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Revolução Russa

A Europa estava em guerra, a Primeira Guerra Mundial. A Rússia sai da guerra abandonando Inglaterra e França diante dos poderosos exércitos Austríaco e Alemão... Rapidamente os norte-americanos enviam tropas descansadas e com armamento de ponta em reforço, o que decide (temporariamente...) a guerra a favor dos aliados ocidentais.

         Mas e a Rússia em si? O que estava acontecendo por lá, afinal?

Os contemporâneos tomaram conhecimento da Paz de Brest-Litovskv assinada em março de 1918 entre a Rússia e a Alemanha.

O que significava este fato?

Para os Aliados era mais do que a saída de um membro da Tríplice Entente da guerra. A decisão daquela Nação, provocava o rompimento de mais um laço da Rússia com o Mundo Ocidental Capitalista. A Revolução já se processara na Rússia: a Revolução Socialista.

O desmoronamento do Império Russo iniciou-se no momento em que a guerra ainda não havia sido decidida nos campos de batalha da Europa, quando na frente ocidental os exércitos se imobilizavam nas trincheiras e na frente oriental enormes contingentes de soldados russos eram destruí­dos pela ofensiva alemã.

No entanto, as origens da Revolução Russa devem ser procuradas nas estruturas políticas e socioeconômicas da Rússia pré-revolucionária: Monarquia Absoluta - Czarisrno - acentuada crise socioeconômica - onde os camponeses reclamavam terra, o crescente proletariado vivia em condições precárias e a burguesia era incapaz de concorrer com o capital industrial estrangeiro, tudo se agravando com a passagem do feudalismo ao capitalismo.

Nesse contexto surgiram os parti­dos políticos de oposição que, desenvolvendo-se na clandestinidade até 1905, contribuíam para o agravamento das contradições e, conseqüente-mente, para a crise. O governo, por sua vez, mostrava-se incapaz de enfrentar a crise, principalmente quando o Império entrava em guerra. Tudo se mos­trava bastante propício para o início da Revolução... mas para a implantação do Socialismo muitas coisas precisavam ser feitas...

Em 1905 ocorreu o  Ensaio Geral “e algumas concessões foram arrancadas do Czar: o direito de voto, uma Assembléia (a Duma), ao mesmo tempo em que surgia nova forma de organização, o soviete”.

O que eram os sovietes? Eram conselhos de representantes operários, camponeses e soldados que surgiram como forma de organizar os movimentos populares.

Durante o Império, o proletariado, abandonando as simples greves de reivindicações econômicas, passara a promover manifestações de cunho político, como a do dia 1º de maio de 1900, na cidade de Kharkov: uma verdadeira manifestação política de mas­sa - dez mil operários - exigia jornada de oito horas de trabalho e liberdades políticas.

Porém, quando em janeiro de 1905 multidões de manifestantes desarma­dos foram fuziladas nas ruas de Petrogrado (atual São Petersburgo) extinguiu-se, em definitivo, a fé na “boa vontade” do Czar...

Foi então que o movimento operário galgou mais um degrau. As comemorações de 1° de maio de 1905 evoluíram para grandiosa manifestação de solidariedade do proletariado... De maio até fins de julho a greve não ha­via terminado ainda e os operários, com o objetivo de melhor dirigir a greve, criaram, pela primeira a vez, o seu Soviete de Deputados, isto é, o Conselho de Representantes Operários, logo transformado em novo poder revolucionário.

A luta pela Revolução Socialista far-se-ia então, através desses sovietes onde os Bolchevistas, Menchevistas e Socialistas Revolucionários, ex­pondo-lhes seus planos, procuravam liderá-los.

Um fato veio acelerar o processo revolucionário: a Rússia entrou na Primeira a Guerra Mundial e o país, despreparado para os esforços de guerra, teve seus problemas agravados, o que se evidenciava na Duma, onde a oposição se fortaleceu.

Os movimentos grevistas cresciam e provocavam choques entre o povo e a polícia, mas uma parte do Exército uniu-se aos manifestantes e o poder czarista desmoronou... Foi a Revolução de março de 1917.

No entanto, esta ainda não era a Revolução Socialista. Veja o que John Reed, jornalista que participou dos acontecimentos revolucionários e do dia-a-dia com o povo e seus líderes, escreveu sobre a Revolução de Março em seu livro Dez Dias que Abalaram o Mundo (Edições Zumbi, págs. 22 e 23):

 

“Durante os primeiros meses do novo regime, com efeito, não obstante a confusão que se segue a um grande movimento (...) a situação interior bem como a força combativa dos exércitos melhorou sensivelmente”.

