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Caminhos da Redenção
Lázaro Curvêlo Chaves
Introdução
Há discussões bastante sérias nos meios acadêmicos e
mesmo religiosos sobre se os homens fazemos a nossa própria história ou se
somos meros atores (como marionetes) de uma peça cujo enredo desconhecemos.
Há consenso num ponto pelo menos: Cada indivíduo sozinho é responsável pela
sua própria história. Raramente a escreve. Aqui está uma tentativa de
escrever em modulações variadas a história de que tenho sido protagonista
até os dias de hoje.
Apresento ao leitor uma miscelânea de contos, crônicas, poesias e ensaios
breves, seguindo um ordenamento que julguei o mais adequado para tanto.
Ocorreu-me de trabalhar com certa temática mais séria a que dei
prosseguimento ou ilustração através de um conto ou poema num determinado
momento, ocorrendo o oposto em outro, poesia ou conto ilustrado por tema
consideravelmente sério. Encontrará aqui também contos dentro de contos,
além de redundâncias as mais diversas que se explicam pela dificuldade de
comunicação usualmente encontrada. Algo que almejava ver bem compreendido é
apresentado de diversas maneiras e reiteradamente.
Normas de etiqueta erudita sugeririam informar onde está o ficcional e onde
começam os relatos verídicos. Na prática, uma dificuldade, algumas passagens
de minha própria experiência existencial são melhor compreendidas quando em
formato de conto ou crônica, o real, por outro lado, por vezes supera em
muito as imaginações mais delirantes, o que faz os relatos mais objetivos
parecerem coisa mesmo da esfera do ficcional.
Dizem que aquele que transmite uma mensagem deixa de ser dono dela, cabendo
aos interpretadores ultrapassar os limites de consciência possível do autor.
Que assim seja, então.
Ao final da coletânea - ou deveria enfatizar, miscelânea - arrolo a
bibliografia que consultei tanto para elaborá-la quanto para inspirar-me.
Possivelmente haja cometido alguma omissão, embora tivesse me esmerado muito
no cuidado com relação a este ponto. Rogo, portanto, àquele que acompanhar a
leitura, que seja compreensivo e mesmo compassivo para com eventuais
omissões se, apesar de todo o cuidado, não pude localizar a fonte de onde
extraí alguns dados ou expressões peculiares.
Aforismos da modernidade
Nem tudo o que causa escândalo é verdade,
radical, mas o que não causa escândalo algum neste mundo de falsidades e
hipocrisias é, obrigatoriamente, mentira!
Deixa tua LUZ brilhar mais que as trevas que
te cercam!
Se tens traçada uma meta, um ideal, se
sabes, enfim para onde vais, ainda que seja difícil, hás de conseguí-lo. Se
não sabes sequer para onde, como hás de chegar a qualquer ponto?
Ó povo estúpido que conservas o que precisa
ser renovado e vives a renovar o que se deveria conservar, quando tereis
juízo?
O capital se alimenta de mediocridade. Os
que não blefam, os que não se curvam ao bezerro de ouro chamado Mammon, os
crítico-libertários, enfim, são considerados, via de regra, bestas obscuras,
quando não mentalmente nefandos.
A maioria pediu que soltasse Barrabás, a
maioria apoiou a ditadura hitlerista na Alemanha, a maioria delirou com
Stálin na então União Soviética, a maioria acredita em seus governantes. A
maioria, em síntese, nunca tem razão!
Há muito de suspeito naquilo que todos
dizem. Em geral, onde está o excesso de concordância acrítica, está também a
falta de inteligência, o comportamento bovino ou como dizia o grande
tricolor Nelson Rodrigues, “toda a unanimidade é burra!”
Quando os pequenos se unem no ideal de uma
vida mais cômoda - e são maioria - fica muito difícil trabalhar em prol da
grandeza e dos grandes ideais, pois os mesquinhos tudo farão para não deixar
seu pequeno mundo. Pequeno, mas confortável.
“Cambalache”, esta gíria portenha dá bem
idéia de como estão as coisas hoje em dia. Tudo fora do lugar, tudo de
cabeça para baixo. Os loucos acusando os humanistas de “loucura”, isso
quando ocorre de não tomarem a direção do hospício.
Toda e qualquer pessoa ou instituição que
prospere (“enriqueça” ou coisa que o valha) dentro dos marcos do atual
modelo econômico e social vigente, faz mais que reificá-lo: insere-se
decidida e resolutamente em sua defesa na prática, mesmo que o critique na
teoria.
Entre a mão tácita do amor jovem e a mão
jovem do amor tácito.
Reforma agrária: Dai-me terras, sementes,
uma enxada, uma foice e um martelo: construirei assim a mais linda das
florestas de pão. E nela a minha casa, a minha felicidade, o meu amor...
As pessoas precisam, até para que possam
estruturar-se “bem” psiquicamente, estraçalhar com a reputação de quem
querem despedir-se. Não basta dizer “obrigado, adeus”. É preciso que
acreditem, com todas as fímbrias de seus seres que ‘tratava-se de um(a)
calhorda, já o sabia...’”
Objeções à ortodoxia freudiana:
1 - A “ajuda” psicanalítica visa, em última
instância, permitir ao “paciente” gozar do convívio social, por mais que a
organização social esteja insatisfatória. Mas se foi justamente a
(des)organização social vigente que o levou a precisar daquela “ajuda”...
Qualquer reformador social, poeta, profeta ou artista que se submeta a
qualquer forma de psicanálise estará “matando” justamente a sua fonte de
sabedoria, de inspiração, de... loucura mesmo!
2 - O psicanalista, através de um
sofisticadíssimo jogo de poder, trata-se a si mesmo, sentindo-se
incrivelmente bem se comparado ao lamuriento farrapo humano que se desmancha
sob o seu olhar de esfinge...
Bilhete aos stalinistas: acho que já deu
para perceber que não é expurgando, calando, coagindo ou assassinando
pessoas que se prova a veridicidade de um certo ponto de vista, ao
contrário! O caminho da verdade está em outra direção...
Morra o inferno. Faça-se o sonho!
Não mais fugas ou adiamentos! Se não eu,
quem? Se não agora, quando?
Caminhos da Redenção
Um breve diálogo
“Eis aí o triunfo da publicidade na
indústria cultural, a mimese compulsiva dos consumidores, pela qual se
identificam às mercadorias culturais que eles, ao mesmo tempo, decifram
muito bem.”
Adorno/Horkheimer
Tricotando em frente à
TV, Cláudia concentra-se em pelo menos três coisas ao mesmo tempo: como a
mocinha deve agir para, maquiavelicamente, capturar o arredio galã na
novela, quantos novelos de lã serão ainda gastos na elaboração do casaco que
lhe encomendou Ivã, um ex-namorado daqueles que não largam do pé e, fazendo
um paralelo com a novela, planeja a confecção de um pulôver para Francisco,
gesto tático que considera fundamental para conquistá-lo.
Neste momento chega à sua
casa Ivã, que se aboletara do Rio de Janeiro até lá somente «para ver como
estava andando o serviço de seu casaco». Não se vai do Rio a São João de
Meriti corriqueiramente por motivo tão banal, claro está. Cláudia sabe
que ele ainda nutre por ela algum sentimento mas, de sua parte, já nada mais
existe, afinal, em suas duras palavras ao término do namoro, «Ivã não passa
de um fracassado, que nem mesmo carro tem». De toda forma atende-o com
cortesia, como sempre faz; após três anos, briguinhas à parte, alguma
amizade remanesce...
Já chega sentenciando: _
Você está destruindo a mente com essa porcaria! Bota aí um bom filme do
Costa Gavras no videocassete ou ouça um CD do Pablo Milanés e manda o Sílvio
Santos catar coquinho!
Não dá, querido - ela
sempre utiliza esta expressão quando deseja alfinetá-lo - preciso terminar o
seu casaco e se puser um filme no vídeo, terei de ficar lendo legendas e aí
é que o serviço não anda mesmo; aliás, quem é Pablo Milanés? Aquele chato
que só sabe falar de revolução? Como foi um presente de despedida, até
tentei ouvir, mas concluí que só me deu para chatear, tenho outras
preocupações em mente para ficar pensando, como você, em salvar a
humanidade... Mas não se preocupe, não me deixo influenciar por estas
bobagens de televisão, não, é só um passatempo...
_ Passatempo perigoso - torpedeou! - essa
gente procura ensinar como é que se deve pensar, agir e até sentir! Depois
você internaliza todas estas bobagens e as põe em prática como se suas
fossem, só ajudando com isso a manter as coisas como são. Reificar esse
mundo fantasioso de novelas só serve aos interesses dos poderosos. Além
disso, eles embalam o espectador num sentimentalismo piegas para deixá-los
mais receptivos à porcariada que vendem nos intervalos, mesmo que você não o
perceba.
Não seja tão rabugento,
Ivã! Um dos motivos de vocês, que se dizem de esquerda, se darem tão mal em
política no Brasil é que só sabem criticar e reclamar de tudo, enquanto
estes, que você chama de poderosos - com nítida inveja, isso sim - se
apresentam lindos e maravilhosos, falando de sonhos, esperança, harmonia,
beleza, paz... E depois, por que não manter as coisas como estão? As chances
são iguais para todos e esse papo de revolução ou transformação é conversa
de perdedor. Se você não consegue ter aquilo de que precisa, busque os
motivos dentro de você mesmo e pare de, por pura inveja ou incapacidade,
viver querendo quebrar ou subverter tudo! _ Mãe! - dirige-se à pessoa
no cômodo contíguo - olha só o modelito da Thalia, que gracinha! Você
conhece aquele ponto?
