política e à ciência, acreditando que todas as nossas admirações e
respeitos não são mais que sugestões, embustes e ilusões, fabricados
por meia dúzia de incompetentes que se apóiam e se impuseram à
credulidade pública e à insondável burrice da natureza humana.
Mas, se o meu
desprezo e o meu aborrecimento por tudo isso se não fizeram totais,
foi porque por vezes senti neles, naqueles redatores e repórteres
que tinham o cofre das graças, grandes dúvidas, grandes desesperos e
fortes vacilações de consciência sobre o seu próprio valor.
Houve um caso
que, por trágico, me ficou eternamente gravado e foi como a
demonstração de que ainda havia no fundo de alguns deles uma crença
no Sério, no Verdadeiro, na Perfeição.
Voltava eu nessa
tarde da casa de Veiga Filho, onde tinha ido levar umas provas.
Voltava admirado de que os seus amigos, toda vez que a ele se
referiam, lembrassem a grande miséria em que vivia. Não o tinha
visto assim. Morava numa casa apalaçada, numa rua do bairro das
Laranjeiras, com altos e baixos, dois andares. Esperei as provas na
sala de visitas, transformada em gabinete de trabalho, mobiliada com
relativa opulência. Havia bronzes, divãs, mesas com incrustações de
laca e charão, vasos de porcelana, estantes com guarnições de
bronze... Onde estava a miséria? O Artur sempre se referia a ela e o
Bilac, no seu “Registro”, lastimava-a como indicando o atraso da
nossa civilização.
Cheguei às oito
horas à redação. Floc, de casaca, dava o último retoque na tradução
do folhetim. Ia ao Lírico. Estava cercado de dicionários e exalava
perfumes. Em breve saiu e a redação a pouco e pouco se esvaziou.
Pela meia-noite estava só o redator de plantão; o repórter de
serviço tinha adoecido e os outros, à mingua de novidades, tinham
desaparecido pelos cafés e cervejarias. Pouco depois da meia-noite,
Floc voltou. Vinha alegre. A sua fisionomia irradiava satisfação e
no seu olhar bailavam coisas fugidias e doces. Adelermo, que fazia o
plantão, perguntou-lhe pelo desempenho:
— Maravilhoso!
Nunca vi um conjunto tão harmonioso... Que vozes! O quartetto
foi excelente. Não há uma cantora de destaque, na verdade, mas todas
afinam bem e o conjunto é extraordinário!
— E a valsa?
— Oh! Magnífica!
Que orquestra! Que musetta! Imagina que foi bisada quatro
vezes!
— Então foi um
delírio?
— Um delírio...
Nunca vi tanto entusiasmo... A sala toda vibrava.
— E as galenas?
Vaias, hein?
— Não.
Portaram-se bem... Felizmente estamos deixando esse hábito
— Muita gente?
— A cunha Que
mulheres, Adelermo! que mulheres! A Lobo tinha um decote
maravilhoso. Todo o colo, muito alvo, alvo de jaspe, ficava ora e o
pescoço nascia do busto, muito longo e muito branco,, A Santos
Carvalho lá estava também, com aqueles olhos de fome, olhos de
insatisfação, e curiosidade, de vontade de provar todos os “frutos
do jardim do mundo” ... A Carneiro de Sousa... Eu não sei que mal me
faz essa mulher com o seu desenho de rosto a Botticelli! Tem não sei
que mistura de candura e perversidade que me dá gana de gritar-lhe:
fala demônio! O que és santa ou serpente? Pela sala, pairavam não
sei quantas essências caras, não sei quantos perfumes de flores de
quantos climas! Chegava-se a esquecer diante daquelas mulheres,
daquelas luzes, daquela música, daquela olência, que se estava
dentro dum barracão infamíssimo!
Floc falou com
calor, gesticulando, procurando completar a frase com um gesto e um
olhar. Sentia-se bem que aquelas coisas deliciosas se tinham
impregnado nos seus sentidos e o envolviam todo.
Os seus olhos,
ao falar nas mulheres, tinham reflexos de ouro e fumava nervosamente
durante a conversa. Adelermo mantivera-se calmo sorrindo de quando
em quando; às vezes, ouvindo uma frase ou outra, parecia perder-se
no seu próprio pensamento, destacar-se de si e ir longe, longe...
— Dás a crônica
hoje? perguntou Caxias.
—
Naturalmente... O Raul dá também para o Diário ... Eu não queria;
pretendia fazer uma coisa mais cuidada, mas noblesse oblige...
Não achas?
— Então,
enquanto escreves, eu vou sair, como alguma coisa e volto já.
— Não há dúvida,
disse Floc tirando a casaca. Vai que eu espero.
Adelermo Caxias
colocou o colarinho, deu o nó na gravata, vestiu o paletó e saiu
apressado pelo corredor afora. Ficamos na redação eu e Floc.
Na rua havia o
mais perfeito silêncio. De onde em onde, os passos de um
retardatário vinham quebrá-lo com desusado vigor.
Floc pusera-se à
mesa em atitude de escrever. Levei-lhe papel e tinta, e o critico,
preparada vagarosamente a caneta, arrumado o papel, acendeu um
charuto e ficou por instantes abismado numa grande cisma sem fim...
