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As idéias fora do lugar Roberto
Schwartz
Toda
ciência tem princípios, de que deriva o seu sistema. Um dos princípios da
Economia Política é o trabalho livre. Ora, no Brasil domina o fato “impolítico
e abominável” da escravidão.
Este
argumento – resumo de um panfleto liberal, contemporâneo de Machado de Assis
– põe fora o Brasil do sistema da ciência. Estávamos aquém da realidade a
que esta se refere; éramos antes um fato moral, “impolítico e abominável”.
Grande degradação, considerando-se que a ciência eram as Luzes, o Progresso,
a Humanidade etc. Para as artes, Nabuco expressa um sentimento comparável
quando protesta contra o assunto escravo no teatro de Alencar: “Se isso ofende
o estrangeiro, como não humilha o brasileiro!”. Outros autores naturalmente
fizeram o raciocínio inverso. Uma vez que não se referem à nossa realidade,
ciência econômica e demais ideologias liberais e que são, elas sim, abomináveis,
impolíticas e estrangeiras, além de vulneráveis. “Antes bons negros da
costa da África para felicidade sua e nossa, a despeito de toda a mórbida
filantropia britânica, que, esquecida de sua própria casa, deixa morrer de
fome o pobre irmão branco, escravo sem senhor que dele se compadeça, e hipócrita
ou estólida chora, exposta ao ridículo da verdadeira filantropia, o fado de
nosso escravo feliz”.
Cada
um a seu modo, estes autores refletem a disparidade entre a sociedade
brasileira, escravista, e as idéias do liberalismo europeu. Envergonhando a
uns, irritando a outros, que insistem na sua hipocrisia, estas idéias – em
que gregos e troianos não reconhecem o Brasil – são referências para todos.
Sumariamente está montada uma comédia ideológica, diferente da européia.
É claro que a liberdade do trabalho, a igualdade perante a lei e, de modo
geral, o universalismo eram ideologia na Europa também; mas lá correspondiam
às aparências, encobrindo o essencial
a exploração do trabalho. Entre nós, as mesmas idéias seriam falsas
num sentido diverso, por assim dizer, original. A Declaração dos Direitos do
Homem, por exemplo, transcrita em parte na Constituição Brasileira de 1824, não
só não escondia nada, como tornava mais abjeto o instituto da escravidão. A
mesma coisa para a professada universalidade dos princípios, que transformava
em escândalo a prática geral do favor. Que valiam, nestas circunstâncias, as
grandes abstrações burguesas que usávamos tanto? Não descreviam a existência
– mas nem só disso vivem as idéias. Refletindo em direção parecida, Sérgio
Buarque observa: “Trazendo de países distantes nossas formas de vida, nossas
instituições e nossa visão do mundo e timbrando em manter tudo isso em
ambiente muitas vezes desfavorável e hostil, somos uns desterrados em nossa
terra”. Essa impropriedade de nosso pensamento, que não é acaso, como se verá,
foi de fato uma presença assídua, atravessando e desequilibrando, até no
detalhe, a vida ideológica do Segundo Reinado. Freqüentemente inflada, ou
rasteira, ridícula, ou crua, e só raramente justa no tom, a prosa literária
do tempo é uma das muitas testemunhas disso.
Embora
sejam lugar-comum em nossa historiografia, as razões desse quadro foram pouco
estudadas em seus efeitos. Como é sabido, éramos um país agrário e
independente, dividido em latifúndios, cuja produção dependia do trabalho
escravo por um lado, e por outro do mercado externo. Mais ou menos diretamente,
vêm daí as singularidades que expusemos. Era inevitável, por exemplo, a
presença entre nós do raciocínio econômico burguês – a prioridade do
lucro, com seus corolários sociais – uma vez que dominava no comércio
internacional, para onde a nossa economia era voltada. A prática permanente das
transações escolava, neste sentido, quando menos uma pequena multidão. Além
do que, havíamos feito a Independência há pouco, em nome de idéias
francesas, inglesas e americanas, variadamente liberais, que assim faziam parte
de nossa identidade nacional. Por outro lado, com igual fatalidade, este
conjunto ideológico iria chocar-se contra a escravidão e seus defensores, e o
que é mais, viver com eles. No plano, das convicções, a incompatibilidade é
clara, e já vimos exemplos. Mas também no plano prático ela se fazia sentir.