Mas essa 'lua-de-mel' teve curta duração. As classes dominantes pretendiam uma alteração unicamente política que, tirando o poder do Czar, passasse para as suas mãos. Queriam fazer na Rússia uma revolução constitucional, segundo o modelo da França ou dos Estados Unidos, ou então uma Monarquia Parlamentar, como a da Inglaterra. Ora, as massas populares queriam, porém, uma verdadeira Democracia operária e camponesa.”“.

 

John Reed mostra-nos também o estado de espírito dos trabalhadores russos naquele momento, através de um trecho do livro A Mensagem da Rússia, de William E. Walling:

 

“Os trabalhadores compreendiam bem que, mesmo sob um governo liberal, eles se arriscariam a continuar morrendo de fome, se o poder ainda permanecesse nas mãos de outras classes sociais”.

O operário russo é revolucionário (...) Está disposto a levar até o fim a luta contra seu opressor, a classe capitalista (...)

Os trabalhadores russos reconhecem que nossas instituições políticas [norte-americanas] são preferíveis às deles, mas não querem trocar um despotismo por outro (o da classe capitalista).”(REED, J., op. cit., pág. 23.)”.

 

Foi nesse clima que se desenvolveu na Rússia, depois da Revolução Burguesa e no próprio curso da Primeira Guerra Mundial, a Revolução Socialista. Controlando os principais sovietes, os Bolchevistas prepararam a Revolução Socialista. O líder dos Bolchevistas, Vladimir Ulianov (Lênin), estava exilado na Suíça quando explodira a Revolução de Março. Nas memórias de Yakov Guenetzkov encontramos relato sobre os planos de Lênin para voltar à Rússia; descrevendo sua partida, mostra-nos a esperança que depositavam em Lênin: "(...) eis que é chegada a hora de tomar o trem (...) enviamos ao grande líder nossos últimos cumprimentos e pensamos: Ele há de colocar a revolução sobre os trilhos certos (...)" (Citado por NENA­ROKOV, A., 1917. A Revolução de Mês a Mês, Editora Civilização Brasileira, págs. 45 e 4G.)

 

Enquanto isso, a 4 de julho teve início em Petrogrado uma passeata com mais de meio milhão de manifestantes. Suas faixas diziam: "Fora com os Ministros Capitalistas", "Todo o poder aos Sovietes de Deputados, Operários, Soldados e Camponeses".

Mas, como já ocorrera no ano de 1905, houve cenas de tiroteio contra a passeata pacífica. O Governo Provisório, contando com o apoio dos Menchevistas e Socialistas Revolucionários, convocou cossacos para esmagar a manifestação das massas e fechar jornais bolchevistas.

A luta estava declarada. O Governo Provisório foi deposto e os Bolchevistas assumiram o poder. No entanto, esta era apenas a primeira etapa, pois, agora, não se tratava de uma simples tomada de poder por um novo grupo. Os homens que tomaram o poder em 1917 procuraram, em atos e palavras, criar um novo tipo de sociedade que apenas existia na mente de seus adeptos até então.

No resto do mundo, a amplitude do fenômeno só foi totalmente compreendida no pós-guerra. Na Rússia, no entanto, os protagonistas da Revolução percebiam claramente sua importância. E John Reed que, descrevendo uma reunião do Comitê Central Executivo dos Sovietes, mostra-nos o pronunciamento da mulher, segundo ele, mais poderosa e amada da Rússia, Maria Spiridonova:

 

“Os operários da Rússia têm diante de si perspectivas históricas até agora desconhecidas. Todos os movimentos revolucionários do proletariado, até o presente, foram derrotados. O movi­mento atual é internacional. Eis por­que é invencível. No mundo inteiro, não há força capaz de extinguir este incêndio revolucionário. O velho mundo desmorona-se e um novo mundo nasce.”

 

Seu pronunciamento foi seguido pelo de Trotsky, que, complementando-o, afirmou: “De hoje em diante to­das as terras ;da Rússia têm um único dono: a união dos operários, camponeses, soldados de marinheiros!” (REED, J., op. cit., págs. 378 e 379.)

A Europa, quando tomou conheci­mento de tudo isso, estava mergulhada em crises. Era, então, um campo aberto para idéias revolucionárias e, da partir daí, da "estrela" além de ter "perdido seu brilho" com da Primeira Grande Guerra, debatia-se ante as tentativas revolucionárias de tomada do poder nos moldes bolchevistas. E, com a Segunda Grande Guerra, alguns países passariam da integrar o campo socialista.