Tinha medo de começar. Tinha visto tanta coisa bela, tanta carne
moça e boa, que ele queria lançar o artigo como um remígio para o
alto, para as distantes regiões da arte e da beleza, não perdendo
uma só idéia fugidia, transmitindo as emoções sentidas naquelas
deliciosas horas em que contemplou as mais belas e caras mulheres da
cidade, ouvindo aquela música lânguida de Itália cheia de sol, de
história e de amor. Como que senti que ele tentava pôr na sua
crônica um pouco dos sonhos sonhados à vista daqueles colos nus e
tratados, daqueles olhares faiscantes, e também a sensação quase
irregistrável da música, o roçagar das sedas, a olência dos perfumes
a pairar naquele ambiente fechado, uma impressão a tocar outra,
bailando sem serem vistas nos ares polvilhados de luz, da luz azul
da eletricidade. Eram todos os sentidos que tinham vivido: a
sensação particular de um provocando sensações aos outros e todas
elas sacolejando a sua personalidade com aquele hercúleo esforço
para colhê-las todas. Pensava...
Quedou-se assim
alguns minutos, três a cinco, e logo se pôs ao trabalho. As duas
primeiras tiras foram rapidamente escritas, no começo da terceira,
parou, escreveu, emendou, tornou a escrever, emendou, parou,
suspendeu a pena e ficou olhando perdido a parede defronte. Voltou a
ler o que tinha escrito... Leu duas vezes, não gostou, rasgou...
Recomeçou... A
sua fisionomia estava transtornada. Não tinha mais a impressão de
satisfação, de deslumbramento interior. A testa contraíra-se,
enrugando-se; os olhos estavam fixos e a boca, cerrada nervosamente,
custava a abrir-se para aspirar rapidamente o charuto. Toda a sua
fisionomia revelava uma contensão extraordinária, fora mesmo do
poder habitual da sua vontade. Escreveu de novo e gritou:
— Caminha! Vai
buscar aí cachaça! Anda!
Quando voltei,
ele discutia com o paginador. O operário vinha apressá-lo. Esperavam
o seu artigo. Floc, aparentando calma, prometeu que o daria dentro
de meia hora. Saído o paginador, tomou a garrafa, e pelo gargalo
sorveu um longo gole. Aproximou a pena do papel e escreveu algumas
palavras que riscou imediatamente. Suspendeu o trabalho, tomou outro
gole e a sua fisionomia começou a adquirir uma expressão de
desespero indescritível. Eu estava inquieto, sentindo vagamente um
drama. Fumava agora um cigarro sobre outro; não ia até o fim,
atirava-o em meio ao chão, acendia um outro. Bebeu, foi à janela,
debruçou-se e o paginador voltou:
— “Seu” Couto!
— Homem! Já vai!
Você pensa que isto é máquina!?...
Voltou a
escrever. A pena estava emperrada; não deslizava no papel. Floc
fumava, mordia o bigode e a pena continuava a resistir. Depois de
vinte minutos, o paginador voltou:
— Espere um
pouco, disse o crítico.
O operário saiu.
Floc esteve um instante com a cabeça entre as mãos, parado,
tragicamente silencioso; depois, levantou-se firmemente, dirigiu-se
muito hirto e muito alto para um compartimento próximo. Houve um
estampido e o ruído de um corpo que cai. Quando penetramos no
quarto, eu, o paginador e dois operários, ele ainda arquejava. Em
breve morreu. Havia um filete de sangue no ouvido e os olhos
semicerrados tinham uma longa e doce expressão de sofrimento e
perdão. Caído para o lado estava o revólver, muito claro e brilhante
na sua niquelagem, estupidamente indiferente aos destinos e às
ambições.
Adelermo, antes
que tomássemos qualquer providência, entrou. Correu ao telefone para
avisar o diretor. O doutor Loberant não estava; tinha saído às dez
horas para o jornal. A polícia fora avisada e era preciso que ele o
fosse também. Onde estaria? Veio o Rolim. Adelermo e ele
cochicharam. O redator de plantão chamou-me.
— Caminha! Tu
vais aí a um lagar e do que vires não dirás nunca nada a ninguém.
Juras?
— Juro.
— Vais à casa da
Rosalina, procurar o doutor Loberant... É preciso discrição, hein? O
Rolim não pode ir, tem que ficar aqui, para o que der e vier... Vai!
Mas não fales nada, nunca!
— Entra, custe o
que custar, recomendou-me Adelermo ao sair, e deu-me dinheiro.
Em breve estava
diante daquele grande imóvel, com os fortes portais de granito,
terminados em cariátides, parecendo em tudo uma casa burguesa. Bati,
veio o porteiro. Disse-lhe a que vinha, dei-lhe dinheiro e entrei.
Subi, acompanhado por ele.
Penetrei com
tristeza naquela casa famosa entre os rapazes ricos da cidade, pelas
suas orgias e pelas mulheres que a habitavam. Ali moravam as
cantoras de cafés-concertos, húngaras, espanholas, francesas,
inglesas, turcas, cubanas; ali moravam também as Laís da cidade, as
devoradoras de patrimônios e dos grandes desfalques. Subi a grande
escada do palácio e tomei por um corredor. Dos quartos, vinha um
ruído abafado do ranger de camas, um cicio de beijos, mas o Pecado
pairava nela com o seu silêncio constrangido no recato que simulava
ter.
Ao fundo do
corredor, quase ao tomar uma pequena escada para o segundo andar,
dei com uma velha prostituta em camisa, polaca pelo sotaque, de
seios moles e quase sem pintura; àquela hora, a sua velhice surgia
hedionda, e escaveirada, com um hálito de túmulo. Assustou-se. O
porteiro sossegou-a. Subimos eu e ela. Quando nos sentiu só, ela
lixou-me com a sua pele, encostando-se muito a mim, passando o seu
braço sobre os meus ombros. Já no corredor, sob a luz de um bico de
gás meio aberto, considerou bem a minha fisionomia, a minha
mocidade, a falta de mulher que ela farejou logo; pegou-me
carinhosamente o rosto com as duas mãos e quis beijar-me...