“É mesmo difícil”,
fecha-se sorumbático Ivã, “ela não consegue enxergar a injustiça social a
que estamos todos submetidos e que impede terminantemente a prosperidade
econômica não a alguns, mas à maioria! Mas tem alguma razão quando critica
nossa rabugice; de fato temos sido incapazes de demonstrar o quanto agimos e
pensamos pelo bem da maioria, da verdadeira fraternidade entre todos quando
lutamos por abolir privilégios classistas, quando lutamos por justiça
social. Programas de televisão são, em geral, situados em shopping centers,
mansões, praias maravilhosas e o trabalhador médio só consegue compreender
disso tudo que, somente com o fruto de seu esforço laborativo nada
conquistará para si ou os seus, que jamais obterá um mínimo conforto
material (salvo raríssimas exceções que confirmam a regra geral) unicamente
trabalhando honestamente. Daí tantos jogos, tanta desumanidade. Se os “de
cima” agem de maneira desumana, aqueles que não conseguem altos lucros com
“maracutaias” passam a apelar para a ignorância, a ignorância a que foram
submetidos desde a infância... O sujeito vai aprendendo
que precisa “ser esperto”, “levar vantagem em tudo, certo?”, dar golpes,
enfim, como ensinam ad nauseam as novelas ou mesmo a atitude
complacente com que os sucessivos desgovernos deste país tem tratado alguns
canalhantropos verocidas. Só assim, convence-se o trabalhador ou
desempregado, só mesmo através de meios eticamente condenáveis, poderá ele
fugir do mundo falso da favela em que mora ou dos camelôs por que
passa todos os dias e conquistar o mundo real das mansões, carrões e
praias maravilhosas. Que devastação! Quantos cérebros mais não estão sendo
deseducados neste mesmo momento...”
Dona
Maria serve um autêntico cafezinho brasileiro que, embora de qualidade
inferior àquele que é exportado, dado seu esmero, fica saboroso. Todos
trocam mais algumas palavras e alfinetadas e Ivã se vai, meditando em seus
temas prediletos: “A Vida, o Amor e a Morte”. Na verdade, no ponto em que
hoje se encontra, Cláudia não é mais para ele que uma frágil ponte, através
da qual ainda mantém algum contato com o pensamento geral da gente comum do
povo brasileiro.
Uma
Pequena Cidade
“Que
saudades do meu escritório de folhas de zinco e sarrafos às margens do rio
Pardo...” Euclides da Cunha
O pai de Ivã, um obstinado Engenheiro Eletrônico que, à época do “milagre
econômico brasileiro” conseguira prosperar incrivelmente, chegando a ser,
ali por volta de 1971, um dos mais importantes empresários cariocas, foi
atingido simultaneamente pela glória e pelo câncer - a mais temível das
doenças da época - que, em dois anos, corroeu seu corpo, sua pequena fortuna
e arremessou sua família à órbita econômica do filho mais próspero, Malcon,
funcionário de um Banco em São José do Rio Pardo. Ivã, o mais velho dos
filhos, então com 15 anos, muito apegado ao pai, caiu financeiramente com
ele sendo arremessado no mercado informal de trabalho, passando a trabalhar
numa pequena gráfica clandestina, afeito que era às letras. Quantas e
quantas famílias por este Brasil afora sofreram e ainda sofrem até hoje as
causas da crise do tal “milagre”... Aquela família foi submetida à dor
suplementar da perda do seu chefe justamente no momento em que a inflação
retomava sua escalada temível.
São José do Rio Pardo é
uma beleza de cidade, com um povo simpático e amigo, 48 mil habitantes,
orgulhosa por ser ponto fulcral da gesta de uma das mais importantes Obras
da literatura científica mundial; chamam-na, em seu hino, com justeza “o
berço de Os Sertões”, pois foi às margens do rio Pardo entre 1898 e
1901 que o Imortal Euclides da Cunha deu forma final à sua Obra máxima.
Camponeses, com seu empenho e dedicação obstinada, são o principal esteio de
sustentação da enorme riqueza que circula na Região e faz dali um local
atípico em termos de Brasil. Tem como carros-fortes de sua economia a
cebola, uma das maiores unidades fabris da Nestlé do mundo e um sistema
elétrico privado há mais de um século funcionando excepcionalmente bem.
Cidade situada numa das
regiões mais férteis do globo terrestre, consta que seja uma das primeiras
do Brasil em número de automóveis por habitante e os rio-pardenses têm o
orgulho suplementar de serem pioneiros republicanos. Ananias Barbosa,
Francisco Glicério e um grupo de entusiastas da república anteciparam-se em
três meses ao Brasil, criando a “Cidade Livre do Rio Pardo” a 11 de agosto
de 1889. As forças monarquistas reprimiram brutalmente os republicanos mas,
quando a república se consolidou em novembro do mesmo ano, aquelas tiveram
de submeter-se aos revoltosos.
Ivã morou em São José por seis meses
contados. Após a morte do pai, tornou-se taciturno, amedrontado, um tanto
tímido, recluso aos livros mas transformava-se numa verdadeira “fera ferida”
quando agredido por alguma brincadeira de mal-gosto.
Durante o dia, numa
gráfica clandestina próxima à Igreja Matriz, elaborava material de
propaganda de lojas, panfletos apócrifos, coisas assim. Foi ali que começou
sua paixão pelo jornalismo, chegando até, mais tarde, a aproximar-se do
tradicional jornal “Cidade Livre”. Passou a nutrir amor cada vez maior pela
palavra escrita; lia muito. Os mais velhos, com quem tinha de disputar por
vezes posição no serviço, sempre o intimidavam mas, aprendendo a utilizar
cada vez melhor as técnicas e procedimentos práticos para a elaboração de
textos, cartões de visita, calendários, convites, anúncios, panfletos e até
cartas de amor conquistou o respeito de seus competidores e considerável
reconhecimento profissional; na mente de Ivã as alternativas eram: tornar-se
cada vez melhor ou sucumbir. Gostava de parafrasear Euclides neste ponto -
coisa muito comum em São José, aliás - que certa vez, em sério
pronunciamento na Academia Brasileira de Letras disse: “Ou progredimos ou
desaparecemos!”
À noite, estudava.
Obcecado pelo mesmo tipo de intimidação que sofria no trabalho, entre
colegas e professores percebia que a “regra” era a mesma e somente encontrou
refúgio e segurança nos livros. Sua capacidade intelectual, a partir daí,
começou a ser um tanto mais respeitada. Também naquela pequena escola, cujos
professores eram, em sua maioria, cristãos, Ivã era compelido
irresistivelmente a “ser o melhor”; só assim lograva conseguir respeito
frente a seus pares e superiores.
Nos fins-de-semana, as
missas na Matriz eram as principais atividades sociais da pauperizada
família de Ivã. Era daquele meio que teria de sair sua esposa, “uma jovem
cristã fervorosa, boa e honesta”, assim ensinavam os padres. E a Bíblia, a
“palavra de Deus”, “a verdade absoluta e incontestável”, tinha de ser
memorizada, pelo menos em alguns de seus trechos, considerados mais
relevantes.
Logo surgiu sua primeira
crise: o comportamento rapinante necessário no serviço, onde freqüentemente
é preciso mentir, passar a perna nos outros, e ser mau para sobreviver, algo
absolutamente incompatível com as propostas do humanismo cristão que, por
sua vez, era inaplicável na prática diária de relações com pessoas
“intimidantes”. Por outro lado, a aproximação mais estreita - porque
estudada com mais afinco - com as ciências, trazia uma série de dúvidas
quanto à existência de uma “verdade absoluta” e até mesmo a existência de um
Deus.
Uma crise com pelo menos
três orientações conflitantes uma prático-pragmática, uma cristã e uma
científica - conduziu Ivã a seu primeiro impasse na vida.
Após muito meditar, optou
pela ciência, passando a desprezar significativamente as considerações
teológicas mais afastadas da vida prática. Só muito tempo depois encontrou
as “pontes” que possibilitam a reconciliação entre a ciência social e a fé,
a partir de estudos propostos pela Teologia da Libertação.
Regresso
“Thalassa! Thalassa!” Xenofonte
Concluído o segundo grau
com especialização em eletrônica em Mococa, cidade vizinha a São José do Rio
Pardo, retorna Ivã a beira-mar, Rio de Janeiro, sua terra natal. Foi
contratado como técnico para a manutenção dos telefones internos do maior
hospital carioca. Ali trabalhava de dia, continuando seus estudos à noite,
agora aproximando-se da filosofia visitando, sempre que podia, a família e
seus muitos amigos rio-pardenses com quem conversava, em geral,
chamando sua atenção para a nova tendência humanista radical, cobrando dos
republicanos de agosto de 1889 o mesmo pioneirismo, só que agora na direção
do humanismo.
Apesar dos esforços dos
brasileiros mais patrióticos, abnegados, dedicados e éticos, em 1989 o povo
brasileiro elegeu um canalhantropo verocidate, via o verdadeiro humanismo na
proposta de seu opositor que chegou apenas perto do sucesso...
As propostas por melhoras
sociais no Brasil e no mundo devem ser aquelas oriundas da sensibilidade.
Ernesto Che Guevara dizia ser a sensibilidade o principal traço
caracterológico a ser buscado num governante. Textualmente: “Deixe-me dizer,
com o risco de parecer ridículo, que o verdadeiro revolucionário é guiado
por grandes sentimentos de amor. É impossível pensar num revolucionário
autêntico sem esta qualidade...” Nossa proposta, hoje, deve ser a de fazer
ver à população, a despeito do poder da mídia eletrônica no Brasil,
que só está capacitado para representar o povo (enquanto este não estiver
dotado de condições objetivas e subjetivas de gerir a si mesmo) aqueles que
são verdadeiramente sensíveis à dor humana de um país como o nosso, tão
prenhe de disparidades sócio-econômicas, de desigualdades e
injustiças.
Em meio a tais propostas,
particularmente voltadas a reacender a chama da sensibilidade nos corações
endurecidos das pessoas e, “de lambuja”, fazendo uma homenagem à sua amada,
escreveu Ivã um breve libelo pacifista em forma de conto, intitulado “Anjos
da Paz”;
Anjos da paz
“A grande maldição foi afastada. É no amor
humano reside a toda a força de regeneração do mundo!” André Breton
A idéia partiu de
Cláudia, uma jovem muito linda, com olhos de paraíso, cabelos de ouro e
trigo, transparente e inocente como um sonho. Perfeita “mulher-criança”
na mais elevada acepção bretoniana da expressão, forte em sua ternura,
nobre em seu amor, incapaz de compreender o ódio entre as pessoas, as
discriminações, as guerras... Lançou um “Manifesto às Mulheres do
Mundo”, conclamando-as todas a um movimento internacional pela paz
no mundo, baseado no Amor à Vida.