O mundo desde então ficaria dividido: Capitalismo de um lado e Socialismo de outro.

 

A Rússia Pré-Revolucionária: a Estrutura Socioeconômica

 

Às vésperas da Primeira Guerra Mundial, da Rússia possuída da maior população da Europa (174 milhões) e também os maiores problemas: os camponeses reclamavam terra de o operariado vivida em precárias condições, agitando-se freqüentemente, no que era estimulado pelos partidos clandestinos de oposição. Nas províncias, na população não-russa, os problemas sociais misturavam-se aos nacionais.

 

A Questão Agrária

 

Os laços servis na Rússia começa­ram da se fortalecer exatamente no mo­mento em que no Ocidente europeu o feudalismo iniciou sua decadência. O reforço da servidão foi correspondido ao nível político pela centralização do Estado, desde o final do século XVI: da partir de 1580 da legislação de Ivan IV proibida o camponês de abandonar da terra do senhor.

A servidão feudal se superpôs a uma estrutura comunitária existente anteriormente: o mir. O mir era a comunidade aldeã em que não existiam diferenças sociais, sendo a terra partilhada anualmente entre os seus integrantes, que a possuíam coletivamente. A comunidade aldeã mantinha firmes laços de solidariedade, sendo ao mesmo tempo a célula econômica e social básica do campesinato.

No século XIX, a tendência foi no sentido do desenvolvimento de relações capitalistas, que levaram a crescente diferenciação social dentro do campesinato, tornando-se a servidão um entrave ao desenvolvimento daquelas relações. Tal situação explica a progressiva diminuição da oposição da nobreza a reformas na agricultura e a uma possível emancipação dos servos.

Em 1861 aboliu-se a servidão e se deu ao camponês a propriedade da terra em que construíra sua casa.

A reforma acentuou a crise social, uma vez que a organização social baseada no mir foi rompida. A reforma de 1861 transformou o mir em uma célula administrativa, pois a comunidade era coletivamente responsável pelo pagamento da dívida ao Estado: este assumira o pagamento das indenizações aos senhores da nobreza. Ao mesmo tempo, aumentava a compra e venda de terras por elementos urbanos ou por camponeses enriquecidos saídos da própria comunidade aldeã - eram os kulaks, burguesia rural dona de terras mais vastas.

Uma boa parte da nobreza rural não se adaptou à "conversão para uma produção de mercado": Nos Zemstvos, assembléias provinciais, os representantes da nobreza constituíam opositores moderados do governo: protestavam contra a política de elevação das tarifas alfandegárias destinada a favorecer a industrialização, mas que não beneficiava a agricultura; mostravam-se também favoráveis a instituição de uma Monarquia constitucional. A questão agrária agravou-se com as reformas empreendidas pelo Ministro Stolypin, a partir de 1906, autorizando os camponeses a se retirar da comunidade com sua parcela de terra e a procurar fortuna com o auxílio do Banco Camponês. Isto só favoreceu os "kulaks", pois no mir procedeu-se à partilha definitiva. Desaparecendo a solidariedade aldeã, os camponeses mais pobres viram-se obrigados a vender seu lote para enfrentar o risco. Criou-se, dessa maneira, um fosso no mundo rural entre o campesinato pobre e sem terra e a burguesia rural, cada vez mais rica.

 

A Questão Operária

 

A partir do final do século XIX iniciou-se o processo de industrialização russa. Tal industrialização era de caráter dependente dos capitais estrangeiros. A produção era voltada para a exportação. Foi favorecida pela enorme oferta de mão-de-obra gerada pelo êxodo rural e se circunscreveu geograficamente aos grandes centros urbanos, Moscou e Petrogrado, e à Legião do Don, destacando-se seu alto grau de concentração. As empresas Tussas eram comparáveis em complexidade às grandes empresas industriais norte-americanas e alemãs: trustes e holdings.

Essas condições tiveram conseqüências sociais importantes: o proletariado, ainda que em número reduzido, apesar do evidente crescimento numérico, concentrou-se em algumas cidades. Embora fosse de origem camponesa, logo se desligou do campo, não apenas pelas condições de trabalho como também pela ação que junto a ele exerceram os partidos revolucionários. Greves e motins eram constantes. As difíceis condições de vida agravaram-se a partir de 1905 com a desvalorização dos salários e a alta constante de preços, além de forte taxa de desemprego.