E ela tinha
razão. Sempre foi do meu temperamento fugir daquilo que a Bíblia
denomina tão rigorosamente para os nossos ouvidos modernos, pois não
podia compreender que homens de gosto, de coração e inteligência,
vivessem escravizados ao que S. Paulo, na I Epístola aos Coríntios,
classificou tão duramente, para aconselhar o casamento.
Além de desejar
que existisse entre mim e a mulher alguma coisa de mais delicado, de
mais espiritual, uma comunhão que não se tem com a primeira vinda,
tinha em mim não sei que pensamento evangélico a proibir-me de
proceder como todos, pois, fazendo-o, concorria para manter uma
desgraça e fazer desgraçadas.
Recordo-me muito
bem que, certa vez, não sei que tontura me deu, que me deixei
arrastar pelos sentidos.
A entrada foi
fácil; mas, depois, acanhei-me, a ponto de ter delicadezas,
escrúpulos, certamente de noivo.
Quando pus o pé
na rua, as orelhas ardiam, as faces queimavam-me e parecia que os
transeuntes apontavam-me como um irremissível pecador. Tive a visão
do inferno... Foi naquele tempo... Adiante.
Larguei a megera
com medo da sua velhice e corri à sala onde estava o doutor
Loberant. Estava semi-aberta. Aproximei-me da porta. A um canto
havia um piano; ao centro uma mesa cheia de garrafas e copos. Pelos
divãs, fumando, três pares; as mulheres em camisa e os homens
também, mas mais descompostos. Em torno da mesa, uma mulher
cavalgava uma espécie de tapir ou de anta. Era Aires d'Ávila, cujas
peles do vasto ventre caiam como úbere de vaca. A mulher montava-o
com o garbo de uma écuyère e ele rodava em torno da mesa como
se fosse um animal de circo. Os ditos choviam, mas não os pude
ouvir. Uma das mulheres deu comigo e perguntou, sem espanto, com
sotaque estrangeiro:
— Que é que você
quer?
Loberant
voltou-se e conheceu-me logo:
— Que há Isaías?
— “Seu” Floc
matou-se na redação.
Aires d'Ávila
voltou à humanidade e, em plena orgia, por entre aqueles homens e
aquelas mulheres despreocupadas, passou a augusta sombra da Morte,
misteriosa e severa...
XIV
No gabinete do
ministro, estavam poucas pessoas. Em frente, em uma mesa nova, o
secretário, um capitão de fragata, pálido e alto, com um lindo
cavaignac, Napoleão III, que lhe dava um ar de veterano de 70,
apesar dos seus cinqüenta anos. Pela janela, descortinava-se uma
nesga da baia e da cidade. Era a ilha Fiscal com o seu edifício
alicerçado nas ondas; a Boa Viagem cismática e lá, num fundo de
infinito, de ilimitado, as muralhas altas de Santa Cruz. Um grande
navio entrava lentamente... Embaixo, havia o brouhaha das carroças;
juras de cocheiros, estalidos de chicote e o rolar pesado dos
caminhões. A Alfândega ficava perto.
Além do
secretário, no gabinete, sentado ao lado direito do ministro, estava
também o vice-almirante inspetor das construções navais; do lado
esquerdo, eu.
O ministro
vestia dólmã branco e a sua grande cabeça autoritária e cheia de uns
belos cabelos brancos ia de mim para o inspetor, falando sempre e
explicando as questões dos consertos:
— Com estas
providências, o Governo fez uma economia de perto de seiscentos
contos. Você sabe: a indústria oficial é muito cara. O “República”
(está aqui o orçamento) tinha os consertos avaliados em quatrocentos
e oitenta contos — não era, almirante?
— Quatrocentos e
oitenta e sete, respondeu o inspetor.
— Quatrocentos e
oitenta e sete contos, repetiu o ministro. Sabe você por quanto
ficou nas oficinas das "Forjas"?
— ?
— Trezentos e
noventa e sete. Só aí houve uma economia de noventa contos. Agora
imagine com o “Sete de Setembro”, a “Parnaíba”, três torpedeiros,
rebocadores... Enfim: seiscentos contos de economia.
— Mas Vossa
Excelência acha desnecessário o Arsenal de Marinha?
— Não,
absolutamente não. Primeiro porque é preciso que haja um campo
prático à mão do Estado para os nossos engenheiros navais e,
segundo, que ele pode prestar serviços, desde que tenha a emulação
do trabalho particular.
— Se Vossa
Excelência, disse eu, indo ao encontro dos seus desejos, se Vossa
Excelência me quisesse fornecer algumas notas, eu poderia dar uma
notícia bem interessante...
E Sua
Excelência, com a sua voz quase providencial, auxiliado pela memória
do vice-almirante-inspetor, começou a ditar-me as notas, para que
todo o Brasil tivesse notícia da sua capacidade de administrador, e
de um dos resultados mais fecundos da sua fecunda administração.
Ofereceu-me um
havano e, logo que o inspetor saiu, começamos a conversar sobre os
encantos da nova chanteuse que se estreara no Moulin-Rouge.
Assim fazia a
minha reportagem no Ministério da Marinha. Desde os ministros até
aos contínuos, todos me enchiam de mimos e de festas. Era raro o
oficial que não me pedia uma notícia, um elogio, um gabo ao
relatório da sua última comissão. Os chefes viviam abraçados comigo
e forneciam-me notas para o meu noticiário. Assombrava-me que a
morgue militar de toda aquela gente fosse desfeita assim
naturalmente em presença de um repórter É verdade que já vira
muitos, de mar e terra, subirem à redação e insinuarem alusões
elogiosas; mas supunha exceções e agora verificava ser geral a
inclinação.
