A Revolução Farroupilha no
Cenário Mundial de Sua Época e o Papel da Maçonaria
Sérgio Augusto Pereira de Borja
Para melhor
entendermos a Revolução Farroupilha é mister que passemos ,em
retrospectiva, uma vista de olhos sobre o cenário europeu, que sem
sombra de dúvidas, sempre, no passado e ainda no presente, influenciou e
ainda influencia, a história, a economia e a política Americana. Com a
independência dos EUA em 1776, através de uma guerra que teve sua
culminância em 1777, com os 10 artigos da confederação, e posteriormente
com seu zênite em 1787, quando da promulgação da Constituição de
Filadélfia, iniciou-se um processo revolucionário,que como um rastilho,
percorreu as três Américas, de norte a sul, acendendo a flâmula
libertária da luta pela independência neste continente. Quais as razões
que orientaram os libertadores ? Que tipos de interesses jaziam
subjacentes a estes movimentos ? As perguntas multiplican-se e exigem
respostas baseadas em pesquisas idôneas.
No século XVIII,
século das luzes e das revoluções, vamos constatar um grande movimento
revolucionário que interliga duas nações : França e Estados Unidos. A
liberdade americana literalmente é um presente francês (não só a estátua
que ornamenta Nova York). No período de 1765-1776, o governo inglez
estabeleceu impostos novos sobre o papel selado, o vidro, e o chá. Os
espíritos se exaltaram, em Bóston, sobretudo. Os americanos reclamaram o
direito de votar os impostos e deitaram ao mar carregamentos de chá
vindos da Inglaterra. Três anos mais tarde pricipitou-se a guerra contra
a metrópole. Washington dispunha só de 14000 soldados. Compreendendo o
perigo designou Benjamim Franklin para conseguir acordos junto ao
soberano francês Luiz XVI, obtendo deste , um tratado de aliança
ofensivo e defensivo. Em 1781 Washington, Rochambeau,e La Fayette
derrotaram o general inglez Cornwallis, em Yorktow, propiciando para
sempre a independência americana, agora, reconhecida pela velha Albion.
Mas esta vitória francesa, causou , posteriormente a destruição da sua
monarquia, pois debilitada economicamente pela guerra no teatro
americano, fator este que somou-se a outros enumerados pelos
historiadores, tais como: a reforma, reclamações da nação, doutrinas dos
filósofos e literatos (Voltaire, Rosseau, os enciclopedistas), impostos
taxados sobre a burguesia, etc. Ora, desvendando-se o véu das aparencias
vamos constatar detalhes que passam desapercebidos sobre a ótica de
olhos comuns. Os historiadores, Manoel Rodrigues Ferreira e Tito Livio
Ferreira, ambos maçons, ao relatarem no seu livro, a Maçonaria na
Independência Brasileira (Editora Gráfica Biblos - 2 vol - pág. 108 á
118 ) identificam em Benjamim Franklin, um dos patronos da independência
americana, como maçon. E vão mais longe, identificam duas maçonarias,
uma azul e outra vermelha. A maçonaria azul seria a inglesa,
anticatólica, protestante, que teria erguido as quatro colunas ou o
governo "oculto" da Grã-Bretanha, que se exteriorizaria, conforme o
preconizado por Guilherme de Orange , nas quatro instituiçoes da nação
inglesa, o Foreign Office, o Almirantado, o Banco da Inglaterra e o
Intelligence Service. Ora, ainda conforme estes autores, a maçonaria
azul, vai criar na França a maçonaria vermelha, visando desestabilizar a
monarquia francesa, sua arqui-inimiga. Assim é que são criadas lojas
francesas dirigidas pelo duque d'Antin e pelo conde de Clermont, dois
teleguiados, no dizer dos autores. Em 1772 é fundado o Grande Oriente da
França, e lá estão escritos os nomes dos revolucionários franceses ou
intelectuais da mesma entre os conhecidos Rousseau, Montesquieu, Siéyés,
Saint-Etienne. Assim funciona a Loja das Nove Irmãs. Mas se a maçonaria
francesa é criada como "longa manus" da britânica, com finalidades
escusas (atribuidas aos ingleses) ela adquire através de sua práxis um
destaque maior, através dos ideais maçonicos refletidos por seus
próceres , que aderem, a ideologia revolucionária e se traduzem no
republicanismo que sob a égide de Napoleão, vai alastrar-se pelo mundo,
como doutrina subversiva do status quo monárquico até então vigente. Com