Sendo uma propriedade, um escravo pode ser vendido, mas não despedido. O
trabalhador livre, nesse ponto, dá mais liberdade
seu patrão, além de imobilizar menos,capital. Este aspecto – um entre
muitos – indica o limite que a escravatura opunha à racionalização
produtiva. Comentando o que vira numa fazenda, um viajante escreve: “não há
especialização do trabalho, porque se procura economizar a mão-de-obra”. Ao
citar a passagem, Fernando Henrique Cardoso observa que “economia” não se
destina aqui, pelo contexto, a fazer o trabalho num mínimo de tempo, mas num máximo.
É preciso espichá-lo, a fim de encher e disciplinar o dia do escravo. O oposto
exato do que era moderno fazer. Fundada na violência e na disciplina militar, a
produção escravista dependia da autoridade, mais que da eficácia. O estudo
racional do processo produtivo, assim como a sua modernização continuada, com
todo o prestígio que lhes advinha da revolução que ocasionavam na Europa,
eram sem propósito no Brasil. Para complicar ainda o quadro, considere-se que o
latifúndio escravista havia sido na origem um empreendimento do capital
comercial, e que portanto o lucro fora desde sempre o seu pivô. Ora, o lucro
como prioridade subjetiva e comum às formas antiquadas do capital e às mais
modernas. De sorte que os incultos e abomináveis escravistas até certa data
– quando esta forma de produção veio a ser menos rentável que o trabalho
assalariado – foram no essencial, capitalistas mais conseqüentes do que
nossos defensores de Adam Smith, que no capitalismo achavam antes que tudo a
liberdade. Está-se vendo que para a vida intelectual o nó estava armado. Em
matéria de racionalidade, os papéis se embaralhavam e trocavam normalmente:
a ciência era fantasia e moral, o
obscurantismo era realismo e responsabilidade, a técnica não era prática, o
altruísmo implantava a mais-valia etc. E, de maneira geral, na ausência do
interesse organizado da escravaria, o confronto entre humanidade e inumanidade,
por justo que fosse, acabava encontrando uma tradução mais rasteira no
conflito entre dois modos de empregar os capitais do qual era a imagem que
convinha a uma das partes.
Impugnada
a todo instante pela escravidão a ideologia liberal, que era a das jovens nações
emancipadas da América, descarrilhava. Seria fácil deduzir o sistema de seus
contra-sensos, todos verdadeiros, muitos dos quais agitaram a consciência teórica
e moral de nosso século XIX. Já vimos uma coleção deles. No entanto, estas
dificuldades permaneciam curiosamente inessenciais. O teste da realidade não
parecia importante. É como
se coerência e generalidade não pesassem muito, ou como se a esfera da
cultura ocupasse uma posição alterada, cujos critérios fossem outros – mas
outros em relação a quê? Por sua mera presença, a escravidão indicava a
impropriedade das idéias liberais; o que entretanto é menos que orientar-lhes
o movimento. Sendo embora a relação produtiva fundamental, a escravidão não
era o nexo efetivo da vida ideológica. A chave desta era diversa. Para descrevê-la
é preciso retomar o país como todo. Esquematizando, pode-se dizer que a
colonização produziu, com base no monopólio da terra, três classes de população:
o latifundiário, o escravo e o “homem livre”,
na verdade dependente. Entre os primeiros dois a relação é clara, é a
multidão dos terceiros que nos interessa. Nem proprietários nem proletários
seu acesso à vida e a seus bens depende materialmente do favor, indireto
ou direto, de um grande. O agregado é a sua caricatura. O favor é, portanto, o
mecanismo através do qual se reproduz uma das grandes classes da sociedade,
envolvendo também outra, a dos que têm. Note-se ainda que entre estas duas
classes é que irá acontecer a vida ideológica, regida, em conseqüência, por
este mesmo mecanismo. Assim, com mil formas e nomes, o favor atravessou e afetou
no conjunto a existência nacional, ressalvada sempre á relação produtiva de
base, esta assegurada pela força. Esteve presente por toda parte, combinando-se
às mais variadas atividades, mais e menos afins dele, como administração, política,
indústria, comércio, vida urbana, Corte etc. Mesmo profissões liberais, como
a medicina, ou qualificações operárias, como a tipografia, que, na acepção
européia, não deviam nada a ninguém, entre nós eram governadas por ele. E
assim como o profissional dependia do favor para o exercício de sua profissão,
o pequeno proprietário depende dele para a segurança de sua propriedade, e o
funcionário para o seu posto. O favor é a nossa mediação quase universal
– e sendo mais simpático do que o nexo escravista, a outra relação que a
colônia nos legara, é compreensível que os escritores tenham baseado nele a
sua interpretação do Brasil, involuntariamente disfarçando a violência, que
sempre reinou na esfera da produção.
