Clique aqui para recomendar esta página a Amigos!

Google
Na Internet Nesta Página

Caminhos da Redenção

 

Lázaro Curvêlo Chaves

 

 

Introdução

 

            Há discussões bastante sérias nos meios acadêmicos e mesmo religiosos sobre se os homens fazemos a nossa própria história ou se somos meros atores (como marionetes) de uma peça cujo enredo desconhecemos. Há consenso num ponto pelo menos: Cada indivíduo sozinho é responsável pela sua própria história.  Raramente a escreve. Aqui está uma tentativa de escrever em modulações variadas a história de que tenho sido protagonista até os dias de hoje.

            Apresento ao leitor uma miscelânea de contos, crônicas, poesias e ensaios breves, seguindo um ordenamento que julguei o mais adequado para tanto.

            Ocorreu-me de trabalhar com certa temática mais séria a que dei prosseguimento ou ilustração através de um conto ou poema num determinado momento, ocorrendo o oposto em outro, poesia ou conto ilustrado por tema consideravelmente sério. Encontrará aqui também contos dentro de contos, além de redundâncias as mais diversas que se explicam pela dificuldade de comunicação usualmente encontrada. Algo que almejava ver bem compreendido é apresentado de diversas maneiras e reiteradamente.

            Normas de etiqueta erudita sugeririam informar onde está o ficcional e onde começam os relatos verídicos. Na prática, uma dificuldade, algumas passagens de minha própria experiência existencial são melhor compreendidas quando em formato de conto ou crônica, o real, por outro lado, por vezes supera em muito as imaginações mais delirantes, o que faz os relatos mais objetivos parecerem coisa mesmo da esfera do ficcional.

            Dizem que aquele que transmite uma mensagem deixa de ser dono dela, cabendo aos interpretadores ultrapassar os limites de consciência possível do autor. Que assim seja, então.

            Ao final da coletânea - ou deveria enfatizar, miscelânea - arrolo a bibliografia que consultei tanto para elaborá-la quanto para inspirar-me. Possivelmente haja cometido alguma omissão, embora tivesse me esmerado muito no cuidado com relação a este ponto. Rogo, portanto, àquele que acompanhar a leitura, que seja compreensivo e mesmo compassivo para com eventuais omissões se, apesar de todo o cuidado, não pude localizar a fonte de onde extraí alguns dados ou expressões peculiares.

 

 

 

Aforismos da modernidade

 

Nem tudo o que causa escândalo é verdade, radical, mas o que não causa escândalo algum neste mundo de falsidades e hipocrisias é, obrigatoriamente, mentira!

 

Deixa tua LUZ brilhar mais que as trevas que te cercam!

 

Se tens traçada uma meta, um ideal, se sabes, enfim para onde vais, ainda que seja difícil, hás de conseguí-lo. Se não sabes sequer para onde, como hás de chegar a qualquer ponto?

 

Ó povo estúpido que conservas o que precisa ser renovado e vives a renovar o que se deveria conservar, quando tereis juízo?

 

O capital se alimenta de mediocridade. Os que não blefam, os que não se curvam ao bezerro de ouro chamado Mammon, os crítico-libertários, enfim, são considerados, via de regra, bestas obscuras, quando não mentalmente nefandos.

 

A maioria pediu que soltasse Barrabás, a maioria apoiou a ditadura hitlerista na Alemanha, a maioria delirou com Stálin na então União Soviética, a maioria acredita em seus governantes. A maioria, em síntese, nunca tem razão!

 

Há muito de suspeito naquilo que todos dizem. Em geral, onde está o excesso de concordância acrítica, está também a falta de inteligência, o comportamento bovino ou como dizia o grande tricolor Nelson Rodrigues, “toda a unanimidade é burra!”

 

Quando os pequenos se unem no ideal de uma vida mais cômoda - e são maioria - fica muito difícil trabalhar em prol da grandeza e dos grandes ideais, pois os mesquinhos tudo farão para não deixar seu pequeno mundo. Pequeno, mas confortável.

 

“Cambalache”, esta gíria portenha dá bem idéia de como estão as coisas hoje em dia. Tudo fora do lugar, tudo de cabeça para baixo. Os loucos acusando os humanistas de “loucura”, isso quando ocorre de não tomarem a direção do hospício.

 

Toda e qualquer pessoa ou instituição que prospere (“enriqueça” ou coisa que o valha) dentro dos marcos do atual modelo econômico e social vigente, faz mais que reificá-lo: insere-se decidida e resolutamente em sua defesa na prática, mesmo que o critique na teoria.

 

Entre a mão tácita do amor jovem e a mão jovem do amor tácito.

 

Reforma agrária: Dai-me terras, sementes, uma enxada, uma foice e um martelo: construirei assim a mais linda das florestas de pão. E nela a minha casa, a minha felicidade, o meu amor...

 

As pessoas precisam, até para que possam estruturar-se “bem” psiquicamente, estraçalhar com a reputação de quem querem despedir-se. Não basta dizer “obrigado, adeus”. É preciso que acreditem, com todas as fímbrias de seus seres que ‘tratava-se de um(a) calhorda, já o sabia...’”

 

Objeções à ortodoxia freudiana:

1 - A “ajuda” psicanalítica visa, em última instância, permitir ao “paciente” gozar do convívio social, por mais que a organização social esteja insatisfatória.  Mas se foi justamente a (des)organização social vigente que o levou a precisar daquela “ajuda”... Qualquer reformador social, poeta, profeta ou artista que se submeta a qualquer forma de psicanálise estará “matando” justamente a sua fonte de sabedoria, de inspiração, de... loucura mesmo!

2 - O psicanalista, através de um sofisticadíssimo jogo de poder, trata-se a si mesmo, sentindo-se incrivelmente bem se comparado ao lamuriento farrapo humano que se desmancha sob o seu olhar de esfinge...

 

Bilhete aos stalinistas: acho que já deu para perceber que não é expurgando, calando, coagindo ou assassinando pessoas que se prova a veridicidade de um certo ponto de vista, ao contrário! O caminho da verdade está em outra direção...

 

Morra o inferno. Faça-se o sonho!

 

Não mais fugas ou adiamentos! Se não eu, quem? Se não agora, quando?

 

Caminhos da Redenção

 

 

Um breve diálogo

 

“Eis aí o triunfo da publicidade na indústria cultural, a mimese compulsiva dos consumidores, pela qual se identificam às mercadorias culturais que eles, ao mesmo tempo, decifram muito bem.”

Adorno/Horkheimer

 

 

Tricotando em frente à TV, Cláudia concentra-se em pelo menos três coisas ao mesmo tempo: como a mocinha deve agir para, maquiavelicamente, capturar o arredio galã na novela, quantos novelos de lã serão ainda gastos na elaboração do casaco que lhe encomendou Ivã, um ex-namorado daqueles que não largam do pé e, fazendo um paralelo com a novela, planeja a confecção de um pulôver para Francisco, gesto tático que considera fundamental para conquistá-lo.

Neste momento chega à sua casa Ivã, que se aboletara do Rio de Janeiro até lá somente «para ver como estava andando o serviço de seu casaco». Não se vai do Rio a São João de Meriti corriqueiramente  por motivo tão banal, claro está. Cláudia sabe que ele ainda nutre por ela algum sentimento mas, de sua parte, já nada mais existe, afinal, em suas duras palavras ao término do namoro, «Ivã não passa  de um fracassado, que nem mesmo carro tem». De toda forma atende-o com cortesia, como sempre faz; após três anos, briguinhas à parte, alguma amizade remanesce...

Já chega sentenciando: _ Você está destruindo a mente com essa porcaria! Bota aí um bom filme do Costa Gavras no videocassete ou ouça um CD do Pablo Milanés e manda o Sílvio Santos catar coquinho!

Não dá, querido - ela sempre utiliza esta expressão quando deseja alfinetá-lo - preciso terminar o seu casaco e se puser um filme no vídeo, terei de ficar lendo legendas e aí é que o serviço não anda mesmo; aliás, quem é Pablo Milanés? Aquele chato que só sabe falar de revolução? Como foi um presente de despedida, até tentei ouvir, mas concluí que só me deu para chatear, tenho outras preocupações em mente para ficar pensando, como você, em salvar a humanidade... Mas não se preocupe, não me deixo influenciar por estas bobagens de televisão, não, é só um passatempo...

 _ Passatempo perigoso - torpedeou! - essa gente procura ensinar como é que se deve pensar, agir e até sentir! Depois você internaliza todas estas bobagens e as põe em prática como se suas fossem, só ajudando com isso a manter as coisas como são. Reificar esse mundo fantasioso de novelas só serve aos interesses dos poderosos. Além disso, eles embalam o espectador num sentimentalismo piegas para deixá-los mais receptivos à porcariada que vendem nos intervalos, mesmo que você não o perceba.

Não seja tão rabugento, Ivã! Um dos motivos de vocês, que se dizem de esquerda, se darem tão mal em política no Brasil é que só sabem criticar e reclamar de tudo, enquanto estes, que você chama de poderosos - com nítida inveja, isso sim - se apresentam lindos e maravilhosos, falando de sonhos, esperança, harmonia, beleza, paz... E depois, por que não manter as coisas como estão? As chances são iguais para todos e esse papo de revolução ou transformação é conversa  de perdedor. Se você não consegue ter aquilo de que precisa, busque os motivos dentro de você mesmo e pare de, por pura inveja ou incapacidade, viver querendo quebrar ou subverter tudo!  _ Mãe! - dirige-se à pessoa no cômodo contíguo - olha só o modelito da Thalia, que gracinha! Você conhece aquele ponto?