a morte de Luiz XVI, guilhotinado pela revoluçao, as monarquias
européias, estabeleceram coligaçoes contra a França (intituladas de
Santa Aliança): a Inglaterra, a Prussia e a Austria, posteriormente,
Russia, pois a revolução começava a exportar seu ideário através da
implantação de pequenas repúblicas,na Holanda, Suiça e Itália. Napoleão
logo, depois da campanha vitoriosa na Itália, empolga o poder e assume o
controle do consulado. Em 1804 é coroado em Amiens, Imperador,
posteriormente, decreta o Grande Bloqueio Continental à Inglaterra, não
permitindo o acesso de suas mercadorias ao continente. Em 1807, Napoleão
invade a Espanha e Portugal com tropas sob o comando de Junot. D. João
VI , aliado inglês, vai fugir para o Brasil numa frota inglesa comandada
pelo almirante Sidney Smith. Em 1812, Napoleão, num prenúncio da grande
débâcle que se segue, expande seu império até Moscou que é incendiada
pelos russos. Napoleão que foi a Russia com um exército de 600.000
homens volta com um destroço de somente 20.000 homens. Isolado em Elba e
posteriormente prisioneiro em Sta.Helena vê seu império destroçar-se.
Mas o ideal republicano francês é disseminado pelo mundo inteiro através
da trilogia da liberdade, igualdade, fraternidade. O império colonial
espanhol destroça-se completamente. Simon Bolivar, perante reunião da
Sociedade Patriótica na noite de 13 de julho de 1811 clama, segundo
Indalécio Aguirre, no livro intitulado Bolivar: "Se discute em el
Congresso Nacional lo que debiera estar decidido. I que
dicem ? Que debemos comenzar por una Confederación. Como si todos no
estuviéramos confederados contra la tirania extranjera ! Que nos importa
que Espana venda a Bonaparte sus esclavos , o que los conserve, si
estamos resueltos a ser livres ? Trescientos anos de calma no
bastam ? Se quieram otros trescientos todavia ? ...Pongamos
sin temor la piedra fundamental de la libertad sudamericana."
Assim, se inicia a saga americana em busca pela liberdade. Também , em
1811, a 11 de abril, no Quartel General de Mercedes, José Artigas,
patrono da independencia uruguaia, no proclama de Mercedes, conforme
Oscar Bruschera, fls. 66, brada: "A empresa , compatriotas ! que o
triunfo é nosso:vencer ou morrer seja nosso lema; e tremam, tremam estes
tiranos por terem excitado vossa ira, sem advertir que os americanos do
sul estão dispostos a defender sua pátria e preferen morrer com honra
que viver com ignomínia em afrontoso cativeiro." É o mesmo Artigas que
em 1819 escreve a Simon Bolivar oferecendo um tratado de reciprocidade
afirmando: Unidos intimamente lutamos contra tiranos que intentam
profanar nossos mais sagrados direitos. ( Oscar Bruschera fls. 175). E é
neste mesmo Artigas, que vamos identificar, no cerne do seu pensamento a
idéia da Pátria Grande do Prata, que nos dá condições de entender a
revolução farropilha em razão do contexto geo-político onde está
inserido o Rio Grande do Sul. Artigas sonhava com um pais que
estendia-se pelos territórios do que são hoje, Paraguai, as províncias
argentinas de Corrientes, Entre-Rios e Missiones e as Missões
Brasileiras, desenhadas entre os rios Uruguai, Ibuicuí , Bacacai e
Santamaria. Ora, se com relação as ex-colonias espanholas a expansão
napoleônica agiu como uma enzima catalizadora do processo de libertação,
pois provocou a desarticulação da metrópole e a fragmentação dos Vices
reinados que eram em número de quatro: o do México ou Nova Espanha, o da
Nova Granada, o do Perú e o de Bueno Aires ou La Plata, com relação ao
Brasil, houve exatamente o contrário, pois a corte portuguesa
deslocando-se da metrópole e transferindo-se para o Brasil, consolidou
ainda mais o poder lusitano no continente americano protelando sua
guerra de libertação e independencia. Só em 1820, com a revolução
constitucionalista na cidade do Porto, revolução esta sob a égide dos
ideais republicanos franceses ali deixado pelos invasores é que o Rei
portugues , Dom João VI, retorna a Portugal em 1821, depois de ter
jurado uma constituição sem ao menos conhecer seu texto e ficando bem
dizer, um títere das cortes preso como estava no palácio de Queluz.