O
escravismo desmente as idéias liberais; mais insidiosamente o favor, tão
incompatível com elas quanto o primeiro, as absorve e desloca, originando um
padrão, particular. O elemento de arbítrio, o jogo fluido de estima e
auto-estima a que o favor submete o interesse material, não podem ser
integralmente racionalizados. Na Europa, ao atacá-los, o universalismo visara o
privilégio feudal. No processo de sua afirmação histórica, a civilização
burguesa postulara a autonomia da pessoa, a universalidade da lei, a cultura
desinteressada, a remuneração objetiva, a ética do trabalho etc.
contra as prerrogativas do Ancien
Regime. O favor, ponto por
ponto, pratica a dependência dá da
pessoa, a exceção à regra, a cultura interessada, remuneração, e serviços
pessoais. Entretanto, não estávamos para a Europa como o feudalismo para o
capitalismo, pelo contrário, éramos seus tributários em toda linha, além de
não termos sido propriamente feudais – a colonização é um feito do capital
comercial. No fastígio em que estava ela, Europa, e na posição relativa em
que estávamos nós, ninguém no Brasil teria a idéia e principalmente a força
de ser, digamos, um Kant do favor, para bater-se contra o outro. De modo que o
confronto entre esses princípios tão antagônicos resultava desigual: no campo
dos argumentos prevaleciam com facilidade, ou melhor, adotávamos sofregamente
os que a burguesia européia tinha elaborado contra arbítrio e escravidão;
enquanto na prática, geralmente dos próprios debatedores, sustentado pelo
latifúndio, o favor reafirmava sem descanso os sentimentos e as noções em que
implica. O mesmo se passa no plano das instituições, por exemplo com
burocracia e justiça, que embora regidas pelo clientelismo, proclamavam as
formas e teorias do estado burguês moderno. Além dos naturais debates, este
antagonismo produziu, portanto, uma coexistência estabilizada – que interessa
estudar. Aí a novidade: adotadas as idéias e razões européias, elas
podiam servir e muitas vezes serviram de justificação, nominalmente
“objetiva”, para o momento de arbítrio que é da natureza do favor.
Sem prejuízo de existir, o antagonismo se desfaz em fumaça e os incompatíveis
saem de mãos dadas. Esta recomposição e capital. Seus efeitos são muitos, e
levam longe em nossa literatura. De ideologia que havia sido – isto é, engano
involuntário e bem fundado nas aparências – o liberalismo passa, na falta de
outro termo, a penhor intencional duma variedade de prestígios com que nada tem
a ver. Ao legitimar o arbítrio por meio de alguma razão “racional”, o
favorecido conscientemente engrandece a si e ao seu benfeitor, que por sua vez não
vê, nessa era de hegemonia das razões, motivo para desmenti-lo. Nestas condições,
quem acreditava na justificação? A que aparência correspondia? Mas
justamente, não era este o problema, pois todos reconheciam – e isto sim era
importante – a intenção louvável, seja do agradecimento, seja do favor. A
compensação simbólica podia ser um pouco desafinada, mas não era malagradecida.
Ou por outra, seria desafinada em relação ao Liberalismo, que era secundário,
e justa em relação ao favor, que era principal. E nada melhor, para dar lustre
às pessoas e à sociedade que formam, do que as idéias mais ilustres do tempo,
no caso as européias. Neste contexto, portanto, as ideologias não descrevem
sequer falsamente a realidade, e não gravitam segundo uma lei que lhes seja própria
– por isso as chamamos de segundo grau. Sua regra é outra, diversa da que
denominam; é da ordem do relevo social, em detrimento de sua intenção
cognitiva e de sistema. Deriva sossegadamente do óbvio, sabido de todos – da
inevitável “superioridade” da Europa – e liga-se ao momento expressivo,
de auto-estima e fantasia, que existe no favor. Neste sentido dizíamos que o
teste da realidade e da coerência não parecia, aqui, decisivo, sem prejuízo
de estar sempre presente como exigência reconhecida, evocada ou suspensa
conforme a circunstância. Assim, com método, atribui-se independência à
dependência, utilidade ao capricho, universalidade às exceções, mérito ao
parentesco, igualdade ao privilégio etc. Combinando-se à prática de que, em
princípio, seria a crítica, o Liberalismo fazia com que o pensamento perdesse
o pé. Retenha-se no entanto, para analisarmos depois, a complexidade desse
passo: ao tornarem-se despropósito, estas idéias deixam também de enganar.