 

"Não nos e possível ser instruídos porque não há escolas e desde a infância devemos trabalhar além de nossas forças por um salário ínfimo. Quando desde os nove anos somos obrigados a ir para a usina, o que nos espera? Nós nos vende­mos ao capitalista por um pedaço de pão preto; guardas nos agridem a socos e cacetadas para nos habituar à dureza do trabalho; nós nos alimentamos mal, nos sufocamos com a poeira e o ar viciado, até dormimos no chão, atormentados pelos vermes (...)"

(Declaração de um operário russo. Citado por DEFRASNE, J. DEL e LARAN, M., op. M., pág. 227)

 

Notava-se uma imensa fraqueza da burguesia russa, uma vez que a maior parte das terras estava com a nobreza e o grande capital industrial estava em mãos de estrangeiros. A partir do desenvolvimento da industrialização, as pequenas em­presas foram progressivamente eliminadas e os capitalistas russos tive­ram de se contentar com o controle de empresas peque­nas e médias, sem possibilidade de concorrência com as estrangeiras.

A pequena burguesia não encontrava um derivativo nas profissões liberais e nos cargos administrativos, sendo essa via social cada vez mais obstruída, embora a partir de 1908 o governo tivesse feito um grande esforço para aumentar a escolarização e modernizar a estrutura administrativa.

Grande parte dos elementos burgueses voltava-se para o Liberalismo no sentido do estabelecimento de um regime constitucional, mas a própria estrutura política do regime czarista impossibilitava a existência de uma oposição moderada, em moldes burgueses.

 

A Rússia Pré-Revolucionária: Estrutura Política e Formação dos Partidos Revolucionários

 

O Czarismo

 

Em pleno século XX o Estado russo ainda era uma Monarquia Absoluta. O Czar governava amparado socialmente na nobreza rural e em uma burocracia ("nobreza de função").

 

"O Imperador de todas as Rússias é um monarca autocrata e ilimitado. O próprio Deus determina que o seu poder supremo seja obedeci­do, tanto por consciência como por temor."

(Artigo I das Leis Fundamentais do Império, publicadas em 1892. Cita­do por KOCHAN, L., Origens da Revolução Russa, Zahar Editores, pág. 60.)

 

Nesse clima, organizaram-se os partidos políticos de oposição que, por não terem liberdade de expressão, atuavam na clandestinidade até 1905 e no amparo de ideologias importadas do Ocidente.

Durante a década de 1840, o desenvolvimento das opiniões tinha originado na Rússia duas atitudes gerais, convencionalmente chamadas de Eslavofilia e de Ocidentalismo.

Os ocidentalistas consideravam a cultura ocidental européia corno superior, desejando difundi-la na Rússia; acreditavam na Ciência, no governo constitucional, nos valores liberais e eram contra a servidão.

Os eslavófilos afirmavam a singularidade do passado nacional russo, resistindo à penetração das idéias do Ocidente, que consideravam "decadente e nas garras de um nacionalismo materialista"; dotados de fervor místico, ligados à Igreja oficial, acabaram por identificar-se com o Czarismo, fazendo a propaganda do Pan-Eslavismo que justificava uma política expansionista russa nos Bálcãs.

 

Os Partidos Políticos

 

A oposição ao regime czarista começou a crescer desde fins do século XIX e procurou melhor atuar através da organização de partidos políticos, os quais permaneceram ilegais até 1905.

Em 1898 foi fundado o Partido Operário Social-Democrata Russo. Nele, logo se destacaram Vladimir Ilich Ulianov (mais conhecido como Lênin) e Júlio Martov. Embora seguindo as idéias de Marx e Engels, o Partido dividiu-se em duas tendências: à dos Bolchevistas, liderados por Lênin e defensores da formação de um partido combativo, centralizado e disciplina­do; e a dos Menchevistas, chefiados por Martov, que pretendiam um par­tido aberto a qualquer simpatizante e de atuação moderada, inclusive com alianças a partidos sem idéias socialistas.

Outra organização foi o Partido Socialista Revolucionário, que também se dividiu em duas tendências, uma delas seguia as idéias de Miguel Bakunin (1814 - 1876), anarquista russo partidário de táticas violentas para destruir o regime czarista, não desprezando o re­curso a atentados contra os Czares, Ministros, Governadores etc.; a outra adotava as diretrizes de Pedro Kropotkin (1842-1921), anarquista russo que defendia a não-violência a fim de desagregar o Czarismo, adotando-se o não-pagamento de impostos, a recusa à prestação do serviço militar e o não reconhecimento dos tribunais do Estado.

O Partido Constitucional Democrata, mais conhecido como Cadete, reunia elementos da burguesia e de alguns setores da nobreza. Defendia a ideologia liberal e pretendia instaurar na Rússia um sistema de governo semelhante ao da Inglaterra.