Neste momento é que vamos ter iniciado o processo de independência com
resultados reais. Anteriormente já havíamos tido a Inconfidência,
ideário maçonico, como atesta o triangulo que orna o lema libertas quae
sera tamem , coincidentemente no mesmo ano de 1789, ano da revolução
francesa e da proclamação do Bill of Rights Americano. Manoel Ferreira,
estabelece inclusive vínculos da maçonaria brasileira com a americana
neste respeito (fls 112) diz que o estudante, conforme autos da devassa
da Inconfidência , José Joaquim de Maia teria entrado em contato com o
embaixador americano em Paris, Thomás Jefferson, na faculdade de
Montpellier. É ainda, o mesmo autor, que identifica na maçonaria azul,
monárquica, instalada no Senado da Câmara de São Paulo, cujo
representante maior é José Bonifácio de Andrada, que pretende a
independência brasileira sob um regime constitucional monárquico e por
outro lado, a maçonaria vermelha, instalada no Senado da Câmara do Rio
de Janeiro, cujo prócer de maior envergadura é Gonçalves Ledo, que
pretende o Brasil independente como república constitucional. São estas
as visões que se digladiam sobre as aparências e os movimentos dos
personagens históricos coadjuvados pelos interesses ingleses, maior
potencia da época. A Inglaterra era o império onde o sol nunca se punha.
Se perdera os Estados Unidos, no entanto possuia Gilbraltar, as Guianas,
a Africa , o Congo, a Austrália, Nova Zelandia., a Grande Índia, Hong
Kong, etc. E oBrasil, alinhava-se com a Inglaterra, pois D. João VI, era
aliado inglês, tanto é que abrira os portos as "nações amigas", leia-se
para a Inglaterra. Simon Bolívar identificou esta união
pois dizia: (Opus citae fl 317): ...Me han dicho, terminantemente, que
yo debo ejercer el protectorado de la América, como medio de salvarla de
los males que la amenazan, muy particularmente por la actitud hostil que
ha tomado el Brasil contra Buenos Aires, ...Yo sé que emperador del
Brasil está muy orgulloso con la protección que le dispensa Inglaterra,
y si usted ha visto las relaciones que ha establecido sir Charles
Stewart em Lisboa, conocerá que el emperador tiene razón, no solamente
para estar orgulloso, sino para esperar mucho de Inglaterra. Además, no
seria extraño que el emperador del Brasil esté destinado a ser el
instrumento de que se valga la Santa Alianza para destruir nuestras
instituiciones liberales, comenzando por Buenos Aires que es la parte
mas débil." Não é só Bolívar que identifica a ação dos interesses
inglêses a afetar o hemisfério, o historiador León Pomer, ao analisar no
Livro a Guerra do Paraguai, afirma, citando textualmente o Imperador
brasileiro: Mauá (Irineu Evangelista de Souza) é o berço mais poderoso
do capitalismo inglês nestas latitudes. Em 1862 produz-se uma grave
tensão entre Saint James e o governo do Imperador. Nessa oportunidade
Mauá apressa-se a atuar como mediador. O imperador afirma: "A título de
que Mauá se metia nisso ? Como banqueiro e homem de negócios com
interesses e capitais intimamente ligados aos ingleses ? É mais do que
suspeito". Quem diz isto é o senhor Bragança. (fls 119 opus citae). É
neste cenário que se dá a luta de secessão do Rio Grande identificada
com a maçonaria vermelha, isto é, republicana. Os irmãos Ferreira, no
Livro a maçonaria na Independência afirmam que os farrapos, quando
tinham uniformes, os usavam da cor vermelha. Na bandeira gaúcha, também,
como se pode verificar, estão todos os símbolos e as cores maçonicas.