Quando se
apresentavam, reclamavam a omissão da notícia...
Nos meus
primeiros meses de reportagem foi quando amei mais ativamente a
vida. Não porque me visse adulado pelos almirantes e
capitães-de-mar-e-guerra, mas porque senti bem a variedade onímoda
da existência, a fraqueza dos grandes, a instabilidade das coisas e
o seu fácil deslizar para os extremos mais opostos. Dois meses antes
era simples continuo, limpava mesas, ia a recados de todos; agora,
poderosas autoridades queriam as minhas relações e a minha boa
vontade.
E toda essa
modificação tão imprevista no meu viver, viera-me do suicídio do
Floc. Tendo surpreendido na casa da Rosalina, em plena orgia, o
terrível diretor, vexei-o. Nos primeiros dias, ele nada me falou;
mas já me olhava mais, considerava-me, preocupava-o no seu
pensamento. Breve me fez perguntas de boa amizade: donde era eu, que
idade tinha, se era casado, etc. As respostas eram dadas conforme as
perguntas; bem cedo, porém, graças à bondade com que me tratava, as
ampliei até à confidência.
Percebi que o
espantava muito o dizer-lhe que tivera mãe, que nascera num ambiente
familiar e que me educara. Isso, para ele, era extraordinário. O que
me parecia extraordinário nas minhas aventuras, ele achava natural;
mas ter eu mãe que me ensinasse a comer com o garfo, isso era
excepcional. Só atinei com esse seu intimo pensamento mais tarde.
Para ele, como para toda a gente mais ou menos letrada do Brasil, os
homens e as mulheres do meu nascimento são todos iguais, mais iguais
ainda que os cães de suas chácaras. Os homens são uns malandros,
pianistas, parlapatões quando aprendem alguma coisa, fósforos dos
politicões; as mulheres (a noção aí é mais simples) são naturalmente
fêmeas.
A indolência
mental leva-os a isso e assim também pensava o doutor Loberant. Não
tive grande trabalho em o fazer modificar o juízo na parte que me
tocava. Mas não me dei por satisfeito. Percebi que me viam como
exceção; e, tendo sentido que a minha instrução era mais sólida e
mais cuidada do que a da maioria deles, apesar de todos os seus
diplomas e títulos, fiquei animado, como ainda estou, a contradizer
tão malignas e infames opiniões, seja em que terreno for, com obras
sentidas e pensadas, que imagino ter força para realizá-las, não
pelo talento, que julgo não ser muito grande em mim, mas pela
sinceridade da minha revolta que vem bem do Amor e não do Ódio, como
podem supor.
Cinco capítulos
da minha Clara estão na gaveta; o livro há de sair...
Penso, agora,
dessa maneira; mas, durante o resto do tempo em que estive no O
Globo, quase me conformei, tanto mais que o interesse que o diretor
mostrou por mim não foi platônico.
Certo dia o
gerente, espantado e cobiçoso, notificou-me que eu ia servir na
expedição e o meu ordenado estava aumentado de cinqüenta mil réis.
Duas semanas
depois, ao encontrar-me na escada, Loberant disse-me:
— Caminha, você
é capaz de tomar notas numa repartição e redigi-las?
Não esperava
essa proposta. Fiquei deslumbrado: ser repórter como o Oliveira!...
Oh! Era assombroso!... Respondi, porém, modestamente:
— Pode ser,
doutor. Experimente; se for bem, o senhor me dirá...
— Pois então
vais fazer “Marinha e Alfândega”.
Nos primeiros
dias lutei com alguma dificuldade. Os colegas receberam-me mal.
Sonegavam-me as notas, procuravam desmoralizar-me, ridicularizar-me
diante dos empregados. Há neles em geral essa hostilidade pelos
novos. Sentem que o oficio é fácil e se eles ainda por cima o
facilitarem, perderão em breve o prestigio. Levei alguns furos, mas
dei outros, graças às relações que travei com um sargento
protocolista do Estado-Maior. Leporace quis destituir-me, mas
Loberant não o permitiu.
No quinto dia em
que eu fazia reportagem, um outro repórter arrebatou-me das mãos
umas notas que eu copiava. Incontinenti, fui ao diretor e o velho
funcionário obrigou-o a restituir-mas. Quando o fez, gritou na
portaria:
— Tome, “seu”
moleque! Você saiu da cozinha do Loberant para fazer reportagem...
Contive-me, com
espanto dos circunstantes, mas nunca imaginei que um insulto pudesse
ir tão longe na nossa natureza. Senti-me outro, muito mais forte,
transtornado e desejoso de matar. Contive-me, porém, e nada disse ao
colega que, se não saíra de uma cozinha, era quase analfabeto e
mediante uma propina, para protegê-lo contra a ação legal, figurava
como sendo presidente de um clube de batota. Tirei as minhas notas,
deixei-as no jornal e voltei. Encontrei o tal repórter na Rua
Primeiro de Março e antes que ele fizesse o menor movimento
atirei-me sobre o seu grande corpanzil, deitei-o por terra e dei-lhe
com quanta forca tinha.
Na delegacia, a
minha vontade era rir-me de satisfação, de orgulho, de ter sentido
por fim que, no mundo, é preciso o emprego da violência, do marro,
do soco, para impedir que os maus e os covardes não nos esmaguem de
todo.
Até ali, tinha
eu sido a doçura em pessoa, a bondade, a timidez e vi bem que não
podia, não devia e não queria ser mais assim pelo resto de meus dias
em fora.
