Clique aqui para recomendar esta página a Amigos!

Google
Na Internet Nesta Página

Reflexões sobre o terrorismo de Estado

 

“Terrorismo. S. m. 1. Modo de coagir, ameaçar ou influenciar outras pessoas, ou de impor-lhes a vontade pelo uso sistemático do terror. 2. Forma de ação política que combate o poder estabelecido mediante o emprego da violência".

(Aurélio)

 

            Por enquanto, a única coisa que se pode afirmar acerca desta “Guerra contra o Terrorismo”, capitaneada pela maior Nação terrorista do mundo é que, se sobrar mundo, este estará muito mudado em termos de “paradigmas”.

            A ONU (Organização das Nações Unidas), desde a Guerra do Golfo, transformou-se em organismo subordinado aos interesses norte-americanos e os povos do mundo começam a percebê-lo e questioná-lo. Partindo-se do pressuposto de uma articulação muçulmana, há que se lidar com uma nova capacidade de utilização da mídia a seu favor, senão vejamos: o choque do primeiro avião contra uma das Torres precedeu em quase vinte minutos, tempo suficiente para as principais câmeras de TV estarem posicionadas para bem filmar o choque contra a segunda. Durante o tempo que separou o 11 de setembro do 7 de outubro, o mundo torcia para que os norte-americanos encontrassem uma alternativa ao “combate ao terrorismo” que não passasse pelo bombardeio, invasão, agressão terrorista, enfim, de uma Nação pauperizada por anos de Guerra Civil, luta contra uma antiga superpotência e um tipo de fundamentalismo que contraria o Mercado, o verdadeiro “deus” cultuado pelos ultra-fundamentalistas norte-americanos. Na UFF estuda-se hoje, criticamente, o “Fundamentalismo de Mercado”, aquele que apresenta total devoção ao comércio com preocupação social zero. Claro que o fundamentalismo islâmico afegão vai em direção diferente...

            Fato é que, logo após o início dos bombardeios, o presidente W. Bush, que parece orgulhar-se por ter uma capacidade intelectual reduzida, falou em rede mundial de rádio e TV sobre o que levava a Nação mais poderosa do mundo a massacrar um povo já várias vezes humilhado e ofendido. Imediatamente, a rede de TV Al Jazeera, do Qatar, levou ao ar, a pedido de Bin Laden (segundo os norte-americanos e sem provas, “mentor intelectual” dos atentados de 11 de setembro), a sua resposta, previamente gravada em fita de vídeo. A fala mansa, que a TV brasileira lutava por traduzir do inglês, que vertia simultaneamente do árabe, tornando-a quase incompreensível, trazia uma mensagem que em seu cerne não deixava margem a dúvida: não estão dispostos a render-se tão rápida ou facilmente quanto os norte-americanos julgavam possível e pedem aos muçulmanos do mundo que iniciem uma luta contra os “infiéis” que massacram uma Nação pauperizada. Resultado mais imediato? W. Bush perdeu a guerra da mídia para Bin Laden. Manifestações anti-bombardeio, anti-norte-americanas, pululam pelo mundo afora, principalmente no Paquistão, cujo governo equilibra-se tenuemente entre o apoio aos norte-americanos e o reconhecimento do Talebã como legítimo representante do povo afegão. Manifestações na Nigéria causam a morte de mais de duzentos seres humanos. Na Indonésia, maior Nação Muçulmana do mundo, o povo protesta veementemente contra os ataques e orgulha-se em ostentar camisetas com dizeres anti-norte-americanos e a face de Bin Laden. A Arábia Saudita, cujo povo professa um tipo de fé islâmica muito parecida com aquela pregada e praticada pelo Talebã, recusou-se a receber a representação diplomática norte-americana (capitaneada, nesta situação de emergência por ninguém menos que o primeiro ministro britânico, o “trabalhista” Tony Blair) para discutir apoio aos bombardeios ou à iminente invasão. Aliás, tudo indica que, quando estas linhas chegarem a publicação a invasão maciça de tropas norte-americanas no Afeganistão por terra já terá começado e a expectativa é a de saber se serão capazes de sucesso onde os russos (entre outros invasores pelos séculos afora) fracassaram.

            Já se disse, inclusive aqui mesmo, neste espaço, que os norte-americanos pautam-se por um tipo de política externa pragmático-imediatista que gerou o poderio do Talebã e mesmo de Sadam Hussein no Iraque, que tornam-se inimigos logo a seguir. Nada parecem ter aprendido os norte-americanos que, neste pormenor, apóiam e dão sustentação logística à chamada “Aliança do Norte”, grupo guerrilheiro afegão anti-Talebã, tão fundamentalista quanto aquele. Dizer que trocar o Talebã pela Aliança do Norte é “trocar seis por meia dúzia” em nada tem modificado a política externa norte-americana para aquela região.