“É mesmo difícil”, fecha-se sorumbático Ivã, “ela não consegue enxergar a injustiça social a que estamos todos submetidos e que impede terminantemente a prosperidade econômica não a alguns, mas à maioria! Mas tem alguma razão quando critica nossa rabugice; de fato temos sido incapazes de demonstrar o quanto agimos e pensamos pelo bem da maioria, da verdadeira fraternidade entre todos quando lutamos por abolir privilégios classistas, quando lutamos por justiça social. Programas de televisão são, em geral, situados em shopping centers, mansões, praias maravilhosas e o trabalhador médio só consegue compreender disso tudo que, somente com o fruto de seu esforço laborativo nada conquistará para si ou os seus, que jamais obterá um mínimo conforto material (salvo raríssimas exceções que confirmam a regra geral) unicamente trabalhando honestamente. Daí tantos jogos, tanta desumanidade. Se os “de cima” agem de maneira desumana, aqueles que não conseguem altos lucros com “maracutaias” passam a apelar para a ignorância, a ignorância a que foram submetidos desde a infância... O sujeito vai aprendendo que precisa “ser esperto”, “levar vantagem em tudo, certo?”, dar golpes, enfim, como ensinam ad nauseam as novelas ou mesmo a atitude complacente com que os sucessivos desgovernos deste país tem tratado alguns canalhantropos verocidas. Só assim, convence-se o trabalhador ou desempregado, só mesmo através de meios eticamente condenáveis, poderá ele fugir do mundo falso da favela em que mora ou dos camelôs por que passa todos os dias e conquistar o mundo real das mansões, carrões e praias maravilhosas. Que devastação! Quantos cérebros mais não estão sendo deseducados neste mesmo momento...”

Dona Maria serve um autêntico cafezinho brasileiro que, embora de qualidade inferior àquele que é exportado, dado seu esmero, fica saboroso. Todos trocam mais algumas palavras e alfinetadas e Ivã se vai, meditando em seus temas prediletos: “A Vida, o Amor e a Morte”. Na verdade, no ponto em que hoje se encontra, Cláudia não é mais para ele que uma frágil ponte, através da qual ainda mantém algum contato com o pensamento geral da gente comum do povo brasileiro.

 

Uma Pequena Cidade

 

 

“Que saudades do meu escritório de folhas de zinco e sarrafos às margens do rio Pardo...” Euclides da Cunha

 

    

            O pai de Ivã, um obstinado Engenheiro Eletrônico que, à época do “milagre econômico brasileiro” conseguira prosperar incrivelmente, chegando a ser, ali por volta de 1971, um dos mais importantes empresários cariocas, foi atingido simultaneamente pela glória e pelo câncer - a mais temível das doenças da época - que, em dois anos, corroeu seu corpo, sua pequena fortuna e arremessou sua família à órbita econômica do filho mais próspero, Malcon, funcionário de um Banco em São José do Rio Pardo. Ivã, o mais velho dos filhos, então com 15 anos, muito apegado ao pai, caiu financeiramente com ele sendo arremessado no mercado informal de trabalho, passando a trabalhar numa pequena gráfica clandestina, afeito que era às letras. Quantas e quantas famílias por este Brasil afora sofreram e ainda sofrem até hoje as causas da crise do tal “milagre”... Aquela família foi submetida à dor suplementar da perda do seu chefe justamente no momento em que a inflação retomava sua escalada temível.

São José do Rio Pardo é uma beleza de cidade, com um povo simpático e amigo, 48 mil habitantes, orgulhosa por ser ponto fulcral da gesta de uma das mais importantes Obras da literatura científica mundial; chamam-na, em seu hino, com justeza “o berço de Os Sertões”,  pois foi às margens do rio Pardo entre 1898 e 1901 que o Imortal Euclides da Cunha deu forma final à sua Obra máxima. Camponeses, com seu empenho e dedicação obstinada, são o principal esteio de sustentação da enorme riqueza que circula na Região e faz dali um local atípico em termos de Brasil. Tem como carros-fortes de sua economia a cebola, uma das maiores unidades fabris da Nestlé do mundo e um sistema elétrico privado há mais de um século funcionando excepcionalmente bem.

Cidade situada numa das regiões mais férteis do globo terrestre, consta que seja uma das primeiras do Brasil em número de automóveis por habitante e os rio-pardenses têm o orgulho suplementar de serem pioneiros republicanos. Ananias Barbosa, Francisco Glicério e um grupo de entusiastas da república anteciparam-se em três meses ao Brasil, criando a “Cidade Livre do Rio Pardo” a 11 de agosto de 1889. As forças monarquistas reprimiram brutalmente os republicanos mas, quando a república se consolidou em novembro do mesmo ano, aquelas tiveram de submeter-se aos revoltosos.

Ivã morou em São  José por seis meses contados. Após a morte do pai, tornou-se taciturno, amedrontado, um tanto tímido, recluso aos livros mas transformava-se numa verdadeira “fera ferida” quando agredido por alguma brincadeira de mal-gosto.

Durante o dia, numa gráfica clandestina próxima à Igreja Matriz, elaborava material de propaganda de lojas, panfletos apócrifos, coisas assim. Foi ali que começou sua paixão pelo jornalismo, chegando até, mais tarde, a aproximar-se do tradicional jornal “Cidade Livre”. Passou a nutrir amor cada vez maior pela palavra escrita; lia muito. Os mais velhos, com quem tinha de disputar por vezes posição no serviço, sempre o intimidavam mas, aprendendo a utilizar cada vez melhor as técnicas e procedimentos práticos para a elaboração de textos, cartões de visita, calendários, convites, anúncios, panfletos e até cartas de amor conquistou o respeito de seus competidores e considerável reconhecimento profissional; na mente de Ivã as alternativas eram: tornar-se cada vez melhor ou sucumbir. Gostava de parafrasear Euclides neste ponto - coisa muito comum em São José, aliás - que certa vez, em sério pronunciamento na Academia Brasileira de Letras disse: “Ou progredimos ou desaparecemos!”

À noite, estudava. Obcecado pelo mesmo tipo de intimidação que sofria no trabalho, entre colegas e professores percebia que a “regra” era a mesma e somente encontrou refúgio e segurança nos livros. Sua capacidade intelectual, a partir daí, começou a ser um tanto mais respeitada. Também naquela pequena escola, cujos professores eram, em sua maioria, cristãos, Ivã era compelido irresistivelmente a “ser o melhor”; só assim lograva conseguir respeito frente a seus pares e superiores.

Nos fins-de-semana, as missas na Matriz eram as principais atividades sociais da  pauperizada família de Ivã. Era daquele meio que teria de sair sua esposa, “uma jovem cristã fervorosa, boa e honesta”, assim ensinavam os padres. E a Bíblia, a “palavra de Deus”, “a verdade absoluta e incontestável”, tinha de ser memorizada, pelo menos em alguns de seus trechos, considerados mais relevantes.

Logo surgiu sua primeira crise: o comportamento rapinante necessário no serviço, onde freqüentemente é preciso mentir, passar a perna nos outros, e ser mau para sobreviver, algo absolutamente incompatível com as propostas do humanismo cristão que, por sua vez, era inaplicável na prática diária de relações com pessoas “intimidantes”. Por outro lado, a aproximação mais estreita - porque estudada com mais afinco - com as ciências, trazia uma série de dúvidas quanto à existência de uma “verdade absoluta” e até mesmo a existência de um Deus.

Uma crise com pelo menos três orientações conflitantes uma prático-pragmática, uma cristã e uma científica - conduziu Ivã a seu primeiro impasse na vida.

Após muito meditar, optou pela ciência, passando a desprezar significativamente as considerações teológicas mais afastadas da vida prática. Só muito tempo depois encontrou as “pontes” que possibilitam a reconciliação entre a ciência social e a fé, a partir de estudos propostos pela Teologia da Libertação. 

Regresso

 

 

“Thalassa! Thalassa!” Xenofonte

 

 

Concluído o segundo grau com especialização em eletrônica em Mococa, cidade vizinha a São José do Rio Pardo, retorna Ivã a beira-mar, Rio de Janeiro, sua terra natal. Foi contratado como técnico para a manutenção dos telefones internos do maior hospital carioca. Ali trabalhava de dia, continuando seus estudos à noite, agora aproximando-se da filosofia visitando, sempre que podia, a família e seus muitos amigos rio-pardenses com quem conversava, em geral,  chamando sua atenção para a nova tendência humanista radical, cobrando dos republicanos de agosto de 1889 o mesmo pioneirismo, só que agora na direção do humanismo.

Apesar dos esforços dos brasileiros mais patrióticos, abnegados, dedicados e éticos, em 1989 o povo brasileiro elegeu um canalhantropo verocidate, via o verdadeiro humanismo na proposta de seu opositor que chegou apenas perto do sucesso...

As propostas por melhoras sociais no Brasil e no mundo devem ser aquelas oriundas da sensibilidade. Ernesto Che Guevara dizia ser a sensibilidade o principal traço caracterológico a ser buscado num governante. Textualmente: “Deixe-me dizer, com o risco de parecer ridículo, que o verdadeiro revolucionário é guiado por grandes sentimentos de amor. É impossível pensar num revolucionário autêntico sem esta qualidade...” Nossa proposta, hoje, deve ser a de fazer ver à população,  a despeito do poder da mídia eletrônica no Brasil, que só está capacitado para representar o povo (enquanto este não estiver dotado de condições objetivas e subjetivas de gerir a si mesmo) aqueles que são verdadeiramente sensíveis à dor humana de um país como o nosso, tão prenhe de  disparidades sócio-econômicas, de desigualdades e injustiças.

Em meio a tais propostas, particularmente voltadas a reacender a chama da sensibilidade nos corações endurecidos das pessoas e, “de lambuja”, fazendo uma homenagem à sua amada, escreveu Ivã um breve libelo pacifista em forma de conto, intitulado “Anjos da Paz”;

 

Anjos da paz

 

 

“A grande maldição foi afastada. É no amor humano reside a toda a força de regeneração do mundo!” André Breton

 

 

A idéia partiu de Cláudia, uma jovem muito linda, com olhos de paraíso, cabelos de ouro e trigo, transparente e inocente como um sonho. Perfeita “mulher-criança” na mais elevada acepção bretoniana da expressão, forte em sua ternura, nobre em seu amor, incapaz de compreender o ódio entre as pessoas, as discriminações, as guerras... Lançou um “Manifesto às Mulheres do Mundo”, conclamando-as todas a um movimento internacional pela paz  no mundo, baseado no Amor à Vida.