Assinado com
anagramático pseudônimo, dizia mais ou menos o seguinte:
“Minha irmã,
Nós, mulheres, somos
fonte de Vida. Em algum momento de nossa existência nosso corpo traz à
luz um novo ser humano que amamentamos e de que cuidamos até que possa
viver por seus próprios meios. Biologicamente dedicadas à geração e aos
cuidados com a Vida, temos o dever de fazer o que possível nos for para
deter este massacre planetário contra o humano, onde há guerras, fome,
violência, xenofobia, miséria, prostituição, toxicomania, enfim, vivemos
num mundo em total desequilíbrio.
Convoco-a, minha irmã,
a uma reunião na ONU o mais breve possível para discutirmos meios de
interromper estas oferendas profanas aos deuses do ódio, da destruição e
das guerras, levando-as ao Deus de Amor à Vida.
Ansiosa por sua resposta com sugestões e propostas sou,
TRILIASTAS”
O curioso manifesto,
enviado a todos os meios de comunicação oficiais e oficiosos do planeta, via
Internet em todos os idiomas, encontrou extraordinária repercussão. Assim
nasceu o contingente que mais tarde ficou conhecido como “Anjos da Paz”.
Após um trabalho absolutamente louco (se a “razão” conduzia os povos à
guerra, só mesmo através da “loucura” se poderiam encontrar formas de
libertação).
De todas as partes do
mundo chegavam voluntárias ao movimento erótico-lúdico-onírico-libertário
conclamado - e isto é o mais sublime - precisamente por uma jovem de coração
puro!
Inicialmente eram cerca
de 1.500 os “Anjos da Paz”, as jovens dispostas a, pelo Amor, anular
os poderes das nefandas divindades da guerra. A elas uniam-se contingentes
cada vez maiores e mais entusiásticos, corajosamente interpondo-se entre os
litigiosos, onde quer que houvesse ódio e destruição. Jovens
norte-americanas encontravam o amor de suas vidas entre bravos
iraquianos; belíssimas odaliscas mouriscas despiam seus véus e antecipavam
aos ocidentais a visão do paraíso, brancas beldades nórdicas uniam-se em
amor aos turcos outrora segregados em plena Alemanha, sensuais ashantis
africanas dissolviam o ódio dos corações neonazistas com o poderoso arsenal
de sua ternura, meigas e sorridentes gueixas orientais uniam-se em amor aos
chineses, bósnios e croatas, judias americanas desafiavam as leis de sua fé
e se uniam em amor aos palestinos, o mesmo acontecendo entre palestinas e
judeus. Pelo mundo todo, a festa do Amor pleno se realizava, sonho de
milênios. Franceses e alemãs, judias e jordanianos, líbias e italianos,
cubanos e norte-americanas, quantos casais felizes, quanto amor verdadeiro
compartilhado, quanta festa!
Em meio a tanto amor, a
tanta festa compartilhada, a horrenda divindade da guerra e suas correlatas
foram literalmente aniquiladas! Nesse instante as autoridades convocam uma
reunião internacional para discutir os termos da paz, dos novos rumos da
civilização mas.... que surpresa! Ninguém tem tempo ou disposição a prestar
atenção às autoridades... O Amor vence a guerra, o ódio, a intolerância, o
autoritarismo e tudo o que os gera. Nada mais natural, portanto, que felizes
casais apaixonados, deixem de prestar atenção às tais autoridades...
Espontaneamente, muito
mais eficazmente que se fosse combinado, muito mais eficazmente que se fosse
coisa decidida em “reuniões de gabinete”, todos passam a dedicar-se à
reconstrução da harmonia perdida.
Envergonhados do passado,
como crianças peraltas arrependidas de uma tola infantilidade, todos os
casais do mundo dedicam-se, com suas proles, a “derreter suas armas e delas
forjar arados”, como Isaías havia previsto; tanques de guerra são
convertidos em tratores para arar a terra - que passa a ser de todos, porque
é de Deus e Deus habita o coração de cada humano... - fábricas de armas
químicas são convertidas em fábricas de medicamentos, de implementos
agrícolas e alimentos; bombas, fuzis, metralhadoras, balas, minas, estátuas
de homens raivosos portando armamentos são fundidos e refundidos em símbolos
de Amor e Paz como cupidos, pombas... Na ONU uma das mais belas peças de
Rodin é reproduzida com material oriundo dos armamentos usados nas últimas
guerras e, numa placa de bronze sob a estátua de Rodin, O Beijo, fica a
inscrição: “Tributo aos ANJOS DA PAZ e sua iniciadora. Somente uma
mulher-criança, pura, sensível e inocente poderia liderar o processo de
redenção daquela época selvagem!”
Dos céus um coral de
anjos envia sua luz a todos os homens de boa vontade no mundo, muitos deles
já atuando em nosso meio há muito para auxiliar no restabelecimento da
Harmonia, da Fé, da Paz... Seria Claudinha um destes anjos?
Obstinação
“Não conto gozar a minha vida,
nem em gozá-la penso.
Só quero torná-la grande!
Inda que para isso
Sejam meu corpo e minha alma
A lenha deste fogo
Só quero torná-la de toda a humanidade!
Inda que para isso tenha de a perder
como minha.”
Fernando Pessoa
Na tênue linha entre a
busca de uma Companheira que o plenifique, o complete - que o ser humano
nasce radicalmente incompleto, “pela metade” nesta dimensão - e a luta pelo
aperfeiçoamento das Instituições Políticas Brasileiras, segue Ivã
batalhando.
Conversando com Cláudia,
ficou indignado com seu declarado “maquiavelismo”, voltado à conquista
de um ser humano rico, sem qualquer consideração de cunho ético, sequer com
relação ao Amor correspondido.
Imagina que o ser humano
recém nascido é como uma bolota frágil, constituída como que por um floco de
algodão (algo bom, cálido, macio). Logo ao nascer o bebê é submetido a um
tratamento particularmente cruel, para quem acaba de sair do universo
amniótico, começa a chorar vigorosamente em protesto e já inicia o processo
de construção de defesas contra as inevitáveis agressões do meio humano
hostil em que penetra, começa a construir suas couraças caracterológicas.
Com o correr dos anos, aquele pequeno floco de algodão se recobre de arame
farpado e vai se protegendo como pode. Em graus variados de sofisticação,
encontram-se aqueles que conseguem recobrir ainda suas proteções farpadas
com uma fina camada de espuma artificial (o chamado verniz social). Quem se
lhes aproxime, percebe a maciez da superfície. Se procuram penetrar um pouco
mais fundo em suas personalidades, encontram as pontas do arame farpado e só
muito amor humano pode fazer com que se suporte a dor da travessia das
farpas protetoras e se alcance o calor, a bondade e a maciez existente no
núcleo de todo o ser humano.
Esta visão,
exageradamente otimista do que se poderia chamar de “natureza humana”, torna
incompreensível a enorme satisfação que a maioria das pessoas encontra em
“jogar” umas com as outras, em provar que são mais espertas e capazes de
espetar mais fundo e melhor que alguns raros tolos incautos...
Mas será mesmo tão
absurdo assim imaginar um mundo em que as pessoas se pautem mais pela busca
do que de bom possa haver no homem do que na busca do mal? Haverá no mundo
um meio de superar esta ambigüidade, estas manobras e mesmo “táticas de
guerra” para conquistar seres humanos a fazer seja o que for por um preço?
Será que as pessoas estão todas à venda?
Em certa ocasião, Ivã
quase foi agredido fisicamente por chamar a todos os colegas que com ele
tomavam um chopinho a beira-mar de “prostitutos high-tech”; disse-lhes Ivã:
“_ O que nos diferencia no Modo de Produção Capitalista é que parte do corpo
vendemos a quem, por quanto tempo, que preço e para qual finalidade...” A
radical e profunda união com outrem, algo tão sublime, reconciliação
absoluta do ser humano com a Natureza, perda momentânea dos sentidos onde
não mais existe um «eu» ou um “tu”, mas um afirmativo e feliz “nós”, numa
concha protetora de inigualável felicidade e prazer, isto que a cultura
permite que prolonguemos nesta coisa maravilhosa a que damos o nome de Amor,
isto ser tratado como assunto comercial onde táticas de guerrilha são
freqüentemente usadas? Mas é mesmo irracional!
Com esta mentalidade,
desarranja-se mesmo, não apenas vidas de particulares, como a de toda a
Nação e até mesmo o equilíbrio do Planeta!
Em diálogos nem sempre
descontraídos com amigos no Rio e em São José do Rio Pardo, todos lhe
chamavam a atenção para o fato de “não prestar atenção à realidade da vida e
viver num mundo de sonhos e fantasias” - lindas, sem dúvida, mas
absolutamente utópicas. Eram praticamente unânimes em encurralá-lo para que,
entre outras coisas, interrompesse definitivamente sua militância política,
sob a alegação de que estaria, com isso, não apenas arriscando sua vida, mas
também a segurança dos que lhe são próximos. “_ Ou você se ilude que a
democracia brasileira já está preparada para suportar bem tais sandices?”.
“_ Sandices? Sandice é o que acontece no cotidiano, basta ler os jornais
diários ou dar um passeio pelo centro da cidade para que se o perceba!”
Incapazes, seus
interlocutores, salvo dois que, em silêncio tímido aparentavam aprovar o que
Ivã defendia, de compreender por que se obstinava ele tanto em estudar, a
ponto de consumir todo o seu fabuloso (sic) salário em livros, cursos,
palestras, círculos de estudos e coisas que tais, notando ainda os seus que
ele sempre ficava como que deslocado e ansioso quando era obrigado a
participar de alguma festinha ou recepção. Era praticamente intimado - até
pela família! - a consultar-se com um especialista. Diziam : “Olha, normal,
normal, você não é não!”
Tentando
contra-argumentar, por partes, ao que julgava uma montoeira eclética de
incompreensão e repressão, começava pela expressão realidade. A seu ver,
estamos todos imersos numa situação social injusta em grau superlativo mas,
criação humana que é, humanamente reversível também o é! A organização
social exige que todos os esforços possíveis e imagináveis sejam envidados
em prol da modificação de uma estrutura perversa, pela implantação de uma o
nova ordem social , mais justa, solidária, humana.