É
claro que esta combinação foi uma entre outras. Para o nosso clima ideológico,
entretanto, foi decisiva, além de ser aquela em que os problemas se configuram
da maneira mais completa e diferente. Por agora bastem alguns aspectos. Vimos
que nela as idéias da burguesia – cuja grandeza sóbria remonta ao espírito
público e racionalista da Ilustração- tomam função de ... ornato e marca de
fidalguia: atestam e festejam a participação numa esfera augusta, no caso a da
Europa que se ... industrializa. O qüiproquó das idéias não podia ser maior.
A novidade no caso não está no caráter ornamental de saber e cultura, que é
da tradição colonial e ibérica; está na dissonância propriamente incrível
que ocasionam o saber e a cultura de tipo “moderno” quando postos neste
contexto. São inúteis como um berloque? São brilhantes como uma comenda? Serão
a nossa panacéia? Envergonham-nos diante do mundo? O mais certo é que nas idas
e vindas de argumento e interesse todos estes aspectos tivessem ocasião de se
manifestar, de maneira que na consciência dos mais atentos deviam estar ligados
e misturados. Inextricavelmente, a vida ideológica degradava e condecorava os
seus participantes, entre os quais muitas vezes haveria clareza disso.
Tratava-se, portanto, de uma combinação instável, que facilmente degenerava
em hostilidade e crítica as mais acerbas. Para manter-se precisa de
cumplicidade permanente, cumplicidade que a prática do favor tende a garantir.
No momento da prestação e da contraprestação – particularmente no
instante-chave do reconhecimento recíproco – a nenhuma das partes interessa
denunciar a outra, tendo embora a todo instante os elementos necessários para
fazê-lo. Esta cumplicidade sempre renovada tem continuidades sociais mais
profundas, que lhe dão peso de classe: no contexto brasileiro, o favor
assegurava às duas partes, em especial à mais fraca, de que nenhuma e escrava.
Mesmo o mais miserável dos favorecidos via reconhecida nele, no favor, a sua
livre pessoa, o que transformava prestação e contraprestação, por modestas
que fossem, numa cerimônia de superioridade social, valiosa em si mesma.
Lastreado pelo infinito de dureza e degradação que esconjurava – ou seja a
escravidão, de que as duas partes beneficiam e timbram em se diferençar –
este reconhecimento é de uma conivência sem fundo, multiplicada, ainda, pela
adoção do vocabulário burguês da igualdade, do mérito, do trabalho; da razão.
Machado de Assis será mestre nestes meandros. Contudo veja-se também outro
lado. Imersos que estamos, ainda hoje, no universo do Capital, que não chegou a
tomar forma clássica no Brasil, tendemos a ver esta combinação como
inteiramente desvantajosa para nós, composta só de defeitos. Vantagens não há
de ter tido; mas para apreciar devidamente a sua complexidade considere-se que
as idéias da burguesia, a princípio voltadas contra o privilégio, a partir de
1848 se haviam tornado apologética: a vaga das lutas sociais na Europa
mostrara que a universalidade disfarça antagonismos de classe. Portanto, para
bem lhe reter o timbre ideológico é preciso considerar que o nosso discurso
impróprio era oco também quando usado propriamente. Note-se, de passagem, que
este padrão iria repetir-se no séc. XX, quando por várias vezes juramos,
crentes de nossa modernidade, segundo as ideologias mais rotas da cena mundial.
Para a literatura, como veremos, resulta daí um labirinto singular, uma espécie
de oco dentro do oco. Ainda aqui, Machado será o mestre.