Assinado com anagramático pseudônimo, dizia mais ou menos o seguinte:

 

“Minha irmã,

Nós, mulheres, somos fonte de Vida. Em algum momento de nossa existência nosso corpo traz à luz um novo ser humano que amamentamos e de que cuidamos até que possa viver por seus próprios meios. Biologicamente dedicadas à geração e aos cuidados com a Vida, temos o dever de fazer o que possível nos for para deter este massacre planetário contra o humano, onde há guerras, fome, violência, xenofobia, miséria, prostituição, toxicomania, enfim, vivemos num mundo em total desequilíbrio.

Convoco-a, minha irmã, a uma reunião na ONU o mais breve possível para discutirmos meios de interromper estas oferendas profanas aos deuses do ódio, da destruição e das guerras, levando-as ao Deus de Amor à Vida.

Ansiosa por sua resposta com sugestões e propostas sou,

                                                                                                            TRILIASTAS”

 

 

O curioso manifesto, enviado a todos os meios de comunicação oficiais e oficiosos do planeta, via Internet em todos os idiomas, encontrou extraordinária repercussão. Assim nasceu o contingente que mais tarde ficou conhecido como “Anjos da Paz”. Após um trabalho absolutamente louco (se a “razão” conduzia os povos à guerra, só mesmo através da “loucura” se poderiam encontrar formas de libertação).

De todas as partes do mundo chegavam voluntárias ao movimento erótico-lúdico-onírico-libertário conclamado - e isto é o mais sublime - precisamente por uma jovem de coração puro!

Inicialmente eram cerca de 1.500 os “Anjos da Paz”, as jovens dispostas a, pelo Amor,  anular os poderes das nefandas divindades da guerra. A elas uniam-se contingentes cada vez maiores e mais entusiásticos, corajosamente interpondo-se entre os litigiosos, onde quer que houvesse ódio e destruição. Jovens norte-americanas  encontravam o amor de suas vidas entre bravos iraquianos; belíssimas odaliscas mouriscas despiam seus véus e antecipavam aos ocidentais a visão do paraíso, brancas beldades nórdicas uniam-se em amor aos turcos outrora segregados em plena Alemanha, sensuais ashantis africanas dissolviam o ódio dos corações neonazistas com o poderoso arsenal de sua ternura, meigas e sorridentes gueixas orientais uniam-se em amor aos chineses, bósnios e croatas, judias americanas desafiavam as leis de sua fé e se uniam em amor aos palestinos, o mesmo acontecendo entre palestinas e judeus. Pelo mundo todo, a festa do Amor pleno se realizava, sonho de milênios. Franceses e alemãs, judias e jordanianos, líbias e italianos, cubanos e norte-americanas, quantos casais felizes, quanto amor verdadeiro compartilhado, quanta festa!

Em meio a tanto amor, a tanta festa compartilhada, a horrenda divindade da guerra e suas correlatas foram literalmente aniquiladas! Nesse instante as autoridades convocam uma reunião internacional para discutir os termos da paz, dos novos rumos da civilização mas.... que surpresa! Ninguém tem tempo ou disposição a prestar atenção às autoridades... O Amor vence a guerra, o ódio, a intolerância, o autoritarismo e tudo o que os gera. Nada mais natural, portanto, que felizes casais apaixonados, deixem de prestar atenção às tais autoridades...

Espontaneamente, muito mais eficazmente que se fosse combinado, muito mais eficazmente que se fosse coisa decidida em “reuniões de gabinete”, todos passam a  dedicar-se à reconstrução da harmonia perdida.

Envergonhados do passado, como crianças peraltas arrependidas de uma tola infantilidade, todos os casais do mundo dedicam-se, com suas proles, a “derreter suas armas e delas forjar arados”, como Isaías havia previsto; tanques de guerra  são convertidos em tratores para arar a terra - que passa a ser de todos, porque é de Deus e Deus habita o coração de cada humano... - fábricas de armas químicas são convertidas em fábricas de medicamentos, de implementos agrícolas e alimentos; bombas, fuzis, metralhadoras, balas, minas, estátuas de homens raivosos portando armamentos são fundidos e refundidos em símbolos de Amor e Paz como cupidos, pombas... Na ONU uma das mais belas peças de Rodin é reproduzida com material oriundo dos armamentos usados nas últimas guerras e, numa placa de bronze sob a estátua de Rodin, O Beijo, fica a inscrição: “Tributo aos ANJOS DA PAZ e sua iniciadora. Somente uma mulher-criança, pura, sensível e inocente poderia liderar o processo de redenção daquela época selvagem!”

Dos céus um coral de anjos envia sua luz a todos os homens de boa vontade no mundo, muitos deles já  atuando em nosso meio há muito para auxiliar no restabelecimento da Harmonia, da Fé, da Paz... Seria Claudinha um destes anjos?

 

 

Obstinação

 

“Não conto gozar a minha vida,

                                   nem em gozá-la penso.

                                   Só quero torná-la grande!

                                   Inda que para isso

                                   Sejam meu corpo e minha alma

                                   A lenha deste fogo

                                   Só quero torná-la de toda a humanidade!

                                   Inda que para isso tenha de a perder

                                   como minha.”

                                   Fernando Pessoa

 

 

Na tênue linha entre a busca de uma Companheira que o plenifique, o complete - que o ser humano nasce radicalmente incompleto, “pela metade” nesta dimensão - e a luta pelo aperfeiçoamento das Instituições Políticas Brasileiras, segue Ivã batalhando.

Conversando com Cláudia, ficou indignado com seu  declarado “maquiavelismo”, voltado à conquista de um ser humano rico, sem qualquer consideração de cunho ético, sequer com relação ao Amor correspondido.

Imagina que o ser humano recém nascido é como uma bolota frágil, constituída como que por um floco de algodão (algo bom, cálido, macio). Logo ao nascer o bebê é submetido a um tratamento particularmente cruel, para quem acaba de sair do universo amniótico, começa a chorar vigorosamente em protesto e já inicia o processo de construção de defesas contra as inevitáveis agressões do meio humano hostil em que penetra, começa a construir suas couraças caracterológicas. Com o correr dos anos, aquele pequeno floco de algodão se recobre de arame farpado e vai se protegendo como pode. Em graus variados de sofisticação, encontram-se aqueles que conseguem recobrir ainda suas proteções farpadas com uma fina camada de espuma artificial (o chamado verniz social). Quem se lhes aproxime, percebe a maciez da superfície. Se procuram penetrar um pouco mais fundo em suas personalidades, encontram as pontas do arame farpado e só muito amor humano pode fazer com que se suporte a dor da travessia das farpas protetoras e se alcance o calor, a bondade e a maciez existente no núcleo de todo o ser humano.

Esta visão, exageradamente otimista do que se poderia chamar de “natureza humana”, torna incompreensível a enorme satisfação que a maioria das pessoas encontra em “jogar” umas com as outras, em provar que são mais espertas e capazes de espetar mais fundo e melhor que alguns raros tolos incautos...

Mas será mesmo tão absurdo assim imaginar um mundo em que as pessoas se pautem mais pela busca do que de bom possa haver no homem do que na busca do mal? Haverá no mundo um meio de superar esta ambigüidade, estas manobras e mesmo “táticas de guerra” para conquistar seres humanos a fazer seja o que for por um preço? Será que as pessoas estão todas à venda?

Em certa ocasião, Ivã quase foi agredido fisicamente por chamar a todos os colegas que com ele tomavam um chopinho a beira-mar de “prostitutos high-tech”; disse-lhes Ivã: “_ O que nos diferencia no Modo de Produção Capitalista é que parte do corpo vendemos a quem, por quanto tempo, que preço e para qual finalidade...” A radical e profunda união com outrem, algo tão sublime, reconciliação absoluta do ser humano com a Natureza, perda momentânea dos sentidos onde não mais existe um «eu» ou um “tu”, mas um afirmativo e feliz “nós”, numa concha protetora de inigualável felicidade e prazer, isto que a cultura permite que prolonguemos nesta coisa maravilhosa a que damos o nome de Amor, isto ser tratado como assunto comercial onde táticas de guerrilha são freqüentemente usadas? Mas é mesmo irracional!

Com esta mentalidade, desarranja-se mesmo, não apenas vidas de particulares, como a de toda a Nação e até mesmo o equilíbrio do Planeta!

Em diálogos nem sempre descontraídos com amigos no Rio e em São José do Rio Pardo, todos lhe chamavam a atenção para o fato de “não prestar atenção à realidade da vida e viver num mundo de sonhos e fantasias” - lindas, sem dúvida, mas absolutamente utópicas. Eram praticamente unânimes em encurralá-lo para que, entre outras coisas, interrompesse definitivamente sua militância política, sob a alegação de que estaria, com isso, não apenas arriscando sua vida, mas também a segurança dos que lhe são próximos. “_ Ou você se ilude que a democracia brasileira já está preparada para suportar bem tais sandices?”. “_ Sandices? Sandice é o que acontece no cotidiano, basta ler os jornais diários ou dar um passeio pelo centro da cidade para que se o perceba!”

Incapazes, seus interlocutores, salvo dois que, em silêncio tímido aparentavam aprovar o que Ivã defendia, de compreender por que se obstinava ele tanto em estudar, a ponto de consumir todo o seu fabuloso (sic) salário em livros, cursos, palestras, círculos de estudos e coisas que tais, notando ainda os seus que ele sempre ficava como que deslocado e ansioso quando era obrigado a participar de alguma festinha ou recepção. Era praticamente intimado - até pela família! - a consultar-se com um especialista. Diziam : “Olha, normal, normal, você não é não!”