Ria-me, pois
tive vontade de rir-me, por ter descoberto uma coisa que ninguém
ignora. Felizmente não foi tarde...
A natureza
desgostosa e defeituosa de Loberant simpatizara com a minha fraqueza
e a humildade dos meus começos. À força de falar em injustiça por
especulação jornalística, adquirira um pouco de sentimento de
reparação que externava em altos brados. Vendo em mim a necessidade
de uma, não quis que ela continuasse a verificar-se; protegeu-me,
estimou-me e fez-me seu valido.
Se não fosse
ele, logo no primeiro dia de reportagem, eu teria sido destituído Na
própria redação quase todos me eram hostis. Oliveira, e Meneses, que
só saia do seu mutismo para dizer um sarcasmo, fizeram exceção e
apoiaram-me.
Contei ao
Loberant a briga; contei-a emocionado e apaixonado. Ouviu calado e
perguntou-me no fim:
— Mas deste-lhe
mesmo?
— Dei-lhe quanto
pude.
— Bem, fez ele
depois de uma pausa, vai fazer a tua seção e quando a acabares vem
falar comigo.
Não me demorei
muito. Passavam alguns minutos das sete, quando a entreguei a
Leporace e fui ter com Loberant.
— Acabaste?
Vamos jantar, disse ele.
Desse dia em
diante as dificuldades desapareceram. A redação toda me encheu de
consideração e a minha intimidade com o doutor Loberant aumentou. Eu
mesmo, até então reservado e tímido, comecei a animar-me, a ensaiar
um dito, a externar uma opinião. Um belo dia ousei até escrever; fiz
um artigo. Comecei a ter inimigos. Leporace, em quem sempre
encontrei a mais completa má vontade, redobrou; Caxias criticou-me o
andar e meteu-me nas intrigas da redação. O artigo, porém, saiu com
as emendas de Leporace e as escoras gramaticais do Lobo. Não havia
nele nenhum defeito de monta, mas a autoridade de Leporace ficaria
abalada se não tivesse o que emendar em um artigo de novato.
Com o andar dos
tempos aprendi os processos, fiz-me exímio e quase tão fecundo como
o Deodoro Ramalho. Aprendi com o Losque a servir me dos outros
jornais, a receber inspirações neles, a calcar os meus artigos nos
que estampavam. Como Losque, norteei-me para as revistas obscuras,
essas que ninguém lê nem os jornais dão notícia. Havia nelas uma
pequena idéia, desenvolvia-a, enxertava umas considerações
quaisquer. Não foi Losque quem me ensinou, foi a minha sagacidade
que descobriu e tirou, da descoberta, os ensinamentos proveitosos.
Quando deixava na mesa a sua biblioteca ambulante, eu corria um e
outro jornal e cotejava os seus artigos, as suas pilhérias, com o
que encontrava nos jornais que sobraçava sempre. Ele não lia senão
jornais. Aprendia Finanças, Economia Política Estatística nos
periódicos de França, de Portugal e da Argentina; neles, colhia
citações de autores célebres, poetas, filósofos e sociólogos.
Leporace ainda
lia alguma coisa, e lembrava-se de alguns livros que lera em
estudante. Tendo morrido um rei qualquer, escreveu um artigo — “Dor
da rainha viúva”— em que demarcava uma passagem de Daudet.
Os senhores
lembram-se daquela passagem dos Reis no Exílio em que Colette de
Rosen, cavalgando ao lado da rainha Frederica, atira-lhe indiretas
referentes ao seu silêncio em face das infidelidades do marido?
Lembram-se que a rainha, sentindo o golpe, responde à dama de honor
que as rainhas não podem ser desgraçadas ou felizes como qualquer
outra mulher. Precisam ocultar todas as suas dores e alegrias em
virtude da majestade de sua grandeza. Pois bem. Leporace não teve
dúvidas; agarrou a frase do diálogo e desenvolveu-a no seu estilo
barroco, por quase uma coluna, do seguiste modo:
“Ela (a rainha)
é bem a representação viva da mágoa, não a mágoa que nós outros
sentimos, mas a mágoa injusta, a mágoa única, como que preparada
pela adversidade também injusta e cega para determinadas almas que
as circunstâncias do nascimento, e somente elas, fazem distintas das
outras almas para não terem o direito de chorar”.
“As lágrimas da
realeza são assim mais dolorosas e mais acabrunhadoras, porque os
olhos reais as devem ocultar à luz em que todas as mágoas
resplandecem com a grandeza do sofrimento, em virtude de sua própria
majestade real.”
E por aí foi
disfarçando a frase breve e rápida do romancista francês.
No jornal,
compreende-se o escrever de modo diverso do que se entende
literariamente. Não é um pensamento, uma emoção, um sentimento que
se comunica aos outros pelo escritor; não é o pensamento, a emoção e
o sentimento que ditam a extensão do que se escreve. No jornal, a
extensão é tudo e avalia-se a importância do escrito pelo tamanho; a
questão não é comunicar pensamentos, é convencer o público com
repetições inúteis e impressioná-lo com o desenvolvimento do artigo.
Para se dar extensão aos artigos lança-se mão de todos os recursos.
Acumulam-se incidentes e aprestos, organizam-se considerações,
empregam-se velhas pilhérias. La Rochefoucauld não teria talento se
fosse redator de um jornal e no O Globo seria menos considerado que
o Lemos, cuja reputação aumentou com o famoso crime de Santa Cruz.
Agora escrevia
com independência e autonomia as suas noticias. Punha nelas toda a
sua ignorância com muita liberdade, fazendo até alusões históricas.
Nos arredores da cidade, certa ocasião, um marido cioso, tendo
encontrado a mulher em flagrante adultério, amarrou-lhe o cúmplice à
cauda de um cavalo, que o arrastou pela estrada.