 

Balanço parcial dos bombardeios

 

            A miserável infra-estrutura bélica do Afeganistão foi inutilizada, dando aos EUA hegemonia sobre o espaço aéreo afegão. Se o que motivou esta Guerra foi uma “luta contra o terrorismo”, cumpre verificar que ocorreram fatos como o assassinato de dezoito pessoas rezando numa mesquita afegã, uma criança de dez anos, filho do Mulah Omar, principal líder político-religioso afegão, foi morto, um bairro residencial afegão foi bombardeado “por engano” com um número ainda não divulgado de mortos entre civis inocentes, quatro funcionários da ONU foram mortos em outro bombardeio e por aí vai. Ou seja, está caracterizado, segundo o Aurélio, o terrorismo de Estado pelos EUA.

 

Pão e bomba

 

            Além das bombas de fragmentação, proibidas pela Convenção de Genebra e fartamente utilizadas pelos norte-americanos, o gesto propagandístico de despejar pacotes amarelos com rações para um dia nas proximidades de minas de terra ou em áreas fora do controle imediato do Talebã trazem aos afegãos uma preocupação a mais: você se nutriria de algo que vem dos mesmos aviões que bombardeiam o seu povo? Em tempos de guerras químicas e bacteriológicas, comer o que os norte-americanos oferecem só mesmo se a alternativa (como parece ser o caso) for a de morte por inanição. Bombardear um povo pauperizado e lançar-lhe pacotes com comida sabe-se lá recheada com o quê é um ato de terrorismo tremendamente requintado.

           

O que torna os norte-americanos moralmente superiores?

 

            Condenam a produção e difusão de entorpecentes na América Latina mas  a incentivam no Afeganistão. Em nome do fundamentalismo de mercado combatem o fundamentalismo islâmico. Bombardeiam mesquitas, escolas e habitações de gente pobre para “fazer guerra contra o terrorismo”, ou seja, combatem o terrorismo com o terrorismo. Utilizam-se dos meios de informação e propaganda para trazer a opinião pública mais próxima do seu ponto de vista – e com tudo isso, têm sido sistematicamente derrotados pelo “timing” de seus adversários.

            Pode ser que tenham sucesso em massacrar o Afeganistão e criar um novo governo fantoche, subordinado aos interesses norte-americanos como a maior parte das nações do mundo hoje em dia o é. Mesmo isso é muito difícil; primeiro porque há séculos se tenta fazer algo assim por ali sem sucesso e os próprios norte-americanos contam pelo menos com Cuba e o Vietnã como “nódoas” em seu currículo. Por outro lado, o aparato bélico e o leque de “alianças” aponta na direção de reforçar-lhes a arrogância e julgarem ser possível fazer o que lhes der vontade em qualquer ponto do mundo.

            Mas terão paz? Conseguirão dormir sossegados um dia sem viver, como hoje vivem, praticamente em “Estado de Sítio”? Relatos informam que, no presente momento histórico, quem lida com correspondência, quem viaja(va) de avião ou mora(va) em arranha-céus ou vive ou trabalha nas proximidades de prédios públicos norte-americanos está em permanente estado de temor e tremor... Assim como o povo hebreu hoje sequer consegue comer uma pizza no restaurante da esquina, os norte-americanos atraíram a si a antipatia e a ação desesperada de um povo que considera o suicídio em nome de sua religião algo nobre.

 

E o futuro?

 

            Considerando todos os pormenores, melhor seria que esta monstruosidade chegasse ao fim o quanto antes. Os analistas internacionais, contudo, concordam em alguns pontos inquietantes: esta mobilização, da maneira que começou e uma vez começada, demorará muito tempo ainda e seguramente se estenderá por outras áreas do mundo.

 

Lázaro Curvêlo Chaves - 15 de outubro de 2001

Leitura Indicada:

 

 

 

Arquivo de Artigos Semanais, Sociologia, Filosofia, Psicologia, Ensaios Críticos

Temas para o Vestibular Comentário Semanal Livros na íntegra para download gratuito
   
Obras Brasileiras e Portuguesas Filosofia, Sociologia e Psicologia Trabalhos que a fé inspira
     
História do Brasil     Obras de Valor Universal Trabalhos Maçônicos
   
Arquivo de Artigos Semanais Assédio Moral no Trabalho Trabalhos Rosacruzes 
     

© Copyleft LCC Publicações Eletrônicas - Todo o conteúdo desta página pode ser distribuído exclusivamente para fins não comerciais desde que  mantida a citação do Autor e  da fonte.

O maior acervo de livros na Internet brasileira!