Tentando contra-argumentar, por partes, ao que julgava uma montoeira eclética de incompreensão e repressão, começava pela expressão realidade. A seu ver, estamos todos imersos numa situação social injusta em grau superlativo mas, criação humana que é, humanamente reversível também o é! A organização social exige que todos os esforços possíveis e imagináveis sejam envidados em prol da modificação de uma estrutura perversa, pela implantação de uma o nova ordem social , mais justa, solidária, humana.

Está convencido de que o mundo real não é este que pregam seus interlocutores (o dos shoppings, mansões e carrões, acessíveis, como diz Eduardo Galeano, "a minorias mui minoritárias"); este é apenas o mundo prático, aparente, resultante de uma estrutura maior, injusta, irracional e carente de transformação radical. Quando se mergulha intensamente apenas no mundo prático, fica-se reduzido ao culto pagão da «religião do dia útil», torna-se tributário e reificador pragmático do mundo tal qual é e consequentemente incapaz de seguir lutando por modificações. Limitações à Consciência Possível são assim estabelecidas.

_ E por que é que você tem de modificar o mundo? Quem foi que te deu procuração para isso? Não seria melhor você fazer como seus irmãos, que constituem família, ganham seu dinheirinho honestamente e chegam mesmo a proporcionar conforto aos mais chegados, particularmente suas famílias... Por que insistir com essas idéias malucas de modificar o mundo? Não vê que as pessoas não estão interessadas nesse tipo de coisa, ô «Madre Tereza»!

_ Para começo de conversa, não há quem modifique o mundo sozinho, embora haja aqueles que se sacrificam e esforçam um pouco mais, dando até, no limite, sua própria vida em prol das Causas por que lutavam. Vejamos os exemplos de Jesus Cristo, Che Guevara, Mahatma Gandhi, Tiradentes , Camilo Torres, e milhões de outros menos conhecidos mas não menos importantes. Em segundo lugar, desejo muito mesmo construir um lar feliz, desde que para isso não tenha de prostituir meus ideais mais caros! Finalmente, há mais pessoas carentes, portanto ansiosas por mudanças do que se imagina e se não perceberam isso ainda é por causa da hipnose coletiva a que a mídia os submete todos os dias - o que tem de ser desmascarado pelo bem do progresso humano.

_ Cristo, né Ivã? Será que você às vezes não se imagina também Napoleão Bonaparte? Em outros tempos via-se nos hospícios gente estranha com um chapéu ridículo na cabeça e a mão enfiada na camisa. É o que deseja para você?

“Incompreensão, incompreensão e mais incompreensão” - retira-se sorumbático Ivã a pensar – “eis o maior dos problemas com que se tem de lidar neste mundo. E no entanto amo tanto a estas pessoas!”

O pior de tudo é que estas inevitáveis discussões despertavam alguma coisa ruim dentro dele. O que tinha ele a apresentar de efetivo e visível às pessoas? Um militante como milhares de outros, tinha lá algum traquejo com a palavra escrita, mas nada digno de nota, nada que o notabilizasse. E seu irmão, agora gerente de Banco, líder de um grupo católico carismático, chefe de uma pequena família feliz, uma acusação viva á sua pretensa irresponsabilidade, à sua suposta falta de maturidade, sendo Ivã já quase um quarentão!

Teria chegado a hora de sucumbir, de buscar o enriquecimento de alguma forma (uma de suas idiossincrasias é estar persuadido de que ninguém no Brasil enriqueceu através de meios 100% lícitos, particularmente do ponto de vista ético...) e esquecer os graves problemas filosóficos, políticos, macroeconômicos e até mesmo religiosos que têm afetado tanto as pessoas? Estaria enfim provada cabal e definitivamente a incompetência catatônica de Ivã que, ao não conseguir conforto e paz sequer para si, jamais poderia arrogar-se ao direito de reivindicá-lo para toda a gente? Não... Por este critério falacioso, Jesus Cristo não teria passado de um mendigo boquirroto e Gengis Khan seria o protótiopo do sucesso!

“Não! Mil vezes não! Fico com minha utopia e lembro que utopia é lugar que não existe, AINDA, não um lugar ontologicamente inviável, desde que os seres humanos assim o desejem. E dentro da utopia concreta, possível com que muitos sonhamos, haverá finalmente Liberdade, Igualdade, Fraternidade entre os homens. Posso ver os olhos brilhantes de amor à vida das Crianças do Futuro, os sorrisos ternos e fraternos dos vizinhos que se ajudam, a expressão leve e satisfeita de sinceridade e harmonia nos rostos das pessoas. Espero viver para constatar na prática a efetivação deste quadro e é com enorme otimismo esperançoso que vejo crescer o número de pessoas que se preocupam com a preservação da Vida, com a realização final dos princípios básicos da Revolução Francesa, ainda inatingidos ao cabo de dois séculos...”

Nossa América Latina, espoliada e saqueada a quinhentos anos, ainda terá de fazer frente a muitos sofrimentos, pois aqueles que amam o Mal, o Capital, os egoístas, os individualistas e demais rapinantes ainda detêm o controle dos meios materiais e espirituais de produção. Suplantá-los será muito difícil. União é fundamental para tanto. O trabalho do humanista revolucionário é ininterrupto, a menos que se alcancem os ideais almejados - já nos dizia o Che - e deve ser praticado, acima de tudo, dia a dia, minuto a minuto, pacientemente. Educando, batalhando, aprendendo, ensinando, trabalhando com amor e dedicação, criando e, acima de tudo, amando! A enormidade da tarefa não nos deve desanimar pois que nós, gigantesco exército de trabalhadores e desempregados do mundo somos maioria. Cumpre rasgar o véu da reificação, unificar propostas e ideais, pulverizar até as fundações a perversa e pervertedora estrutura social vigente e começar a construir tudo, pedra por pedra, tijolo por tijolo, letra por letra, aproveitando dialeticamente tudo o que de bom o cérebro humano já engendrou ao longo de sua história em prol da Vida.  Conservar o que está funcionando bem - há poucas coisas nestas condições, mas cumpre preservá-las em prol do humano - e destruir até a raiz tudo o que esteja atravancando a harmonia, a paz , o bem-estar e a felicidade humanas para que possamos, limpo o terreno iniciar nossa construção humanista.

Não podemos perder, pois o que há de mais elevado, sublime e nobre em termos de propostas ético-humanistas estão do nosso lado. VENCEREMOS! 

Sonho com novas harmonias

 

 

“Unir a mais firme resistência ao mal com a maior benevolência para com o malfeitor. Não existe outro modo de purificar o mundo.” Mahatma Gandhi

 

 

Ocorre por vezes de alguns de nossos irmãos cristãos nos condenarem - por inveja, fraqueza de caráter ou alguma outra forma de prisão a aspectos tristemente baixos de nossa existência - até o fundo de nossas existências, numa ou noutra forma de prisão destas que pululam no mundo contemporâneo.

Pensando nisto e revisando um trecho da bíblia eis-me diante de uma das mais sublimes histórias das Escrituras. Razoavelmente conhecida, até, apenas raramente trabalhada em comparações profícuas com o que está ao nosso redor hoje. Esta tem lugar ali pelo 17º século Antes de Cristo, segundo está escrito em Gênesis, capítulos 29 a 32.

Jacó - que terá seu nome mudado para Israel quando da célebre luta com o Anjo - apaixona-se irremissivelmente por Raquel e só havia, à ocasião, um meio de casar-se com ela, sendo ele oriundo de família humilde: trabalhar para o pai dela, Labão. Inicialmente, o futuro sogro o engana e, ao cabo de sete anos trabalhando como pastor de ovelhas, casa Jacó com Lia, a irmã mais velha de Raquel. Mas tal era o seu amor que trabalha mais sete anos (segundo o costume) pela mão de Raquel. E a Escritura registra que aqueles anos todos “foram aos seus olhos como poucos dias, pelo muito que a amava”. Lia concebe e dá vários filhos ao patriarca. Raquel, inicialmente estéril, é veículo do milagre da concepção de José que se torna - ça va sans dire - o filho predileto de Jacó.

José, além de intensamente amado por seu pai humano recebia, em sonhos, a Visitação Divina. Seus irmãos, num misto de inveja, temor e ódio, venderam-no como escravo aos egípcios por vinte moedas de prata. Jacó, informado pelos filhos que José havia sido devorado por um animal selvagem, fica inconsolável por vários anos.

Após muitos percalços e dissabores - e não é esta, sempre, a senda do Profeta? - José é convidado a interpretar os sonhos de Faraó e o faz com tal brilhantismo que é logo a seguir nomeado governador do Egito.

A sete anos de fartura seguem-se sete anos de fome em toda a região que hoje chamamos de Oriente Médio - segundo sonhou Faraó, aliás - e só o Egito, por poder contar com a previdente sabedoria de José, consegue prover mantimentos a seu povo.

Como a fome prevalecia também em Canaã, terra natal de José, Jacó ordena a seus filhos que vão ao Egito conversar com as Autoridades e tragam de lá o trigo, alimento vital. Aqueles pastores pobres de uma terra distante têm enorme dificuldade para conseguir uma audiência com o poderoso governador da única terra a salvo da fome. Escrevo estas linhas imaginando a cena: envergonhados, empobrecidos e suplicantes, ali estão os hebreus, inseguros quanto a seu futuro ou sequer a decisão do poderoso governador do Egito. Quando finalmente se dá a conhecer, dirigindo-se a seus irmãos em seu próprio idioma, o que será que se passa na cabeça daqueles sujeitos? “Eu sou José. Aquele que vocês venderam como escravo...” E a superioridade moral de José faz com que seus irmãos sejam recebidos como príncipes, entre lágrimas, abraços e beijos.

Uma das muitas histórias contadas acerca do papa João XXIII, Angelo Giuseppe Roncalli, informa que ele, como Chefe de Estado do Vaticano, teria dito estas mesmas palavras ao receber a delegação de Israel, ali em missão diplomática: “Eu sou José, seu irmão...”