Lemos, que
certamente não lera o Tácito nem o Berquó, interpretou tal coisa
como sendo suplício semelhante ao imposto à sua mãe por Nero e
escreveu, aludindo ao castigo:
— Bem. Agora eu
sou o Nero. Tu não és minha mãe, mas vais para a cauda do cavalo.
Lemos era dos
poucos que tinham ficado no jornal. O tempo trouxera à redação
inevitáveis modificações. Lobo enlouquecera e estava recolhido ao
hospício A sua mania era não falar nem ouvir. Tapava os ouvidos e
mantinha-se calado semana inteira, pedindo tudo por acenos. Ao
médico que lhe perguntou por que assim procedia, explicou, a muito
custo:
— Isto não é
língua... Não a posso ouvir... Tudo errado... Que vai ser disto!
— E por que não
fala?
— Os erros são
tantos, e estão em tantas bocas, que temo que eles me tenham
invadido e eu fale esse calão indecente...
E vivia calado
pelos corredores, lendo a Ensynança de Bem Cavalgar de El-Rei Dom
Duarte. Às vezes, entusiasmada e lia alto: “Ca som alguus boos
caualgadores dhuãs sellas queo nom son doutras".
Um colega de
manicômio, ao ouvir tão linda coisa, perguntou ao gramático:
— Que línguas é
esta?
Vendo de que
maneira insólita era tratada tão interessante obra, Lobo atirou o
livro ao chão e encheu de murros a cara do companheiro de
infortúnio. Foi metido na casa forte, com camisa-de-força. O doutor
Gregoróvitch, desgostoso com a cor governista do jornal, não mais
soube escrever. Um dia mandaram-lhe fazer um elogio a um ato
ministerial, e quase lhe saiu uma descompostura. Não sabendo
elogiar, procurou a quem atacar sem comprometer o jornal. Descobriu
a República Argentina; mas, em breve, o assunto se esgotou e ele
ficou sem inimigos. Arranjou alguns contos com um ministro e partiu
para Caracas em busca de novas aventuras e oposições. O jovem
Deodoro Ramalho formara-se e deixou a literatura sem pesar, sem
saudade, assim como o coxo que abandona uma muleta velha. Fizera
literatura como anúncio para a clínica futura e abandonava-a quando
viu que ela viria comprometer a gravidade do mister e a
respeitabilidade dos cargos que iria ocupar. Leporace abraçara com
ardor o lagar das antigüidades egípcias lia agora o Maspero. Deixou
o jornal e Losque tomou-lhe o lugar. Vieram outros, mas esses
conheci mal. Imutáveis eram o Oliveira e o Meneses, sempre tímido,
este, escrevendo os artigos difíceis, mas sem melhoras de ordenados.
Entretanto Aires d'Ávila ganhava dois contos para escrever algumas
banalidades fatigantes.
Sempre que via o
resignado Meneses, muito feio, marcho, a escrever as melhores coisas
do jornal, punha-me a pensar por que o equilíbrio do jornal pedia
que aquele rapaz ficasse embaixo e no alto pairassem Loberant,
Leporace e Aires d'Ávila. A sua timidez e a sua modéstia não lhe
davam o charlatanismo indispensável para levá-lo para diante. Ele
sabia o que ignorava e não se atrevia a julgar tudo. Gregoróvitch
não se cansava de lhe dizer:
— És uma besta!
Então te sujeitas a ser burro de carga! Desta maneira não te impões!
E ele, depois de
ouvi-lo com a sua atenção de surdo, ficava a olhar o russo, a rolar
os olhos nas órbitas, como que a perguntar quais eram as maneiras de
nos impormos. Vira sem inveja nem assombro a minha brusca ascensão e
o crescimento acelerado da minha amizade com o diretor.
Eu e ele éramos
agora dois amigos íntimos, companheiros de pândegas e noitadas.
Sentindo-me realmente educado e sofrivelmente instruído, o doutor
Loberant como que sentia remorsos de não ter adivinhado isso e
permitido que eu ficasse tanto tempo como continuo de sua redação.
Enchia-me de atenções e dinheiro. Levava-me a toda a parte,
gabando-me o talento e o caráter. Quando lhe falei em abandonar o
Rio e lhe pedi que se interessasse para obter o lugar que ocupo,
ficou assombrado:
— Mas por quê,
Isaías? Quais são teus desgostos? O que te falta?
Eu nada quis
dizer. Percebia muito bem que ele não compreendia as ânsias do meu
temperamento nem as angústias da minha inteligência.
— Quero
casar-me, ter sossego para criar e educar os filhos.
Não consegui
realizar tudo isto. Casei-me, é verdade; mas o único filho que tive,
acaba de morrer em tenra idade. O doutor, depois da minha resposta,
objetou:
— Mas não
precisas, para isso, sair do Rio... Com esta idade, ires para o mato
é tolice!
E tive muito que
insistir para resolvê-lo a intervir junto ao ministro; e no dia da
partida, depois de ter ele próprio prestado a fiança necessária,
senti que ficava com saudades minhas. Vivemos dois ou três anos
juntos, bebendo e pandegando. Ele apanhava-me as considerações e
repetia-as por sua conta; eu dava expansão ao meu bom humor sombrio,
à minha tristeza interna, aos meus desejos vagos que não tomavam
vulto.