Está convencido de que o
mundo real não é este que pregam seus interlocutores (o dos shoppings,
mansões e carrões, acessíveis, como diz Eduardo Galeano, "a minorias mui
minoritárias"); este é apenas o mundo prático, aparente, resultante de uma
estrutura maior, injusta, irracional e carente de
transformação radical. Quando se mergulha intensamente apenas no mundo
prático, fica-se reduzido ao culto pagão da «religião do dia útil», torna-se
tributário e reificador pragmático do mundo tal qual é e consequentemente
incapaz de seguir lutando por modificações. Limitações à Consciência
Possível são assim estabelecidas.
_ E
por que é que você tem de modificar o mundo? Quem foi que te deu procuração
para isso? Não seria melhor você fazer como seus irmãos, que constituem
família, ganham seu dinheirinho honestamente e chegam mesmo a proporcionar
conforto aos mais chegados, particularmente suas famílias... Por que
insistir com essas idéias malucas de modificar o mundo? Não vê que as
pessoas não estão interessadas nesse tipo de coisa, ô «Madre Tereza»!
_ Para começo de conversa, não há quem modifique o mundo sozinho, embora
haja aqueles que se sacrificam e esforçam um pouco mais, dando até, no
limite, sua própria vida em prol das Causas por que lutavam. Vejamos os
exemplos de Jesus Cristo, Che Guevara, Mahatma Gandhi, Tiradentes , Camilo
Torres, e milhões de outros menos conhecidos mas não menos importantes. Em
segundo lugar, desejo muito mesmo construir um lar feliz, desde que para
isso não tenha de prostituir meus ideais mais caros! Finalmente, há mais
pessoas carentes, portanto ansiosas por mudanças do que se imagina e se não
perceberam isso ainda é por causa da hipnose coletiva a que a mídia os
submete todos os dias - o que tem de ser desmascarado pelo bem do progresso
humano.
_
Cristo, né Ivã? Será que você às vezes não se imagina também Napoleão
Bonaparte? Em outros tempos via-se nos hospícios gente estranha com um
chapéu ridículo na cabeça e a mão enfiada na camisa. É o que deseja para
você?
“Incompreensão, incompreensão e mais incompreensão” - retira-se sorumbático
Ivã a pensar – “eis o maior dos problemas com que se tem de lidar neste
mundo. E no entanto amo tanto a estas pessoas!”
O pior de tudo é que estas inevitáveis discussões despertavam alguma coisa
ruim dentro dele. O que tinha ele a apresentar de efetivo e visível às
pessoas? Um militante como milhares de outros, tinha lá algum traquejo com a
palavra escrita, mas nada digno de nota, nada que o notabilizasse. E seu
irmão, agora gerente de Banco, líder de um grupo católico carismático, chefe
de uma pequena família feliz, uma acusação viva á sua pretensa
irresponsabilidade, à sua suposta falta de maturidade, sendo Ivã já quase um
quarentão!
Teria chegado a hora de
sucumbir, de buscar o enriquecimento de alguma forma (uma de suas
idiossincrasias é estar persuadido de que ninguém no Brasil enriqueceu
através de meios 100% lícitos, particularmente do ponto de vista ético...) e
esquecer os graves problemas filosóficos, políticos, macroeconômicos e até
mesmo religiosos que têm afetado tanto as pessoas? Estaria enfim provada
cabal e definitivamente a incompetência catatônica de Ivã que, ao não
conseguir conforto e paz sequer para si, jamais poderia arrogar-se ao
direito de reivindicá-lo para toda a gente? Não... Por este critério
falacioso, Jesus Cristo não teria passado de um mendigo boquirroto e Gengis
Khan seria o protótiopo do sucesso!
“Não! Mil vezes não! Fico
com minha utopia e lembro que utopia é lugar que não existe,
AINDA, não um lugar ontologicamente inviável, desde que os seres humanos
assim o desejem. E dentro da utopia concreta, possível com que muitos
sonhamos, haverá finalmente Liberdade, Igualdade, Fraternidade entre os
homens. Posso ver os olhos brilhantes de amor à vida das Crianças do Futuro,
os sorrisos ternos e fraternos dos vizinhos que se ajudam, a expressão leve
e satisfeita de sinceridade e harmonia nos rostos das pessoas. Espero viver
para constatar na prática a efetivação deste quadro e é com enorme otimismo
esperançoso que vejo crescer o número de pessoas que se preocupam com a
preservação da Vida, com a realização final dos princípios básicos da
Revolução Francesa, ainda inatingidos ao cabo de dois séculos...”
Nossa América Latina,
espoliada e saqueada a quinhentos anos, ainda terá de fazer frente a muitos
sofrimentos, pois aqueles que amam o Mal, o Capital, os egoístas, os
individualistas e demais rapinantes ainda detêm o controle dos meios
materiais e espirituais de produção. Suplantá-los será muito difícil. União
é fundamental para tanto. O trabalho do humanista revolucionário é
ininterrupto, a menos que se alcancem os ideais almejados - já nos dizia o
Che - e deve ser praticado, acima de tudo, dia a dia, minuto a minuto,
pacientemente. Educando, batalhando, aprendendo, ensinando, trabalhando com
amor e dedicação, criando e, acima de tudo, amando! A enormidade da tarefa
não nos deve desanimar pois que nós, gigantesco exército de trabalhadores e
desempregados do mundo somos maioria. Cumpre rasgar o véu da reificação,
unificar propostas e ideais, pulverizar até as fundações a perversa e
pervertedora estrutura social vigente e começar a construir tudo, pedra por
pedra, tijolo por tijolo, letra por letra, aproveitando dialeticamente tudo
o que de bom o cérebro humano já engendrou ao longo de sua história em prol
da Vida. Conservar o que está funcionando bem - há poucas coisas
nestas condições, mas cumpre preservá-las em prol do humano - e destruir até
a raiz tudo o que esteja atravancando a harmonia, a paz , o bem-estar e a
felicidade humanas para que possamos, limpo o terreno iniciar nossa
construção humanista.
Não podemos perder, pois
o que há de mais elevado, sublime e nobre em termos de propostas
ético-humanistas estão do nosso lado. VENCEREMOS!
Sonho com novas harmonias
“Unir a mais firme resistência ao mal com a
maior benevolência para com o malfeitor. Não existe outro modo de purificar
o mundo.” Mahatma Gandhi
Ocorre por vezes de
alguns de nossos irmãos cristãos nos condenarem - por inveja, fraqueza de
caráter ou alguma outra forma de prisão a aspectos tristemente baixos de
nossa existência - até o fundo de nossas existências, numa ou noutra forma
de prisão destas que pululam no mundo contemporâneo.
Pensando nisto e revisando um trecho da
bíblia eis-me diante de uma das mais sublimes histórias das Escrituras.
Razoavelmente conhecida, até, apenas raramente trabalhada em comparações
profícuas com o que está ao nosso redor hoje. Esta tem lugar ali pelo 17º
século Antes de Cristo, segundo está escrito em Gênesis, capítulos 29 a 32.
Jacó - que terá seu nome
mudado para Israel quando da célebre luta com o Anjo - apaixona-se
irremissivelmente por Raquel e só havia, à ocasião, um meio de casar-se com
ela, sendo ele oriundo de família humilde: trabalhar para o pai dela, Labão.
Inicialmente, o futuro sogro o engana e, ao cabo de sete anos trabalhando
como pastor de ovelhas, casa Jacó com Lia, a irmã mais velha de Raquel. Mas
tal era o seu amor que trabalha mais sete anos (segundo o costume) pela mão
de Raquel. E a Escritura registra que aqueles anos todos “foram aos seus
olhos como poucos dias, pelo muito que a amava”. Lia concebe e dá vários
filhos ao patriarca. Raquel, inicialmente estéril, é veículo do milagre da
concepção de José que se torna - ça va sans dire - o filho predileto de
Jacó.
José, além de
intensamente amado por seu pai humano recebia, em sonhos, a Visitação
Divina. Seus irmãos, num misto de inveja, temor e ódio, venderam-no como
escravo aos egípcios por vinte moedas de prata. Jacó, informado pelos filhos
que José havia sido devorado por um animal selvagem, fica inconsolável por
vários anos.
Após muitos percalços e
dissabores - e não é esta, sempre, a senda do Profeta? - José é convidado a
interpretar os sonhos de Faraó e o faz com tal brilhantismo que é logo a
seguir nomeado governador do Egito.
A sete anos de fartura seguem-se sete anos
de fome em toda a região que hoje chamamos de Oriente Médio - segundo sonhou
Faraó, aliás - e só o Egito, por poder contar com a previdente sabedoria de
José, consegue prover mantimentos a seu povo.
Como a fome prevalecia
também em Canaã, terra natal de José, Jacó ordena a seus filhos que vão ao
Egito conversar com as Autoridades e tragam de lá o trigo, alimento vital.
Aqueles pastores pobres de uma terra distante têm enorme dificuldade para
conseguir uma audiência com o poderoso governador da única terra a salvo da
fome. Escrevo estas linhas imaginando a cena: envergonhados, empobrecidos e
suplicantes, ali estão os hebreus, inseguros quanto a seu futuro ou sequer a
decisão do poderoso governador do Egito. Quando finalmente se dá a conhecer,
dirigindo-se a seus irmãos em seu próprio idioma, o que será que se passa na
cabeça daqueles sujeitos? “Eu sou José. Aquele que vocês venderam como
escravo...” E a superioridade moral de José faz com que seus irmãos sejam
recebidos como príncipes, entre lágrimas, abraços e beijos.
Uma das muitas histórias
contadas acerca do papa João XXIII, Angelo Giuseppe Roncalli, informa que
ele, como Chefe de Estado do Vaticano, teria dito estas mesmas palavras ao
receber a delegação de Israel, ali em missão diplomática: “Eu sou José, seu
irmão...”
Ultimamente, as coisas no mundo humano andam
severamente desencaminhadas, com essa história toda de “neo-liberalismo”,
“globalização” e outras coisas que têm beneficiado bem pouca gente, deixando
a maioria à míngua, como diz mui sabiamente Frei Betto, de pão e de
beleza...