Ultimamente, as coisas no mundo humano andam severamente desencaminhadas, com essa história toda de “neo-liberalismo”, “globalização” e outras coisas que têm beneficiado bem pouca gente, deixando a maioria à míngua, como diz mui sabiamente Frei Betto, de pão e de beleza...

Tudo isto, contudo, ainda uma vez, nos enche de Esperança e, estou seguro de que, em menos tempo do que se imagina, aqueles que foram incompreendidos, vilipendiados, atraiçoados ou covardemente perseguidos pela matilha que comanda o mundo hoje poderão humana e cristãmente, uma vez restabelecida a harmonia perdida, dizer a seus antigos algozes: “Eu sou José!”

 

O Dia do Perdão 

 

Uma das coisas mais lindas que a teologia judaica traz para a humanidade é a noção da possibilidade de um recomeço de tudo a partir do perdão, o Yom Kippur, “Dia do Perdão”. E Jesus Cristo, judeu por nascimento, levou ao limite mais sério a prática do perdão, não apenas em seu discurso, mas em seu exemplo existencial... “Amai vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, orai pelos que vos caluniam...” Mat 5, 44. A prática, a demonstração nítida de seu comprometimento com este raciocínio quando no monte chamado “Caveira”, já às portas de sua morte física pela cruz, rogou a Deus, intercedendo pelos que o supliciavam: “Perdoa-lhes, Pai. Eles não sabem o que estão fazendo.” Lc 23, 34.

Um exemplo bastante curioso da prática do perdão, encontra-se num conto de Jorge Luís Borges sobre Caim e Abel. Diz-nos em essência, o grande escritor argentino que os dois irmãos caminhavam pelo deserto, um em direção ao outro, quando Caim reconheceu seu irmão pela marca da pedrada que o matou. Convida-o a uma refeição, evidentemente que kosher (a alimentação lícita), com ele. Após algum tempo, Caim ergue a voz e pergunta a Abel, sentindo-se culpado ainda: “Você já me perdoou?” Ao que Abel responde: “Perdoá-lo? Por quê? Foi você quem me matou ou fui eu a matá-lo? Já se passaram tantos milênios que já nem me lembro mais...” Esta é a essência do perdão: esquecer completamente o dano feito. Virar a página. Como é difícil perdoar quando não se tem amor no coração; como é simples e engrandecedor o perdão oriundo de um coração impregnado pela alegria do amor.

Fica aqui um convite a reflexão e ao perdão: Perdoe o empregado relapso que por algum motivo negligenciou de seus deveres. Perdoe o patrão que ergueu sua voz num momento de passageira cólera. Perdoe aquela moça o jovem apaixonado que não é correspondido. Perdoe o jovem aquela menina linda que não tem culpa alguma em ser incapaz de corresponder-lhe. Perdoe o aluno o professor  que, num momento tenso, ralhou com ele. Perdoe o professor ou a professora aquele aluno ou aquela aluna que num momento ou noutro foi um tanto ou quanto inconveniente a ponto de despertar essa coisa feia que é a repressão. Perdoe a vizinha inconveniente que vive a intrometer-se em sua vida a pretexto de “ajudá-la”. Perdoe o marido a esposa que não lhe correspondeu às expectativas numa ou noutra ocasião. Perdoe a esposa o marido que, numa ou noutra ocasião também foi incapaz de corresponder-lhe às expectativas. Perdoe o primogênito seus irmãos mais jovens por tudo o que considerou incorreto que os pirralhos hajam feito. Perdoem os mais moços por qualquer inconveniência banal do primogênito. Perdoem os pais os filhos quando se equivocam - afinal, errar é humano. Perdoem os filhos seus pais que, por vezes, exageram no excesso de zelo. Perdoem os cristãos aqueles que vêem o mundo de maneira um tantinho diferente, o perdão - particularmente a quem pensa diferente de nós - é evangélico! Perdoem os não-cristãos se aqueles que informam seguir os mandamentos do Cristo cometeram atos não consentâneos com a fé que professam - não devemos nos tornar juizes do nosso próximo. Perdoem-me os magistrados por estas linhas fortes, mas confesso considerar dificílima a imparcialidade ou mesmo a neutralidade! Perdoemos os políticos por algum comportamento menos honroso, lembrando sempre o adágio, também evangélico: “Vá e não peques mais”. Jo. 8, 11. Perdoem o povo que não tolera manipulação de suas vontades ou de suas posses à sua revelia. Deixemos todo o julgamento a Deus.

Quem somos nós, afinal, para julgar nosso semelhante? No meio do torvelinho desta vida, com tanta poeira lançada a nossos olhos, como não ter algum cisco que, literalmente, impede-nos a todos de ver apropriadamente e ousar tirar ciscos dos olhos dos outros? Não julgar nosso semelhante, abrirmo-nos ao diferente e tolerarmos; esta parece ser a essência dos mais elevados ensinamentos das mais diversas tradições místicas. Pensar o perdão com restrições é pensar outra coisa, que merece quiçá outra denominação. O perdão deve ser integral, irrestrito.

Que bom seria podermos viver alegre e plenamente  sem qualquer dor ou eivor de tensão a nos incomodar - e algo poderia ser mais tenso que o ódio que, evidentemente, nos vincula e prende justamente àquele que cometeu falha humana para conosco, talvez até num laço ainda mais rígido que aquele do amor? E como viver sem ódio no coração, sem qualquer traço de ódio, enfim? Que o perdão pleno ganhe este espaço e teremos as respostas!

Não sendo judeus, por que deveríamos respeitar um costume judaico? Por que é lindo, faz sentido, não importa onde haja nascido.  O que traz leveza e nos engrandece só pode ser benéfico! Se os cristãos não têm o costume de eleger uma data especial para ser o “Dia do Perdão”, deve-se ao fato de, idealmente, sendo cristãos, todos sermos capazes de perdoar imediatamente (perdoar e esquecer, pois perdoar é esquecer!)

Verdade? Caso contrário, vale a pena pensar, em reuniões teológicas na implementação de um novo mito multitudinário, em eleger efetivamente um “Dia do Perdão” e batalhar para viver, após a leveza da libertação das cadeias do ódio, com a alma limpa, alva, pura.

Estabelece-se uma data marcante - em nosso caso, por proximidades mil, sugiro o dia de São Francisco, o 4 de outubro - fica-se 24 horas por conta de refletir acerca de todas as coisas desagradáveis que andaram acontecendo conosco ou que fizemos que outros sofressem e, a seguir, página em branco, sem jamais sequer tocar no assunto que conduziu ao erro e este ao perdão, começar de novo sem qualquer resquício de ressentimento ou mágoa.

Como somos fracos os humanos, não? Tendo aqui a solicitar encarecidamente a quantos perdôo, um esforço consciente para que não me veja compelido a, dentro de um ano após o “Kippur”, perdoar ou pedir perdão pelas mesmas coisas novamente...

 

 

O Socialismo na Modernidade

 

 

“O caminho que conduz à liberdade só pode ser a própria liberdade”

 ERRICO MALATESTA

 

 

Em 1917 ocorreu a primeira grande revolução socialista bem sucedida no mundo, então em fins da Primeira Grande Guerra, uma guerra - como todas as outras - suja, eivada de rapinagens e interesses mesquinhos. Ali disputava-se territórios roubados a outros povos. De 1917 a 1924, a fim de consolidar as conquistas revolucionárias, Vladimir Ilitch Ulianov, o Lênin, toma algumas medidas militares, políticas e econômicas contando para tanto com o apoio e o auxílio direto de personalidades díspares como Jossip Djugashvili, o Stálin e Lev Davidovitch Bronstein, o Trotski.

Com a morte de Lênin em 1924 abre-se a crise sucessória no Kremlin com Trotski, comandante em chefe do Exército Vermelho, responsável pelo sucesso da Revolução no campo externo de um lado, pregando a “revolução permanente”, informando que só se poderá chegar à sociedade comunista, sem classes, quando todo o mundo passar pela etapa do socialismo, da economia planificada, estatal. De outro lado, Jossip Djugashvili, Stálin, encarregado do combate interno à contra-revolução, arquiteto da temível Tcheká, mais tarde KGB, pregando a “consolidação do socialismo num só país”. Vence Stálin, acreditam alguns historiadores que menos pelo brilhantismo da defesa de suas propostas,  mais pela intimidação de quem tinha acesso a tantas informações sobre tantos detalhes existenciais de tantas pessoas...

Uma vez no poder, Stálin inicia a perseguição política a seus desafetos e adversários, começando por Trotski que se transforma numa “pessoa não existente”. Expulso da então União Soviética refugia-se inicialmente na Turquia enquanto seus compatriotas são terminantemente proibidos de mencionar sequer o fato de sua existência. Pregando e escrevendo sempre sobre a “revolução permanente”, acaba sendo expulso também da Turquia passando a refugiar-se na França, sendo de lá expulso também por sua postura radical, coerente, intransigente. Em meados da década de 30 consegue refúgio no México, então governado por Lázaro Cárdenas (aquele que disse: “Pobre do México, tão longe de Deus, tão perto dos Estados Unidos...”), onde funda a IV Internacional para contrapor-se à III Internacional stalinista.

Trotski é assassinado no México por ordem expressa de Stálin, mas a IV Internacional segue viva até hoje no mundo. As idéias de “revolução permanente”, de socialismo internacional são, no Brasil, defendidas pelos trotskistas do Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado, o PSTU. Em tempos de neoliberalismo, globalização, desemprego e desespero ocorre uma retração no movimento operário, retrocesso de resto dialeticamente previsível e temporário. “O choro pode durar uma noite, mas a alegria vem pela manhã”, diz-nos a Escritura.

Há no Brasil também admiradores de Stálin e do modelo stalinista, majoritariamente representados no PC do B. Cisão do “antigo” PC do B em 1956 quando Stalin morreu e Nikita Kruchóv denunciou-lhe os crimes e o culto à personalidade, que centralizava. Seguindo obediente a linha do Kremlin, o PCB, hoje PPS (aquele do Roberto Freire e do Ciro Gomes), promove no Brasil uma série de debates acerca da desestalinização do partido. A ala formada dentro do stalinismo abre dissidência criando o PC do B ou, como preferem dizer os próprios, “mantêm” o nome do partido contra o “revisionismo” do antigo PCB.