Assim passamos a resumir a revolução gaúcha, conforme o descrito por
Paulo Bonavides, em sua história constitucional do Brasil (Ed. Paz e
Terra - fls 175).
Em 1824, ano da
outorga da Carta Constitucional pelo Imperador, após o golpe que
dissolveu a Assembléia Constituinte, eclodiu logo após a revolução
nordestina, cujo lider foi Frei Caneca. Esta revolução teria proclamado
a confederação do Equador, com os mesmos ideais que adornaram
posteriormente a revolução farrapa. Não conseguiu, no entanto esta
revolução sobreviver mais do que algumas semanas, ao contrário da
revolução gaúcha que sobreviveu anos. Se na revolução nordestina só
nominalmente houve governo e organização estatal, não passando tudo de
um esboço ou quimera, logo atropelada pela sucessão vertiginosa dos
eventos militares adversos;aqui ao contrário, a República, uma vez
proclamada, configurou-se qual um poder estabelecido, apto a sustentar
por mais tempo, e não raro com algum êxito, as bases de uma organização
de governo e Estado, em que avultou sobretudo a convocação e o
funcionamento de uma Constituinte e a elaboração de um projeto
constitucional. Aqui, exatamente, tínhamos como vizinhas duas repúblicas
simpatizantes , adversas ao império e que simpatizavam com a causa dos
insurrectos o que tornava, política e geográficamente ,a sustentação da
luta pelos riograndenses. Assim foi, que as tensões entre liberais
(vermelhos) e conservadores (azuis) ou caramurús, aprofundadas com o que
Felisbelo Freire caracterizou como os excessos imperiais relativos ao
peso de exorbitantes impostos, pois "eram os produtos rio-grandenses
vencidos pela concorrência dos platinos nos mercados gerais; ao Rio
Grande faltavam serviços necessários ao seu desenvolvimento, parte de
suas vendas eram drenadas em suprimentos à Província de Santa Catarina;
cancelara-se a dívida do tesouro de São Paulo ao do Rio Grande, mas
concedia-se àquele impostos de introdução de animais que este para ali
exportava; e, não satisfeito, o Império criava direitos vexatórios sobre
os chapeados, as esporas e os estribos." A chamada Guerra dos Farrapos
principiou a 20 de setembro de 1835, com a deposição do Presidente da
província, Antônio Rodrigues Fernandes Braga. Nesse dia, em razão do
levante, embarcou ela para o Rio Grande onde se refugiou. Ocupada a
capital, Porto Alegre, pelos revolucionários, empossaram estes perante a
Câmara Municipal, na ausência dos três primeiros v ice-presidentes, o
quarto vice-presidente, Marciano Pereira Ribeiro. Bento Gonçalves, 5
dias depois, lavra um manifesto, de seguinte teor: "Conheça o Brasil que
o dia vinte de setembro de 1835 foi a consequencia inevitável de uma má
e odiosa administração; e a que não tivemos outro objeto, e não nos
propusemos outro fim, que restaurar o império da lei, afastando de nós
um administrador inepto e faccioso, sustentando o trono de nosso jovem
monarca, e a integridade do império. Sim compatriotas, devemos ao
Brasil, que neste momento tem seus olhos fitos em nós, esta manifestação
tanto mais sincera e pronta, quanto maior é o dever em que nos achamos
de desvanecer os temores com que nossos inimigos o quiseram aclamar,
acusando-nos de sustentar vistas de desunião e república.