 

As Revoluções: do "Ensaio Geral" de 1905 à Tomada do Poder (1917)

 

O governo russo era incapaz de solucionar os problemas socioeconômicos, que tendiam a se agravar quando o Império entrava em guerra. Nesse momento as crises acentuavam-se, criando conjunturas revolucionárias; assim ocorreu com:

 

1) a Revolução de 1905, chamada de "Ensaio Geral";

 

2) a Revolução de Março de 1917, que derrubou a Monarquia;

 

3) a Revolução de Novembro de 1917, que levou ao poder os Bolchevistas.

 

A Revolução de 1905: o "Ensaio Geral”

 

A Revolução de 1905 foi desencadeada com as derrotas russas frente ao Japão, no auge de grave depressão econômica, o que aumentou o descontentamento das diversas camadas sociais contra o Czarismo. A dispensa de operários deu motivo a uma manifestação pacifica liderada pelo padre Gapone. A manifestação foi dissolvida a bala: foi o Domingo Sangrento. O incidente deu sinal para distúrbios em toda a Rússia. Trabalhadores entra­ram em greve e por vários meses houve conflitos. No Mar Negro, os marinheiros do encouraçado Potemkim rebelaram-se. Camponeses subleva­ram-se.

As revoltas arrancaram concessões do Czar, destacando-se a legalização dos partidos políticos, a ampliação do direito de voto e a convocação de uma Assembléia Legislativa, a Duma; o governo, porém, assim que pôde, neutralizou-a.

Em 1906 reuniu-se pela primeira vez a Duma, logo dissolvida. O mesmo ocorreu com a seguinte. A lei eleitoral foi modificada para aumentar o número de representantes que apoiassem o Czar.

Mas os efeitos da Revolução foram duradouros: colocara-se em xeque o Czarismo, que perdeu a aura de sagra­do e intocável. Além disso, criou-se nova forma de organização: o Soviete (comitê ou conselho).

As tentativas governamentais de formar novas bases de apoio através das reformas do Ministro Stolypin não chegaram a produzir resultado. O próprio Stolypin foi morto por um anarquista (1911). As agitações retomaram seu vigor a partir daí.

 

As Revoluções de 1917: a tomada do poder pelos Bolchevistas

 

A entrada da Rússia na Primeira Guerra Mundial precipitou o processo revolucionário, pois a guerra acentuou as in­satisfações da sociedade. O pais estava despreparado para enfrentar o esforço de guerra e nenhum outro apresentava tantos contrastes sociais. Os solda­dos, mal-armados e subalimentados, foram dizimados em derrotas sucessivas. Em dois anos e meio, a Rússia perdeu 4 milhões de homens. Em outubro de 1916 a situação era insustentável e a oposição aumentou tanto no seio da nobreza e da burguesia quanto no campesinato e no proletariado. Os únicos setores beneficiados eram os ligados à indústria de guerra.

No plano político, a oposição na Duma cresceu. O Czar Nicolau II assumiu o comando do Exército, abandonando o governo ao grupo burocrático que se fechava em torno da Czarina. Esta vivia sob a influência de Rasputin, místico e charlatão, com enorme poder na Corte. A oposição acentuou-­se com as sucessivas deposições de Ministros. O Czarismo perdia todas as bases de apoio.

A Revolução de Março foi o resultado de uma série de greves e movi­mentos de massa ocorridos em Petrogrado. Os soldados recusaram-se a atacar as multidões de manifestantes, mas houve choques violentos entre a polícia e o povo. Uma parte do exército reuniu-se aos manifestantes. Os edifícios públicos foram ocupados, os Ministros e Generais detidos. Desmoronava-se o poder czarista. Constituiu-se um Governo Provisório integrado por elementos liberais da Duma; porém, o poder de fato estava com os Sovietes, controlados inicialmente pelos Menchevistas e Socialistas Revolucionários.

A Revolução não se limitara a Petrogrado, mas espalhou-se por toda a Rússia. O Czar ainda tentou uma manobra abdicando em favor de seu irmão, o Grão-Duque Miguel, que não aceitou a coroa imperial. À frente do Governo Provisório da República es­tava o Príncipe Lvov, liberal; contudo, logo se destacou Kerenski, convertido em homem forte do governo.

O período de março a novembro de 1917 caracterizou-se pela dualidade de poderes entre o Governo Provisório e o Soviete dos operários, soldados e camponeses de Petrogrado. O Governo Provisório  evidenciou sua debilidade e incapacidade em resolver as questões que haviam provocado o fim do Czarismo.