Ainda no Brasil, de maneira autônoma, independente, surge o Partido dos Trabalhadores, corajosamente lutando contra o regime de exceção implantado na América Latina por ordem dos EUA na década de 60. Interesses trabalhistas localizados no ABCD paulista ampliam-se desde o nascimento do PT em 1980 a ponto de o partido lançar seu mais expressivo dirigente, o Lula, candidato à presidência da república em 1989, quando foi derrotado por Collor de Mello, uma vez haver o candidato patronal contado com o apoio maciço dos meios de comunicação, aporte de recursos do empresariado através de seu caixa de campanha, o Sr. Paulo César Farias.

O PT é um partido eminentemente ético, após afastar de seus quadros o radicalismo da Convergência Socialista (o PSTU) pode definir-se como um partido de esquerda humanista e cristã que almeja chegar às esferas de poder decisório pela via parlamentar, um ineditismo histórico, claro. O único episódio parecido, o Chile de Salvador Allende, acabou num banho de sangue no bojo do autoritarismo norte-americano das décadas de 60 e 70 quando o general Augusto Pinochet liderou internamente (contando com o apoio ianque) tropas que literalmente massacraram toda a oposição política.

Aliás, este exemplo faz pensar... Quando os donos do poder sentem-se seguros, mantêm o encaminhamento democrático. Quando a insegurança assola, apelam às mais diversas formas de ditadura e coerção.

Difícil falar em esquerda e trabalhismo num mundo encaminhado na direção do neoliberalismo, quando seculares conquistas da Classe Trabalhadora como a previdência social pública, a segurança do emprego e até mesmo o descanso remunerado - anual ou mesmo semanal - estão sob questionamento após o colapso do socialismo dito “real”. Mas, ainda uma vez cumpre enfatizar que avanços e recuos são das coisas mais comuns na história da humanidade e ainda veremos novos avanços onde hoje os recuos nos acuam...

 

 

 

O que querem os anarquistas

 

           

“O Estado é a negação da humanidade!”

Mikhail Bakunin

 

            Em artigo bastante contundente e expressivo, Errico Malatesta, discípulo italiano do russo Bakunin, discorre sobre o que é e o que se deve fazer “Rumo à Anarquia”.

Em primeiro lugar, deve-se desprezar concepções errôneas segundo as quais “anarquia” seria sinônimo de “bagunça”. Anarquia é ausência de governo e mesmo de atividade parlamentar; que os agentes políticos devem atuar diretamente em busca de manter e ampliar todas as formas de participação nos aspectos decisórios da sociedade em que vivem.  Ação Direta, aliás, é o nome que adotam várias organizações anarquistas pelo mundo afora.

Diz-nos Malatesta em seus “Escritos Revolucionários” que “Se quiséssemos substituir um governo por outro, isto é, impor nossa vontade aos outros, bastaria, para isso, adquirir a força material indispensável para abater os opressores e colocarmo-nos em seu lugar *.  Mas, ao contrário, queremos a Anarquia, isto é, uma sociedade fundada sobre o livre e voluntário acordo, na qual ninguém possa impor sua vontade a outrem, onde todos possam fazer como bem entenderem e concorrer voluntariamente para o bem-estar geral. Seu triunfo só poderá ser definitivo quando universalmente os homens não mais quiserem ser comandados ou comandar outras pessoas e tiverem compreendido as vantagens da solidariedade para saber organizar um sistema social no qual não mais haverá qualquer marca de violência ou coação”.

A atividade do anarquista, do socialista utópico (em sua sublime acepção de conquista da Esperança possível) não é violenta nem repentina, mas gradual, pedagógica, passo a passo.

“Não se trata de chegar à anarquia hoje, amanhã ou em dez séculos, mas caminhar seguramente  rumo à anarquia hoje, amanhã e sempre. A anarquia  é a abolição do roubo e da opressão do homem pelo homem, quer dizer, abolição da propriedade privada dos meios materiais e espirituais de produção e do governo formal; a  anarquia é a destruição da miséria, da superstição e do ódio entre as pessoas. Portanto, cada golpe desferido nas instituições da propriedade privada dos meios de produção e do governo é um passo rumo à anarquia. Cada mentira desvelada, cada parcela de atividade humana subtraída ao controle da autoridade, cada esforço tendendo a elevar a  consciência popular e a aumentar o espírito de solidariedade e de iniciativa, assim com a igualar as condições é um passo a mais rumo à anarquia.”

Os surrealistas, que há anos estão unidos aos anarquistas afirmam ainda que cada vez que um casal se une e sua união não é uma fancaria, mas a autêntica expressão do verdadeiro amor entre duas pessoas que se completam plenamente, ocorre mais um abalo no que chamam de “gigantesca caserna” em que se tornou a sociedade industrial. “O ocidente é um acidente!” denuncia Roger Garaudy em “Apelo aos Vivos” com a autoridade de quem sempre esteve nos pontos mais avançados de defesa política e filosófica do que promove o humano no mundo.

Seguindo com Malatesta: “Não podemos, de pronto, destruir o governo existente, talvez não possamos amanhã impedir que sobre as ruínas do atual governo um outro surja: mas isto não nos impede hoje, assim como não nos impedirá amanhã, de combater não importa que governo, recusando-nos a submetermos à lei sempre que isto seja contrário aos nossos imperativos de consciência. Toda a vez que a autoridade é enfraquecida, toda a vez que uma grande parcela de liberdade é conquistada e não mendigada, é um progresso rumo à anarquia. Da mesma forma, também é um progresso toda a vez que consideramos o governo como um inimigo com o qual nunca se deve fazer trégua, depois de nos termos convencido que a diminuição dos males por ele engendrados só é possível pela redução de suas atribuições e de sua força, não pelo aumento no número de governantes ou pelo fato de serem eles eleitos pelos governados. E por governo entendemos todo o indivíduo ou grupo de indivíduos, no Estado, Conselhos etc que tenha o direito de fazer impor leis injustas sobre quem com elas não concorda”.

Contundente e radical, repita-se, Malatesta e toda a tradição anarquista que lhe segue proporá a chegada a um governo auto-gestionário, do qual todos possam participar livremente. Um sistema auto-gestionário que possibilite participar livre e alegremente de todo o processo decisório e de execução do que terá sido decidido coletivamente, para que se chegue ao maior aperfeiçoamento social promotor do humano no mundo. Toda a vitória, por menor que seja, dos trabalhadores sobre as classes patronais, todo o esforço contra a exploração do homem pelo homem, toda a parcela de riqueza subtraída aos proprietários e posta à disposição daqueles que a geraram, toda a união amorosa plena entre duas pessoas que se amam intensa e sinceramente, tudo o que se fizer para melhorar as condições existenciais da maioria enfim, será mais um progresso, mais um passo  rumo à anarquia, “este sonho de justiça e de amor entre os homens...”

 

 

A nossa meta

 

 

Onde, a que situação almejamos chegar, afinal? Parte-se aqui do princípio de que, quando se sabe para onde, chegar lá fica mais fácil, mais simples. Quando não se sabe sequer para onde, como se haveria de chegar a algum ponto?

Resumindo, e estou tão no meu direito quando apresento o resumo no início quanto Proudhon o estava ao afirmar: “Se a escravidão é o assassinato, a propriedade é o roubo!” Resumindo portanto, posso dizer que é a um ponto em que o aprimoramento humano, a cooperação esteja acima da competitividade. Utopia possível e concreta de que encontramos exemplos raros e episódicos em comunidades tribais.

Suspender esta corrida de lobos em que estamos envolvidos, na qual os melhor-sucedidos são em geral aqueles que menos contribuem para o aprimoramento da coletividade.

Fruto do pensamento iluminista francês, a idéia de que não se tem ação revolucionária sem teoria revolucionária, os burgueses em 1789, ao desbancar com a nobreza, tinham por meta atingir “Igualdade, Liberdade e Fraternidade”. Passados pouco mais de 200 anos, que resultado encontramos? Liberdade somente para os mais poderosos - ainda assim restrita, há que se manter a classe trabalhadora sob constante vigilância - Igualdade jurídico-formal capenga, na prática inexistente. Destino pior teve a Fraternidade...

Que os seres humanos vivam como numa grande família, com amor ao próximo, praticando seu trabalho como atividade lúdica, não mais como alienação, considerações como estas, tidas por inexeqüíveis na prática, tratam-nas em geral como sandices ou absurdidades.

O socialismo científico de Marx e Engels conduziu às maiores conquistas sociais da história, difícil negá-lo. Mas inegável mesmo é que existem muitas outras conquistas a atingir, que ultrapassam os limites estritos e estreitos da ciência, mesmo da mais avançada ciência social comprometida com a causa popular.

A Razão humana tem os seus limites traçados e a ciência, fruto desta (Razão), também é limitada. Felizmente os seres humanos somos dotados não apenas de razão, mas também de criatividade, de Imaginação, de capacidade onírica, de fé...

Há quem diga que o socialismo científico teria logrado ser bem-sucedido até certo ponto, enquanto que o socialismo utópico não o tenha, precisamente por ser aquele mais condizente que este último com a realidade econômica e social vigente, o que tolda e limita a atuação política possível àquilo que seja prático ou pragmático. Penso que aqui resida uma das explicações possíveis para as dificuldades pelas quais vimos o socialismo científico passar onde teve ele o parco sucesso histórico que se conhece.