Em
suma, se insistimos no viés que escravismo e favor introduziram nas idéias do
tempo, não foi para as descartar, mas para descrevê-las enquanto enviesadas,
– fora de centro em relação à exigência que elas mesmas propunham, e
reconhecivelmente nossas, nessa mesma qualidade. Assim, posto de parte o raciocínio
sobre as causas, resta na experiência aquele “desconcerto” que foi o nosso
ponto de partida: a sensação que o Brasil dá de dualismo e factício –
contrastes rebarbativos, desproporções, disparates, - anacronismos, contradições,
conciliações e o que for – combinações que o Modernismo, o Tropicalismo e
a Economia Política nos ensinaram a considerar. Não faltam exemplos. Vejam-se
alguns, menos para analisá-los, que para indicar a ubiqüidade do quadro e a
variação de que é capaz. Nas revistas do tempo, sendo grave ou risonha, a
apresentação do número inicial é composta para baixo e falsete: primeira
parte, afirma-se o propósito redentor da imprensa, na tradição de combate da
Ilustração; a grande seita fundada por Gutenberg afronta a indiferença geral,
nas alturas o condor e a mocidade entrevêem o futuro, ao mesmo tempo que
repelem o passado e os preconceitos, enquanto a tocha regeneradora do Jornal
desfaz as trevas da corrupção. Na segunda parte, conformando-se às circunstâncias,
as revistas declaram a sua disposição cordata, de “dar a todas as classes em
geral e particularmente à honestidade das famílias, um meio de deleitável
instrução e de ameno recreio”. A intenção emancipadora casa-se com
charadas, união nacional, figurinos, conhecimentos gerais e folhetins
Caricatura desta seqüência são os versinhos que servem de epígrafe à
Marmota na Corte: “Eis a Marmota/ Bem variada/ P’ra ser de todos/ Sempre
estimada.// Fala a verdade,/ Diz o que sente,/ Ama e respeita/ A toda gente.”
Se, noutro campo, raspamos um pouco os nossos muros, mesmo efeito de coisa compósita:
“A transformação arquitetônica era superficial. Sobre as paredes de terra,
erguidas por escravos, pregavam-se papéis decorativos europeus ou aplicavam-se
pinturas, de forma a criar a ilusão de um ambiente novo, como os interiores das
residências dos países em industrialização. Em certos exemplos, o fingimento
atingia o absurdo: pintavam-se motivos arquitetônicos greco-romanos –
pilastras, arquitraves, colunatas, frisas etc. – com perfeição de
perspectiva e sombreamento, sugerindo urna ambientação neoclássica jamais
realizável com as técnicas e materiais disponíveis no local. Em outros,
pintavam-se janelas nas paredes, com vistas sobre ambientes do Rio de Janeiro,
ou da Europa, sugerindo um exterior longínquo, certamente diverso do real, das
senzalas, escravos e terreiros de serviço”. O trecho refere-se a casas rurais
na Província de São Paulo, segunda metade do séc. XIX. Quanto à corte: “A
transformação atendia à mudança dos costumes, que incluíam agora o uso de
objetos mais refinados, de cristais, louças e porcelanas, e formas de
comportamento cerimonial, como maneiras formais de servir à mesa. Ao mesmo
tempo conferia ao conjunto, que procurava reproduzir a vida das residências
européias, uma aparência de veracidade. Desse modo, os estratos sociais que
mais benefícios tiravam de um sistema econômico baseado na escravidão e
destinado exclusivamente à produção agrícola procuravam criar, para seu
uso, artificialmente, ambientes com características urbanas e européias, cuja
operação exigia o afastamento dos escravos e onde tudo ou quase tudo era produto
de importação”.