Tudo isto, contudo, ainda
uma vez, nos enche de Esperança e, estou seguro de que, em menos tempo do
que se imagina, aqueles que foram incompreendidos, vilipendiados,
atraiçoados ou covardemente perseguidos pela matilha que comanda o mundo
hoje poderão humana e cristãmente, uma vez restabelecida a harmonia perdida,
dizer a seus antigos algozes: “Eu sou José!”
O Dia do Perdão
Uma das coisas mais
lindas que a teologia judaica traz para a humanidade é a noção da
possibilidade de um recomeço de tudo a partir do perdão, o Yom Kippur, “Dia
do Perdão”. E Jesus Cristo, judeu por nascimento, levou ao limite mais sério
a prática do perdão, não apenas em seu discurso, mas em seu exemplo
existencial... “Amai vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, orai
pelos que vos caluniam...” Mat 5, 44. A prática, a demonstração nítida de
seu comprometimento com este raciocínio quando no monte chamado “Caveira”,
já às portas de sua morte física pela cruz, rogou a Deus, intercedendo pelos
que o supliciavam: “Perdoa-lhes, Pai. Eles não sabem o que estão fazendo.”
Lc 23, 34.
Um exemplo bastante
curioso da prática do perdão, encontra-se num conto de Jorge Luís Borges
sobre Caim e Abel. Diz-nos em essência, o grande escritor argentino que os
dois irmãos caminhavam pelo deserto, um em direção ao outro, quando Caim
reconheceu seu irmão pela marca da pedrada que o matou. Convida-o a uma
refeição, evidentemente que kosher (a alimentação lícita), com ele. Após
algum tempo, Caim ergue a voz e pergunta a Abel, sentindo-se culpado ainda:
“Você já me perdoou?” Ao que Abel responde: “Perdoá-lo? Por quê? Foi você
quem me matou ou fui eu a matá-lo? Já se passaram tantos milênios que já nem
me lembro mais...” Esta é a essência do perdão: esquecer completamente o
dano feito. Virar a página. Como é difícil perdoar quando não se tem amor no
coração; como é simples e engrandecedor o perdão oriundo de um coração
impregnado pela alegria do amor.
Fica aqui um convite a
reflexão e ao perdão: Perdoe o empregado relapso que por algum motivo
negligenciou de seus deveres. Perdoe o patrão que ergueu sua voz num momento
de passageira cólera. Perdoe aquela moça o jovem apaixonado que não é
correspondido. Perdoe o jovem aquela menina linda que não tem culpa alguma
em ser incapaz de corresponder-lhe. Perdoe o aluno o professor que,
num momento tenso, ralhou com ele. Perdoe o professor ou a professora aquele
aluno ou aquela aluna que num momento ou noutro foi um tanto ou quanto
inconveniente a ponto de despertar essa coisa feia que é a repressão. Perdoe
a vizinha inconveniente que vive a intrometer-se em sua vida a pretexto de
“ajudá-la”. Perdoe o marido a esposa que não lhe correspondeu às
expectativas numa ou noutra ocasião. Perdoe a esposa o marido que, numa ou
noutra ocasião também foi incapaz de corresponder-lhe às expectativas.
Perdoe o primogênito seus irmãos mais jovens por tudo o que considerou
incorreto que os pirralhos hajam feito. Perdoem os mais moços por qualquer
inconveniência banal do primogênito. Perdoem os pais os filhos quando se
equivocam - afinal, errar é humano. Perdoem os filhos seus pais que, por
vezes, exageram no excesso de zelo. Perdoem os cristãos aqueles que vêem o
mundo de maneira um tantinho diferente, o perdão - particularmente a quem
pensa diferente de nós - é evangélico! Perdoem os não-cristãos se aqueles
que informam seguir os mandamentos do Cristo cometeram atos não consentâneos
com a fé que professam - não devemos nos tornar juizes do nosso próximo.
Perdoem-me os magistrados por estas linhas fortes, mas confesso considerar
dificílima a imparcialidade ou mesmo a neutralidade! Perdoemos os políticos
por algum comportamento menos honroso, lembrando sempre o adágio, também
evangélico: “Vá e não peques mais”. Jo. 8, 11. Perdoem o povo que não tolera
manipulação de suas vontades ou de suas posses à sua revelia. Deixemos todo
o julgamento a Deus.
Quem somos nós, afinal,
para julgar nosso semelhante? No meio do torvelinho desta vida, com tanta
poeira lançada a nossos olhos, como não ter algum cisco que, literalmente,
impede-nos a todos de ver apropriadamente e ousar tirar ciscos dos olhos dos
outros? Não julgar nosso semelhante, abrirmo-nos ao diferente e tolerarmos;
esta parece ser a essência dos mais elevados ensinamentos das mais diversas
tradições místicas. Pensar o perdão com restrições é pensar outra coisa, que
merece quiçá outra denominação. O perdão deve ser integral, irrestrito.
Que bom seria podermos
viver alegre e plenamente sem qualquer dor ou eivor de tensão a nos
incomodar - e algo poderia ser mais tenso que o ódio que, evidentemente, nos
vincula e prende justamente àquele que cometeu falha humana para conosco,
talvez até num laço ainda mais rígido que aquele do amor? E como viver sem
ódio no coração, sem qualquer traço de ódio, enfim? Que o perdão pleno ganhe
este espaço e teremos as respostas!
Não sendo judeus, por que
deveríamos respeitar um costume judaico? Por que é lindo, faz sentido, não
importa onde haja nascido. O que traz leveza e nos engrandece só pode
ser benéfico! Se os cristãos não têm o costume de eleger uma data especial
para ser o “Dia do Perdão”, deve-se ao fato de, idealmente, sendo cristãos,
todos sermos capazes de perdoar imediatamente (perdoar e esquecer, pois
perdoar é esquecer!)
Verdade? Caso contrário, vale a pena pensar,
em reuniões teológicas na implementação de um novo mito multitudinário, em
eleger efetivamente um “Dia do Perdão” e batalhar para viver, após a leveza
da libertação das cadeias do ódio, com a alma limpa, alva, pura.
Estabelece-se uma data
marcante - em nosso caso, por proximidades mil, sugiro o dia de São
Francisco, o 4 de outubro - fica-se 24 horas por conta de refletir acerca de
todas as coisas desagradáveis que andaram acontecendo conosco ou que fizemos
que outros sofressem e, a seguir, página em branco, sem jamais sequer tocar
no assunto que conduziu ao erro e este ao perdão, começar de novo sem
qualquer resquício de ressentimento ou mágoa.
Como somos fracos os humanos, não? Tendo
aqui a solicitar encarecidamente a quantos perdôo, um esforço consciente
para que não me veja compelido a, dentro de um ano após o “Kippur”, perdoar
ou pedir perdão pelas mesmas coisas novamente...
O Socialismo na Modernidade
“O caminho que conduz à liberdade só pode ser a própria liberdade”
ERRICO MALATESTA
Em 1917 ocorreu a
primeira grande revolução socialista bem sucedida no mundo, então em fins da
Primeira Grande Guerra, uma guerra - como todas as outras - suja, eivada de
rapinagens e interesses mesquinhos. Ali disputava-se territórios roubados a
outros povos. De 1917 a 1924, a fim de consolidar as conquistas
revolucionárias, Vladimir Ilitch Ulianov, o Lênin, toma algumas medidas
militares, políticas e econômicas contando para tanto com o apoio e o
auxílio direto de personalidades díspares como Jossip Djugashvili, o Stálin
e Lev Davidovitch Bronstein, o Trotski.
Com a morte de Lênin em
1924 abre-se a crise sucessória no Kremlin com Trotski, comandante em chefe
do Exército Vermelho, responsável pelo sucesso da Revolução no campo externo
de um lado, pregando a “revolução permanente”, informando que só se poderá
chegar à sociedade comunista, sem classes, quando todo o mundo passar pela
etapa do socialismo, da economia planificada, estatal. De outro lado, Jossip
Djugashvili, Stálin, encarregado do combate interno à contra-revolução,
arquiteto da temível Tcheká, mais tarde KGB, pregando a “consolidação do
socialismo num só país”. Vence Stálin, acreditam alguns historiadores que
menos pelo brilhantismo da defesa de suas propostas, mais pela
intimidação de quem tinha acesso a tantas informações sobre tantos detalhes
existenciais de tantas pessoas...
Uma vez no poder, Stálin
inicia a perseguição política a seus desafetos e adversários, começando por
Trotski que se transforma numa “pessoa não existente”. Expulso da então
União Soviética refugia-se inicialmente na Turquia enquanto seus
compatriotas são terminantemente proibidos de mencionar sequer o fato de sua
existência. Pregando e escrevendo sempre sobre a “revolução permanente”,
acaba sendo expulso também da Turquia passando a refugiar-se na França,
sendo de lá expulso também por sua postura radical, coerente, intransigente.
Em meados da década de 30 consegue refúgio no México, então governado por
Lázaro Cárdenas (aquele que disse: “Pobre do México, tão longe de Deus, tão
perto dos Estados Unidos...”), onde funda a IV Internacional para
contrapor-se à III Internacional stalinista.
Trotski é assassinado no
México por ordem expressa de Stálin, mas a IV Internacional segue viva até
hoje no mundo. As idéias de “revolução permanente”, de socialismo
internacional são, no Brasil, defendidas pelos trotskistas do Partido
Socialista dos Trabalhadores Unificado, o PSTU. Em tempos de neoliberalismo,
globalização, desemprego e desespero ocorre uma retração no movimento
operário, retrocesso de resto dialeticamente previsível e temporário. “O
choro pode durar uma noite, mas a alegria vem pela manhã”, diz-nos a
Escritura.
Há no Brasil também
admiradores de Stálin e do modelo stalinista, majoritariamente representados
no PC do B. Cisão do “antigo” PC do B em 1956 quando Stalin morreu e Nikita
Kruchóv denunciou-lhe os crimes e o culto à personalidade, que centralizava.
