Para
Entender o Poder (um breve excerto) – Noam Chomsky

Para entender o Poder, coletânea de palestras e ensaios de Noam
Chomsky no período 1989 a 1999 que cobrem um vasto espectro da história
e da vida estadunidense é um livro indispensável a toda a pessoa
interessada em sociologia da sociedade contemporânea.
Saudado como um dos maiores – se não o maior – intelectuais da
atualidade, Chomsky, renomado professor de lingüística do prestigioso
MIT (Massachussets Institut of Thechnology) um arguto analista dos
poderes da mídia sobre as pessoas, mergulha fundo no campo da sociologia
política classificando-se hoje como o mais importante pensador
Anarquista vivo.
Abaixo, um excerto, das páginas 82 e 83 da versão em português da Obra
publicada pela Bertrand Brasil. É um texto com cerca de 20 anos de idade
e refere-se ao presidente da república de outro país em outro momento
histórico. Qualquer semelhança com presidentes vivos (muito vivos,
aliás...) deste país aqui, não é mera coincidência, infelizmente...
LCC – 8/11/2006
(...)
Pergunta: Você disse certa vez
que, no governo Reagan foi a primeira vez que os EUA não tiveram
realmente presidente. Poderia discorrer um pouco mais sobre este tema e
nos falar sobre o que pensa do futuro deste tipo de governo?
Noam Chomsky: Pessoalmente,
acredito que ele tem um grande futuro – na verdade, acho que o governo
Reagan foi uma espécie de vislumbre do futuro. É um caminho muito
natural. Imaginem-se trabalhando em algum escritório de relações
públicas onde seu serviço é ajudar corporações a garantirem que o
público importuno não atrapalhe a implementação de políticas já
decididas. Eis aí uma idéia brilhante em que ninguém havia pensado:
vamos fazer das eleições uma atividade completamente simbólica. A
população pode continuar votando, daremos a ela aquele negócio todo,
terá campanhas eleitorais, todo o blábláblá, dois candidatos, oito
candidatos – mas das pessoas em quem estarão votando será esperado que
leiam o texto de um teleprompter e não se esperará que saibam
nada além do que alguém lhes diz ou mesmo nem isso.
Isto é, quando você
fala lendo um teleprompter – o que eu mesmo já fiz – é uma
experiência bem estranha: é como se as palavras entrassem pelos seus
olhos e saíssem pela sua boca, sem passarem pelo seu cérebro no meio do
caminho. E, quando Reagan fala lendo o teleprompter, eles o
ajeitam de forma que sua cabeça possa ficar se mexendo como se ele
estivesse passeando o olhar pela platéia, mas na verdade está só
passando de um teleprompter para o outro. Bem, se você consegue fazer
que as pessoas votem numa coisa dessas, você basicamente chegou lá –
afastou-as do processo de tomada de decisões. Mas isso só funciona se
você tiver uma mídia obediente que fique se derramando a respeito de que
figura maravilhosa e carismática ele é – vocês sabem, “o presidente mais
popular da história”, “ele está criando uma revolução”, “a coisa mais
impressionante desde a invenção do sorvete” e “como se pode criticá-lo
se todo o mundo o ama?”. E você tem que fazer de conta de que ninguém
está rindo, e assim por diante. Mas, se você consegue fazer isso, então
foi longe, no sentido de marginalizar o público. E acho que nós
provavelmente chagamos lá.
Em todos os livros
que saíram, de autoria de gente do governo Reagan, foi extremamente
difícil esconder o fato de que Reagan não fazia a menor idéia do que se
passava ao seu redor. Sempre que não estava devidamente programado, o
que dizia soava meio... não eram realmente mentiras, eram como o
tatibitate de uma criança. Se uma criança fica falando tatibitate, não
são mentiras, é só como estar em outro plano. Para poder mentir,
você precisa de um certo grau de competência, tem de saber o que é a
verdade. E não parecia haver nenhum indício de que este fosse o caso com
Reagan. Então, na verdade, toda aquela conversa, no inquérito Irã -
contras, sobre se “Reagan sabia ou não sabia” [sobre as transações
ilegais do Conselho de Segurança Nacional com o Irã e os contras
na Nicarágua], ou “Ele se lembrava ou não se lembrava?”. Eu,
pessoalmente, encarei como um disfarce. Que diferença fazia? Ele não
sabia, caso ninguém tenha lhe contado, e ele não se lembrava, caso
houvesse esquecido. E que diferença isso faz? Não era para ele saber. A
carreira toda de Reagan foi soltar falas escritas para ele por gente
rica. Primeiro, foi como porta-voz da General Electric, depois, de
alguém mais, e ele simplesmente continuou assim até a Casa Branca: ele
dizia as falas escritas para ele pelos ricos, fez isso durante 8 anos,
pagavam-lhe bem, ele aparentemente estava gostando, ele parecia viver
muito alegre lá, divertia-se muito. Podia dormir até tarde. E eles
gostavam, os que pagavam achavam que estava ótimo, compraram uma boa
casa para ele e o deixavam sair para pastar no gramado.
É muito
impressionante como ele desapareceu. Durante 8 anos, as relações
públicas, a indústria e a mídia vinham afirmando que esse cara havia
revolucionado a América – vocês sabem, a “Revolução Reagan”, essa figura
fantástica e carismática que todo o mundo amava, ele simplesmente mudou
nossas vidas. OK, então ele acabou seu trabalho, disseram a ele que
fosse embora – e é o final da história. Nenhum repórter sequer
sonharia em se abalar para ir ver Reagan agora e perguntar sua
opinião sobre alguma coisa – porque todo o mundo sabe que ele não tem
opinião sobre coisa alguma. E sabiam disso o tempo todo. No julgamento
de Oliver North, por exemplo, surgiu uma história sobre Reagan contar –
não gosto de usar a palavra “mentira”, porque, como eu disse, até para
mentir é necessário um mínimo de sofisticação intelectual e ali não era
definitivamente o caso – mas sobre Reagan fazer declarações falsas ao
Congresso, digamos assim. A imprensa nem sequer ligou: está bem, então
Reagan mentiu ao Congresso, vamos em frente. A questão é que ele tinha
cumprido sua função; portanto, ele se tornou irrelevante. É claro, vão
exibi-lo trotando na próxima Convenção Republicana, para que todos
possam aplaudir, e é isso aí.
(...)
http://www.understandingpower.com/
