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Os Sertões,
livro vingador de Euclides da Cunha
O conhecimento da realidade social brasileira passa por uma
obra obrigatória, Os Sertões, de Euclides da Cunha. Pontua como um dos
principais artífices do debate sobre as diferenças entre o interior e o litoral.
Lima Barreto, por exemplo, escrevia e descrevia um Brasil litorâneo, com todas
as dicotomias citadinas. Euclides centrou o seu foco no interior, no momento em
que as contradições da república recém implantada no Brasil ressaltavam mais
gravemente. A Guerra de Canudos não foi o primeiro nem o último episódio de
massacre da sociedade afluente sobre uma tentativa de construção de um projeto
societário diferente. Mas foi o único descrito em tantos detalhes e com tanta
profundeza de detalhes por parte de uma testemunha ocular dos fatos.
Aquela guerra durou um ano e mobilizou mais de 12 mil
soldados vindos de 17 estados brasileiros, mais da metade de todo o efetivo
distribuídos em 4 expedições militares. Estima-se que morreram mais de 25 mil
pessoas, culminando com a destruição total da cidade. Foi, de longe, a maior
guerra de guerrilhas da história do Brasil.
Breve Histórico
Na segunda metade do século XIX houve por um lado uma grave
crise no sertão nordestino e, por outro, um estímulo do Vaticano a um revivescer
da fé católica, com o apoio institucional da Igreja, vários leigos eram levados
a aproximar-se mais da religião e, dentro dos rudimentos de sua capacidade de
compreensão, assim como daquela gente simples a quem se dirigiam, a mensagem
evangélica era retransmitida.
Neste contexto surgem pregadores os mais diversos, dentre os
quais Antônio Vicente Mendes Maciel, o Conselheiro, “um gnóstico bronco”, “um
heresiarca do século II em plena idade moderna”, “um monstro”, segundo ajuíza
Euclides da Cunha em Os Sertões. Um homem do povo que, falando na língua
do povo, dizia o que o povo queria e precisava ouvir e fazia o máximo, dentro de
sua consciência possível, para suplantar o caos em seu tempo pelo menos até onde
chegava sua esfera de influência.
Conglomerando milhares de adeptos ao seu redor, tentando
construir um projeto civilizatório diferente, atraiu a si a fúria dos “coronéis”
das redondezas privados da mão-de-obra barata que, evidentemente, preferia ir
para o Belo Monte com toda a beleza poética e profética que a circundava, a
trabalhar para outrem em condições muito pouco satisfatórias. Isso, claro,
quando havia serviço no sertão... Bastante ligado às tradições católicas,
Antônio Vicente Mendes Maciel protesta e luta contra a república - não que
tivesse qualquer contato ou vínculo com os Orleans e Bragança, sua pregação era
sebastianista! Com efeito, o orgulhoso positivismo republicano tirou da Igreja
uma série de prerrogativas, por exemplo com a criação do casamento civil e a
laicização dos cemitérios... Lutando com dificuldade - e conseguindo - melhorias
existenciais para sua gente, Antônio Conselheiro acaba por atrair a repressão
brutal de uma república incipiente, acaba por atrair a ira fanática daqueles que
o julgavam (ou assim faziam crer através de maciça propaganda) “um monarquista
disposto a lutar pela restauração do império de Pedro II” quando na verdade, o
que ele queria mesmo era ver o império da “lei de Deus”, contra a “lei do Cão”
da república velha.
Em nossa história, inúmeros foram os casos de tentativas de
implantação de um projeto civilizatório diferente, todos implacavelmente
massacrados pela sociedade afluente: Palmares, Colônia Cecília, a República
Comunista Cristã dos Guaranis, Canudos, o Contestado... Somente os episódios que
tiveram evento em Canudos contaram com a cobertura de alguém do porte genial de
Euclides da Cunha, deixando-nos o legado de buscar ter mais compreensão e
tolerância para com o diferente.