Descredenciar a Utopia ou a ação do socialismo utópico como “algo baseado num racionalismo sentimental e ético, muito bonito do ponto de vista humanístico mas inviável na prática”, como queriam os cientificistas, é banir do cenário justamente o que move o homem a agir no mundo. Jamais se agiu multitudinariamente para atingir conquistas pragmáticas como o pagamento do aluguel ou a baixa no preço do queijo, as multidões somente são levadas a agir se acreditam com todo o seu coração estar atuando em prol da verdade, da justiça, de algo muito maior que cada um, se acreditam estar atuando na direção da conquista do que se julgou mesmo impossível em outros tempos.

Dada a “lógica” que perpassa a maioria dos corações e mentes do nosso tempo, agir com base no que é “econômica e socialmente viável” do ponto de vista científico é proposta excessivamente tímida, dada a crueza da realidade sócio-econômica atualmente colocada.

Resgatando o pensamento dos socialistas utópicos, pelo menos até que a nossa caríssima ciência consiga dar novo “salto qualitativo”, é imperativo manter em vista as metas a serem atingidas, sob pena de nos perdermos pelo caminho.

Chegar ao reino da abundância, da fartura, da prosperidade, da vida saudável e fraterna entre todos os homens, todos, sem exceção, parece hoje algo de mítico a inatingível na prática. Mas não foram assim consideradas as idéias e pensamentos dos autores de ficção científica em outros tempos? Se hoje a realidade tecnológica do mundo ultrapassa a imaginação de alguns autores de tempos consideravelmente recentes, como Júlio Verne, por exemplo, não é inimaginável o que alguns autores de ficção ou literatura política antecipadora (como Platão, Moore, Campanella, Huxley etc), dignos todos de muita consideração para esta perspectiva, claro, venham a ser considerados futuramente como pessoas de alguma visão, mas estou seguro de que a realidade da sociedade futura superará em muito estes pensadores.

 

 

O Homem é um animal político

 

 

 

            Em diversos momentos na vida encontrei pessoas a deplorar a atividade política, formal ou informal (através de Organizações Não Governamentais, por exemplo). A estas gostaria de trazer uma breve reflexão poética de Bertolt Brecht, acerca do "Analfabeto Político". Poema bastante conhecido mas freqüentemente esquecido por aqueles que anseiam por omitir-se de qualquer atividade maior, multitudinária, quiçá por julgá-la desnecessária ou desprezível ao seu cotidiano. Será? Vamos ao que diz o grande dramaturgo:

 

 

"O pior analfabeto

é o analfabeto político.

Ele não ouve, não fala, não participa

dos acontecimentos políticos.

Ele não sabe que o custo de vida,

o preço do feijão, do peixe, da farinha,

do aluguel, do sapato, do remédio

depende das decisões políticas.

O analfabeto político é tão burro

que se orgulha e estufa o peito

dizendo que odeia a política.

Não sabe o imbecil

que da sua ignorância política

nascem a prostituta, o menor abandonado,

o assaltante e o pior de todos os bandidos,

que é o político vigarista, pilantra, corrupto

e lacaio das empresas nacionais e

multinacionais."

 

 

 

            Quando percebemos que este belo e elucidativo poema foi escrito décadas antes da ascensão da dupla Collor de Mello e PC Farias ao poder político no Brasil e constatamos terem sido os escritos de Brecht elaborados em outras paragens e contextos históricos, percebemos estar frente-a-frente com algo de muito mais grandioso. Maior atenção para com a política formal e mesmo informal dificultaria a ascensão a poderes maiores de gente dilapidadora do patrimônio público.

            Alegar ignorância política ou pretender-se "apolítico" é o mesmo que assinar a si mesmo um atestado de incompetência para a cidadania. 

 

Um piquenique nas bordas de um vulcão

 

É literalmente assim que se sente qualquer profissional de qualquer ramo no mundo contemporâneo, como alguém que faz um piquenique nas bordas de um vulcão. Não é escolha que ninguém em sã consciência faria uma escolha dessas! É antes uma fatalidade que se abateu sobre nós e está demorando muito a nos deixar em paz.

As coisas podem estar dando uma aparência de sossego e amenidades, podemos até mesmo sentir uma vaga sensação de segurança, pelo menos até que as labaredas se ergam lambendo todo o entorno impedindo qualquer tipo de argumentação lógica. No cotidiano, aliás, sente-se que a lógica, o bom-senso e até as medidas sanitárias humanas mais básicas perdem vez para uma racionalidade impessoal, desumana, característica do tempo do Capital. Momento que põe em risco os valores democráticos para todo o povo, momento que, ora aprofunda ora despreza todos os valores dos avanços iluministas. Instantes há em que seres que se dizem humanos são capazes mesmo de eliminar todos os valores que não sejam os seus.

 

Da democracia

 

 

Toda a convivência democrática supõe dar voz e vez a todos igualmente, em particular àquele que pensa de maneira diferente.  A questão que se coloca aos brasileiros é uma tremenda manobra das elites para perpetuar-se no poder. Têm-no conseguido com a ajuda do modelo democrático mesmo, dele só se despedindo em situações-limite, quando a repressão informa ser a de mocracia brasileira uma magnânima concessão das elites, desde que a massa saiba manter os mesmos onde estão, sem grandes traumas ou modificações substanciais.

Por exemplo: pouco antes de sua passagem pela transição, meu pai deixou com minha mãe um lenço e um par de luvas brancas com as recomendações de praxe: iluminismo ativo! Em pouco tempo percebe ela que aquelas recomendações estavam circunscritas espacial e temporalmente àqueles que chegaram a, de alguma maneira, travar contato com o grande e benemérito dr. Hely Chaves; a geração subsequente em locais outros, simplesmente faz ouvidos moucos ao que ele representou em seu tempo ou ao lidar com o seu legado humano: iluminismo passivo ou destrutivo!

Do Iluminismo

 

Segundo Max Horkheimer, a meta do iluminismo é aquela de libertar os homens do medo e fazer deles senhores. Cada vez que algo mais humano ou humanista volta-se a tornar os homens mais livres, vemos um avanço do pensar humanista do iluminismo ativo. A todo o instante em que se percebe coisas como propriedade ou mesquinhos interesses mercadológicos dos donos dos meios materiais ou espirituais de produção a manipular os seres humanos ao seu talante, transformando-os em coisas, objetificando-os, percebemos um grave, um severo retrocesso no pensamento humanista do Iluminismo: o medo e a conseqüente obediência cega transformando até os senhores em escravos, o inverso do que pretendia o pensamento iluminista mais puro.

Iluminismo e democracia 

Deve ter sido dolorosamente brutal a pessoas do quilate de Fromm, Marcuse, Reich, Benjamin ou Zweig ver e vivenciar a ascensão do autoritarismo na Europa durante a década de 30 deste século que se finda.

O mais chato é que muitos dos sobreviventes daquele período negro da história humana, informam perceber grandes similitudes com a situação atual: maior liberdade para o Capital que para seres humanos, a recessão tão brutal que o movimento operário sofre uma paralisia, dá-se muito maior valor à coisa morta, à posse de bens materiais que propriamente à vida...

Faltam alguns signos e, graças a Deus a história comprova que, em todo e qualquer instante ou momento político, não basta apenas “preencher lacunas”.  Ansiamos pelo contrário, mas se o povo, em sua maioria, não encontrar um caminho solidamente estruturado e lúcido teremos de assistir e vivenciar impotentes a ascensão e perpetuação das práticas mais autoritárias contra o humano, democratizando o Capital.

Mas é necessário deixar bem claro que quando as elites sentem-se seguras, mantém o encaminhamento político democrático. Quando o movimento popular se torna um “problema”, o usual é que as elites conclamem à ação o autoritarismo em sua vertente clássica, ou seja, a “Questão Social” ora é encaminhada como “caso de política”, ora reprimida como “caso de polícia”, como nos assevera Gisálio Cerqueira Filho em A “Questão Social” no Brasil, Civilização Brasileira, 1982

Possa o Senhor do Universo permitir que tudo se encaminhe democraticamente em direção do bem-estar e da felicidade da maioria!

 

 

Dilemas

 

 

 

“Em mim combatem o entusiasmo pelas macieiras em flor e o horror pelos discursos do pintor de brocha gorda. Mas só este último me impulsiona a escrever”  Bertolt Brecht

  

“Homens que nascem sob o jugo, que são criados na servidão, tornam-se incapazes de olhar para lá dela, limitam-se a viver tal como nasceram, jamais conseguem pensar em ter outro bem que não aquele encontrado ao nascer. Aceitam como natural o estado encontrado ao nascer.” Etienne de La Boétie

 

 

Parto aqui do princípio de que não é porque vivemos numa sociedade tão tristemente distanciada do Ideal - com direito a repressão brutal de qualquer tentativa auto-gestionária com chances ainda que irrisórias de êxito, como em Canudos, Palmares ou Colônia Cecília entre diversos outros - terceiro-mundista, cruel; não é por vivermos numa sociedade na qual imaginar uma justa e equânime distribuição de rendas, da riqueza por todos produzida e por poucos apropriada, enfim, já é considerado “pensamento subversivo” que nos devemos ater a trabalhar apenas pelo “menor dos males”; devemos, antes e sobretudo, lutar e trabalhar alegremente pela conquista da felicidade positiva, que a mais avançada Filosofia da Esperança chama, com justa razão de Summum Bonum, o bem supremo. Conseguí-lo será tarefa - e isso caso haja vontade política daqueles que detêm o poder decisório - para as gerações futuras. A nossa, a seguirem as coisa como estão, terá como recompensa, na melhor das hipóteses, o ver apenas um mundo um pouco melhor nas mãos dos nossos herdeiros, assim sendo sucessivamente.

Luta-se internacionalmente hoje, nem mais nem menos, pela cessação das hostilidades entre as pessoas, pela implantação de uma autêntica “aldeia global”, como nos dizia McLuhan. Isto só é possível se conseguirmos a substituição da hegemonia do caráter sado-masoquista (ou mesmo obsessivo-compulsivo) pelo caráter auto-regulado, generoso, capaz de efetivamente amar e ser amado. Quando, num dia, todos acordarem dizendo com convicção: “E eu, que vou fazer hoje para que o mundo se torne mais justo e mais belo?” estaremos bem próximos de chegar à meta aqui brevemente exposta.