Ao vivo esta comédia está nos notáveis capítulos iniciais do Quincas
Borba. Rubião, herdeiro recente, é constrangido a trocar o seu escravo
crioulo por um cozinheiro francês e um criado espanhol, perto dos quais não
fica à vontade. Além de ouro e prata, seus metais do coração, aprecia agora
as estatuetas de bronze – um Fausto e um Mefistófeles – que são também de
preço. Matéria mais solene, mas igualmente marcada pelo tempo, é a letra de
nosso hino à República, escrita em 1890, pelo poeta decadente Medeiros e
Albuquerque. Emoções progressistas a que faltava o natural: “Nós nem cremos
que escravos outrora /Tenha havido em tão nobre país!” (outrora é dois anos
antes, uma vez que a Abolição é de 88). Em 1817, numa declaração do governo
revolucionário de Pernambuco, mesmo timbre, com intenções opostas:
“Patriotas, vossas propriedades inda as mais opugnantes ao ideal de justiça
serão sagradas”. Refere-se aos rumores de emancipação, que era preciso
desfazer, para acalmar os proprietários. Também a vida de Machado de Assis é
um exemplo, na qual se sucedem rapidamente o jornalista combativo, entusiasta
das “inteligências proletárias, das classes ínfimas”, autor de crônicas
e quadrinhas comemorativas, por ocasião do casamento das princesas imperiais, e
finalmente o Cavaleiro e mais tarde Oficial da Ordem. da Rosa. Contra isso tudo
vai sair a campo Sylvio Romero. “É mister fundar uma nacionalidade consciente
de seus méritos e defeitos, de sua força e de seus delíquios, e não arrumar
um pastiche, um arremedo de judas das festas populares que só serve para
vergonha nossa aos olhos do estrangeiro. (...)
Só um remédio existe para tamanho desideratum: – mergulharmo-nos
na corrente vivificante das idéias naturalistas e monísticas, que vão
transformando o velho mundo”. À distancia é tão clara que tem graça a
substituição de um arremedo por outro. Mas é também dramática, pois
assinala quanto era alheia a linguagem na qual se expressava, inevitavelmente, o
nosso desejo de autenticidade. Ao pastiche romântico iria suceder o
naturalista. Enfim, nas revistas, nos costumes, nas casas, nos símbolos
nacionais, nos pronunciamentos de revolução, na teoria e onde mais for, sempre
a mesma composição “arlequinal”, para falar com Mário de Andrade: o
desacordo entre a representação e o que, pensando bem, sabemos ser o seu
contexto. – Consolidada por seu grande papel no mercado internacional, e mais
tarde na política interna, a combinação de latifúndio e trabalho compulsório
atravessou impávida a Colônia, Reinados e Regências, Abolição, a Primeira
República, e hoje mesmo é matéria de controvérsia e tiros. O ritmo de nossa
vida ideológica, no entanto, foi outro, também ele determinado pela dependência
do país: à distância acompanhava os passos da Europa. Note-se, de passagem,
que é a ideologia da independência que vai transformar em defeito esta combinação;
bobamente, quando insiste na impossível autonomia cultural, e profundamente,
quando reflete sobre o problema. Tanto a eternidade das relações sociais de
base quanto a lepidez ideológica das “elites” eram parte
a parte que nos toca - da gravitação deste sistema por assim dizer
solar, e certamente internacional, que é o capitalismo. Em conseqüência, um
latifúndio pouco modificado viu passarem as maneiras barroca, neoclássica, romântica,
naturalista, modernista e outras, que na Europa acompanharam e refletiram
transformações imensas na ordem social. Seria de supor que aqui perdessem a
justeza, o que em parte se deu: No entanto, vimos que e inevitável este
desajuste, ao qual estávamos condenados pela máquina do colonialismo, e ao
qual, para que já fique indicado o seu alcance mais que nacional, estava
condenada a mesma máquina quando nos produzia. Trata-se enfim de segredo mui
conhecido, embora precariamente teorizado. Para as artes, no caso, a solução
parece mais fácil, pois sempre houve modo de adorar, citar, macaquear, saquear,
adaptar ou devorar, estas maneiras e modas todas, de modo que refletissem, na
sua falha, a espécie de torcicolo cultural em que nos reconhecemos. Mas,
voltemos atrás. Em resumo, as idéias liberais não se podiam praticar, sendo
ao mesmo tempo indescartáveis. Foram postas numa constelação especial, uma
constelação prática, a qual formou sistema e não deixaria de afetá-las. Por
isso, pouco ajuda insistir na sua clara falsidade. Mais interessante é
acompanhar-lhes o movimento, de que ela, a falsidade, é parte verdadeira. Vimos
o Brasil, bastião da escravatura, envergonhado diante delas – as idéias mais
adiantadas do planeta, ou quase, pois o socialismo já vinha à ordem do dia –
e rancoroso, pois não serviam para nada. Mas eram adotadas também com
orgulho, de forma ornamental, como prova de modernidade e distinção. E
naturalmente foram revolucionárias quando pesaram no Abolicionismo. Submetidas
à influência do lugar, sem perderem as pretensões de origem, gravitavam
segundo uma regra nova, cujas graças, desgraças, ambigüidades e ilusões eram
também singulares. Conhecer o Brasil era saber destes deslocamentos, vividos e
praticados por todos como uma espécie de fatalidade, para os quais, entretanto,
não havia nome, pois a utilização imprópria dos nomes era a sua natureza.