Desgraçadamente nesta província, como nas demais do Império, existe uma
facção retrógrada adversa por princípios e interesses à nova ordem, de
coisas, e inimiga implacável de todos aqueles que professam decidido
amor às liberdades pátrias. O Governo de facção desapareceu de nossa
cena política, a ordem se acha restabelecida. Com este triunfo dos
princípios liberais minha ambição está satisfeita, e no descanso da vida
privada, a que tão somente aspiro, gozarei o prazer de ver-vos desfrutar
os benefícios de um governo ilustrado, .liberal e conforme com os votos
da maioridade da província. Respeitando o juramento que prestamos ao
nosso código sagrado, ao trono constitucional e à conservação da
integridade do império, comprovareis aos inimigos de nosso sossego e
felicidade, que sabeis preferir o jugo da lei ao dos seus infratores, e
que ao mesmo tempo nunca esqueceis que sois os administradores do melhor
patrimônio das gerações que vos devem suceder, que este patrimônio é a
liberdade, e que estais na obrigação de defendê-la à custa de vosso
sangue e de vossa existência. " Se na realidade deste manifesto se
caracteriza em realidade somente um rompimento com os conservadores
corroborado pelo Vice-Presidente da Província, Marciano Pereira Ribeiro,
que proclamava: "Viva a integridade do Império ! Viva a uniào Brasileira
! Viva o Sr. D.Pedro II, Imperador Constitucional do Brasil ! Vivam os
Riograndenses ! Viva o dia 20 de setembro ! " No entanto os caramurus,
elementos conservadores, minavam a manifestação liberal imputando-a de
separatista e anti-monárquica. Uma nova fase da guerra dos farrapos
inaugura-se em 10 de setembro de 1836, após o combate ferido em 'Seival,
quando o Gen. Antonio de Souza Neto, derrota as forças legalistas de
Silva Tavares, desbaratando os contingentes imperiais. Animados pelo
triunfo, no dia seguinte, em 11 de setembro de 1836, os vitoriosos,
proclamaram a República do Rio Grande independente, liberando-se dos
laços com o Império. É no Campo de Menezes que o chefe vitorioso em
Seival, Antonio Netto , proclama: "Nós que compomos a 1 Brigada do
Exército Liberal, devemos ser os primeiros a proclamar, como
proclamamaos, a Independência desta Província, a qual fica desligada das
demais do Império e forma um estado livre e independente, com o título
de República Rio-Grandense, cujo manifesto ás Naçoes civilizadas se fará
competentemente. Camaradas ! Gritemos, pela primeira vez: Viva a
República Rio-Grandense ! Viva a Independência ! Viva o Exército
Republicano Rio-Grandense! A independência será formalizada através da
representatividade que a homologou nas sessões das Câmaras de Jaguarão e
Piratini, respectivamente, em 20 de setembro e 05 de novembro de 1936.
Embora Bento Gonçalves, pela ata gravada, tenha sido instituido como
"Protetor da República e Liberdade Rio-Grandense" e seu primeiro
presidente interino, quis o infausto que após o desastre militar da ilha
do Fanfa, a 4 de outubro de 1836, o grande chefe militar da revolução,
caisse prisioneiro dos legalistas, sendo que em substituição ao mesmo,
assumiu a Presidência em Piratini, José Gomes de Vasconcelos Jardim..
Nesta mesma histórica sessão , a 6 de setembro de 1836, foi convocada
uma Assembléia Geral e Constituinte para fazer a Constituição da
República que nascia, confirmada através da representação feita pelo
Gen. Souza Neto, em 23 de setembro de 1837, no campo das Asperezas.