Seguindo obediente a linha do Kremlin, o PCB, hoje PPS (aquele do Roberto
Freire e do Ciro Gomes), promove no Brasil uma série de debates acerca da
desestalinização do partido. A ala formada dentro do stalinismo abre
dissidência criando o PC do B ou, como preferem dizer os próprios, “mantêm”
o nome do partido contra o “revisionismo” do antigo PCB.
Ainda no Brasil, de
maneira autônoma, independente, surge o Partido dos Trabalhadores,
corajosamente lutando contra o regime de exceção implantado na América
Latina por ordem dos EUA na década de 60. Interesses trabalhistas
localizados no ABCD paulista ampliam-se desde o nascimento do PT em 1980 a
ponto de o partido lançar seu mais expressivo dirigente, o Lula, candidato à
presidência da república em 1989, quando foi derrotado por Collor de Mello,
uma vez haver o candidato patronal contado com o apoio maciço dos meios de
comunicação, aporte de recursos do empresariado através de seu caixa de
campanha, o Sr. Paulo César Farias.
O PT é um partido
eminentemente ético, após afastar de seus quadros o radicalismo da
Convergência Socialista (o PSTU) pode definir-se como um partido de esquerda
humanista e cristã que almeja chegar às esferas de poder decisório pela via
parlamentar, um ineditismo histórico, claro. O único episódio parecido, o
Chile de Salvador Allende, acabou num banho de sangue no bojo do
autoritarismo norte-americano das décadas de 60 e 70 quando o general
Augusto Pinochet liderou internamente (contando com o apoio ianque) tropas
que literalmente massacraram toda a oposição política.
Aliás, este exemplo faz
pensar... Quando os donos do poder sentem-se seguros, mantêm o
encaminhamento democrático. Quando a insegurança assola, apelam às mais
diversas formas de ditadura e coerção.
Difícil falar em esquerda
e trabalhismo num mundo encaminhado na direção do neoliberalismo, quando
seculares conquistas da Classe Trabalhadora como a previdência social
pública, a segurança do emprego e até mesmo o descanso remunerado - anual ou
mesmo semanal - estão sob questionamento após o colapso do socialismo dito
“real”. Mas, ainda uma vez cumpre enfatizar que avanços e recuos são das
coisas mais comuns na história da humanidade e ainda veremos novos avanços
onde hoje os recuos nos acuam...
O que querem os anarquistas
“O Estado é a negação da humanidade!”
Mikhail Bakunin
Em artigo bastante contundente e expressivo, Errico
Malatesta, discípulo italiano do russo Bakunin, discorre sobre o que é e o
que se deve fazer “Rumo à Anarquia”.
Em primeiro lugar,
deve-se desprezar concepções errôneas segundo as quais “anarquia” seria
sinônimo de “bagunça”. Anarquia é ausência de governo e mesmo de atividade
parlamentar; que os agentes políticos devem atuar diretamente em busca de
manter e ampliar todas as formas de participação nos aspectos decisórios da
sociedade em que vivem. Ação Direta, aliás, é o nome que adotam várias
organizações anarquistas pelo mundo afora.
Diz-nos Malatesta em seus
“Escritos Revolucionários” que “Se quiséssemos substituir um governo por
outro, isto é, impor nossa vontade aos outros, bastaria, para isso, adquirir
a força material indispensável para abater os opressores e colocarmo-nos em
seu lugar *. Mas, ao contrário, queremos a Anarquia, isto é, uma
sociedade fundada sobre o livre e voluntário acordo, na qual ninguém possa
impor sua vontade a outrem, onde todos possam fazer como bem entenderem e
concorrer voluntariamente para o bem-estar geral. Seu triunfo só poderá ser
definitivo quando universalmente os homens não mais quiserem ser comandados
ou comandar outras pessoas e tiverem compreendido as vantagens da
solidariedade para saber organizar um sistema social no qual não mais haverá
qualquer marca de violência ou coação”.
A atividade do
anarquista, do socialista utópico (em sua sublime acepção de conquista da
Esperança possível) não é violenta nem repentina, mas gradual, pedagógica,
passo a passo.
“Não se trata de chegar à
anarquia hoje, amanhã ou em dez séculos, mas caminhar seguramente rumo
à anarquia hoje, amanhã e sempre. A anarquia é a abolição do roubo e
da opressão do homem pelo homem, quer dizer, abolição da propriedade privada
dos meios materiais e espirituais de produção e do governo formal; a
anarquia é a destruição da miséria, da superstição e do ódio entre as
pessoas. Portanto, cada golpe desferido nas instituições da propriedade
privada dos meios de produção e do governo é um passo rumo à anarquia. Cada
mentira desvelada, cada parcela de atividade humana subtraída ao controle da
autoridade, cada esforço tendendo a elevar a consciência popular e a
aumentar o espírito de solidariedade e de iniciativa, assim com a igualar as
condições é um passo a mais rumo à anarquia.”
Os surrealistas, que há
anos estão unidos aos anarquistas afirmam ainda que cada vez que um casal se
une e sua união não é uma fancaria, mas a autêntica expressão do verdadeiro
amor entre duas pessoas que se completam plenamente, ocorre mais um abalo no
que chamam de “gigantesca caserna” em que se tornou a sociedade industrial.
“O ocidente é um acidente!” denuncia Roger Garaudy em “Apelo aos Vivos” com
a autoridade de quem sempre esteve nos pontos mais avançados de defesa
política e filosófica do que promove o humano no mundo.
Seguindo com Malatesta:
“Não podemos, de pronto, destruir o governo existente, talvez não possamos
amanhã impedir que sobre as ruínas do atual governo um outro surja: mas isto
não nos impede hoje, assim como não nos impedirá amanhã, de combater não
importa que governo, recusando-nos a submetermos à lei sempre que isto seja
contrário aos nossos imperativos de consciência. Toda a vez que a autoridade
é enfraquecida, toda a vez que uma grande parcela de liberdade é conquistada
e não mendigada, é um progresso rumo à anarquia. Da mesma forma, também é um
progresso toda a vez que consideramos o governo como um inimigo com o qual
nunca se deve fazer trégua, depois de nos termos convencido que a diminuição
dos males por ele engendrados só é possível pela redução de suas atribuições
e de sua força, não pelo aumento no número de governantes ou pelo fato de
serem eles eleitos pelos governados. E por governo entendemos todo o
indivíduo ou grupo de indivíduos, no Estado, Conselhos etc que tenha o
direito de fazer impor leis injustas sobre quem com elas não concorda”.
Contundente e radical,
repita-se, Malatesta e toda a tradição anarquista que lhe segue proporá a
chegada a um governo auto-gestionário, do qual todos possam participar
livremente. Um sistema auto-gestionário que possibilite participar livre e
alegremente de todo o processo decisório e de execução do que terá sido
decidido coletivamente, para que se chegue ao maior aperfeiçoamento social
promotor do humano no mundo. Toda a vitória, por menor que seja, dos
trabalhadores sobre as classes patronais, todo o esforço contra a exploração
do homem pelo homem, toda a parcela de riqueza subtraída aos proprietários e
posta à disposição daqueles que a geraram, toda a união amorosa plena entre
duas pessoas que se amam intensa e sinceramente, tudo o que se fizer para
melhorar as condições existenciais da maioria enfim, será mais um progresso,
mais um passo rumo à anarquia, “este sonho de justiça e de amor entre
os homens...”
A nossa meta
Onde, a que situação
almejamos chegar, afinal? Parte-se aqui do princípio de que, quando se sabe
para onde, chegar lá fica mais fácil, mais simples. Quando não se sabe
sequer para onde, como se haveria de chegar a algum ponto?
Resumindo, e estou tão no
meu direito quando apresento o resumo no início quanto Proudhon o estava ao
afirmar: “Se a escravidão é o assassinato, a propriedade é o roubo!”
Resumindo portanto, posso dizer que é a um ponto em que o aprimoramento
humano, a cooperação esteja acima da competitividade. Utopia possível e
concreta de que encontramos exemplos raros e episódicos em comunidades
tribais.
Suspender esta corrida de
lobos em que estamos envolvidos, na qual os melhor-sucedidos são em geral
aqueles que menos contribuem para o aprimoramento da coletividade.
Fruto do pensamento
iluminista francês, a idéia de que não se tem ação revolucionária sem teoria
revolucionária, os burgueses em 1789, ao desbancar com a nobreza, tinham por
meta atingir “Igualdade, Liberdade e Fraternidade”. Passados pouco mais de
200 anos, que resultado encontramos? Liberdade somente para os mais
poderosos - ainda assim restrita, há que se manter a classe trabalhadora sob
constante vigilância - Igualdade jurídico-formal capenga, na prática
inexistente. Destino pior teve a Fraternidade...
Que os seres humanos
vivam como numa grande família, com amor ao próximo, praticando seu trabalho
como atividade lúdica, não mais como alienação, considerações como estas,
tidas por inexeqüíveis na prática, tratam-nas em geral como sandices ou
absurdidades.
O socialismo científico
de Marx e Engels conduziu às maiores conquistas sociais da história, difícil
negá-lo. Mas inegável mesmo é que existem muitas outras conquistas a
atingir, que ultrapassam os limites estritos e estreitos da ciência, mesmo
da mais avançada ciência social comprometida com a causa popular.
A Razão humana tem os
seus limites traçados e a ciência, fruto desta (Razão), também é limitada.
Felizmente os seres humanos somos dotados não apenas de razão, mas também de
criatividade, de Imaginação, de capacidade onírica, de fé...
Há quem diga que o
socialismo científico teria logrado ser bem-sucedido até certo ponto,
enquanto que o socialismo utópico não o tenha, precisamente por ser aquele
mais condizente que este último com a realidade econômica e social vigente,
o que tolda e limita a atuação política possível àquilo que seja prático ou
pragmático. Penso que aqui resida uma das explicações possíveis para as
dificuldades pelas quais vimos o socialismo científico passar onde teve ele
o parco sucesso histórico que se conhece.
Descredenciar a Utopia ou
a ação do socialismo utópico como “algo baseado num racionalismo sentimental
e ético, muito bonito do ponto de vista humanístico mas inviável na
prática”, como queriam os cientificistas, é banir do cenário justamente o
que move o homem a agir no mundo. Jamais se agiu multitudinariamente para
atingir conquistas pragmáticas como o pagamento do aluguel ou a baixa no
preço do queijo, as multidões somente são levadas a agir se acreditam com
todo o seu coração estar atuando em prol da verdade, da justiça, de algo
muito maior que cada um, se acreditam estar atuando na direção da conquista
do que se julgou mesmo impossível em outros tempos.