Largamente sentido como defeito bem conhecido, más pouco pensado, este sistema
de impropriedades decerto rebaixava o cotidiano da vida ideológica e diminuía
as chances da reflexão. Contudo facilitava o ceticismo em face das ideologias,
por vezes bem completo e descansado, e compatível aliás com muito verbalismo.
Exacerbado um nadinha, dará na força espantosa da visão de Machado de Assis.
Ora, o fundamento deste ceticismo não está seguramente na exploração
refletida dos limites do pensamento liberal. Está, se podemos dizer assim, no
ponto de partida intuitivo, que nos dispensava do esforço. Inscritas num
sistema que não descrevem nem mesmo em aparência, as idéias da burguesia viam
infirmada já de início, pela evidência diária, a sua pretensão de abarcar a
natureza humana. Se eram aceitas, eram-no por razões que elas próprias não
podiam aceitar. Em lugar de horizonte, apareciam sobre um fundo mais vasto, que
as relativiza: as idas e vindas de arbítrio e favor. Abalava-se na base a sua
intenção universal. Assim, o que
na Europa seria verdadeira façanha da critica, entre nós podia ser a singela
descrença de qualquer pachola, para quem utilitarismo, egoísmo, formalismo e o
que for, são uma roupa entre outras, muito da época mas desnecessariamente
apertada. Está-se vendo que este chão social é de conseqüência para a história
da cultura: uma gravitação complexa, em que volta e meia se repete uma
constelação na qual a ideologia hegemônica do Ocidente faz figura derrisória,
de mania entre manias. O que é um modo, também, de indicar o alcance mundial
que têm e podem ter as nossas esquisitices nacionais. Algo de comparável, talvez,
ao que se passava na literatura russa. Diante desta, ainda os maiores romances
do realismo francês fazem impressão de ingênuos. Por que razão? Justamente,
é que a despeito de sua intenção universal, a psicologia do egoísmo
racional, assim como a moral formalista, faziam no Império Russo efeito de uma
ideologia "estrangeira e portanto localizada e relativa. De dentro de seu
atraso histórico, o país impunha ao romance burguês um quadro mais complexo.
A figura caricata do ocidentalizante, francófilo ou germanófilo, de nome freqüentemente
alegórico e ridículo, os ideólogos do progresso, do liberalismo, da razão,
eram tudo formas de trazer à cena a modernização que acompanha o Capital.
Estes homens esclarecidos mostram-se alternadamente lunáticos, ladrões,
oportunistas, crudelíssimos, vaidosos, parasitas etc. O sistema de ambigüidades
assim ligadas ao uso local do ideário burguês – uma das chaves do romance
russo – pode ser comparado àquele que descrevemos para o Brasil. São
evidentes as razões sociais da semelhança. Também na Rússia a modernização
se perdia na imensidão do território e da inércia social, entrava em choque
com a instituição servil e com seus restos, – choque experimentado como
inferioridade e vergonha nacional por muitos, sem prejuízo de dar a outros um
critério para medir o desvario do progressismo e do individualismo que o
Ocidente impunha e impõe ao mundo. Na exacerbação deste confronto, em que ó
progresso é uma desgraça e o atraso uma vergonha, está uma das raízes
profundas da literatura russa. Sem forçar em demasia uma comparação desigual,
há em Machado – pelas razões que sumariamente procurei apontar – um veio
semelhante, algo de Gogol, Dostoievski, Gontcharov, Tchecov, e de outros talvez,
que não conheço. Em suma, a própria desqualificação do pensamento entre nós,
que tão amargamente sentíamos, e que ainda hoje asfixia o estudioso do nosso século
XIX, era uma ponta, um ponto nevrálgico por onde passa e se revela a história
mundial.