Queria-me um
homem do mundo, sabendo jogar, vestir-se, beber, falar às mulheres;
mas as sombras e as nuvens começavam a invadir-me a alma, apesar
daquela vida brilhante. Eu sentia bem o falso da minha posição, a
minha exceção naquele mundo; sentia também que não me parecia com
nenhum outro, que não era capaz de me soldar a nenhum e que,
desajeitado para me adaptar, era incapaz de tomar posição,
importância e nome. Sofria com essa “consideração” especial que
tanto irritava o poeta cubano Plácido. Continuava, porém, a ir com
ele aos teatros, às pândegas. Saiamos com raparigas, jantávamos nos
arrabaldes pitorescos. Eu ia contente mas o meu contentamento durava
pouco. Não sei o que sentia de ignóbil em mim mesmo e naquilo tudo,
que no fim estava sombrio, calado e cheio de remorsos.
Desesperava-me o mau emprego dos meus dias, a minha passividade, o
abandono dos grandes ideais que alimentara. Não; eu não tinha sabido
arrancar da minha natureza o grande homem que desejara ser;
abatera-me diante da sociedade; não soubera revelar-me com força,
com vontade e grandeza... Sentia bem a desproporção entre o meu
destino e os meus primeiros desejos; mas ia.
Nos dias em que
tencionava levar-me a passeio, perguntava-me Loberant:
— Isaías estás
com dinheiro?
— Algum.
E sem que
ninguém visse, passava-me uma nota de cinqüenta ou cem mil-réis.
Nunca vi dar dinheiro como aquele homem. Era a mim, e a muitos. É
verdade que o jornal dava mais de cem contos líquidos por ano e era
só dele.
Neste dia, como
de hábito, perguntou-me se tinha dinheiro e deu-me depois duzentos
mil-réis.
— Nós vamos à
Tijuca, disse ele. Jantaremos lá com a Leda, conheces? — Não.
— Está há pouco
tempo aqui... É um pancadão!
Fomos buscá-la a
casa. Morava numa rua transversal do Catete, e chegamos á um pouco
depois das três horas, quando a italiana ainda se vestia. Eu ainda
pude ver bem as suas largas espáduas de estátua, muito alvas e
rosadas e o belo pescoço, torneado, modelado, encaixando no corpo em
curva suave e vaporosa que vinha morrer nos ombros sem transição
alguma. A italiana tinha uma forte marca de antigo, já no rigor da
fisionomia, já no matiz da pele; e se não tinha também a vulgaridade
exaustiva das estátuas clássicas, devia-o aos seus olhos negros,
onde havia muito da nossa inquietude moderna, um grande langor
profissional.
Loberant
disse-lhe a nossa tenção de ir à Tijuca:
— Oh! não, fez a
mulher. Já fui. Não gosto... Outro lugar, não achas? — Então onde
queres ir? Ao Leme? Ao Silvestre? perguntou Loberant. — Pelo mar, no
fundo... Lá onde estão aquelas montanhas, aquelas ilhas... Quando
cheguei tive vontade de ir logo, logo lá.
Gostei do
capricho da mulher, mas não me animara a aprová-lo. Loberant pareceu
gostar também e perguntou:
— Onde há de
ser? A Paquetá?
— Pode ser...
fiz eu.
— Não, não é
bom. Há muita gente conhecida... Vamos à ilha do Governador.
Leda estava já
completamente vestida e não esqueceu os pandeloques que chocalhavam
na cintura. A barca viajava semivazia e os viajantes habituais viram
com espanto a nossa entrada. A elegância extra-rural de Leda fez
escândalo. Ela parecia não notar, mexia-se por toda a barca
naturalmente, dando pequenos gritos de admiração à paisagem que se
desenrolava. Não cessava de olhar, de aspirar com força toda a
exalação de poesia e de grandeza da baia incomparável. O sol, para o
poente, ainda domava tudo e as águas estavam azuis. Um passageiro
informou-nos da demora da barca nos pontos. Iria primeiro ao Zumbi,
depois a outras localidades da ilha e voltaria ao primeiro ponto no
espaço de uma hora. Saltamos. O arraial tinha um ar risonho e
estendia-se pela praia alva, cuja curva marcava obedientemente. As
canoas dormiam nas praias e as redes secavam ao sol, estendidas
sobre varas. A italiana propôs um passeio. Havia tempo, podíamos
fazê-lo. Começamos a andar. Das casas espiavam-nos. Já ficavam para
trás, tomamos um atalho, depois um outro e quando voltamos ao
caminho largo, tínhamos tomado outro. Não percebemos logo, só viemos
a dar com o rumo depois de ter andado um quarto de hora sem
encontrar a praia. Leda percebeu particularmente a situação. Quando
teve notícia, soltou uma gargalhada:
— Que belo!
Andávamos por um
caminho deserto no momento, mas que parecia trilhado. Dois regos
paralelos de carros marcavam os seus limites com a floresta. A uma
hora do Rio de Janeiro, estávamos no deserto. Andamos e quase não
falávamos. A italiana era a única que parecia contente.
Às vezes era um
areal; em outras, era um capoeirão quase floresta. E tudo triste,
desolado e abatido. Leda observou:
— Quando não há
muita árvore e muita água a terra de vocês é feia! É preciso que
haja muita, muita, para que ela seja bonita!
Houve um momento
que nos supusemos sem saída. As árvores cruzavam-se sobre a estrada;
os cipós atravessavam de um lado e de outro, os arranha-gatos
perseguiam as nossas vestes, agarravam-se a elas tenazmente como se
nos quisessem despir. Um sabiá pôs-se a cantar e toda a dor daquela
terra calcinada, exausta e pobre, vibrou nos ares. Chegamos a uma
campina. Havia bandos de coleiros trinando nas espigas de capim e os
anus enodoavam os leques das ubás.