Vamos examinar dois fatos, um conjuntural, relativamente recente, e outro que vai se tornando uma coisa institucionalizada mesmo. São daquelas coisas que abalam nossa alegria, nossa fé no humano de maneira geral.

Uma Casa de Detenção e uma Rede Global de telealienação jogam sem o menor pundonor nem compaixão baldes de água gelada em nosso entusiasmo, em nosso calor mas, de novo, não é por isso que devemos jogar fora nosso otimismo, nossa sacrossanta Esperança.

111. Números oficiais. Em 1992, 111 seres humanos encarcerados em condições subumanas foram friamente assassinados, sem qualquer justificativa possível. Compreender, até que é possível: ainda persiste o ódio nas relações sociais e o cristianismo é, quando muito, vaga consideração intelectual voltada a um mundo distante desta vida concreta que vivemos, o que seguramente deixa o Cristo muito triste. Após crucificarem-no, assassinam a parte mais importante e bonita da sua mensagem: o amor ao próximo. Digo isto pois li estatísticas informando que algumas pessoas consideram-se cristãs e justificam aquela carnificina: “Que fizeram aqueles homens para que estivessem presos?”- interrogam alguns muito pouco dispostos, em verdade, a ouvir respostas sensatas ou concretas; mais preocupadas estão, isso sim, em justificar através de muito ódio o que compreendem como “paz” para suas consciências.

Alguns daqueles presidiários haviam cometido crimes considerados hediondos segundo a terminologia jurídica clássica. A maioria (cerca de 80% dos assassinados) cometeu crimes  considerados “leves” e há a suspeita de haver dentre os mortos pelo menos uma dezena de inocentes que para ali foram parar por equívocos os mais diversos que nosso país é cheio destas coisas...

O caso é o seguinte: prega-se o rótulo de “criminoso” num cidadão socialmente incômodo, encerra-se o dito cujo em cárcere em condições ainda menos que sórdidas e tenta-se não pensar mais no assunto. Não ler. Não ver. Não ouvir falar sobre isto e, ao ouvir, falar rispidamente para que se possa, comodamente, ingressar num tema mais ameno. Quando, numa nação, se admite que homens fardados, defensores da lei e da ordem por definição, cometam delitos desta gravidade impunemente - não raro com o aplauso de muitos! - algo vai muito mal e é preciso corrigir esta discrepância!

O caso da Globo é um poucochinho mais complexo; é de tirar o chapéu mesmo: “Criança Esperança”. Que campanha bonita. Quanta competência. Que beleza plástica. Uma incrível catarse coletiva a todas as consciências. Todos, pelo menos uma vez por ano preocupados com o morticínio cruel e covarde que se perpetra - não apenas às escâncaras, como no caso em estudo, mas também surdamente - em nosso país: mais de mil crianças são assassinadas por dia de formas as mais variadas em nosso Brasil, custa-nos a admiti-lo, não é apenas a violência policial ou paramilitar, é a violência pecaminosa, institucional, a maior responsável. Quem freqüenta grandes centros urbanos percebe com clareza: menores abandonados, carentes, miseráveis, famintos no 6º produtor mundial de alimentos (alimentos que, dada a racionalidade mercadológica do sistema como um todo, vão para as barrigas privilegiadas de animais europeus, uma vez seus proprietários serem capazes de pagar preço melhor pelo alimento que produzimos do que nossas crianças - falar nisso, que chefe de família deixaria de alimentar os seus para vender comida de casa a seres que pagam melhor que os seus pelos gêneros alimentícios em geral?)

A Rede Globo de rádio, jornal e televisão é uma das mais ricas empresas do Globo Terrestre. Uma das maiores beneficiárias, portanto, do sistema concentracionista de rendas que possibilita o surgimento da miséria que conclama, uma vez por ano e de maneira cada vez mais sofisticada, tão crescente quanto a miséria que ajuda a disseminar, a que as pessoas se sensibilizem e dêem combate a toda esta tragédia humana através da esmola, da caridade, se não como solução, pelo menos como paliativo. E aí, não fazemos nada?

Simplesmente não há como perceber de perto tanta degradação humana e ficar de braços cruzados. Pelo menos um pouquinho, só um telefonema, vá lá...  Depois mudamos de assunto ou de canal, tentamos pensar em outra coisa e abandonar estas questões incômodas até o próximo ano, quando serão novamente apresentadas em meio a muita festa, alegria e riqueza.

Não há como posicionar-se contrariamente à iniciativa da Globo em aliança com a UNICEF, não dá. Algo tem de ser feito, ainda que modesto e pouco ou nada pretensioso.

Mas o que mais dói é ver a utilização política que se faz da desgraça alheia para a perpetuação do sistema tal qual é: enquanto se dramatiza a situação, com lágrimas sinceras e emocionadas e tudo, fatura-se ainda mais em comerciais. A genialidade do sistema deixa-nos estarrecidos. Fica registrado apenas o grande respeito por todos os que abrem seus corações e suas carteiras naquelas campanhas (supondo, claro, que os recursos tenham a destinação prevista - o contrário seria ainda mais hediondo!) contribuem um pouquinho para minorar o sofrimento de tantos. O protesto veemente contra a utilização da hecatombe justamente para - amenizando-a inocuamente - preservá-la. E a perplexidade de estar “emparedado” num paradoxo aparentemente insolúvel: apoiar criticamente que seja a iniciativa da Globo só tende a manter os níveis da catástrofe - e sei lá se tanto; o programa anual “Criança Esperança” está cada ano mais rico e mais bonito e nossas crianças cada ano em maior número mais miseráveis e desesperadas... - apoiar esta iniciativa, criticamente que seja, é fortalecer o próprio sistema que provoca este mal. Não apoiar a iniciativa é algo tão antipático que fica até esquisito cogitar... Que fazer?

Pensemos, de maneira cosmopolita, no que o que há de mais avançado no mundo da cultura está ocupado em fazer: encontrar meios que possibilitem a cessação total das hostilidades entre os seres humanos. Chega de destruição. Temos de construir!

 

 

 

O Bem e o Mal na alegria dos pobres

 

 

“Sem a alegria, a humanidade não compreende a simpatia

nem o amor” Ramalho Ortigão

 

 

Freqüentemente lemos ou ouvimos críticas severas, às vezes mesmo de publicações ditas esquerdistas, acerca da alegria que muitas vezes perpassa os movimentos populares. Temos os  pobres motivo para tanta alegria e festa? Celebramos alguma coisa?

Todo o bom cristão sabe que “o mundo jaz no maligno”. Identificando a origem deste mal que nos oprime e sufoca no mundo encontramos uma estrutura social que bem merece o epíteto de satânica, na qual a felicidade de uns poucos assenta-se na desgraça da maioria. O combate sem tréguas a esta estrutura perversa, chamada em outros tempos de escravismo, a seguir de feudalismo, hoje de capitalismo (ou capetalismo, como preferem alguns puristas), a luta contra a exploração do homem pelo homem, faz parte do combate ao Mal no mundo.

O Mal se compraz sugando a vida das pessoas de bem. O Mal consegue transformar o trabalho, atividade humana fundamental, num processo maçante, massacrante e alienante, no qual se gastam muitas horas por dia em troca de salários pífios, que mal são suficientes à sobrevivência. E os trabalhadores, responsáveis maiores pela enorme geração de riquezas, são justamente aqueles que dela menos usufruem. É justo que haja espanto se, mesmo assim nós, trabalhadores do espírito, operários do saber, encontramos motivo para alegria e festa. Não está, seguramente, nos planos do Mal, proporcionar ou permitir a alegria dos pobres. É um tipo de alegria que não tem preço, não se pode comprar, é natural, genuína, espontânea, visceral, inacessível, incompreensível até, ao Capital...

A grande satisfação que o Mal encontra na tristeza, pode ser comparada ao “renascimento” dos vírus. Como se sabe, os vírus têm formas de cessar praticamente toda a sua atividade vital até que encontrem meio propício à sua perniciosa existência. Uma vez instalado, a satisfação dos vírus é a infelicidade, a doença para o ser que os carrega. Se amamos a Vida como a conhecemos, devemos ser inimigos radicais, inconciliáveis mesmo dos vírus, da tristeza, do Mal. A alegria é subversiva, mata o Mal até de raiva!

Podemos constatar o quão fundo o Mal penetrou nos corações e mentes das pessoas vendo a arrogância dos poderosos, o mais das vezes incapazes de tolerar qualquer demonstração de espontaneidade ou liberdade por parte dos mais fracos. Quem nunca teve de lidar com um destes crápulas na posição de chefe, patrão, superior hierárquico, enfim, sempre a fazer questão de coibir qualquer demonstração, por mais tímida que seja, de espontaneidade por parte daqueles que lhe estão de alguma forma subordinados?

Alguns acusadores, quase sempre refugiados em roupas sóbrias, muito medrosos por dentro e arrogantes por fora, certamente com problemas intestinais severos (e de onde crê o leitor vir a expressão “pessoa de maus bofes”?) acreditam que toda a atividade política deveria se dar em clima de velório...

Não vamos, definitivamente, nos enfiar depressivamente em climas fúnebres somente para satisfazer a arrogância de quem não consegue entender que é com e pela alegria que se defendem as causas mais justas, nobres e corretas. Queremos “vida, e vida em abundância!”

“Tomamos o céu de assalto!” cantavam felizes os communards parisienses em 1871, até que representantes do Mal, em mais uma de suas vitórias provisórias - que a história é cheia destas idas e vindas, destes avanços e recuos - reprimiram brutalmente aquela “ousadia”.

Que ninguém mais se espante se lutamos alegremente pelo que é Justo, Bom e Correto sempre com muita alegria. O aumento da alegria dos participantes de nossas lutas é um claro indicio de que a vitória do Bem não é apenas inevitável como está muito próxima!

 

 

Que o Brasil se torne uma gra