Neste mesmo ano, Bento Gonçalves que estava preso no Forte São Marcelo,
na Bahia, se evade com a ajuda da maçonaria, através daqueles liberais,
republicanos baianos, que neste mesmo ano vão promover a revolução
denominada Sabinada. É este o relato dos Ferreira, opus citae fls 394:
"Assim , no dia 28 de junho daquele ano, na loja Virtude ao Oriente da
Bahia, "o irmão Secretário apresentou uma prancha do Irmão Bento
Gonçalves da Silva, grau 18, de que ficou a Loja ciente, logo nomeados
os Irmãos Guimarães, Manoel Joaquim e Marques para se dirigirem por
parte da Loja ao dito Irmão e participarem-lhe que ela ficou inteirada,
e que faria o que estivesse a seu alcance a fim de melhorar a sua
sorte..."E no dia 30, na loja Fidelidade e Beneficência: "teve lugar
igualmente a leitura de outra prancha dirigida pelo Irmão Rosa-Cruz
Bento Gonçalves da Silva, preso no Forte do Mar por efeito de comoções
políticas, fazendo ver o estado em que se achava, e à vista do que pedia
o único recurso de lhe serem ministrados meios de ser mudado para uma
prisão mais cômoda, onde fosse lícito falar aos seus amigos; do que,
sendo a Loja inteirada, foram nomeados pelo Ir. Ven. para visitarem ao
dito Ir. _ e lhe oferecerem os socorros de que ainda precisasse, ou
estivesso ao alcance da Loja, os Irmãos Roberto, Tesoureiro e Orador
Adjunto..." Era um dos fundadores da sociedade secreta o próprio
comandante do Forte de São Marcelo. Bento Gonçalves, obtendo licença
para nadar, pela manhã, embrenhou-se pelo mar a nado sendo recolhido na
curva de uma onda. Conspiradores de chapéu alto esperavan-no em uma
praia. Dias mais tarde um palhabote do comércio largava mansamente os
panos ao nordeste. Ia com farinhas para Pelotas e Montevidéu. No topo do
mastaréu a flâmula auriverde tremulava. Quem diria que entre os sacos
brancos era devolvido aos pagos o homem da Setembrina ?" Este o relato
dos Ferreira.A revolução reacendeu seu vôo com o resgate de seu chefe
militar e civil, mas só cinco anos após, em 1842, nos dias 29 e 30 de
novembro é que realizaram-se duas sessões preparatórias da Assembléia
Geral Constituinte, cuja solene instalação ocorreu, conforme estava
previsto, a 1 de dezembro de 1842, na vila de Alegrete, então capital da
República Riograndense. A Ata de instalação foi publicada no periódico
oficial "Americano", nº 21, de 14 de dezembro de 1842, sendo que
presidiu a sessão o deputado mais votado, Mártins Ávila.. Já nesta
ocasião podia-se prenunciar um retorno a comunidade nacional que se
adivinhava na linguagem utilizada por Bento Gonçalves no trecho de sua
fala: "E assim que seu poder se debilita e se aproxima o dia em que ,
banida a realizada da terra de Santa-Cruz nos havemos de reunir para
estreitar laços federais à magnânima nação brasileira, a cujo grêmio nos
chama a natureza e nossos mais caros interesses." (Paulo Bonavides -
opus citae - fls. 185) . Com efeito, o grande agente separatista não
fora o ardor republicano da farroupilha, mas o despotismo da autoridade
imperial, a propensão absolutista dos "caramurus", sempre infensos ao
iluminismo do pensamento liberal. A revolução rio-grandense, abraçada à
limitação de poderes e a legitimidade das prerrogativas de governo,
buscava, de último, lograr o mais cedo possível o estabelecimento de uma
ordem estável e constitucional, para não faltar às grandes promessas que
ondeavam os estandartes da revolução. A 8 de fevereiro de 1843, foi
apresentado à Constituinte de Alegrete, o Projeto da Constituição da
República Rio-Grandense, subscrito pela Comissão Constitucional,
composta por José Pinheiro de Ulhoa Cintra, Francisco de Sá Brito, José
Mariano de Matos, Serafim dos Anjos França e Domingos José de Almeida
conforme os parâmetros estabelecidos na proclamação anteriormente feita:
"Os direitos do homem estabelecidos em princípios tão sólidos e duráveis
como a moral eterna, a divisão dos Poderes Constitucionais firmada sobre
a lei, a propriedade e a segurança individual combinada com o interesse
e a segurança pública, a correspondência e harmonia dos direitos com os
deveres do cidadão, eis os princípios e as condições do novo Pacto
Social, eis a importante e árdua missão de vossos representantes." Com
serenidade verbal, os constituintes de Alegrete assim concluiram sua
proclamação aos riograndenses:"Completai a vossa obra e mostrai ao mundo
o belo espetáculo de um povo, que por sua moderação é capaz de conservar
a liberdade e por sua coragem sabe conquistar a independência."