Três correntes políticas, então, se defrontavam:

1) O Partido Constitucional Democrata ou Cadete, partido da burguesia e da nobreza liberal, tornado um reduto do conservadorismo: favorável à continuação na guerra e adiando para depois quaisquer modificações sociais e econômicas;

2) Os Bolchevistas, que defendiam o confisco das grandes propriedades, o controle operário da indústria e, acima de tudo, a paz imediata com a Alemanha;

3) Os Menchevistas e Socialistas Revolucionários, que, embora contrários à guerra, não admitiam a derrota da Rússia. Em outras questões permaneciam divididos e indecisos, com o que foram perdendo prestígio político.

De minoritários, os Bolchevistas passaram a majoritários, controlando os principais Sovietes a partir de agosto-setembro. Começaram em outubro os preparativos para a insurreição. No interior do Soviete de Petrogrado, houve a constituição de um Comitê Militar para a realização da Revolução. Sob a bandeira de "Todo o Poder aos Sovietes" o movimento se desencadeou. Os principais edifícios públicos e pontos da cidade foram ocupados, o Governo Provisório foi deposto e os Bolchevistas assumiram o poder. A toma­da do poder não foi, porém, o capítulo final do processo revolucionário, mas apenas o começo: os Bolchevistas, para se manterem na direção da República Socialista Soviética, enfrentaram inúmeros problemas.

 

Da Rússia à URSS: Crise e Estabilização (1918-1928)

 

A tomada do poder pelos Bolchevistas colocou-os frente a antigos e no­vos problemas. O período 1918-1928 pode e ser dividido em três etapas: o Comunismo de Guerra (1918-1921), a Nova Política Econômica (1921-1928) e a implantação do Socialismo integral a partir de 1928.

 

A época do Comunismo de Guerra (1918-1921)

 

"Em oito dias, o Conselho dos Comissários editou uma série de medidas que transformaram a ordem antiga. Fez então conhecer seu grande desejo de paz sem anexação; decidiu suprimir a grande propriedade fundiária e confiou as terras aos 'Comitês agrários'; instituiu nas fábricas um controle operário; enfim, autorizou os povos da Rússia a disporem de si mesmos e formarem Estados independentes."

(BOUILLON, J., SORLIN, P. e RU­DEL, J., Le Monde Contemporain, n, Bordas, pág. 32.)

 

Aos poucos o novo poder se organizou, com a criação do Exército Vermelho, da Tcheca (polícia política), ocorrendo também a separação entre e Igreja e Estado, a abolição dos empréstimos contraídos durante o período czarista, a nacionalização dos bancos, das estradas de ferro, do comércio cio exterior etc. A efetivação dessas medidas dependia da força do novo governo que se apoiava no operariado das grandes cidades e no campesinato. Isto explica a urgência de se fazer a paz com a Alemanha, o que significa­ria um alívio geral para a população.

A Paz de Brest-Litovsky, assinada em março de 1918, caracterizou-se pela dureza de condições para os soviéticos, bem corno pela controvérsia que causou entre os Bolchevistas. Uma corrente, liderada por Lênin, advogava a paz a qualquer preço para salvar a Revolução na Rússia. Outra, liderada por Trotsky, pretendia continuar a guerra, dando-lhe conteúdo revolucionário. O avanço ale­mão sobre a Ucrânia e a desintegração do Exército soviético levaram à vitória a primeira corrente e a paz foi assina­da. Par ela, a República renunciava â Polônia, Ucrânia, Finlândia, Estônia, Letônia e Lituânia, cedia territórios à Ale­manha e à Turquia, perdia três quartos de suas minas de ferro e carvão e pagava forte indenização. A Revolução estava garantida, mas os soviéticos viam aumentadas suas dificuldades econômicas.

A oposição ao novo regime gerou sublevações, em geral lideradas por antigos oficiais czaristas. Ao mesmo tempo, os países europeus, cujas tropas eram influenciadas pelas idéias bolchevistas, viam a Revolução como uma ameaça a seus próprios regimes. Daí seu apoio às tropas dos Russos­Brancos (antibolchevistas), bem como a invasão de dezesseis exércitos estrangeiros ao território soviético. O Governo Bolchevista reagiu com a ampliação do Exército Vermelho. Contou também com o apoio das camponeses, que temiam que suas terras fossem confiscadas pelos Russos-Brancos e devolvidas à antiga aristocracia. As tropas invasoras desorganizavam-se e contra a invasão ocorreriam protestos em vários países. Esses fatos explicam a vitória do Exército Vermelho, após alguns anos de luta.