Presença de Euclides
O
sucesso da Aldeia Sagrada de Belo Monte, como era chamada pelos habitantes
locais, sua recusa em pagarem impostos à república que nada lhes oferecia e o
fato de a mão-de-obra barata que os encarregados das fazendas locais buscavam
aliciar, por ordem dos “Coronéis”, estar inacessível, acabaram por conduzir a
uma guerra covarde tendo (como todas as guerras, de Canudos a Bagdá) um motivo
banal e improvável. Em Canudos foi um pedido de madeira para a construção de uma
Igreja na Aldeia Sagrada. Madeira comprada e paga na vizinha cidade de Juazeiro
da Bahia, recebe o Conselheiro um recado dando conta que os proprietários da
empresa (provavelmente por pressão dos “coronéis”) não dispunham de gente
suficiente para levar o material até Belo Monte. A isto o Conselheiro teve uma
sugestão muito simples e enviou a mensagem: “gente aqui tem de sobra! Deixe que
vamos buscá-la!”. O Juiz da Comarca de Juazeiro compreendeu a mensagem como uma
“ameaça de invasão de jagunços à pacata cidade” e convocou a Polícia Militar que
foi, armada, ao encontro dos canudenses. Melhores conhecedores do terreno e
motivados por uma fé inabalável, derrotaram os policiais e apoderaram-se do
armamento voltando, ainda surpresos, para Belo Monte. Neste momento, por pressão
das autoridades, o Exército Brasileiro foi convocado a dar combate “àqueles
bárbaros”.
No final do século XIX a questão “civilização versus
barbárie” se colocava como ordem do dia. Assim, em nome da civilização cristã
ocidental, a Europa “civilizou” massacrando contingentes humanos gigantescos na
África e na Ásia. Foi o neocolonialismo. Era necessário escoar o excedente da
produção européia ampliando o mercado consumidor e conseguir mão-de-obra barata,
a Europa – Inglaterra à frente – foi a grande protagonista daquele processo de
massacre totalitário, daquela “globalização” como se chama hoje. Sim, o mundo já
passou por vários processos de globalização; para citar algumas: a macedônica, a
romana, a ibérica, a britânica e hoje sofre globalização estadunidense. Todas
desumanas e historicamente datadas.
A guerra de Canudos insere-se no contexto da globalização
européia, o neocolonialismo do século XIX. Em guerras, campanhas eleitorais
burguesas e pescarias a primeira vítima é a verdade. Os jornais cariocas
estampavam manchetes tão sensacionalistas quanto inverídicas dando conta de que
os canudenses queriam a restauração da monarquia e a volta de D. Pedro II (eles
não tinham o menor contato ou simpatia pelos Orleans e Bragança recentemente
ejetados do poder! Ansiavam messianicamente pela volta de D. Sebastião, morto
pelos mouros em 1578 na Batalha de Alcácer Quibir!). De delírio em delírio
chegou-se a falar em canibalismo, bestialidade, incesto e insanidades tais que a
Imprensa Paulista, decidiu-se a convidar seu brilhante colaborador Euclides da
Cunha para, na condição de Primeiro Correspondente de Guerra da História,
informar o que cargas d’água estava de fato acontecendo por lá. Fosse como
fosse, a guerra já estava a seu final quando a viagem de Euclides da Cunha a
Canudos tornou-se viável. Ele levou consigo todo o preconceito da época contra
os canudenses encontrando por lá um quadro totalmente diferente do até então
avençado; ao lermos a Obra máxima de Euclides da Cunha, por sinal, verificamos
que fica estarrecido com a barbárie de que são capazes as tropas republicanas;
não menos, aliás, que o fica com o fanatismo dos canudenses... Em nome do
progresso e da civilização assassinaram-se mais de vinte e cinco mil seres
humanos, mocinhas foram tomadas como escravas (em plena república!) e
destruiu-se uma proposta civilizatória pacífica e ordeira que só desejava viver
independente da “república do cão”. Conduzidos pelo Conselheiro os canudenses
eram levados a crer que se morressem a tiro, em combate às tropas da “república
do cão” iriam para o paraíso. Se, por outro lado, fossem vitimados pela faca,
iriam para o inferno. Conhecedores desta crença, os soldados republicanos tinham
peculiar predileção por ordenar aos capturados que gritassem um “viva a
República”, que equivalia a condenação eterna – e receberiam uma bala
misericordiosa. Caso contrário, seriam mortos a faca... Quase ninguém cedia.
Bradando ou não o mote proposto pelo captor, todos eram degolados. Era “gravata
vermelha”...
Euclides tomou notas acuradas, momento a momento, da guerra
cujos momentos finais assistiu. Parte delas foi usada em artigos para a imprensa
de seu tempo. A todas usou na elaboração de Os Sertões, que veio a lume em 1902.
Seu livro vingador granjeou-lhe imediato reconhecimento
nacional e internacional. Já no ano seguinte foi eleito para a Academia
Brasileira de Letras e para o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.