Bonavides, opus citae, fls 194, falando sobre o federalismo da república
riograndense diz, que este "era ao nosso ver, uma forma de união que
aceitava laços associativos com outros entes, desde que não importassem
sacrifício da independência nem da autonomia , entendida a primeira como
a plenitude do poder soberano. É de admitir, pois, que os farroupilhas,
cercados da simpatia das repúblicas platinas, buscassem um meio de
associação com seus vizinhos do Prata, mediante um provável pacto de
natureza confederativa. Em consequencia, a uniào constitucional, de teor
federativo propriamente dito, esteve assim com toda a probalidde longe
dos desígnios revolucionários. Havia da parte dos riograndenses em
relação aos platinos a mesma carência de identidade que determinara a
dissolução dos vínculos da Província Cisplatina com o Brasil.
Prevaleciam, por conseguinte, em mais elevado grau, as razões
centrípetas de associação com o Império, mormente se este reconhecesse a
autonomia riograndense ou antecipasse a mutação federativa, somente
ocorrida com o advento da república, mas sonhada pelas correntes
liberais desde o Primeiro Reinado. A solução federativa dentro da
monarquia constitucional brasileira era na época tese altamente
improvável. Entre Buenos Aires e Rio de Janeiro, o Projeto de federação
do general farroupilha Bento Gonçalves parecia mais inclinado a eleger
uma alternativa de todo distinta: a união com Montevidéu, Corrientes e
Entre Rios. O móvel maior da República Riograndense, cultivando assim
relações externas rudimentares na Bacia do Prata, debaixo da oposição
imperial, consistia sem dúvida em fazer vingar o germe federativo
externo, como escudo para garantir a sobrevivência do projeto
separatista em curso, uma vez que no Brasil a proposta de federação
estaria fadada a não receber apoio das demais províncias, como os fatos
da revolução, cabalmente, demonstraram desde o princípio. O caminho
exterior passava pela soberania e a república; e só depois se propunha a
alcançar o refluxo federativo, como um estágio mais adiantado na
concretização e consolidação da independência, logrando primeiro o apoio
e a segurança de uma união com outras unidades republicanas vizinhas. Ao
cabo da guerra civil, as lideranças farroupilhas já estavam, porém
desenganadas de obter uma forma de união com seus vizinhos do rio da
Prata. A mesma distância de cultura interesses que separara a Província
Cisplatina do Brasil-Império apartava então os riograndenses dos povos
do Prata. A recusa da federação trazia embutida a consciência política
de que ela própria seria a perda da independência conforme se via no
ânimo de Bento Gonçalves e Bento Manuel. Paulo Bonavides, citando o
historiador Florêncio de Abreu, diz a fls 196, opus citae, que Rivera,
este sim, explorando as necessidades dos revolucionários de conseguirem
armas, gêneros e cavalhadas, divisava o sonho do Quadrilátero de Artigas
( união do Uruguai - Corrientes - Entre-Rios - Rio Grande - Paraguai e
Missiones), mas Bento Gonçalves não cogitava disto. Os fatores da
política externa contribuiram fortemente, como se vê, para que a sorte
dos chefes vencidos no movimento farroupilha contra o Império fosse tão
distinta do destino daqueles que durante o Primeiro Reinado encabeçaram
nas províncias do norte o republicanismo da Confederação do Equador. Não
houve cárcere nem patíbulo para as lideranças farroupilhas. Ainda
destroçado militarmente, Bento Gonçalves negociou a paz com o Barão de
Caxias numa sólida posição, senão de força, ao menos de tranquilidade
para quem já se achava definitivamento no fim. Mas tudo porque do outro
lado da fronteira Rosas acenava com promessas sedutoras de um tratado de
aliança, não havendo fantasma mais incômodo para o Império do que o
caudilho da futura batalha de Monte Caseros. (fls 196)Assim, é , que
para encerrar este trabalho, resgatando uma visão crítica da história,
