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Ser brasileiro
Somos um povo sui generis em
vários aspectos. Alguns ditados populares têm lá a sua razão de ser. Aqui há
"leis que pegam" e "leis que não pegam", depende de a quem se aplica. A rigidez
da letra fria da lei esbarra no "jeitinho brasileiro”, no “favor”, no
quebra-galho.
Sérgio Buarque de Hollanda aponta algumas
características de nossa formação social no clássico "Raízes do Brasil". Somos
um povo cordial e intimista. Em que outra nação conhecem-se as pessoas pelo
apelido diminutivo, inclusive após o honorífico, como por exemplo: "Seu
Luizinho", "Dona Candinha"...
Até alguns santos merecem tratamento informal,
como Santa Terezinha e o Menino Jesus por exemplo.
O transplante de uma sociedade ibérica para a
América Latina trouxe algumas peculiaridades e singularidades. Após mais de 600
anos de dominação islâmica, o machismo impera ainda hoje nas sociedades de
origem ibérica.
A necessidade da implantação da mão-de-obra
escrava esculhambou com o valor do trabalho braçal. A nobreza decadente ou a
emergente burguesia lusitana não queria sujar as mãos com o rude trabalho e
esmerou-se nas atividades do espírito ou mesmo no dolce far niente.
Numa comparação com os povos do norte –
notadamente canadenses e estadunidenses – a nós é apodada a alcunha de
"semeadores", enquanto que aqueles povos são os "ladrilhadores". Semeamos a
terra, semeamos cidades, mas nosso cuidado com o esmero dos detalhes do
acabamento e manutenção fica a léguas de distância... A nosso favor o fato de a
sementeira produzir fartos frutos, proporcionando trabalho por muito tempo junto
à lavoura. Quanto ao ladrilhador, após concluído o trabalho de construção, o
dever é partir para o próximo.
O brasileiro é cordial e amigo, a ponto de
empresários europeus, japoneses e norte-americanos ficarem estupefatos com o
fato de precisarem antes de fazer negócio, firmar laços de camaradagem,
tornarem-se amigos do empresário brasileiro como conditio sine qua non,
para a realização no negócio. É que o brasileiro não consegue separar as
dimensões do público e do privado. O empresário é o cidadão e a empresa e
ser amigo da empresa apressa as negociações. Tal não se dá no Primeiro Mundo. A
dimensão da amizade, da camaradagem, enfim, é completamente distinta daquela do
mundo dos negócios. Por lá é correto afirmar, diferentemente de nossa prática:
“Amigos, amigos, negócios à parte...” Não raro ouvimos histórias de pessoas que
processam umas às outras e, contudo, mantém excelentes e lucrativos negócios.
Nos países do Norte não há a necessidade da amizada para a formalização de
contratos profissionais lucrativos.
Afora isso há as diferenças regionais. No Rio de
Janeiro, por exemplo, a praia simplifica a intimidade entre as pessoas (é
complicado ser formal em trajes sumários, convenhamos!) e convida
permanentemente a não esquecer a dimensão lúdica. Em São Paulo, ao contrário, a
distância do mar e o burburinho da cidade convida à realização de negócios até
mesmo em jantares elegantes, com pessoas adequadamente trajadas e coisas que
tais.
De todo o modo o estudo das características do
brasileiro fascina tanto que nem mesmo se sabe se conviria alterar-lhe as
peculiaridades. Somos assim. Intimistas, respeitosos da lei desde que se saiba
com quem é que está falando, espalhafatosos em nossas relações com as pessoas,
falta-nos discrição e mesmo o senso de moralidade ridícula que chega à beira de
levar ao impedimento um presidente por uma pequena infidelidade conjugal nos
falta, pelo contrário. Em terra brasilis, Bill Clinton receberia
aplausos e elogios, isso sim! Não pela política econômica que ele capitaneou e
FHC obedeceu caninamente, mas pela habilidade em defender os interesses
nacionais de seu pais entre uma escapadela conjugal e outra.
Orgulho-me de ser brasileiro. Aqui são todos
amigos e o adágio hindu que informa sermos todos como galhos da mesma árvore ou
ondas do mesmo oceano não poderia encontrar eco mais fecundo e propício que em
nossas plagas.
Falta-nos, claro, um único e solidificador
movimento multitudinário, uma crença sólida em valores patrióticos, por exemplo.
Neste sentido os desgovernos do FMI, sob FHC e Lula mostraram-se incompetentes
para reavivar as raízes culturais do nosso civismo, estuprado pelo regime de
exceção de 1964 -1982. Se naquele período, nos “anos de chumbo”, civismo era
sinônimo de repressão ou concordância acrítica com o regime implantado à força,
embora hoje vivamos a busca de restauração de valores patrióticos, fica-se na
propaganda e a prática política a desmente tanto, a subserviência aos interesses
econômicos de uma potência estrangeira, impedem nosso patriotismo de ir mais
longe que à celebração de vitórias seleção brasileira de futebol – que aliás é
uma invenção inglesa...
Precisamos muito viabilizar o surgimento de um
mito novo, bem nos moldes do que propõem os assim chamados "profetas da nova
era". Seguramente este mito novo deve conglomerar, como muito bem o enfatizam
Joseph Campbell e Roger Garaudy, o que de mais sublime e elevado existe em todas
as religiões, visões filosóficas e avanços científicos como este que me permite,
de longe, temporal e espacialmente, estar em sua presença em qualquer parte do
mundo...
Lázaro
Curvêlo Chaves
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