Comissionado pelo Itamaraty, trabalhou com o Barão do Rio
Branco na delimitação definitiva das fronteiras nacionais e tencionava escrever
um alentado ensaio sobre o “Paraíso Perdido” a partir de um estudo demorado que
fez na Amazônia, mas uma tragédia pessoal tristemente famosa ceifou-lhe a vida
aos 43 anos de idade.
O Socialismo em Euclides da Cunha
Na juventude assinou alguns trabalhos em defesa dos
deserdados da terra usando o sugestivo pseudônimo “Proudhon”. O próprio livro
Os Sertões o coloca vigorosamente no campo da esquerda.
No Dia do Trabalho de 1904 escreveu um artigo para a
imprensa, sob o título “Um Velho Problema” que se constitui num dos primeiros
ensaios sobre o socialismo no Brasil.
No ensaio registra: “A fonte única da produção e seu
corolário imediato, o valor, é o trabalho. Nem a terra, nem as máquinas, nem o
capital, ainda coligados, as produzem sem o braço do operário. Daí uma conclusão
irredutível: a riqueza produzida deve pertencer toda aos que trabalham. E um
conceito dedutivo: o capital é uma espoliação.”
“A exploração capitalista é assombrosamente clara. (...) a
pecaminosa injustiça do egoísmo capitalista, não permitindo, mercê do salário
insuficiente, que se conserve tão bem como os seus aparelhos metálicos, os seus
aparelhos de músculos e nervos; está a justificativa dos socialistas ao chegarem
todos ao duplo princípio fundamental: Socialização dos meios de produção e
circulação;
Posse individual somente
dos objetos de uso.”
Em suma, este ensaio atesta a inegável afinidade de Euclides
com o pensamento socialista e sua afinidade de classe para com os trabalhadores
e excluídos.
Outras Obras
Contrastes e
Confrontos traz uma coletânea de artigos para a imprensa, dentre os quais
“Um Velho Problema”, em Peru versus Bolívia uma análise da guerra entre
aqueles dois países e de que maneira isso repercute em nossas pretensões
territoriais sobre a Bolívia, resultando no atual Estado do Acre. Em À Margem
da História uma coletânea primorosa de estudos históricos e sobre a Amazônia
segundo sua intenção de escrever uma obra alentada sobre o Paraíso Perdido, que
não chegou a ser concluída.
Trechos de Os Sertões
“O sertanejo é, antes de tudo, um forte. Não tem o raquitismo
exaustivo dos mestiços do litoral. A sua aparência, entretanto, ao primeiro
lance de vista, revela o contrário. É desengonçado, torto. Hércules-Quasímodo,
reflete no aspecto a fealdade típica dos fracos. (...) Basta o aparecimento de
qualquer incidente transfigura-se. Reponta. Um titã acobreado e potente. De
força e agilidade extraordinárias (...) Sua cultura respeita antiqüíssimas
tradições. Torna-se um retirante, impulso pela seca cíclica, mas retorna sempre
ao sertão”.
“Sua religião, como ele,
é mestiça. O catolicismo atrasado se mistura aos candomblés do índio e do negro
e se enche de superstições, crendices e temores medievais, conservados pelo
isolamento, desde a colonização. Ele é crédulo, supersticioso, e esse deixa
influenciar por padres, pastores e falsos profetas...”
“E o povo versejava e
cantava;
‘Casamento vão fazendo/ Só pro povo iludir / Vão casar o povo
todo/ No casamento civil’.
‘Visita nos vem fazer / Nosso rei D. Sebastião / Coitado
daquele pobre / Que estiver na lei do cão’.”
“[Antônio Conselheiro]
Pregava contra a República; é certo. (...) Mas não traduzia o mais pálido
intuito político; o jagunço é tão inapto para apreender a forma republicana como
a monárquico-constitucional. Ambas lhe são abstrações inacessíveis. É
espontaneamente adversário de ambas. (...) Insistamos sobre esta verdade: a
guerra de Canudos foi um refluxo em nossa história.”
“Fechemos este livro.
Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda a história, resistiu até ao
esgotamento completo. Expugnado palmo a palmo, na precisão integral do termo,
caiu no dia 5, ao entardecer, quando caíram os seus últimos defensores, que
todos morreram. Eram quatro apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança,
na frente dos quais rugiam raivosamente 5 mil soldados. (...) Caiu o arraial a
5. No dia 6 acabaram de o destruir desmanchando-lhe as casas, 5.200,
cuidadosamente contadas.”
Lázaro Curvêlo Chaves -
12/08/2006
Presidente do
Instituto de Pesquisas Sociais Euclides da
Cunha
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