necessário se faz citar Eduardo Galeano, em "Las venas abiertas de
America Latina", fls 406, quando clama, citando Simon Bolivar: "Nunca
seremos dichosos, Nunca ! "e continua: "para que el
imperialismo norteamericano pueda, hoy dia, integrar para reinar en
América Latina, fue necesario que ayer el Imperio Británico contribuyera
a dividirnos con los mismos fines. Un archipiélago de paises,
desconectados entre sí, nació como consecuencia de la frustración de
nuestra unidad nacional. Cuando los pueblos en armas conquistaron la
independencia, América Latina aparecía en el escenario histórico
enlazada por las tradiciones comunes de sus diversas comarcas, exhibía
una unidad territorial sinfisuras y hablaba fundamentalmente dos idiomas
del mismo origen, el español y el portugués. Pero nós faltaba, como
señala Trías, una de las condiciones esenciales para constituir una gran
nación única: nos faltaba la comunidad econômica. Los polos de
prosperidad que florecían para dar espuesta a las necesidades europeas
de metales y alimentos no estaban vinculados entre si: las varillas del
abanico tenían su vértice el otro lado del mar. Los hombres y los
capitales se desplazaban al vaivém de la suerte del oro o del azúcar, de
la plata o del añil, y solo los puertos y las capitales, sanguijuelas de
las regiones productivas, teníam existencia permanente. Amércica Latina
nacia como un solo espacio en la imaginación y la esperanza de Simón
Bolivar, José Artigas y José de San Martin, pero estaba rota de antemano
por las deformaciones básicas del sistema colonial. Para nosotros, la
patria es América, habia proclamado Bolívar: La Gran Colombia se dividió
en cinco países y el libertador murió derrotado: Nunca seremos dichosos,
nunca ! dijo al general Urdaneta. Traicionado por Buenos Aires, San
Martin se despojó de las insignias del mando y Artigas, que llamaba
americanos a sus soldados, se marchó a morir al solitario exilio de
Paraguay: el Virreinato del Rio de la Plata se habia partido en cuatro.
Francisco de Morazán, creador de la república federal de Centroamérica ,
murio fusilado, y la cintura de América se fragmentó en cinco pedazos a
los que luego se sumaría Panamá, el canal con categoria de república que
inventó Teddy Roosevelt. El resultado está a la vista: en la actualidad,
cualquiera de las corporaciones multinacionales opera con mayor
coherencia y sentido de unidad que este conjunto de islas que es América
Latina, desgarrada por tantas fronteras y tantas incomunicaciones."( fls
406 - 407). O texto de Galeano sintetiza, em suma, um diagnóstico
histórico cáustico, a ser lembrado, neste dia histórico de setembro, mês
em que nossos ancestrais lutaram com sacrifício das próprias vidas
contra a opressão. Mês que contemplamos, impassivos, a uma invasão de
uma nação irmã, com derespeito fragoroso a autodeterminação dos
povos(Invasão norte-americana do Haiti em 1994). Neste momento festivo
em que se comemora as lutas do passado , revivecendo na alma a trilha ou
"lo sendero de la liberdad" havemos de ter consciência que para
edificarmos uma grande nação latino-americana, necessitamos, muito mais
do que somente ideais políticos, construir laços sólidos que nos unam
economicamente, devemos "volvir los ojos para nosotros" e assim não nos
dirpersamos frente aos interesses estranhos a esta grande comunidade que
é a América Latina. Lembramos aqui, a constituição diretiva e cidadã
brasileira, que em seu art 4º, estabelece como um dos princípios
fundamentais a ser alcançado pelo Brasil "a sua integração econômica,
política, social e cultural dos povos da América Latina, visando a
formação de uma comunidade latino-americana de nações." Esta é a saga de
nossos antepassados, reescrita nos lineamentos do MERCOSUL, que resgata
o grande sonho , hoje redivivo, de uma grande nação Latino-Americana.
Porto Alegre, 18
de setembro de 1994
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