Dada a “lógica” que
perpassa a maioria dos corações e mentes do nosso tempo, agir com base no
que é “econômica e socialmente viável” do ponto de vista científico é
proposta excessivamente tímida, dada a crueza da realidade sócio-econômica
atualmente colocada.
Resgatando o pensamento dos socialistas
utópicos, pelo menos até que a nossa caríssima ciência consiga dar novo
“salto qualitativo”, é imperativo manter em vista as metas a serem
atingidas, sob pena de nos perdermos pelo caminho.
Chegar ao reino da
abundância, da fartura, da prosperidade, da vida saudável e fraterna entre
todos os homens, todos, sem exceção, parece hoje algo de mítico a
inatingível na prática. Mas não foram assim consideradas as idéias e
pensamentos dos autores de ficção científica em outros tempos? Se hoje a
realidade tecnológica do mundo ultrapassa a imaginação de alguns autores de
tempos consideravelmente recentes, como Júlio Verne, por exemplo, não é
inimaginável o que alguns autores de ficção ou literatura política
antecipadora (como Platão, Moore, Campanella, Huxley etc), dignos todos de
muita consideração para esta perspectiva, claro, venham a ser considerados
futuramente como pessoas de alguma visão, mas estou seguro de que a
realidade da sociedade futura superará em muito estes pensadores.
O Homem é um animal político
Em diversos momentos na vida encontrei pessoas a deplorar
a atividade política, formal ou informal (através de Organizações Não
Governamentais, por exemplo). A estas gostaria de trazer uma breve reflexão
poética de Bertolt Brecht, acerca do "Analfabeto Político". Poema bastante
conhecido mas freqüentemente esquecido por aqueles que anseiam por omitir-se
de qualquer atividade maior, multitudinária, quiçá por julgá-la
desnecessária ou desprezível ao seu cotidiano. Será? Vamos ao que diz o
grande dramaturgo:
"O pior analfabeto
é o analfabeto
político.
Ele não ouve, não
fala, não participa
dos acontecimentos
políticos.
Ele não sabe que o
custo de vida,
o preço do feijão, do
peixe, da farinha,
do aluguel, do sapato,
do remédio
depende das decisões
políticas.
O analfabeto político
é tão burro
que se orgulha e
estufa o peito
dizendo que odeia a
política.
Não sabe o imbecil
que da sua ignorância
política
nascem a prostituta, o
menor abandonado,
o assaltante e o pior
de todos os bandidos,
que é o político
vigarista, pilantra, corrupto
e lacaio das empresas
nacionais e
multinacionais."
Quando percebemos que este belo e elucidativo poema
foi escrito décadas antes da ascensão da dupla Collor de Mello e PC Farias
ao poder político no Brasil e constatamos terem sido os escritos de Brecht
elaborados em outras paragens e contextos históricos, percebemos estar
frente-a-frente com algo de muito mais grandioso. Maior atenção para com a
política formal e mesmo informal dificultaria a ascensão a poderes maiores
de gente dilapidadora do patrimônio público.
Alegar ignorância política ou pretender-se "apolítico" é o mesmo que assinar
a si mesmo um atestado de incompetência para a cidadania.
Um piquenique nas bordas de um
vulcão
É literalmente assim que
se sente qualquer profissional de qualquer ramo no mundo contemporâneo, como
alguém que faz um piquenique nas bordas de um vulcão. Não é escolha que
ninguém em sã consciência faria uma escolha dessas! É antes uma fatalidade
que se abateu sobre nós e está demorando muito a nos deixar em paz.
As coisas podem estar
dando uma aparência de sossego e amenidades, podemos até mesmo sentir uma
vaga sensação de segurança, pelo menos até que as labaredas se ergam
lambendo todo o entorno impedindo qualquer tipo de argumentação lógica. No
cotidiano, aliás, sente-se que a lógica, o bom-senso e até as medidas
sanitárias humanas mais básicas perdem vez para uma racionalidade impessoal,
desumana, característica do tempo do Capital. Momento que põe em risco os
valores democráticos para todo o povo, momento que, ora aprofunda ora
despreza todos os valores dos avanços iluministas. Instantes há em que seres
que se dizem humanos são capazes mesmo de eliminar todos os valores que não
sejam os seus.
Da democracia
Toda a convivência
democrática supõe dar voz e vez a todos igualmente, em particular àquele que
pensa de maneira diferente. A questão que se coloca aos brasileiros é
uma tremenda manobra das elites para perpetuar-se no poder. Têm-no
conseguido com a ajuda do modelo democrático mesmo, dele só se despedindo em
situações-limite, quando a repressão informa ser a de mocracia brasileira
uma magnânima concessão das elites, desde que a massa saiba manter os mesmos
onde estão, sem grandes traumas ou modificações substanciais.
Por exemplo: pouco antes
de sua passagem pela transição, meu pai deixou com minha mãe um lenço e um
par de luvas brancas com as recomendações de praxe: iluminismo ativo! Em
pouco tempo percebe ela que aquelas recomendações estavam circunscritas
espacial e temporalmente àqueles que chegaram a, de alguma maneira, travar
contato com o grande e benemérito dr. Hely Chaves; a geração subsequente em
locais outros, simplesmente faz ouvidos moucos ao que ele representou em seu
tempo ou ao lidar com o seu legado humano: iluminismo passivo ou destrutivo!
Do Iluminismo
Segundo Max Horkheimer, a
meta do iluminismo é aquela de libertar os homens do medo e fazer deles
senhores. Cada vez que algo mais humano ou humanista volta-se a tornar os
homens mais livres, vemos um avanço do pensar humanista do iluminismo ativo.
A todo o instante em que se percebe coisas como propriedade ou mesquinhos
interesses mercadológicos dos donos dos meios materiais ou espirituais de
produção a manipular os seres humanos ao seu talante, transformando-os em
coisas, objetificando-os, percebemos um grave, um severo retrocesso no
pensamento humanista do Iluminismo: o medo e a conseqüente obediência cega
transformando até os senhores em escravos, o inverso do que pretendia o
pensamento iluminista mais puro.
Iluminismo e democracia
Deve ter sido
dolorosamente brutal a pessoas do quilate de Fromm, Marcuse, Reich, Benjamin
ou Zweig ver e vivenciar a ascensão do autoritarismo na Europa durante a
década de 30 deste século que se finda.
O mais chato é que muitos dos sobreviventes
daquele período negro da história humana, informam perceber grandes
similitudes com a situação atual: maior liberdade para o Capital que para
seres humanos, a recessão tão brutal que o movimento operário sofre uma
paralisia, dá-se muito maior valor à coisa morta, à posse de bens materiais
que propriamente à vida...
Faltam alguns signos e,
graças a Deus a história comprova que, em todo e qualquer instante ou
momento político, não basta apenas “preencher lacunas”. Ansiamos pelo
contrário, mas se o povo, em sua maioria, não encontrar um caminho
solidamente estruturado e lúcido teremos de assistir e vivenciar impotentes
a ascensão e perpetuação das práticas mais autoritárias contra o humano,
democratizando o Capital.
Mas é necessário deixar
bem claro que quando as elites sentem-se seguras, mantém o encaminhamento
político democrático. Quando o movimento popular se torna um “problema”, o
usual é que as elites conclamem à ação o autoritarismo em sua vertente
clássica, ou seja, a “Questão Social” ora é encaminhada como “caso de
política”, ora reprimida como “caso de polícia”, como nos assevera Gisálio
Cerqueira Filho em A “Questão Social” no Brasil, Civilização Brasileira,
1982
Possa o Senhor do
Universo permitir que tudo se encaminhe democraticamente em direção do
bem-estar e da felicidade da maioria!
Dilemas
“Em mim combatem o entusiasmo pelas
macieiras em flor e o horror pelos discursos do pintor de brocha gorda. Mas
só este último me impulsiona a escrever” Bertolt Brecht
“Homens que nascem sob o jugo, que são
criados na servidão, tornam-se incapazes de olhar para lá dela, limitam-se a
viver tal como nasceram, jamais conseguem pensar em ter outro bem que não
aquele encontrado ao nascer. Aceitam como natural o estado encontrado ao
nascer.” Etienne de La Boétie
Parto aqui do princípio
de que não é porque vivemos numa sociedade tão tristemente distanciada do
Ideal - com direito a repressão brutal de qualquer tentativa
auto-gestionária com chances ainda que irrisórias de êxito, como em Canudos,
Palmares ou Colônia Cecília entre diversos outros - terceiro-mundista,
cruel; não é por vivermos numa sociedade na qual imaginar uma justa e
equânime distribuição de rendas, da riqueza por todos produzida e por poucos
apropriada, enfim, já é considerado “pensamento subversivo” que nos devemos
ater a trabalhar apenas pelo “menor dos males”; devemos, antes e sobretudo,
lutar e trabalhar alegremente pela conquista da felicidade positiva, que a
mais avançada Filosofia da Esperança chama, com justa razão de Summum Bonum,
o bem supremo. Conseguí-lo será tarefa - e isso caso haja vontade política
daqueles que detêm o poder decisório - para as gerações futuras. A nossa, a
seguirem as coisa como estão, terá como recompensa, na melhor das hipóteses,
o ver apenas um mundo um pouco melhor nas mãos dos nossos herdeiros, assim
sendo sucessivamente.
Luta-se
internacionalmente hoje, nem mais nem menos, pela cessação das hostilidades
entre as pessoas, pela implantação de uma autêntica “aldeia global”, como
nos dizia McLuhan. Isto só é possível se conseguirmos a substituição da
hegemonia do caráter sado-masoquista (ou mesmo obsessivo-compulsivo) pelo
caráter auto-regulado, generoso, capaz de efetivamente amar e ser amado.
Quando, num dia, todos acordarem dizendo com convicção: “E eu, que vou fazer
hoje para que o mundo se torne mais justo e mais belo?” estaremos bem
próximos de chegar à meta aqui brevemente exposta.