Ao
longo de sua reprodução social, incansavelmente Brasil põe e repõe idéias
européias , sempre em sentido impróprio. É nesta qualidade que elas serão
matéria e problema para a literatura. O escritor pode não saber disso, nem
precisa, para usá-las. Mas só alcança uma ressonância profunda e afinada
caso lhes sinta, registre e desdobre – ou evite – o descentramento e a
desafinação. Se há um número indefinido de maneiras de fazê-lo, são palpáveis
e definíveis as contravenções. Nestas registra-se, como ingenuidade,
tagarelice, estreiteza, servilismo, grosseria etc., a eficácia específica e
local de uma alienação de braços longos – a falta de transparência social,
imposta pelo nexo colonial e pela dependência que veio continuá-lo. Isso
posto, o leitor pouco ficou sabendo de nossa história literária ou geral, e não
situa Machado de Assis. De que lhe servem então estas páginas? Em vez do
“panorama” e da idéia correlata de impregnação pelo ambiente, sempre
sugestiva e verdadeira, mas sempre vaga e externa, tentei uma solução
diferente: especificar um mecanismo social, na forma em que ele se torna
elemento interno e ativo da cultura; uma dificuldade inescapável – tal como o
Brasil a punha e repunha aos seus homens cultos, no processo mesmo de sua
reprodução social. Noutras palavras, uma espécie de chão histórico,
analisado, da experiência intelectual. Pela ordem, procurei ver na gravitação
das idéias um movimento que nos singularizava. Partimos da observação comum,
quase uma sensação, de que no Brasil as idéias estavam fora de centro, em
relação ao seu uso europeu. E apresentamos uma explicação histórica para
esse deslocamento, que envolvia as relações de produção e parasitismo no
país, a nossa dependência econômica e seu par, a hegemonia intelectual da
Europa, revolucionada pelo Capital. Em suma, para analisar uma originalidade
nacional, sensível no dia-a-dia, fomos levados a refletir sobre o processo da
colonização em seu conjunto, que é internacional. O tic-tac das conversões e
reconversões de liberalismo e favor é o efeito local e opaco de um mecanismo
planetário. Ora, a gravitação cotidiana das idéias e das perspectivas práticas
é a matéria imediata e natural da literatura, desde o momento em que as formas
fixas tenham perdido a sua vigência para as artes. Portanto, é o ponto de
partida também do romance, quanto ais do romance realista. Assim, o que
estivemos descrevendo é a feição exata com que a História mundial, na forma
estruturada e cifrada de seus resultados locais, sempre repostos, passa para
dentro da escrita, em que agora influi pela via interna – o escritor saiba ou
não, queira ou não queira. Noutras palavras, definimos um campo vasto e
heterogêneo, mas estruturado, que ê resultado histórico, e pode ser origem
artística. Ao estudá-lo, vimos que difere do europeu, usando embora o seu
vocabulário. Portanto a própria diferença, a comparação e a distância
fazem parte de sua definição. Trata-se de uma diferença interna – o
descentramento de que tanto falamos – em que as razões nos aparecem ora
nossas, ora alheias, a uma luz ambígua, de efeito incerto. Resulta uma química
também singular, cujas afinidades e repugnâncias acompanhamos e exemplificamos
um pouco. É natural, por outro lado, que esse material proponha problemas
originais à literatura que dependa dele. Sem avançarmos por agora, digamos
apenas que, ao contrário do que geralmente se pensa, a matéria do artista
mostra assim não ser informe: é historicamente formada, e registra de algum
modo o processo social a que deve a sua existência. Ao formá-la, por sua vez,
o escritor sobrepõe uma forma a outra forma, e é da felicidade desta operação,
desta relação com a matéria préformada – em que imprevisível dormita a
História – que vão depender profundidade, força, complexidade dos
resultados. São relações que nada têm de automático, e veremos no detalhe
quanto custou, entre nós, acertá-las para o romance. vê-se, variando-se ainda
uma vez o mesmo tema, que embora lidando com o modesto tic-tac de nosso
dia-a-dia, e sentado à escrivaninha num ponto qualquer do Brasil, o nosso
romancista sempre teve como matéria, que ordena como pode, questões da história
mundial; e que não as trata, se as tratar diretamente. Bibliografia: Da Introdução ao ensaio sobre Machado de Assis "Ao Vencedor As Batatas", Livraria Duas Cidades. Obra nodal ao conhecimento da Brasilidade, recomendo lê-la na íntegra:
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