Entretanto, a vitória bolchevista só foi possível através do emprego de inúmeras medidas radicais, globalmente conhecidas sob o nome de Comunismo de Guerra. Segundo Crio Crouzet, "o seu objetivo é uma estrita regulamentação do consumo e da produção em um país cercado, mas ao mesmo tempo sua ação provoca transformações da estrutura econômica que nunca mais serão postas em xeque (...) Há, portanto, expropriação completa da grande indústria e da maior parte das peque­nas empresas; o simples controle operário previsto foi substituído pela gestão operária (...) Criam-se, então, o monopólio dos cereais pelo Estado e 'Comitês de camponeses pobres', encarregados de combater a influência política dos cultivadores abastados que animavam a resistência, bem como de confiscar os estoques dos camponeses ricos. Finalmente, começam a organizar-se propriedades agrícolas coletivas de produção e consumo, completa ou parcialmente coletivizadas, embora seu número em 1921 representasse apenas 1% de todas as explorações camponesas". (CROU­ZET, M., op. cit., t., p. 234.)

 

A NEP: busca de estabilização para o novo regime soviético

 

Ao fim da guerra civil e da invasão estrangeira, a vitória da Revolução es­tava consolidada, mas as precárias condições da economia soviética, que regredira a níveis inferiores aos de antes da Primeira Guerra Mundial, aumentou a insatisfação. Ocorreram eram levantes, entre estes destacando-se o dos marinheiros da base naval de Kronstadt.

Os camponeses sentiam-se ameaça­dos pelas requisições forçadas. O poder bolchevista enfrentava sua primeira a grande crise com as próprias forças que o apoiavam. Como conciliar o caráter socialista da Revolução com as exigências camponesas? Como manter-se no poder sem apoio desse campesinato, numericamente majoritário, no momento em que grande par­te do operariado das cidades tinha desaparecido?

A resposta a essas perguntas foi a Nova Política Econômica (NEP) defendi­da por Lênin.

Vigorando de 1921 a 1928, a NEP era uma economia mista de socialismo e capitalismo: permitiu a liberdade do comércio interno, o funcionamento de pequenas empresas industriais e o ressurgimento de propriedades rurais pertencentes aos "kulaks". Concessões foram feitas a empresas capitalistas inglesas, norte-americanas, francesas e alemãs.

"Mas, simultaneamente, o Estado conservava seu direito de propriedade sobre a terra e todos os meios de produção, controlava os transportes, os bancos, a grande indústria, o comércio externo. Havia, então, um setor privado e um setor público em concorrência." (DUROSELLE, J. B., Histoire Le Monde Contemporain, Fernand Nathan, pág. 129.)

Do ponto de vista econômico, a NEP teve balanço positivo. A produção industrial ultrapassou o nível anterior à guerra, o mesmo podendo-se afirmar em relação aos rendimentos agrícolas.

Paralelamente à NEP, observam-se transformações no plano político e institucional. A Constituição de 1918 não fora posta em prática. Uma outra surgiu e deu origem, em 1922, à União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), federação cuja República mais importante era a Rússia, reunindo também a Ucrânia, Bielorrúsia, Transcaucásia e as Repúblicas da Ásia Central.

O sistema eleitoral para a escolha dos Sovietes (locais, regionais ou nacionais) favorecia os operários em detrimento dos camponeses. O poder supremo, o Congresso dos Sovietes da União, reunia-se periodicamente, designando um Comitê Central Executivo para dirigir o país nos intervalos dos congressos. O Comitê Central tinha um "Presidium" e nomeava o Conselho de Comissários do Povo (espécie de Ministros de Estado). A autoridade central tinha, portanto, muito poder; aos Estados Federados restava certa autonomia em questões como instrução, desenvolvimento da cultura local etc. A fonte de todo o poder era o Partido Comunista, minoria atuante que dava as diretrizes aos órgãos públicos.

Após a morte de Lênin cresceu a controvérsia entre a facção stalinista e os partidários de Trotsky; a divergência central dessa luta era o destino da Revolução enquanto fenômeno internacional.

Para Trotsky o caráter internacionalista da Revolução tinha como conseqüência que ela não triunfaria na Rússia se não fosse acompanhada de movimentos idênticos em "países mais adiantados". O fracasso das tentativas revolucionárias, logo após a Primeira Grande Guerra, deixara os soviéticos isolados. Para Stalin o isola­mento dos soviéticos não deveria impedir a construção do Socialismo. O Estado possuía recursos materiais e humanos para empreender a tarefa. Daí, sem renegar teoricamente o internacionalismo, defendeu a doutrina do "Socialismo em um só país", a possibilidade de construir integralmente o Socialismo dentro da URSS.