Vamos examinar dois
fatos, um conjuntural, relativamente recente, e outro que vai se tornando
uma coisa institucionalizada mesmo. São daquelas coisas que abalam nossa
alegria, nossa fé no humano de maneira geral.
Uma Casa de Detenção e uma Rede Global de
telealienação jogam sem o menor pundonor nem compaixão baldes de água gelada
em nosso entusiasmo, em nosso calor mas, de novo, não é por isso que devemos
jogar fora nosso otimismo, nossa sacrossanta Esperança.
111. Números oficiais. Em
1992, 111 seres humanos encarcerados em condições subumanas foram friamente
assassinados, sem qualquer justificativa possível. Compreender, até que é
possível: ainda persiste o ódio nas relações sociais e o cristianismo é,
quando muito, vaga consideração intelectual voltada a um mundo distante
desta vida concreta que vivemos, o que seguramente deixa o Cristo muito
triste. Após crucificarem-no, assassinam a parte mais importante e bonita da
sua mensagem: o amor ao próximo. Digo isto pois li estatísticas informando
que algumas pessoas consideram-se cristãs e justificam aquela carnificina:
“Que fizeram aqueles homens para que estivessem presos?”- interrogam alguns
muito pouco dispostos, em verdade, a ouvir respostas sensatas ou concretas;
mais preocupadas estão, isso sim, em justificar através de muito ódio o que
compreendem como “paz” para suas consciências.
Alguns daqueles
presidiários haviam cometido crimes considerados hediondos segundo a
terminologia jurídica clássica. A maioria (cerca de 80% dos assassinados)
cometeu crimes considerados “leves” e há a suspeita de haver dentre os
mortos pelo menos uma dezena de inocentes que para ali foram parar por
equívocos os mais diversos que nosso país é cheio destas coisas...
O caso é o seguinte:
prega-se o rótulo de “criminoso” num cidadão socialmente incômodo,
encerra-se o dito cujo em cárcere em condições ainda menos que sórdidas e
tenta-se não pensar mais no assunto. Não ler. Não ver. Não ouvir falar sobre
isto e, ao ouvir, falar rispidamente para que se possa, comodamente,
ingressar num tema mais ameno. Quando, numa nação, se admite que homens
fardados, defensores da lei e da ordem por definição, cometam delitos desta
gravidade impunemente - não raro com o aplauso de muitos! - algo vai muito
mal e é preciso corrigir esta discrepância!
O caso da Globo é um
poucochinho mais complexo; é de tirar o chapéu mesmo: “Criança Esperança”.
Que campanha bonita. Quanta competência. Que beleza plástica. Uma incrível
catarse coletiva a todas as consciências. Todos, pelo menos uma vez por ano
preocupados com o morticínio cruel e covarde que se perpetra - não apenas às
escâncaras, como no caso em estudo, mas também surdamente - em nosso país:
mais de mil crianças são assassinadas por dia de formas as mais variadas em
nosso Brasil, custa-nos a admiti-lo, não é apenas a violência policial ou
paramilitar, é a violência pecaminosa, institucional, a maior responsável.
Quem freqüenta grandes centros urbanos percebe com clareza: menores
abandonados, carentes, miseráveis, famintos no 6º produtor mundial de
alimentos (alimentos que, dada a racionalidade mercadológica do sistema como
um todo, vão para as barrigas privilegiadas de animais europeus, uma vez
seus proprietários serem capazes de pagar preço melhor pelo alimento que
produzimos do que nossas crianças - falar nisso, que chefe de família
deixaria de alimentar os seus para vender comida de casa a seres que pagam
melhor que os seus pelos gêneros alimentícios em geral?)
A Rede Globo de rádio,
jornal e televisão é uma das mais ricas empresas do Globo Terrestre. Uma das
maiores beneficiárias, portanto, do sistema concentracionista de rendas que
possibilita o surgimento da miséria que conclama, uma vez por ano e de
maneira cada vez mais sofisticada, tão crescente quanto a miséria que ajuda
a disseminar, a que as pessoas se sensibilizem e dêem combate a toda esta
tragédia humana através da esmola, da caridade, se não como solução, pelo
menos como paliativo. E aí, não fazemos nada?
Simplesmente não há como
perceber de perto tanta degradação humana e ficar de braços cruzados. Pelo
menos um pouquinho, só um telefonema, vá lá... Depois mudamos de
assunto ou de canal, tentamos pensar em outra coisa e abandonar estas
questões incômodas até o próximo ano, quando serão novamente apresentadas em
meio a muita festa, alegria e riqueza.
Não há como posicionar-se
contrariamente à iniciativa da Globo em aliança com a UNICEF, não dá. Algo
tem de ser feito, ainda que modesto e pouco ou nada pretensioso.
Mas o que mais dói é ver
a utilização política que se faz da desgraça alheia para a perpetuação do
sistema tal qual é: enquanto se dramatiza a situação, com lágrimas sinceras
e emocionadas e tudo, fatura-se ainda mais em comerciais. A genialidade do
sistema deixa-nos estarrecidos. Fica registrado apenas o grande respeito por
todos os que abrem seus corações e suas carteiras naquelas campanhas
(supondo, claro, que os recursos tenham a destinação prevista - o contrário
seria ainda mais hediondo!) contribuem um pouquinho para minorar o
sofrimento de tantos. O protesto veemente contra a utilização da hecatombe
justamente para - amenizando-a inocuamente - preservá-la. E a perplexidade
de estar “emparedado” num paradoxo aparentemente insolúvel: apoiar
criticamente que seja a iniciativa da Globo só tende a manter os níveis da
catástrofe - e sei lá se tanto; o programa anual “Criança Esperança” está
cada ano mais rico e mais bonito e nossas crianças cada ano em maior número
mais miseráveis e desesperadas... - apoiar esta iniciativa, criticamente que
seja, é fortalecer o próprio sistema que provoca este mal. Não apoiar a
iniciativa é algo tão antipático que fica até esquisito cogitar... Que
fazer?
Pensemos, de maneira
cosmopolita, no que o que há de mais avançado no mundo da cultura está
ocupado em fazer: encontrar meios que possibilitem a cessação total das
hostilidades entre os seres humanos. Chega de destruição. Temos de
construir!
O Bem e o Mal na alegria dos
pobres
“Sem a alegria, a humanidade não compreende
a simpatia
nem o amor” Ramalho Ortigão
Freqüentemente lemos ou
ouvimos críticas severas, às vezes mesmo de publicações ditas esquerdistas,
acerca da alegria que muitas vezes perpassa os movimentos populares. Temos
os pobres motivo para tanta alegria e festa? Celebramos alguma coisa?
Todo o bom cristão sabe
que “o mundo jaz no maligno”. Identificando a origem deste mal que nos
oprime e sufoca no mundo encontramos uma estrutura social que bem merece o
epíteto de satânica, na qual a felicidade de uns poucos assenta-se na
desgraça da maioria. O combate sem tréguas a esta estrutura perversa,
chamada em outros tempos de escravismo, a seguir de feudalismo, hoje de
capitalismo (ou capetalismo, como preferem alguns puristas), a luta contra a
exploração do homem pelo homem, faz parte do combate ao Mal no mundo.
O Mal se compraz sugando
a vida das pessoas de bem. O Mal consegue transformar o trabalho, atividade
humana fundamental, num processo maçante, massacrante e alienante, no qual
se gastam muitas horas por dia em troca de salários pífios, que mal são
suficientes à sobrevivência. E os trabalhadores, responsáveis maiores pela
enorme geração de riquezas, são justamente aqueles que dela menos usufruem.
É justo que haja espanto se, mesmo assim nós, trabalhadores do espírito,
operários do saber, encontramos motivo para alegria e festa. Não está,
seguramente, nos planos do Mal, proporcionar ou permitir a alegria dos
pobres. É um tipo de alegria que não tem preço, não se pode comprar, é
natural, genuína, espontânea, visceral, inacessível, incompreensível até, ao
Capital...
A grande satisfação que o
Mal encontra na tristeza, pode ser comparada ao “renascimento” dos vírus.
Como se sabe, os vírus têm formas de cessar praticamente toda a sua
atividade vital até que encontrem meio propício à sua perniciosa existência.
Uma vez instalado, a satisfação dos vírus é a infelicidade, a doença para o
ser que os carrega. Se amamos a Vida como a conhecemos, devemos ser inimigos
radicais, inconciliáveis mesmo dos vírus, da tristeza, do Mal. A alegria é
subversiva, mata o Mal até de raiva!
Podemos constatar o quão
fundo o Mal penetrou nos corações e mentes das pessoas vendo a arrogância
dos poderosos, o mais das vezes incapazes de tolerar qualquer demonstração
de espontaneidade ou liberdade por parte dos mais fracos. Quem nunca teve de
lidar com um destes crápulas na posição de chefe, patrão, superior
hierárquico, enfim, sempre a fazer questão de coibir qualquer demonstração,
por mais tímida que seja, de espontaneidade por parte daqueles que lhe estão
de alguma forma subordinados?
Alguns acusadores, quase
sempre refugiados em roupas sóbrias, muito medrosos por dentro e arrogantes
por fora, certamente com problemas intestinais severos (e de onde crê o
leitor vir a expressão “pessoa de maus bofes”?) acreditam que toda a
atividade política deveria se dar em clima de velório...
Não vamos,
definitivamente, nos enfiar depressivamente em climas fúnebres somente para
satisfazer a arrogância de quem não consegue entender que é com e pela
alegria que se defendem as causas mais justas, nobres e corretas. Queremos
“vida, e vida em abundância!”
“Tomamos o céu de
assalto!” cantavam felizes os communards parisienses em 1871, até que
representantes do Mal, em mais uma de suas vitórias provisórias - que a
história é cheia destas idas e vindas, destes avanços e recuos - reprimiram
brutalmente aquela “ousadia”.
Que ninguém mais se
espante se lutamos alegremente pelo que é Justo, Bom e Correto sempre com
muita alegria. O aumento da alegria dos participantes de nossas lutas é um
claro indicio de que a vitória do Bem não é apenas inevitável como está
muito próxima!
Que o Brasil se torne uma
gra |