Depois da
primeira marcha, pusemo-nos a conversar. O doutor estava apreensivo;
eu resignado e Leda contente, recordando talvez a sua infância de
campônia.
— Onde iremos
dar? indagava o diretor.
— Ao mar
naturalmente. Isto não é uma ilha? É; portanto não há meio de se ir
ter a São Paulo.
Sentamo-nos
cansados. A débil organização de Loberant resistia fracamente à
fadiga.
A italiana
perguntava-me o nome das plantas. Era o monjolo cheio de apófises
escamosas; era a embaúba como um adorno egípcio; a tinguacita, a
pindaíba, as taquaras, os cipós... Depois interessou-se pelas
pequenas plantas, pelo gravata, pelo melão-de-são-caetano, pelo
carrapicho e guaxima...
Era eu quem
informava; o diretor, no meio daquelas vidas todas, não lhes sabia o
nome, nem serventia, nem a importância.
Um bando de tiés
esvoaçou por nós e a italiana perguntou:
— Mas os há
mesmo assim?
E ficou um
instante surpreendida que houvesse ainda daqueles pássaros nas
proximidades de tantas modistas. A noite chegara-nos cheia de
opressões e desejos. O doutor marchara na frente, calado,
preocupado; e eu, ao lado da italiana, escolhia-lhe o melhor caminho
e aspirava-lhe o perfume.
Chegamos afinal
a uma casa. Lembrei-me da minha casa paterna. Era o mesmo aspecto,
baixa, caiada, uma parte de tijolos, outra de pau-a-pique; em redor,
uma plantação de aipins e batata-doce. Deram-nos água,
ofereceram-nos café e continuamos para o Galeão que estava próximo.
Quando chegamos à praia, o dia tinha agonizado de todo. Fomos a uma
venda, pedimos algumas latas de sardinha, pão e vinho. Fomos
servidos em velhos pratos azuis com uns desenhos chineses e as facas
tinham ainda aquele cabo de chifre de outros tempos. À vista deles,
dos pratos velhos e daquelas facas, lembrei-me muito da minha casa,
e da minha infância. Que tinha eu feito? Que emprego dera à minha
inteligência e à minha atividade? Essas perguntas angustiavam-me.
Voltamos de bote
para a ponta do Caju. Durante a viagem a angústia avolumou-se-me. As
pás dos remos, caindo nas águas escuras, abriam largos sulcos
luminosos de minúsculas estrelas agrupadas e todo o barco vogava
envolvido naquele estrelejamento, deixando uma larga esteira
fosforescente.
Lembrava-me da
vida de minha mãe, da sua miséria, da sua pobreza, naquela casa
tosca; e parecia-me também condenado a acabar assim e todos nós
condenados a nunca a ultrapassar.
A italiana
conversava com o remeiro sobre a pesca. Ela conhecia a vida e fazia
perguntas nítidas
Saltamos do
bonde, no Campo de Sant'Ana, eu e Leda tomamos um carro; o diretor
continuou para o jornal.
Em vão ela me
fazia falar. Respondia-lhe por comprazer. Lembrava-me... Lembrava-me
de que deixara toda a minha vida ao acaso e que a não pusera ao
estudo e ao trabalho com a forca de que era capaz. Sentia-me
repelente, repelente de fraqueza, de falta de decisão e mais
amolecido agora com o álcool e com os prazeres... Sentia-me
parasita, adulando o diretor para obter dinheiro.
Às minhas
aspirações, àquele forte sonhar da minha meninice eu não tinha dado
as satisfações devidas.
A má vontade
geral, a excomunhão dos outros tinham-me amedrontado, atemorizado,
feito adormecer em mim com seu cortejo de grandeza e de força.
Rebaixara-me, tendo medo de fantasmas e não obedecera ao seu
império.
O carro
atravessara o Largo da Lapa e o seu caminho foi interrompido por uma
aglomeração de populares. Da caleça, pude ver o que havia. Era uma
mulher das muitas que povoam o largo e proximidades, que ia entre
dois soldados. Recordei-me que já tinha visto aquela fisionomia.
Esforcei-me por lembrar. A minha vida começou a desfilar e quando
cheguei à casa da italiana, lembrei-me que era a amante do Deputado
Castro.
Perguntei então
a mim mesmo por que não casara aquela rapariga, por que não vivera
dentro dos costumes tidos por bons. Não achei resposta, mas
julguei-me, não sei por quê, um pouco culpado pela sua desgraça.
O carro chegou e
eu saltei para ajudar Leda a apoiar-se. Paguei ao cocheiro e, na
calçada, e a perguntou-me:
— Não entras?
— Não, obrigado.
Insistiu várias
vezes, mas recusei. Vim vagamente a pé até ao Largo da Carioca, sem
seguir um pensamento. Vinha triste e com a inteligência funcionando
para todos os fados. Sentia-me sempre desgostoso por não ter tirado
de mim nada de grande, de forte e ter consentido em ser um vulgar
assecla e apaniguado de um outro qualquer. Tinha outros desgostos,
mas esse era o principal. Por que o tinha sido? Um pouco devido aos
outros e um pouco devido a mim. Encontrei Loberant:
— Então?
perguntou maliciosamente.
— Deixei-a em
casa.
— Pois se eu me
tinha separado de vocês de propósito... Tolo! Vamos tomar cerveja...
Antes de entrar,
olhei ainda o céu muito negro, muito estrelado, esquecido de que a
nossa humanidade já não sabe ler nos astros os destinos e os
acontecimentos. As cogitações não me passaram... Loberant, sorrindo
e olhando-me com complacência, ainda repetiu:
— Tolo!
Todos os Santos,
Rio de Janeiro — 1908
FIM |