 

A Era Stalinista: Planificação e Coletivização (1928-1939)

 

A NEP recuperara a agricultura, mas a industrialização acelerada exigiria capitais, técnica, equipamentos, que a URSS não tinha.

"Foi preciso, portanto, buscar os meios indispensáveis à construção de uma indústria poderosa exclusiva­mente nos recursos internos e operar a transformação da economia em uma verdadeira autarquia. Tornou-se mis­ter, de outro lado, conduzir, a par, uma industrialização rápida e a coletivização agrícola." (CROUZET, M., op. c1 t., pág. 243.)

 

Os Planos Qüinqüenais

 

         Em 1921 fundou-se a GOSPLAN (Comissão do Conselho do Trabalho e da Defesa), órgão encarregado dos estudos para a planificação, que elaborou durante o período da NEP um "plano qüinqüenal" posto em prática a partir de 1928. Antes da Segunda Guerra Mundial, aplicaram-se integralmente dois planos. O Primeiro Plano, de 1928 a 1932, concentrou seus esforços na supressão da propriedade individual e no aumento da produção. Nas indústrias, fixou a prioridade à produção de bens de equipamento em detrimento da produção de bens de consumo.

No setor agrícola a coletivização foi mais difícil. Formaram-se dois tipos de unidades agrárias: os sovcoses, fazendas estatais em que o camponês torna-se um assalariado do Estado, e os colcoses, cooperativas de produção, onde o camponês recebe pequena parcela de terra, que explora para si.

O Segundo Plano caracterizou-se por uma planificação mais homogênea dos vários setores da economia, embora se mantivesse a prioridade dos bens de equipamento. Sua aplicação foi facilitada pela existência de maiores investimentos, pela introdução de técnicas de competição, de estímulos materiais (prêmios), pelo aprimoramento da divisão do trabalho etc.

 

A consolidação do Stalinismo

 

        No plano político, ocorreu um enrije­cimento do Partido e o fortalecimento do grupo liderado por Stalin, que o controlava. Embora o controle sobre a população se abrandasse, de vez que os movimentos antibolchevistas tinham declivado, no interior do Partido tido a cúpula se fechou, observando-se violentos expurgos e condenações de antigos líderes que discordassem das diretrizes traçadas pela direção stalinista.

 

“Entre 1933 e 1939 cerca de cinco milhões de filiados do Partido foram expurgados: quanto mais se ascendia no Partido, mais sangrento era a o expurgo. O militante de base poderia ser excluído por uma simples expulsão; mas, para qual­quer detentor de poder em qual­quer nível, o expurgo implicava trágicas conseqüências... Os expurgos abriram excelentes oportunidades de promoção rápida para aqueles que conseguiam sobreviver. Instrumento de mobilidade social que permitiu a Stalin renovar completa e periodicamente elites que lhe fossem fiéis e afina­das com a sua concepção de poder. O expurgo era a então um ele­mento chave no sistema político stalinista.

Lênin, que havia iniciado o sistema repressivo, colocara como princípio que o Partido devia ser preservado (...) Stalin suprimiu esta imunidade.”

(Carrère D'Encausse, H., Le Pouvoir Confisqué, Flamarion, Paris, 1980.)

 

O ponto culminante dos expurgos e condenações ocorreu em 1936-1937, quando, sob o pretexto de que o assassinato de Kirov (um secretário do Par­tido) fora planejado por grupos divisionistas, eliminaram-se progressivamente os opositores no Partido. Os temas políticas foram dando lugar aos temas técnicos: o Partido se burocratizou. burocratizou.

Às vésperas da Segunda Guerra a Mundial a situação da URSS tinha melhorado muito em relação à década de 1920. Externamente, apesar de apoiar os movimentos comunistas nos de­mais países através do Komintern, órgão criado em Moscou (1919), a URSS foi reconhecida por muitos países e participou de organismos internacionais, o que explica o abrandamento da "exportação da Revolução" . Entretanto, os anos 1931-1933 assistiram a uma virada diplomática mundial que afetou sua posição: no Oriente, o Japão avançou sobre e a China, na Alemanha os nazistas subiram ao poder. Em 1936 formou-se o Pacto Anti-Komintern (Japão-Alemanha-Itália).

Do ponto de vista econômico; a industrialização colocara a URSS entre as potências mundiais. Contudo, o padrão de vida de seus habitantes ficou abaixo ao dos países capitalistas desenvolvidos. A maior novidade de sua realização estava no caráter sistemático e total da intervenção do Estado na economia, predominantemente estatizada.

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